MARCELINO FREIRE

AS VOZES E OS LIVROS DE MARCELINO FREIRE

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 marcelino freire

 

Marcelino é um escritor “porreta”. E suas histórias são tão marcantes quanto sua pessoa. Esse pernambucano, nascido em Sertânia, radicado em São Paulo, é um dos melhores escritores dos últimos anos. Não à toa ele é o ganhador do prêmio Jabuti 2006, de melhor livro de contos, comContos Negreiros (Record). Sua literatura é forte, abusada e incômoda. Ou seja, são palavras que vieram para permanecer entre nós.

“Nasci em Sertânia, mas quando completei três anos minha família foi morar em Paulo Afonso, na Bahia, e depois, eu já com oito, no Recife. Então, na verdade, minha ligação não é tanta com o Sertão, e sim com o Recife e a cachoeira de Paulo Afonso. As lembranças são mais de água do que de seca”.

Com um texto repleto de oralidade, ele consegue atrair os leitores para ouvir as vozes que os excluídos sociais emprestam aos seus personagens (ou será o contrário?). Mas não é somente nas páginas dos livros que ele justifica sua presença. Marcelino está sempre em movimento, exercendo o seu ofício, com humildade, seja na Internet ou nos eventos literários. Não é raro encontrá-lo defendendo uma literatura que foge do idealizado pedestal do escritor. Tudo isso numa fala simples, cantada e pontuada por alguns palavrões.

“O que não posso é me sentir um Jabuti. Até porque é um animal horroroso! (Risos.) Tanta coisa eu já me sinto… O importante é continuar o movimento e não acreditar que chegou. Se você chegou, então morre logo, porra! O Jabuti muda isso, mas não o suficiente”, ironiza Marcelino.

Conheci seu trabalho, há três anos, através de Angu de Sangue (Ateliê Editorial); é impossível não acompanhá-lo. Essa entrevista aconteceu em setembro, em Botafogo, no Rio de Janeiro, no bar Coisas do Interior, enquanto tomávamos uma cerveja e aguardávamos o início de um evento de poesia.

“Sempre digo que escrevo porque quero me vingar: do governo, do pai, da mãe, da pobreza… Falam que dou voz a quem não a tem. Não sei. Acho que não dou voz a ninguém, eles é que me dão voz para que eu possa escrever. Não tenho a pretensão de escrever para melhorar as pessoas. Escrevo para me vingar e continuar a minha trajetória”, finaliza.

Como foi sua infância no Sertão de Pernambuco?

Marcelino Freire – Nasci em Sertânia, mas quando completei três anos minha família foi morar em Paulo Afonso, na Bahia, e depois, eu já com oito, no Recife. Então, na verdade, minha ligação não é tanta com o Sertão, e sim com o Recife e a cachoeira de Paulo Afonso. As lembranças são mais de água do que de seca. Minha mãe saiu de Sertânia porque não viu futuro para os filhos. Tenho oito irmãos, mas foram quatorze filhos. Apenas nove escaparam! Minha mãe tinha vontade que, ao menos, os mais novos estudassem para ter uma vida melhor.

Quando você foi para São Paulo?

MF – Aos vinte e três anos. Estava cansado do Recife e queria conhecer outros lugares. Fui para procurar trabalho na minha área, letras. Queria chegar lá, escrever e publicar os meus livros…

E o teatro?

MF – Comecei a fazer teatro aos nove anos de idade e continuei até os dezenove. Queria chegar a São Paulo e retomar o teatro, publicar o meu livro, mas só fiz trabalhar! Trabalhei em agência de propaganda, mas no Recife eu já trabalhava como revisor de texto, o que faço até hoje. Trabalho revisando a preço de um salmão sem cabeça, mas tenho total liberdade de me dedicar à literatura. Isso é prioridade! Na literatura, embora eu faça muita coisa, não tem dinheiro fixo. E tenho de ter esse dinheiro para pagar uma assistência médica, essas coisas…

Como funciona o seu processo de criação?

MF – Não tenho horários para escrever. Já tentei ser disciplinado, mas tenho preguiça enorme. Se crio regras, fico com a impressão de que estou burocratizando a literatura. Assim não consigo, não adianta. Escrevo quando não dá mais para não escrever; quando as palavras ficam latejando. Não tenho disciplina nenhuma. Detesto marcador de livro, por exemplo. Não quero marcar livro nenhum, quero me perder no livro e procurar a página. Isso não é estilo não, só não tenho essas regras. Comprei um caderninho para começar a fazer umas anotações, mas logo perdi. Não posso burocratizar a literatura. Parece que coloco um passarinho na gaiola para ficar olhando para aquela beleza presa. Assim não faz sentido. Quero esquecer as coisas e escrevê-las quando for realmente para elas ficarem. Se lembro delas, é porque ficaram. Se não, é porque não tem sentido.

Em que momento resolveu se voltar para a literatura?

MF – Tive uma professora chamada Ilza Cavalcanti, que me incentivou. Foi na época que eu fazia teatro, ela lia meus textos e dizia que eu levava jeito para escrever. E também o contato que tive, aos dez anos, com a poesia do Manuel Bandeira. Quando li Manuel Bandeira, quis ser Manuel Bandeira, quis ser poeta e doente – tuberculoso. Tenho um texto chamado “O Menino que queria ser tuberculoso”. Foi a partir daí que passei a gostar de ler, escrever, de apreciar o teatro. Quis ser ator também, mas tinha muito pudor.

Como foram os processos de publicação do seus livros?

MF – Quando recebi o primeiro “não” de uma editora, resisti e comecei a fazer meus próprios livros. O meu primeiro livro foi o Acrústico; péssimo… (Risos.) Mas foi importante para tirar os textos da gaveta. De vez em quando alguém encontra esse livro num sebo. Depois veio o EraOdito, que foi feito para ajudar na publicação do Angu de Sangue (Ateliê Editorial). Mas acabou que o EraOdito começou a fazer sucesso e me abrir caminhos… E nisso o João Alexandre Barbosa, crítico literário, me viu lendo um texto e acabou me indicando para o Ateliê Editorial, que publicou o Angu de Sangue.

Qual o acontecimento mais importante na sua carreira literária?

MF – Acho que foi a publicação do Angu de Sangue. Nessa época, comecei a traçar uma trajetória. O encontro com o crítico Alexandre Barbosa, que me recebia dando cachimbada, me ensinou bastante. Ele foi pontual no meu trabalho. Foi quando comecei a amadurecer. Mas não estou maduro não, porque quem tá maduro cai do pé. Não é?

O que mudou com chegada do Prêmio Jabuti?

MF – Tive mais entrada no mercado, mais convites e mudou a relação com a imprensa. Mas na verdade não muda nada! O que não posso é me sentir um Jabuti. Até porque é um animal horroroso! (Risos.) Tanta coisa eu já me sinto… O importante é continuar o movimento e não acreditar que chegou. Se você chegou, então morre logo, porra! O Jabuti muda isso, mas não o suficiente. E principalmente num país que não lê. Quem vai dar de presente de Natal um livro chamado Angu de Sangue? (Risos.)

Como você pensa a criação dos seus livros?

MF – Da forma mais primária e amadora possível. Pego o tema e organizo o meu juízo. Fico pensando o que une os contos e desenvolvo o trabalho a partir daí. Penso no livro como unidade, nada complicado. Sou despreparado, então preparo o livro da forma mais simples; faço tudo como se fosse uma antologia.

Você não tem vontade de escrever romances?

MF – Não. Sou um escritor limitado! (Risos.) No romance você precisa de fôlego, organização, de um pensamento maior. Não tenho nada disso. Se você me perguntar onde fica Honduras eu não saberei responder… (Risos.)

Você já está escrevendo o próximo livro?

MF – Sim. Esse novo livro fala sobre guerra. Eu tenho um conto chamado “O Homem- Bomba”, outro chamado “Maracabul” e ainda outro chamado “Da Paz”… Todos sobre guerra, ou seja, é um livro árabe! (Risos.) Conversando com uma amiga, ela me disse que o nome Recife é de origem árabe; percebi que tenho minha Arábia, uma miséria, uma guerra do cão…

Por que a atração por esse universo pobre?

MF – Porque gente bem-sucedida não interessa. Todos os meus textos têm um pouco da miséria do Recife. Escrevo porque gosto de olhar para o outro. Gente bem-sucedida não me diz nada. Quem quiser saber de felicidade e dinheiro não vai ler meus livros.

Por que você escreve?

MF – Sempre digo que escrevo porque quero me vingar: do governo, do pai, da mãe, da pobreza… Falam que dou voz a quem não a tem. Não sei. Acho que não dou voz a ninguém, eles é que me dão voz para que eu possa escrever. Não tenho a pretensão de escrever para melhorar as pessoas. Escrevo para me vingar e continuar a minha trajetória.

O que você pensa sobre a política do nosso país?

MF – Sempre votei no Lula, porque acreditava que ele estava mais próximo do meu universo, mas não tenho pensamento prático para fazer nenhuma análise.

Quais são as suas influências?

MF – Vai de Van Gogh a Machado de Assis. Gosto muito do Bandeira, de João Cabral de Melo Neto. Gosto de uma vertente social sem ser panfletária.

De que gosta na literatura contemporânea?

MF – Gosto bastante do que está aí. Aprendo muito com o passado, mas também com o frescor de hoje. Atualmente, as pessoas produzem um livro aos 22 anos e são coisas fantásticas! Nessa idade, eu era um debilóide! Converso muito com o Nelson de Oliveira sobre isso. Gosto do Botika, aqui do Rio de Janeiro. Também adoro o André Sant’Anna, o Marcelo Mirisola – apesar de todas as polêmicas e inconsequências do seu discurso. Sou um leitor do Mirisola! Ele pode até brigar comigo e arrancar o meu cabelo, mas eu o leio. E só leio o que gosto.

Você está produzindo, junto com o escritor Santiago Nazarian, uma antologia gay. Como é esse livro?

MF – Chama-se Contos Para Ler Fora do Armário. Uma antologia que estamos fazendo há um tempo, mas vai ficar para 2008. Tem desde João do Rio a Ana Paula Maia. Além de Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Paulo Henriques Britto, Caio Fernando Abreu… Mas sem ter a obrigação de ser uma antologia história.

Você acredita na existência de uma “literatura gay”?

MF – Não. Existe literatura, só isso. O que existe é uma ligação com a temática homossexual. Há apenas literatura boa e ruim.

Já sofreu preconceito por ser nordestino?

MF – Sou um cara muito desligado. Nunca me liguei muito nisso. Mas acho que isso nunca me tocou porque sou branco e alto. Se fosse baixinho, pretinho, desdentado e feio seria triste! (Risos.) Não sei dizer se chegaria aonde cheguei se eu tivesse todo o estereótipo do nordestino. Se existiu algum preconceito, acho que não prestei atenção porque estava empenhado em sobreviver.

Existe “literatura de Internet”?

MF – A Internet é um meio de circular as ideias, apenas isso. A Internet vai fazer do que você escreve um texto literário? Não. Tudo depende do que você escreve, produz. Mas que a Internet influencia muito a produção literária não há dúvidas. Da mesma maneira que o barulho das teclas de uma máquina de escrever influenciava no valor dramático de um diálogo. Quando fiquei sabendo da existência de blog, Orkut, msn, fui atrás. Não quero ficar ultrapassado, quero interagir e me contaminar. Tem coisa mais divertida do que nome de blog? Não pode é ficar com medo de mudanças. Se tiver de acabar o livro, que acabe o livro, porra!

Como é o seu trabalho com a cantora Fabiana Cozza?

MF – Nós fazemos o espetáculo Cantos Negreiros, que é baseado no meu livroContos Negreiros. Enquanto eu conto uns contos, ela canta uns cantos. Ela é uma cantora paulistana maravilhosa e tem um trabalho muito vigoroso. Há uma aura daqueles espetáculos que o Vinícius de Moraes fazia com a Maria Creuza ou do que a Clara Nunes fazia com o Paulo Gracindo. Não estou como ator em cena, mas é uma maneira de voltar aos palcos, à minha origem. Saiu um CD Contos Negreiros, pela editora Livro Falante. Em resumo, tudo volta ao teatro.

O que você diria para quem quer ser escritor?

MF – Vou dizer duas coisas. Quer dizer, a primeira eu vou dizer e a segunda o Millôr Fernandes. Escreva, escreva e escreva sem medo. Comunique-se, faça seu texto circular e tenha muito respeito pela palavra que você coloca no papel. Há muito desleixo por aí, um depósito de letras, de contos e poesias. Escrever se aprende escrevendo! E o Millôr diz: Tenham sorte!


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