FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI

VICIADO EM SERES HUMANOS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 fabiofabretti

 

O nome dele é um trava-língua – Fábio Fabrício Fabretti –; um jovem escritor que há 13 anos fugiu da sua casa, em Maringá, no Paraná, para tentar abrir seus horizontes.

“Já disseram que tenho nome de autor de livro infantil, mas não me importo. É o meu nome, não o inventei, o inventaram para mim… Então o carrego até o fim”.

Hoje, além de escritor, o jovem é professor da área de humanas. Tem uma certa fixação por microcontos, e o resultado foi o livro Sexo, Drogas e Tralálá(Editora 7 Letras), que escreveu em parceria com Thiago Picchi e Ana Paula Maia.

“Desde criança, eu escrevia e gostava de ler coisa de gente grande. Fui criado numa família evangélica, em Maringá, no Paraná, que só ouvia rádio e não via televisão. Tinha um locutor que lia cartas de leitores e depois liberava o telefone para os ouvintes opinarem sobre os problemas alheios. Um dia fiz uma carta e mandei para a rádio. Houve uma semana em que o locutor só leu cartas minhas. Foi aí que descobri que gostava de criar vidas e personagens”, explica a relação com as palavras.

Como também é viciado em seres humanos, enveredou pelo lado da produção biográfica. Teve o privilégio de participar do livro Caio Fernando Abreu – Cartas(Aeroplano Editora), com Ítalo Moriconi. Atualmente, está mergulhado no underground para fazer a biografia de Marcelo De Gang, um dos ícones da moda nos anos 80.

“Sempre participo do lado da ficção, da prosa. Quando o Ítalo Moriconi me convidou para a assistência do Cartas, do Caio Fernando Abreu, me apaixonei pelo trabalho biográfico. Foi trabalhoso, mas prazeroso esse livro. Agora vou fazer a biografia do estilista Marcelo De Gang, que é muito ligado à cultura dos anos 80, à cultura gótica e àquele clima underground do Rio de Janeiro. Fazer uma biografia é reescrever uma história que estão contando, mas você vai colocar aquilo da sua forma. O Ítalo Moriconi sempre comentava comigo que ‘não existe nada 100% biográfico’”, defende.

O encontro com Fabretti aconteceu em seu apartamento no Bairro Peixoto, Copacabana.

Fábio Fabrício Fabretti. Como você gosta de ser chamado, tendo um nome com várias possibilidades?

Fábio Fabrício Fabretti – Já disseram que tenho nome de autor de livro infantil, mas não me importo. É o meu nome, não o inventei, o inventaram para mim… Então o carrego até o fim.

Qual a sua formação?

FFF – Sou formado em letras, com pós-graduação em jornalismo cultural e mestrado na vida (risos).

Você acredita que a academia (formação em letras) pode “engessar” um escritor?

FFF – Não, não acho. Acho que o artista tem que ter talento, mas a escola fornece a técnica para ele. Há pessoas que fazem arte sem terem ido à escola e acabam por desenvolver a própria técnica. Para ser artista tem que ter talento e saber fazer o que lhe compete. A formação do artista é pelo talento e vocação; a informação é pela escola.

No Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul existem cursos superiores de Formação de Escritores. Você acredita num espaço como esse?

FFF – Acho que tudo é muito válido, desde o cursinho caça-níquel até um curso universitário para formar escritores. Claro que ninguém se torna escritor fazendo um cursinho, as pessoas normalmente já são escritoras. Um curso é legal pela interação, por mostrar coisas que você não conhecia. Mas a arte está dentro de todos, adormecida, como Glauco Mattoso disse certa vez: “A arte é uma pedrinha dentro do sapato.” E é isso, ela fica lá te incomodando, e um dia resolvemos fazer dessa pedra uma pérola.

Quando você se viu atraído pelas letras?

FFF – Desde criança eu escrevia e gostava de ler coisa de gente grande. Fui criado numa família evangélica, em Maringá, no Paraná, que só ouvia rádio e não via televisão. Tinha um locutor que lia cartas de leitores e depois liberava o telefone para os ouvintes opinarem sobre os problemas alheios. Um dia fiz uma carta e mandei para a rádio. Houve uma semana em que o locutor só leu cartas minhas. Foi aí que descobri que gostava de criar vidas e personagens. Geralmente, escrevia sobre mulheres apaixonadas sofrendo, homens que não sabiam lidar com as mulheres, homossexuais em crise, eu inventava de tudo. Até que um dia minha mãe descobriu e ameaçou me delatar para a rádio, daí eu parei. Só que, a partir daí, passei a escrever para mim. Só mais tarde fugi de casa e vim para o Rio. Queria ficar longe de tudo e começar uma história.

Mas alguém o incentivou a ler?

FFF – O incentivo veio da solidão, da minha própria dor. Como adolescente, vivia trancado dentro do quarto, lendo, lendo, lendo… Não tive incentivo de ninguém. Achei na leitura uma fuga para o mundo. Certa vez, minha mãe foi até a biblioteca reclamar; falou para a diretora que, se continuassem me emprestando livros, iria processá-los, pois a leitura estava me enlouquecendo. (Risos.) Mal sabia ela que os livros me davam a única sanidade que eu tinha. Sempre digo que os livros são meus melhores amigos; os cigarros, os meus amantes.

E o fato de sua família ser evangélica, isso o influenciou de alguma forma?

FFF – Hoje, sei que a Bíblia é um grande livro “ficcional-verdadeiro”. Chega a ser antagônico isso que estou falando, mas a Bíblia é uma base da ficção. É uma história real contada por vários autores, cada um com seu estilo, enfocando determinado tema, mas sempre centralizado no personagem principal, Jesus. Minha família até hoje é evangélica e curte a minha escrita.

Você é um ficcionista e atualmente está escrevendo uma biografia. Como é essa transição?

FFF – Sempre participo do lado da ficção, da prosa. Quando o Ítalo Moriconi me convidou para a assistência do Cartas, do Caio Fernando Abreu, me apaixonei pelo trabalho biográfico. Foi trabalhoso, mas prazeroso esse livro. Agora vou fazer a biografia do estilista Marcelo De Gang, que é muito ligado à cultura dos anos 80, à cultura gótica e àquele clima underground do Rio de Janeiro. Fazer uma biografia é reescrever uma história que estão contando, mas você vai colocar aquilo da sua forma. O Ítalo Moriconi sempre comentava comigo que “não existe nada 100% biográfico”. A partir do momento em que escrevemos alguma coisa, já estamos “ficcionando”.

E o livro, vai sair quando? Já tem editora?

FFF – Por enquanto nós não estamos preocupados com isso. O Marcelo vai fazer agora uma exposição dos seus vinte anos de carreira, a Vintage De Gang, e vai colocar trechos no livro com roupas que ele tinha dessa época. O livro já está sendo badalado, as pessoas já estão comentando. Embora o Marcelo esteja um pouco fora do circuito, ele é uma pessoa muito valorizada pelo meio da moda, e isso é muito legal!

Você participou do livro Sexo, Drogas e Tralálá (Editora 7 Letras), junto com Thiago Picchi e Ana Paula Maia. Fale dessa parceria.

FFF – Nós tivemos a ideia de fazer esse livro porque queríamos falar sobre o mundo de hoje. A proposta eram microcontos, divididos em três partes – a princípio sexo, drogas e rock and roll – que foram ao final Sexo, Drogas e Tralalá – representando esse mundo moderno, consumista e todas as outras artes… Fiquei com a parte das drogas, porque a droga é uma questão existencial do homem e eu tinha vontade de escrever sobre isso.

Que gênero mais o atrai?

FFF – Acho que é uma fase, mas me encantei pelo microconto. Hoje, quando vou escrever uma história, já penso nesse gênero. Aliás, quando pensamos em “Sexo, drogas…”, contaminei a Ana Paula e o Thiago com esse vício. Mas não me preocupo, porque sei que é só o meu momento. O interessante é que agora tenho que escrever uma biografia, e não pode ser em microconto (risos). Escrever é horizonte, não tem como padronizar. São instantes distintos. Eu não me declaro poeta, porque acho que escrevo de tudo.

Além de escrever, você leciona. São prazeres diferentes?

FFF – Dar aula é um barato; dou aula de literatura e filosofia e gosto muito. Tem esse estigma que professor ganha mal, mas, quando a pessoa faz o que gosta, o retorno é financeiro e pessoal. Sinto prazer em dar aula, porque faço o que gosto. Quando vejo um jovem ou um adulto descobrir ou redescobrir o prazer pela leitura, é muito satisfatório. O dinheiro não compra isso.

Você acredita que as pessoas estão interessadas em literatura?

FFF – “Caí”’ em letras porque sou apaixonado pela literatura, mas sempre considerei o curso de letras meio caduco. Embora eu tenha feito um bom curso, ainda o acho. Mas tenho mudado o meu olhar, outro dia achei uma comunidade do Orkut assim: “Para quem faz letras e é fashion.” (Risos.) Nunca tinha pensado nisso! Acho que as coisas estão se modernizando. Tem a mulher que é dona de casa, a menina de cabelo vermelho, o professor de matemática… Acho que existe interesse sim. As livrarias estão lotadas, os pais levando os filhos como se estivessem indo ao Bob´s… Mas falta incentivo.

Como é o seu processo criativo?

FFF – Gosto muito de produzir à noite! A noite é o grande útero do artista. É quando os hormônios ficam em alta, o cérebro fica acordado. Brigo muito com isso, porque trabalho de dia e gosto de produzir à noite. Podiam inventar uma pílula para a gente ficar acordado para a produção e o prazer sem ficar cansado…

Como vê a sua geração de escritores?

FFF – Acho que os escritores são uma classe muito desunida. Mas tem muita gente atuante surgindo e que está trabalhando na coletividade, como o siteEscritoras Suicidas – onde as pessoas escrevem com pseudônimos de mulheres. Ainda acho que os escritores são muito individualistas, e isso gera muita panelinha. Mas a tecnologia está aí para facilitar a vida dos escritores, unir as pessoas…

Quais são os autores contemporâneos que você gosta de ler?

FFF – Ana Paula Maia, que está lançando um livro novo agora… De Heloisa Seixas a João Ximenes Braga, acho importante ler os nossos pares e saber o que está acontecendo ao redor.

E os autores clássicos, quais são sua referência?

FFF – Os que mais me marcaram foram os que eu li na adolescência: Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Augusto dos Anjos, Rimbaud, Caio Fernando Abreu… Tem um mito que fala que todo artista tem seu mestre; até procurei alguns, mas não tive sorte de encontrar quem me adotasse ou eu pudesse seguir de exemplo.

O que falaria para os jovens que estão a fim de escrever?

FFF – Escrevam, leiam bastante e acreditem! O importante é ter um sonho e correr atrás dele. Se vai conseguir é outra história. Às vezes, o percurso é mais importante.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates