MÁRCIO-ANDRÉ

POETA, PENSADOR E ANDARILHO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 marcioandre

 

Márcio-André é poeta. Mas não é daqueles que falam sobre o próprio umbigo. Seu olhar está voltado ao que acontece ao redor, nas cidades – principalmente no subúrbio, espaço pelo qual ele tem fascinação.

Carioca formado em letras pela UFRJ e mestrando em poética, Márcio administra seu tempo com a harmonia que busca em seu violino. Ele também mantém o grupo poético musical Arranjo para Assobio, trabalha como professor e é editor da Confraria do Vento.

“Escrevo ensaios. Agora estou escrevendo sobre a poética das casas. Não nasci para academia, ela é muito formal e, assim, perde tudo o que é lúdico. Resisto a entender o pensamento como algo cheio de amarras, burocrático e chato”.

Por que escrever?

‘’Meu trabalho é fruto de paixão, conflitos espirituais e intelectuais. Acredito em trabalho e não em talento. Escrevo muito, estou sempre anotando. Tenho um momento pela manhã para trabalhar, mas sempre dentro de um determinado projeto. Nada de racional, apenas um direcionamento”.

Depois de ter lido seu último livro, Intradoxos, fiquei com vontade de entrevistá-lo. O papo aconteceu num caótico fim de tarde, no Odeon BR, no Centro do Rio de Janeiro.

Quando você despertou para a literatura?

Márcio-André – Desde criança eu gostava de ler. Comecei a escrever aos 15 anos, mas, nessa época, não era muito claro o que eu gostaria de fazer. Gostava de ler Edgar Alan Poe, Baudelaire, quadrinhos e depois fiquei menos nerd. Estudei violino durante uns anos. Mas a vida foi me levando a esse caminho da escrita, do editor e da performance.

Como é essa relação com a música?

MA – Sempre gostei de música erudita, dos compositores modernos. Tive vontade de tocar em orquestra, então resolvi estudar violino. Mas não queria ser profissional, porque era preciso tanta dedicação que não daria tempo para ler e fazer mais nada. Aos poucos, então, fui abandonando a música e a usando como diversão.

Você tem um grupo poético-musical chamado Arranjo Para Assobio, certo?

MA – Sim. Mas na verdade a gente não o classifica, embora exista nele uma tradição de poesia sonora. Pegamos o elemento cênico que existe na poesia e o (re)acionamos. O poético não está só na palavra. O poético é o agir fundamental do homem, o que há de mais vital.

Poeta e professor. Como é essa relação com a academia?

MA – Escrevo ensaios. Agora estou escrevendo sobre a poética das casas. Não nasci para academia, ela é muito formal e, assim, perde tudo o que é lúdico. Resisto a entender o pensamento como algo cheio de amarras, burocrático e chato.

Por que você escreve?

MA – Porque não sei fazer mais nada. Tenho interesse por arte em geral, mas a escrita vem primeiro pela facilidade e proximidade. Se não soubesse escrever, creio que faria outra coisa na área artística. Mas não consigo deixar de escrever. Meu trabalho é fruto de paixão, conflitos espirituais e intelectuais. Acredito em trabalho e não em talento. Escrevo muito, estou sempre anotando. Tenho um momento pela manhã para trabalhar, mas sempre dentro de um determinado projeto. Nada de racional, apenas um direcionamento.

E suas referências?

MA – Sousândrade, Borges, Kafka, Haroldo de Campos, John Cage, Philip Glass, Caetano Veloso, Tom Zé, Uakit e a música regional brasileira… Ah, muita coisa!

Você acredita em Deus?

MA – Eu não poderia te responder porque você já me define deus. Não tenho religião. Mas se me perguntasse no que acredito, responderia: no mistério!

Seu livro Intradoxos tem uma estrutura peculiar: começa pelo fim. E a temática é muito diferente do que tenho lido, não fala do próprio umbigo. Você acha a sua poesia difícil?

MA – Só acha difícil quem quer achá-la difícil. É como quem lê mal porque tem preguiça de ler bem. Mais do que bons escritores, temos que ter bons leitores. E não necessariamente é preciso entender um livro para gostar dele.

Você tem medo de ser incompreendido?

MA – Sim, mas isso é o que mais acontece… Tenho medo de ser tido como algo que não sou: difícil e concretista. Não sou nada disso.

Que conselho daria para quem está começando a escrever?

MA – Leia bastante e seja humilde. A literatura é um caminho de autoconhecimento, então temos de respeitar isso.


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