JOÃO PAULO CUENCA

O TEXTO COMO CARTÃO DE VISITA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 joao paulo cuenca

 

“Por que não escrever? Descobri, com muita sorte, que o meu canal de expressão é a escrita. Mas pode ser que amanhã resolva ser pintor, mímico ou cineasta. Vejo literatura como uma forma de expressão. Amo a literatura e escrevo, antes de tudo, porque leio. Porque queria ler livros que não existiam, então escrevi os meus livros. Escrevo porque preciso me expressar, senão seria uma pessoa inviável. Não tenho nenhum apego à posição de escritor, mas, se eu não o fosse, provavelmente estaria morto ou louco… (Risos.) É uma forma de me aliviar o peso”, afirma João Paulo Cuenca.

Cuenca é escritor.

Mas é importante acrescentar que ele anda com a sorte ao lado dele. Um escritor e com muita sorte. Além de ser considerado um dos escritores mais importantes da sua geração, ele já escreveu para os principais veículos do país – atualmente é cronista do suplemento Megazine, no jornal O Globo.

Suas rápidas conquistas se justificam pelo texto, que utiliza como cartão de visita. Após o lançamento do seu primeiro livro, Corpo Presente (Editora Planeta), a sua vida passou a ser integralmente cercada por palavras.

Corpo Presente teve os direitos comprados pela TV Globo, então fiquei trabalhando no roteiro da minissérie que ainda vai sair. Nesse meio tempo, também fui a Paris para escrever um livro para um projeto que também está em gestação. Além disso, as colunas para os jornais. Tudo isso ocupou minha cabeça. Mas, depois que voltei dessa viagem, fiquei com vontade de escrever algo que nunca escrevi, completamente diferente. Assim surgiu O Dia Mastroianni, que levei um ano e meio para escrever”.

Cuenca está envolvido em diversos projetos literários, incluindo Amores Expressos que o levou, este ano, para Tóquio para escrever um romance.

“Passei muito tempo sozinho, mas fiz amizades com pessoas de lá. E, por causa dessas amizades, pude passar por experiências que o estrangeiro normalmente não passa. Por exemplo, entrar na casa de um japonês e em alguns subsolos onde gringos não entram. Em Tóquio, todos te olham com condescendência, como se estivesse dizendo ‘coitado, esse é ‘gaijin’’. Como se você fosse uma criança, um bobão. E você realmente é”.

Essa conversa aconteceu na livraria Letras Expressões, do Leblon, por conta do lançamento de outro romance: O Dia Mastroianni (Editora Agir). Cuenca apresenta, com uma expectativa de primeiro livro, personagens andarilhos num texto mais maduro e linear.

“A satisfação de se ver um romance terminado é incomparável. É o romance!”

Leia e comprove.

Como você se aproximou da literatura?

João Paulo Cuenca – Comecei a me interessar por literatura muito cedo. Era um leitor, para a média de minha idade, bastante obsessivo. Li muito entre os sete e quatorze anos; nunca mais lerei tanto como nessa época. Eu morava no Leblon e ia numa biblioteca que ficava onde é hoje a Livraria Argumento. Tive contato muito cedo com livros diferentes. Muita literatura policial, Agatha Christie, Edgar Alan Poe, Rubem Fonseca, Graciliano, Dostoiévski…

E quando você começou a escrever?

JPC – Nessa época, eu já escrevia alguma coisa, mas nunca sistematicamente. A escrita começou a ser rotina para mim aos 18 anos. Em 2000, fiz um blog de diálogos, o Folhetim Bizarro, que hoje renego. Em seguida, comecei a escrever oCorpo Presente sem saber se seria publicado algum dia. Depois, peguei um pedaço desse manuscrito e mandei para a revista Ficções, da Editora 7 Letras e foi aprovado. Foi nessa época que o Paulo Roberto Pires, que escrevia no No Mínimo, fez uma resenha sobre o texto e depois resolveu publicar meu livro pela Editora Planeta. Devo muito à revista Ficções.

Você teve a oportunidade de ir para Tóquio pelo projeto literário Amores Expressos. Como foi a experiência num lugar tão diferente?

JPC – Passei muito tempo sozinho, mas fiz amizades com pessoas de lá. E, por causa dessas amizades, pude passar por experiências que o estrangeiro normalmente não passa. Por exemplo, entrar na casa de um japonês e em alguns subsolos onde gringos não entram. Em Tóquio, todos te olham com condescendência, como se estivesse dizendo “coitado, esse é ‘gaijin’”. Como se você fosse uma criança, um bobão. E você realmente é.

O que você destaca de mais interessante nessa viagem?

JPC – Ter esse sentimento de estrangeirismo, estar num meio em que você não entende nada direito, para mim, é uma experiência interessante. Além disso, como você não entende nada do que escuta ou lê, ninguém interrompe seu discurso interno. O pensamento flui com muita liberdade.

O livro dessa viagem vai ser sobre o quê? Já tem nome?

JPC – Estou tentando escrever sobre o ponto de vista de um japonês. Ainda não tem nome, está em processo. Comecei a escrever lá e pretendo terminar até o fim do ano.

Como surgiu seu novo livro, O dia Mastroianni? Foi a partir dessa expressão?

JPC – No final do livro agradeço aos meus amigos de São Paulo que me falaram pela primeira vez sobre “dia Mastroianni”. Agradeço ao Paulinho Werneck, Antonio Prata, Chico Mattoso e Fabrício Corsaletti. Quando eles começaram a usar essa expressão percebi que uma ideia antiga minha já tinha um nome. Essa ideia de escrever uma narrativa que se passa durante um dia, sobre dois amigos simplesmente fazendo nada, flanando por uma cidade, eu já tinha antes do primeiro livro.

Por que o Rio de Janeiro é tão presente na sua obra?

JPC – Sou carioca e vivi em Copacabana; a minha primeira casa foi na Rua Bolívar – onde morei até os três anos de idade –, depois voltei aos 19 anos para morar num conjugado. Copacabana é um dos poucos lugares do Brasil onde tudo acontece ao mesmo tempo. Copacabana resume o Brasil. Além disso, o Rio pode ser o cenário mais interessante do mundo. Às vezes,fico de saco cheio e falo mal do Rio de Janeiro, mas é sempre por amor e paixão. As críticas são por amor. Tenho muitos amigos, bares e garçons de que gosto em São Paulo, mas gosto de morar no Rio.

Por que um hiato de quatro anos entre o primeiro e o segundo romance?

JPC – Corpo Presente teve os direitos comprados pela TV Globo, então fiquei trabalhando no roteiro da minissérie que ainda vai sair. Nesse meio tempo, também fui a Paris para escrever um livro para um projeto que também está em gestação. Além disso, as colunas para os jornais. Tudo isso ocupou minha cabeça. Mas, depois que voltei dessa viagem, fiquei com vontade de escrever algo que nunca escrevi, completamente diferente. Assim surgiu O Dia Mastroianni, que levei um ano e meio para escrever.

Como funciona o seu processo criativo?

JPC – Não tenho horário para nada. Nem método de sentar no computador para escrever. Só sento quando não aguento mais. Penso muito no assunto antes de escrever. Por exemplo, estou trabalhando no livro da viagem ao Japão e não paro de pensar no assunto. Sonho com o livro, sento num bar pensando nele, passo a olhar o mundo com um filtro muito específico; acho coisas do meu livro na rua e guardo – gosto muito de andar observando as coisas ao meu redor.

E por que escrever?

JPC – Por que não escrever? Descobri, com muita sorte, que o meu canal de expressão é a escrita. Mas pode ser que amanhã resolva ser pintor, mímico ou cineasta. Vejo literatura como uma forma de expressão. Amo a literatura e escrevo, antes de tudo, porque leio. Porque queria ler livros que não existiam, então escrevi os meus livros. Escrevo porque preciso me expressar, senão seria uma pessoa inviável. Não tenho nenhum apego à posição de escritor, mas, se eu não o fosse, provavelmente estaria morto ou louco… (Risos.) É uma forma de me aliviar o peso.

No seu primeiro livro está escrito: “Gostaria de escrever algo como as grandes cabeças da minha geração, mas essa é toda uma linhagem de chatos queixosos.” Como você vê essa geração de escritores?

JPC – Na parte dos “chatos queixosos” eu me incluo. (Risos.) Talvez a característica principal da produção literária atual seja não ter uma proposta única. Tem gente escrevendo de todas as maneiras, há uma pluralidade de vozes bastante interessante. Acho que, quando escrevi essa frase em 2001, eu estava sendo pessimista. Hoje em dia, eles são menos chatos, mas continuam queixosos. Há bons escritores, vejo similitudes e me sinto acompanhado por alguns deles. Fico feliz com isso.

Você lê seus contemporâneos?

JPC – Gosto muito do Daniel Galera, Chico Mattoso, Cecília Giannetti, Antonio Prata, Adriana Lisboa, entre muitos outros… São autores que tenho orgulho de que existam, que sejam meus contemporâneos.

Quais são suas influências?

JPC – É difícil falar sobre referência. Para esse livro, que tem uma onda muito “flâneur”, peguei muito de João do Rio, Rimbaud, Oscar Wilde… Mas o que escrevo tem influencia de tudo: literatura, cinema, artes plásticas, música e, claro, a rua.

Como está sendo a nova experiência de escrever semanalmente para o Megazine, do O Globo?

JPC – É interessante pensar que depois que você trabalha num jornal esse “deslumbre midiático” se perde. As pessoas valorizam demais uma fotinho no jornal, o nome em negrito, essas coisas. Recebo cartas e e-mails toda semana dizendo que sou um estúpido e outras dizendo que sou um gênio. Certamente não sou um gênio, mas também não sou tão estúpido assim. Além disso, a escrita no jornal toda semana é grande aprendizado. Aprende-se a lidar com a falta de ideia e a tirar coelhos da manga. Estou com os olhos abertos e a percepção muito aguçada para ver as coisas na rua e tirar o máximo de uma viagem, por exemplo.

Você ainda toca na banda Netunos? Como é essa relação de música com literatura?

JPC – Eu parei com a banda porque tive que passar um tempo em Paris. Eu só tocava guitarra e não fazia as letras. Por enquanto, estou muito concentrado no livro, mas tenho o projeto de voltar a tocar guitarra. Eu me preocupo bastante com o ritmo de uma frase. Normalmente, escrevo ouvindo música e ela influencia a minha pontuação, a prosódia das frases. Escrever uma frase não pode ser por acaso, principalmente num romance. Tem que se tomar cuidado com a linguagem. E linguagem para mim também é ritmo.

O que te dá mais prazer de escrever: conto, crônica ou romance?

JPC – A satisfação de ser ver um romance terminado é incomparável. É o romance!

O que diria para os jovens que desejam ser escritores?

JPC – Diria para escreverem sem amarras. Acho que a expressão com maior poder criativo de todos é a literatura. Você pode ser qualquer coisa que quiser, criar o que quiser, e não tem que lidar com nada além de si mesmo. Sozinho, deus e ator do seu próprio universo e convidando, num segundo momento, outras pessoas a habitarem aquele espaço por algumas horas, um dia ou, se você algum dia for um grande escritor, a vida inteira.


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