MARIA HELENA NASCIMENTO

PAPEL OFÍCIO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 mariahelena

 

Maria Helena Nascimento é privilegiada: vive de escrever. Ela é roteirista e escritora, e acaba de lançar o primeiro romance Olhos Baixos (Editora Guarda-Chuva). Mas foi com o livro Gasolina Azul (Editora Uerj), em 1992, que o interesse pelo universo literário despontou.

“Comecei a trabalhar como roteirista de TV em 1994, depois nunca mais parei. Nos primeiros quatro anos, não tive férias. O trabalho na televisão consome muito! Escrever um livro maior tem a ver com a solidão da maternidade. Comecei minha primeira tentativa de romance com minha filha no colo”.

A capa do romance, com a foto de um chão de pedras portuguesas, chamou minha atenção numa livraria em Copacabana. Ao folhear o exemplar, apresentado pela professora e poeta Maria Isabel Borja, algumas frases me deixaram inquieto.

Nos encontramos na Livraria Argumento, durante um chuvoso fim de tarde no Leblon, Rio de Janeiro. A escritora chegou ao barulhento café, carregando um guarda-chuva e escondendo um tímido sorriso no rosto.

No decorrer da conversa, Maria Helena ficou mais sorridente e eloquente, sem receio de expor as suas paixões e dúvidas em relação ao ofício.

“Não quero escrever nas horas vagas, quero viver da escrita. E vivo de escrever! Conquistei minha independência através do meu trabalho, sustento minha família. O que tenho de mais verdadeiro coloco na literatura”, e ainda:

“Escrevo porque tenho de escrever. Sabe o tipo de coisa que você precisa fazer? Tenho de escrever, uma obrigação. Para ser o que sou tenho de escrever”.

Leia um olhar diferente da nova literatura brasileira.

Como é a experiência de lançar o primeiro romance?

Maria Helena Nascimento – Há anos escrevo esse livro. Acho que escrevi mais do que o dobro do resultado final do livro. Percorri um caminho muito tortuoso para chegar a essa história. O primeiro impulso foi esse. Demorou, mas saiu. O livro surgiu paralelamente a meu trabalho de roteirista. Estou muito feliz.

Encontrei informações a seu respeito na Wikipédia. Logo depois recebi um e-mail sobre o lançamento de seu livro Olhos Baixos.

MHN – Sim. Coloquei as informações lá num dia de desânimo. Nada acontecia com o livro, então resolvi escrever sobre ele na Internet. Caí num certo vazio depois que o livro foi lançado, achava que nada acontecia. Tenho dois livros publicados, o primeiro é um livro de poesia.

A escritora Martha Medeiros citou seu livro numa crônica, da Revista de Domingo, de O Globo, como um dos melhores livros que ela leu em 2007…

MHN – Esse dia fiquei a dois palmos do chão, muito feliz. Ela me colocou no primeiro parágrafo, ao lado de dois escritores muito legais. É inacreditável a repercussão. Foi o final da minha crise de desânimo, estava achando tudo muito lento. Venho de um mundo em que escrevo de camisola uma cena e, no dia seguinte, o Brasil inteiro assiste, sem a necessidade de se fazer propaganda. Acho que minha impaciência se deve a isso. No dia que a Martha citou o livro, a repercussão foi enorme. Não tenho do que reclamar. Aos poucos, tenho obtido retorno de pessoas muito legais, como Adriana Falcão, por exemplo. O Euclides Marinho foi a primeira pessoa que me escreveu sobre o livro, o que me deu uma alegria única, porque 15 anos atrás ele deixou um recado na minha secretária eletrônica falando sobre o primeiro roteiro que escrevi.

Qual a sua expectativa quanto a esse livro?

MHN – Quero ser lida por muita gente, espero por isso. Sabe qual era o meu sonho quando criança? Queria ser a Agatha Christie. Hoje em dia, considero suas obras mal escritas, mas na infância queria ser a Agatha. A imagem de uma velhinha escrevendo centenas de livros me fascinava. Eu quero isto: ser uma velhinha que escreve, que tem um público. É um pouco por isso que trabalho com televisão, quero me comunicar com pessoas que não conheço. É o que me entusiasma.

Como surgiu essa história?

MHN – Há dez anos vivenciei cenas que me foram divisores de águas. Tive a ideia inicial de fazer um romance sobre pessoas com problemas de dinheiro, situação que me cercava de maneira dramática. Mas a ideia acabou não se realizando. Houve outro ponto de partida crucial, um curso de adestramento de cachorros que fiz para conseguir me entender com minha boxer, que, na época, com nove meses de idade, me enlouquecia. Isso mudou minha vida, entendi pela primeira vez a importância da autoridade e constatei que eu não a tinha. Tanto que a narradora também não. Há essa questão no livro, ela deixa claro que não manda em nada nem em ninguém. O livro inclusive iria se chamar Adestradora, mas depois mudei, porque a história tomou outro rumo, apesar de eu ter mantido o título na primeira parte. No meu computador, até hoje, o folder se chama “Adestradora”.

Por que o Rio de Janeiro está bastante presente no seu livro?

MHN – Não sei explicar, mas surgiu como uma ideia bastante intencional…

O JB TAXI é quase um personagem do livro.

MHN – (Risos.) Eu tenho esse número na minha cabeça. Gosto quando leio um livro e vejo que há referência a uma cidade. Acho bacana. Afinal, o Rio é a minha cidade.

Como foi a escolha da editora Guarda-Chuva?

MHN – Entre o encontro com o João (editor) e a publicação do livro, se passaram três meses. Foi tudo muito rápido. Ficamos muito amarrados com a escolha da pessoa para escrever a orelha. Gostei muito do que Maria Isabel (Borja) escreveu.

Por que esse hiato entre o livro de poesia Gasolina Azul (Editora Uerj – 1992) e o romance Olhos Baixos (Editora Guarda-Chuva)?

MHN – Comecei a trabalhar como roteirista de TV em 1994, depois nunca mais parei. Nos primeiros quatro anos, não tive férias. O trabalho na televisão consome muito! Escrever um livro maior tem a ver com a solidão da maternidade. Comecei minha primeira tentativa de romance com minha filha no colo. Hoje em dia não escrevo poesia, foi um momento que passou. Não tenho desprendimento para ser poeta. Adoro poesia, mas é muito árido. Fiquei muito feliz com o livro, mas não sai mais poesia.

Quando foi seu primeiro contato com a literatura?

MHN – Foi na infância. Escrevo desde que me entendo por gente. Minha família lia bastante e a presença física do livro era marcante. Os parentes comentavam sobre livros marcantes. Eu sempre precisava de uma folha a mais quando escrevia as provas de escola (risos).

Há um autor preferido?

MHN – Não. Nessa época guardava as histórias, não me interessava pelo nome do autor. Mas houve livros importantes na adolescência, livros que jogam um raio na cabeça. Memórias Sentimentais de João Miramar, do Oswald de Andrade, me deixou sem fala. Eu não sabia que era possível escrever daquele jeito. E isso acabou me levando para a poesia, foi o primeiro impulso.

O que é mais difícil de produzir: roteiro, romance ou poesia?

MHN – O mais difícil foi o romance, com certeza. Foi uma “lenha” que eu espero não se repetir (risos). A primeira parte do livro demorou quatro anos, a segunda parte uns dois anos, mas a terceira eu acelerei. O romance é mais difícil, mas o prazer que proporciona é maior. Nele, se está em casa, arruma-se do jeito que quer o sofá ou a cadeira. Mas fazer roteiro também me diverte muito. Às vezes, paro para pensar e não acredito que ainda me pagam para fazer isso (risos). É muito duro, uma pedreira, não há feriado ou fim de semana, mas é muito divertido. É um exercício diário de escrita, um grande preparo físico e mental, pois há prazos para entrega, é preciso escrever.

Como você começou a trabalhar como roteirista?

MHN – Eu me formei em jornalismo, mas nunca exerci a profissão. Comecei trabalhando em produção de cinema e TV. Depois trabalhei numa produtora de filmes e uma amiga me indicou para oficina de roteiristas da Rede Globo. O primeiro trabalho que fiz foi o seriado Confissões de Adolescente. Depois vieram as novelas e não parei mais.

É bom escrever novelas?

MHN – É muito cansativo, mas gosto. Divirto-me com a produção diária. Mas reconheço que há um esgotamento evidente desse tipo de fórmula.

Você sente algum preconceito do meio literário por trabalhar como roteirista de TV e escrever romances?

MHN – Não sei dizer como encaro a situação. É uma questão nova para mim, sobre a qual nunca parei para pensar. Apesar de já ter sentido, em várias situações, preconceito contra a televisão – o que tem fundamento, pois há muito lixo na TV. É um preconceito estranho. Mas tenho uma coisa muito certa para mim: eu quero viver da escrita. Não quero escrever nas horas vagas, quero viver da escrita. E vivo de escrever! Conquistei minha independência através do meu trabalho, sustento minha família. O que tenho de mais verdadeiro coloco na literatura.

Como é trabalhar com os novelistas Antônio Calmon e Gilberto Braga?

MHN – Até hoje eu só tive sorte, é maravilhoso. Só trabalhei com gente legal, nunca entrei em nenhuma roubada. Há momentos muito bons, essas pessoas têm muito a ensinar. Nós escrevemos um capítulo de trinta e oito laudas por dia, é muito trabalho. Trabalhamos em casa, mas temos reuniões periódicas. Fico feliz por ver como eles trabalham, como surgem as ideias. É bom notar que cada um precisa de você para algo diferente. Com eles, aprendo muito sobre criação.

Como surgem suas ideias?

MHN – Não sei. Talvez de coisas que me acontecem. Odeio falar isso, mas penso muito em cenas. Mas não gosto de narrativa cinematográfica. Várias ideias surgem a partir de leituras, de sonhos. No período em que escrevi Olhos Baixos, mantinha sempre alguns livros à mão: Primeiras Estórias (Guimarães Rosa), Lolita (Vladimir Nabokov) e O Fio da Navalha (Somerset Maugham). São livros-chaves na minha vida. Livros que eu consultava para lembrar o que desejava escrever. Abria esses livros à minha volta, abria ao acaso e lia. Como não havia reunião de criação, eu conversava com esses autores. Uma coisa um tanto maluca, falei muito sozinha. Leio bastante antes de dormir, uma leitura enevoada, depois esqueço tudo (risos).

Você tem horários para escrever?

MHN – Deveria ter mais. Trabalhar em casa é muito bom por um lado, mas, por outro, há filhos, cachorros… Como faço os meus horários, acabo empurrando meus compromissos e começo a trabalhar de madrugada. Odeio isso. Em geral, trabalho melhor de manhã. Com roteiro de novela preciso de uma rotina para escrever, com a literatura não. Gostaria de ser mais organizada.

Você assiste a muitas novelas?

MHN – Quando trabalho com elas, sim. Mas quando não estou trabalhando raramente assisto a novelas. Às vezes cansa. É chato falar isso… (Risos.)

O que a motiva a escrever?

MHN – Escrevo porque tenho de escrever. Sabe o tipo de coisa que você precisa fazer? Tenho de escrever, uma obrigação. Para ser o que sou tenho de escrever.

Você tem dois filhos: um rapaz de 22 anos e uma menina de 11. Eles leram seu último livro?

MHN – Meu filho pode ter lido, mas ele não me disse nada quando publiquei meu livro de poesia. A minha filha leu só uma frase: “Uma vida menor que a sua.” E depois repetiu: “Uma vida menor que sua? Menor que a sua?” (Risos.) Quando publiquei meu livro de poesia, ele lia e interpretava, tinha odiado tudo (risos).

O que é mais importante na vida de uma pessoa?

MHN – O amor, sem nenhuma pieguice. Nesse momento, o mais importante é meus filhos serem felizes.

O que aconselharia a um escritor iniciante?

MHN – Corte o texto, sem pena. Não tenha medo de cortar. Para mim, cortar é tão importante quanto escrever. Há uma parte que não se apreende, mas esteja preparado para ralar muito. Nós construímos edifícios com ideias e palavras. Não desistam!


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