MARÍLIA GARCIA

POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 mariliagarcia

 

A poeta carioca Marília Garcia tem uma escrita carregada de signos urbanos e referências estrangeiras. A autora de 20 Poemas para o seu walkman (7 Letras) preserva, com seu jeito tímido, o estilo low profile – sem deixar de utilizar todas as possibilidades que a tecnologia oferece para o seu trabalho.

“Não tenho blog, gosto de escrever sozinha. Minha relação é mais de pesquisa e de contato com outros poetas. Agora tenho colocado vídeos de leituras de poesia no You Tube”.

Trocamos e-mails – brincamos de gato e rato – até nos encontrarmos na (extinta) Livraria Argumento, em Copacabana, no Rio de Janeiro. A editora Silvia Rebello foi importante para que o bate-papo acontecesse. Com uma voz mansa e um olhar muito desconfiado, Marília falou sobre o processo de criação; a experiência de trabalhar na editora 7 Letras; e o trabalho de tradutora e editora.

“Através da tradução de contemporâneos passei a ter contato com autores de que nunca tinha ouvido falar Foi um choque tão grande que ali comecei a escrever. O trabalho de tradução chegou depois. O primeiro texto que escrevi foi publicado na Inimigo Rumor. Depois lancei meu primeiro livro na coleção Moby Dick, oEncontro às Cegas, em 2001”.

As repostas curtas de Marília, muitas vezes, roubaram minhas perguntas, mas não impediram que o papo fosse agradável.

“Escrevo para contar uma história, através de um impulso narrativo de algo com que tive contato. Acho que para ter uma relação mais intensa com a palavra, com a música… Talvez, também, para dialogar com meus amigos que também escrevem”.

Boa oportunidade de conhecer um pouco mais da poesia contemporânea.

Como iniciou seu interesse por literatura?

Marília Garcia – Meu trabalho começou fazendo estágio na editora 7 Letras, local em que estou há sete anos (risos). Já estudava Letras, mas foi na editora que tive um contato maior com a literatura contemporânea. Conheci as revistasInimigo Rumor e Ficções e outras publicações. Através da tradução de contemporâneos passei a ter contato com autores de que nunca tinha ouvido falar Foi um choque tão grande que ali comecei a escrever. O trabalho de tradução chegou depois. O primeiro texto que escrevi foi publicado na Inimigo Rumor. Depois lancei meu primeiro livro na coleção Moby Dick, o Encontro às Cegas, em 2001.

Por que esse hiato, de 2001 a 2007, para publicar novamente?

MG – Acho que estava lendo muito e procurando o que gostaria de fazer entre os dois livros. O primeiro livro era curto, com poucos poemas, um encontro às cegas com o leitor. O segundo foi mais pensado, houve um hiato para construí-lo.

Você já está escrevendo outro?

MG – Não (risos). Parece que nunca escrevi, sento para escrever e nada. Mas não tenho pressa, estou me alimentando de coisas diferentes.

O que você faz na editora 7 Letras?

MG – É uma editora pequena, há o Jorge (Viveiros de Castro), que é o editor, e mais quatro pessoas trabalhando com ele, e, por isso, fazemos um pouco de tudo. Chegam cerca de cinco originais por dia, lemos esses textos, selecionamos e produzimos os livros.

O que lhe dá mais prazer: escrever ou traduzir?

MG – Acho que… traduzir. Pelo menos, no momento, traduzir. Você ganha uma intimidade diferente com o texto. Não que eu não goste de escrever, não sofro para escrever. Quando preparo um livro é ele que me dá mais prazer. Acredito que ambos se complementam.

O que você tem traduzido?

MG – Traduzi na edição 19 da Inimigo Rumor, do Carlito Azevedo, um poeta francês muito interessante, chamado Emmanuel Hocquard. Além dele, há outros franceses que me interessam muito. Na biblioteca da Maison de France há um acervo enorme de poetas contemporâneos franceses, como o C. Tarkos, Dominique Fourcade, Nathalie Quintane. Tenho lido muito esses franceses.

Por que você escreve?

MG – Porque é a minha maneira de digerir o que leio. Mas também para ler melhor. Uma maneira de ler melhor um livro é fazer anotações sobre ele, que depois viram poemas. Escrevo para contar uma história, através de um impulso narrativo de algo com que tive contato. Acho que para ter uma relação mais intensa com a palavra, com a música… Talvez, também, para dialogar com meus amigos que também escrevem.

O que a inspira a escrever?

MG – Sempre ando com um bloquinho em que faço várias anotações: frases que ouvi na rua, algo que li num romance… Roubo uma frase aqui, outra ali e vou juntando. Vi a exposição do Anish Kapoor, por exemplo, e anotei as impressões que senti. Depois trabalho tudo isso.

Você tem disciplina para escrever?

MG – Que nada, é uma bagunça! Às vezes, fico três meses sem escrever e depois sento para escrever. Acho que na poesia podemos fazer isso, mas no romance acredito que se necessite de mais disciplina.

O que influencia a sua produção literária?

MG – A influência é de tudo o que acontece no mundo. O que está ao redor nos influencia o tempo inteiro. Tudo o que eu ouço influencia. Gosto de andar e acho importante esse deslocamento de anotar coisas em todos os lugares. O título do meu livro, 20 Poemas para o seu walkman, tem muito a ver com as diversas vozes que existem no livro, que tiro do que ouço. Acho que são poemas para serem ouvidos.

O que você gosta de ler?

MG – Graças ao trabalho de editora, leio muita poesia, mas há momentos em gosto mais de ler prosa, sinto-me mais alimentada. Adoro ler romances. Fico com o poder da narrativa. Estou lendo o Roberto Bolaño, adoro esse chileno. Leio também os contemporâneos, acho muito importante para quem quer escrever. É difícil citar um escritor contemporâneo, trabalho numa editora e acabo lendo-os todos, mas tenho um grande diálogo com a Angélica Freitas e o Ricardo Domeneck, gosto deles. Além deles, há poetas que sempre leio, os mais diversos, como a Adília Lopes, Haroldo de Campos, Aníbal Cristobo…

Como você avalia o atual momento literário?

MG – Acho um momento de muita vitalidade e que ainda não sabemos para onde vai. Há muita pessoas boas produzindo, há diversas revistas circulando, o que significa que as pessoas estão escrevendo muito. Acho que é um momento de mudança e há livros bem diferentes sendo lançados.

Alguém influenciou a escolha por cursar Letras?

MG – Cursaria comunicação, mas acabei optando por Letras. Tenho uma madrinha que dava aula na Faculdade de Letras da UFRJ, acho que ela me ajudou a escolher o curso.

Você está editando uma revista chamada Modos de Usar?

MG – Sim, estou fazendo com a Angélica Freitas, Ricardo Domeneck e Fabiano Calixto. Ela está no computador, pronta para ir para a gráfica. Há muita tradução de poetas quase inéditos no Brasil, poetas que consideramos importantes para o cenário contemporâneo. E também uma seleção de autores contemporâneos brasileiros. A revista tem um blogrevistamododeusar.blogspot.com.

Como é a relação da Internet com seu trabalho literário?

MG – Não tenho blog, gosto de escrever sozinha. Minha relação é mais de pesquisa e de contato com outros poetas. Agora tenho colocado vídeos de leituras de poesia no You Tube.

O que alguém precisa para ser escritor?

MG – Tem de ler muito. É difícil dizer o que alguém precisa fazer, mas acho que primeiro deve-se saber se realmente quer escrever. Escreva, publique na Internet, converse com outras pessoas. Publicar em revista também é bacana, pois sempre há um retorno. E leia muito!


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