JOÃO PEDRO RORIZ

A ALMA DE UM JOVEM POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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João Pedro Roriz é um jovem com alma antiga. Seus hábitos e a paixão pela escrita o denunciam logo, o que não chega a ser um problema para uma pessoa extremamente apaixonada pelo ofício da escrita; muito pelo contrário, digamos que chega a ser um “facilitador”.

“Faço poesia porque preciso capturar na atmosfera o que é inefável – o que não se pode sentir – e incomensurável, e tentar mostrar isso de maneira palpável para pessoas através das minhas ideias. É uma necessidade. A poesia é uma arte deliciosa, um jogo gostoso de escrever, e com ela não preciso de mais nada. Busco a imortalidade da palavra por meio da poesia”.

Ator, músico e poeta (e militante), João Pedro tem a fala firme e o tom “professoral”, com a infância escondida por trás dos óculos. Ler a poesia de João é esquecer que ela o pertence, desperta sentimentos adormecidos.

“Quando consegui unir minhas poesias ao trabalho de ator, isso passou a ficar mais interessante. Comecei a misturar a mitologia grega e outros assuntos de conhecimento popular com a força teatral. E esse movimento culminou no meu primeiro livro que é A Poesia Teatral – um livro/CD”, explica João Pedro, fã de Olavo Bilac.

O encontro na Livraria Letras e Expressões, em Ipanema, é uma tentativa de compreender o cotidiano do jovem autor de A Poesia Teatral (Íbis Líbris Editora) e Liras Dramáticas (ViaNapole Editores).

A Poesia Teatral é mais calcada nas epopeias, no gênero poético de Aristóteles, de onde surgiu o teatro. Se eu for explicar o conteúdo histórico, ninguém vai ler o seu blog… É inspirada nas epopeias, mas é moderno, bacana… E o Liras Dramáticas é bem diferente, inspirado nas formas fixas e mais contemporâneo; um livro intimista, tem que ser levado para cama, hum…”, brinca.

Dia 21 de março é o Dia Internacional da Poesia. Você acredita que, atualmente, diante de tanta informação e imagens, as pessoas ainda estão interessadas em poesia?

JPR – Acho que sim. Vejo que bandas, como Charles Brown Jr. e O Rappa, têm proposta poética e, mesmo assim, continuam populares. Eu diria que a poesia é o açúcar puro, e a prosa é a água misturada com açúcar. Há quem não aguente o açúcar puro, ache a poesia hermética e chata; são os diabéticos. Por isso, ela é apresentada através de outras linguagens, pelas quais as pessoas se interessam mais. A poesia exerce a função, primordial, de manter a história das pessoas que lutam por uma mudança; as pessoas leem e encontram nela um questionamento. Por todas essas razões, ainda acredito que existe uma legião de consumidores de poesia.

Por que você faz poesia?

JPR – Porque preciso capturar na atmosfera o que é inefável – o que não se pode sentir – e incomensurável, e tentar mostrar isso de maneira palpável para pessoas através das minhas ideias. É uma necessidade. A poesia é uma arte deliciosa, um jogo gostoso de escrever, e com ela não preciso de mais nada. Busco a imortalidade da palavra por meio da poesia.

Como você se encontrou com a poesia?

JPR – É estranho, porque me tornei adulto muito rápido; não tive infância. Fui logo para os livros, e isso foi um pouco ruim porque perdi uma fase importante da vida, não vivi algumas coisas. Só tenho a memória afetiva e emotiva de outros, não a minha. Foi uma decisão querer entrar no mundo dos adultos e esse foi o preço que paguei por ela. Fui me enfiando nesse mundinho e conhecendo as palavras. É um esforço deixar de ser uma promessa, um garoto talentoso, para se tornar um escritor de fato.

Alguém te incentivou a ler?

JPR – Meu pai é escritor, Júlio de Sá Roriz. Ele publicou um livro espírita chamado Oh, James! Na Poeira do Tempo, que foi sucesso dentro do segmento. Isso me influenciou diretamente. Tive a sorte de vir de uma família em que as pessoas têm uma alma antiga. Herdei essa alma, e tive o prazer de ouvir bons compositores e estudar piano. Depois das leituras, senti enorme vontade de escrever.

Você coloca o teatro na poesia; por quê?

JPR – Quando consegui unir minhas poesias ao trabalho de ator, isso passou a ficar mais interessante. Comecei a misturar a mitologia grega e outros assuntos de conhecimento popular com a força teatral. E esse movimento culminou no meu primeiro livro que é A Poesia Teatral – um livro/CD. O CD traz os poemas do meu livro declamados por escritores convidados, o que deu um certo tempero à poesia, e acabou me unindo a amigos que me incentivaram e me fortaleceram, como: João Luiz de Souza, Teresa Cristina Roque da Mota, Cairo Trindade, Ivo Barroso e outros poetas e militantes.

Teatro, literatura e música. Como lida com essas três artes?

JPR – O ator tem quer ser completo nos dias de hoje: saber dançar, cantar e atuar. Não sei dançar, mas comecei profissionalmente aos 14 anos com a peça Violetas na Janela e, de início, já me encantei com o texto de teatro. Utilizo as experiências de outras áreas para melhorar minha escrita. Ferreira Gullar, grande poeta vivo, é um dos poucos que podem se permitir trabalhar exclusivamente com a poesia, mas isso não é mais possível entre nós. Para sobreviver nesse meio, é necessário aguçar os sentidos, usar todos os seus talentos e poder de observação, o que inclui misturar áreas. Por isso, vemos pessoas multifacetadas. Mas é necessário ter foco para não dispersar do trabalho proposto.

Qual a sua formação?

JPR – Estou me formando em jornalismo. Não fiz letras, porque prefiro aprender sobre os poetas sem perder a magia que tenho por eles. Acho que, se um dia fizer uma faculdade de letras, vou acabar me padronizando. Mas isso não é uma regra para ser seguida.

Você acredita em um curso superior de formação de escritores?

JPR – Sim, acredito. É interessante lembrar que a profissão de escritor ainda não é reconhecida pelo Ministério do Trabalho. A pessoa que gosta de escrever acaba procurando o curso de letras ou jornalismo, e isso é um erro. A busca acaba sendo por uma faculdade tecnicista, que às vezes vai até podá-lo em relação à sua criatividade. Faço jornalismo, mas, sabendo disso, consigo me livrar desses “podadores”. É claro que a técnica tem que estar aliada à emoção, e esta que vai transcender o texto em si. Enfim, acredito na técnica, mas não creio que a faculdade seja obrigação. Há pessoas geniais que nunca frequentaram um curso – mas esses casos têm exceção.

Você ministra uma oficina literária no Castelinho do Flamengo, no Rio de Janeiro. Como funciona?

JPR – Sim, é uma oficina de escrita no espaço Oduvaldo Vianna Filho (Vianninha), o Castelinho do Flamengo, bancado pela Prefeitura do Rio, na qual a pessoa se inscreve e a faz gratuitamente. Os alunos são incentivados a escrever sobre um determinado tema, depois discutimos o texto em coletividade. É legal poder passar um pouco da subjetividade do escritor.

Como é o seu processo criativo?

JPR – Eu sou esquizofrênico, sou meio maluco (risos)… De vez em quando, me pego durante horas dedicado a um único texto; a madrugada inteira escrevendo uma crônica, quase um halterofilismo. Não tenho regras de horários, mas deveria. Só escrevo quando tenho tempo, e isso geralmente acontece de madrugada. Mas é interessante que minha família entende isso e respeita, ou seja, não me perturba. Geralmente, antes de escrever, penso primeiro no gênero, depois me dedico ao texto.

Quando você escreveu seu primeiro livro?

JPR – Meu primeiro livro foi uma novelinha – antes eu não sabia disso, e a classificava como conto –, chamava O Conto de Maria Só. Eu era uma criança, me lembro que passava o tempo escrevendo no caderno, não havia computador… As pessoas gostaram, mas hoje sei que era uma porcaria. Nessa época já escrevia poemas, que eram um pouco melhor que isso.

Quais são as suas maiores influências literárias?

JPR – Estou lendo a vida e a obra do Olavo Bilac e estou fascinado, me inspira muito. Ele, antes de ser um acadêmico, um dos criadores da ABL, foi poeta marginal. Mas, ainda assim, cativou os intelectuais da época em relação ao texto dele. Gosto muito também do Geraldo Carneiro; é o poeta contemporâneo que mais respeito e divulgo. Quisera eu que ele tivesse por mim a mesma admiração que tenho por ele. É um artista iluminado. Apesar de considerá-lo um amigo, ele não me notou ainda…

E os autores mais jovens da sua geração, você lê?

JPR – Leio muito os autores que estão ao meu lado. Gosto bastante do trabalho do Pedro Tostes, poeta de São Paulo. Ele sabe mesclar a poesia clássica à marginal, além de cativar pelo carisma pessoal. Já aqui no Rio, gosto do Thiago Cataldo, que promove uma poesia hardcore; o Gean Queiroz, que produz poesia da rua; e tem o Luiz Felipe Leprevost, uma máquina de escrever. O Leprevost é um grande poeta que tem um potencial maior do que sua própria literatura.

Na apresentação do seu novo livro, Liras Dramáticas, você diz: “(…) aqui estou de costas para o público, batendo palmas para a natureza das ideias próprias – as malditas ideias narcisista que o meu próximo tanto odeia ouvir”. Por que isso?

JPR – Calma, pelo amor de Deus, esse trecho está num contexto. E eu estou fazendo uma graça, uma crítica à minha própria literatura. Vejo que a minha geração escreve muito sobre situações internas, e sempre escrevi sobre temas externos. E esse meu livro é mais interior, um livro pequeno, uma poesia preta e branca – como ela realmente é. O colorido está na cabeça de quem lê, a poesia de verdade é preto e branca – um prisma para todas as cores. Essa é a minha opinião. Eu adoto essa estética nos meus livros, inclusive nas capas.

Primeiro, A Poesia Teatral, e agora Liras Dramáticas. Por que há essa relação com o teatro na sua poesia? Qual a diferença de um livro para o outro?

JPR – A Poesia Teatral é mais calcada nas epopeias, no gênero poético de Aristóteles, de onde surgiu o teatro. Se eu for explicar o conteúdo histórico, ninguém vai ler o seu blog… É inspirada nas epopeias, mas é moderno, bacana… E o Liras Dramáticas é bem diferente, inspirado nas formas fixas e mais contemporâneo; um livro intimista, tem que ser levado para cama, hum…(Risos.)

Você dedica poemas a poetas considerados contemporâneos e marginais como: Cairo Trindade, Chacal, Tavinho Paes e Mano Melo. Por quê?

JPR – Porque desejo fazer a união dos poetas acadêmicos com os marginais. Ainda não há respeito aos poetas que estão na rua, ao poeta que batalha sua poesia lançando livro por conta própria… Nasci da rua, falando poesia nos eventos poéticos; se não olhasse para meus amigos, seria ingratidão. Pretendo seguir carreira acadêmica, mas não deixar de participar dos eventos de poesia.

Que recado deixaria para os jovens poetas?

JPR – Não esmoreçam, sigam adiante, confiem na própria intuição e no próprio talento. E publiquem sempre, não importa o espaço, o importante é mostrar o trabalho para que possa haver troca.


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