FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI

PALAVRAS DE UM JOVEM DRAMATURGO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 jobilac

 

Jô Bilac é um daqueles seres humanos que sabem administrar as adversidades da vida e transformá-las em arte. É ator, escritor, dramaturgo e diretor de teatro – e faz isso tudo com muita qualidade.

“Aos 19 anos, resolvi fazer teatro. Na verdade, era apenas um subterfúgio para descobrir como se escrevia para teatro. Apesar da formação, não me considero um ator. Morro de vergonha e sou muito displicente atuando. A direção surgiu como necessidade de ver meu texto em cena. Na prática de montagem, eu percebia as lacunas em meus textos e as preenchia ao longo do processo, ou seja, o texto final vinha com a estreia. Sou dramaturgo, é disso que gosto e é isso o que sei fazer com o devido cuidado”.

Conheci essa “entidade” quando estudávamos na Escola de Teatro Martins Pena e fico cada vez mais feliz em acompanhar o crescimento do seu trabalho. Sua ironia e humor negro parecem ser um atrativo não só para a ficção, mas também para os amigos que o rodeiam. Não há perfeição nesse indivíduo, é só retrato do avesso. E talvez isso seja justamente o mais interessante.

“Escrevo a respeito do comportamento urbano e as neuroses geradas por ele: a solidão, a paranoia, a artificialidade das relações. Mas faço minha abordagem sempre com muito humor, que acho fundamental como forma imediata de crítica. Não costumo construir meus textos pautados numa comoção ou numa catarse culminada por uma trama rocambolesca; sempre parto de uma situação cotidiana que se potencializa num absurdo, gerando um riso nervoso”’, revela o dramaturgo, fã de Clarice Lispector e Agatha Christie.

“Ler e reler Clarice é uma experiência, acima de qualquer distração ou ocupação. Gosto da simplicidade dela e de sua grandeza por isso. Água viva, entre outros, sem dúvida foi um livro inesquecível. Internacionalmente, tem a Agatha Christie que foi o meu primeiro amor. Minha avó tinha uma coleção com uns 80 livros dela, que me deu quando fiz 15 anos”

Convidei Jô para um papo numa dessas madrugadas na Lapa. Aqui está registrado o universo desse menino das palavras e do teatro.

Jô Bilac. Esse é o seu nome artístico ou de registro?

Jô Bilac – Meu nome é Giovanni Ramalho Bilac. “Jô” vem do “carioquês” que não pronuncia GIOvanni, e sim JOvani. Como carioca tem preguiça de falar, não demorou muito para virar “Jô”. Ramalho de mãe, Bilac do pai – e quem sabe aí um tênue parentesco com o Olavo.

Você é ator, diretor e dramaturgo. Quando aconteceu o interesse por essas áreas?

JB – Aos 19 anos, resolvi fazer teatro. Na verdade, era apenas um subterfúgio para descobrir como se escrevia para teatro. Apesar da formação, não me considero um ator. Morro de vergonha e sou muito displicente atuando. A direção surgiu como necessidade de ver meu texto em cena. Na prática de montagem, eu percebia as lacunas em meus textos e as preenchia ao longo do processo, ou seja, o texto final vinha com a estreia. Sou dramaturgo, é disso que gosto e é isso o que sei fazer com o devido cuidado.

Então é na escrita que você realmente se realiza? Fale um pouco da sua relação com as palavras.

JB – É na escrita que potencializo o sentido de minha existência neste mundo. Sempre li muito, desde pequeno, e, consequentemente, escrevia meus próprios livros. Escrevi o primeiro com sete anos de idade; minha mãe o exibia para todo mundo e eu morria de vergonha. Uma peça de teatro ou um roteiro de cinema perde seu encanto se arquivado, diferentemente de um romance ou qualquer escrita literária. O drama veio como consequência disso – uma necessidade de comunicação dinâmica, em tempo real, direta, falada, escrita, ardida em cena. Não entrava na minha cabeça escrever algo que ficaria numa prateleira ou numa gaveta.

Você teve incentivo da sua família para ler e escrever?

JB – Tive o privilégio de contar com uma biblioteca em casa durante a infância. Minha família lia de tudo – desde Luis de Camões a Ziraldo –, e o incentivo à leitura veio desse hábito familiar. Na escrita, minha mãe foi uma grande entusiasta e leitora número um: não apenas lia como discutia e criticava. Sem dúvida, esse apoio familiar fortalece o desejo por esse ofício.

Qual é a sua formação?

JB – Tantas e nenhuma! Enfim, cursei alguma coisa em ciências sociais na UERJ, tentei terminar artes plásticas na UFRJ, abandonei tudo para fazer filosofia, mas não resisti ao teatro e sucumbi – me formei como ator na Escola de Teatro Martins Pena. (Risos.)

Sobre o que falam seus textos de teatro?

JB – Escrevo a respeito do comportamento urbano e as neuroses geradas por ele: a solidão, a paranoia, a artificialidade das relações. Mas faço minha abordagem sempre com muito humor, que acho fundamental como forma imediata de crítica. Não costumo construir meus textos pautados numa comoção ou numa catarse culminada por uma trama rocambolesca; sempre parto de uma situação cotidiana que se potencializa num absurdo, gerando um riso nervoso.

Quais são as suas maiores referências literárias?

JB – Clarice Lispector me dilacera incrivelmente. Ler e reler Clarice é uma experiência, acima de qualquer distração ou ocupação. Gosto da simplicidade dela e de sua grandeza por isso. Água viva, entre outros, sem dúvida foi um livro inesquecível. Internacionalmente, tem a Agatha Christie que foi o meu primeiro amor. Minha avó tinha uma coleção com uns 80 livros dela, que me deu quando fiz 15 anos. Gosto das tramas e do suspense, da inteligência de Christie em nos enganar a cada livro.

Qual dramaturgo você mais admira? Por quê?

JB – A lista é extensa… Tem o Nelson, que, unânime por sua genialidade, escreveu o inconsciente; Suassuna, que vem como um parque de diversões; Shakespeare, que nos faz lembrar da fúria e da paixão dentro de nós; Ionesco, que me faz sentir como Alice dentro do espelho; Albee, provocante como um doce amargo; Beckett que pontuou o silencio; Tchecov; Pinter; Arrabal; Leilah; Lorca…

O que o motiva a escrever?

JB – A vida cotidiana e a constante fuga dela; é como se houvesse uma oportunidade de reescrever a rotina – é dela que me alimento, e é ela que me consome. Redescobrir a magia e o terror dessa existência faz parte dessa relação com a escrita.

Como funciona o seu processo criativo?

JB – Geralmente, penso muito antes de escrever… Aliás, escrever normalmente é a última coisa que faço. Primeiro vem a história, ou um fragmento dela, uma situação, um fato. Dessa microfísica, vão surgindo personagens que dialogam e habitam nesse mundo. Turvos em principio, mas que amadurecem e se revelam com o tempo. Gosto muito de falar deles durante o processo de escrita, porque assim vão se tornando amigos. E, por fim, escrevo apenas a vontade deles…

Como você enxerga o movimento artístico de sua geração?

JB – É difícil, para mim, falar em geração… Cada vez mais tenho a sensação de que meus contemporâneos foram gerados em barrigas diferentes. E, como herança disso, herdamos um distanciamento entre as “tribos” artísticas. Naqueles que vieram da mesma barriga que a minha, vejo vontade muito grande de fazer, fazer, fazer, estar em movimento, numa tentativa louca de ser visto, notado, reconhecido; um desespero de “vencer na vida”, “dar certo”, triunfar. antes dos 25.

É difícil trabalhar como dramaturgo no Rio de Janeiro?

JB – Acredito que seja difícil trabalhar como dramaturgo em qualquer lugar do mundo. Sempre rola um papo da carência em relação aos novos dramaturgos, escritores, como se não houvesse nenhum. Mas existe, sim, uma produção nacional desse operário da escrita. O que falta é espaço, cada vez mais! Escrever aqui no Rio, ou em qualquer outro lugar, é difícil. Não por falta de criatividade, mas de espaço, oportunidade, dinheiro, mercado, procura…

Você acredita que as pessoas ainda estão interessadas em teatro e literatura?

JB – Acredito que as pessoas estejam interessadas no humano e em suas manifestações e sempre estarão, independente da linguagem. O teatro e a literatura fazem parte disso. Claro que, por razões sociais de desigualdade, a procura e o acesso a essas manifestações variam. Mas, enquanto tiver uma boa história a ser contada, existirá um alguém do outro lado querendo ouvir.

O que falaria às pessoas que desejam começar a escrever?

JB – Leiam.


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