MAURICIO DUARTE DOS SANTOS

RUMORES ALHEIOS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 mauricioduarte

 

Rumor Nenhum(7Letras), de Maurício Duarte dos Santos, incomoda. As palavras do poeta explodem de forma seca, os poemas ficam rondando a memória depois de lidos. Gosto especificamente de ”Esmola”:

A duas quadras do meu trabalho

estendo a nota de 1 real na mão espalmada

mas o menino continua sem origem

de olhos enterrados no rosto

muito sujo e pequeno demais pra sua idade.

Sentimentos vorazes ganham uma dicção muito própria no livro de estreia do poeta paulistano. O escritor pernambucano Marcelino Freire afirma na orelha do livro:

“Finalmente um livro publicado. Para dizer que a poesia não está morta. Há respiração. Mesmo que a inspiração para a estreia desse poeta seja vazia:Rumor Nenhum. Rumor de morte. Desde a infância a versos entregues a própria sorte. Luminosos, mesmos que obscuros”.

Concordo. Belo começo, poeta.

Por que poesia?

Maurício Duarte dos Santos – Acho que não dá para dizer que a poesia foi uma escolha. Como leitor, por exemplo, apesar de ler bastante poesia, leio muito mais prosa. Acho que simplesmente a poesia, o gênero poesia, se adequou melhor ao que eu tinha para dizer. Acredito que na literatura há uma tensão permanente entre o que se quer dizer e o que se consegue dizer. Os temas estão aí. O necessário é encontrar uma dicção apropriada, que se encaixe. Transformar tudo isso numa linguagem possível. A linguagem que encontrei foi a poesia. Mas isso não quer dizer necessariamente que eu tenha parado para pensar nisso. Foi natural. Escrevo prosa também, contos curtos, mas muito de vez em quando. A poesia exerce uma atração natural em mim pelo poder de concisão, e principalmente pelas imagens. Minha cabeça funciona o tempo todo através de imagens. E acredito que poesia é uma fusão entre discurso e imagem. É um exercício fascinante encontrar imagens num poema, ou durante a construção de um poema. Talvez por isso eu tenha ido por esse caminho.

As pessoas estão interessadas em poesia?

MDS – De maneira geral, não. Pelo menos aqui no Brasil. Consome poesia quem escreve poesia, mesmo que naquele caderninho que não mostra para ninguém. Se, por um lado, cada vez mais aparecem eventos literários, poesia na rua, na periferia, saraus, por outro lado o grande público leitor permanece afastado. Porque esses eventos só atraem o interesse de quem está dentro do movimento, de quem, de alguma maneira, faz parte do círculo literário e da poesia, com raras exceções. Dificilmente você encontra um leitor de poesia que não escreva, mesmo que prosa, embora geralmente escreva poesia mesmo. A poesia está restrita a guetos. Sempre esteve e não é diferente agora. E também não gosto de bater muito nessa tecla de que as pessoas não têm acesso. O que elas não têm é referência. É outra coisa. Porque mesmo gente instruída não se interessa por poesia. Conheço muitas pessoas com formação altamente qualificada que sequer sabem quem foi Manuel Bandeira. A poesia tem uma linguagem um pouco mais demorada de digerir, mais reflexiva, uma emoção mais condensada, então é normal que ela não tenha tantos leitores como um romance ou um livro de contos – que também podem ser bem espinhosos, mas o leitor já está mais acostumado com o formato, não o assusta. Infelizmente, as pessoas ainda se assustam um pouco com poesia. Mesmo no século XXI, a luta ainda é para dessacralizar o poema, mostrar que ele pode fazer parte do cotidiano do sujeito, pode estar na televisão, no jornal. Mas isso ainda está longe de acontecer. É uma pena.

Quais são suas influências?

MDS – Muita coisa me influencia, e não só literatura. Pessoas, músicas, filmes, tudo isso é influência. O Bob Dylan, por exemplo, é uma influência para mim. Se for para citar nomes, sempre vai ser injusto, porque vou acabar esquecendo alguém. No entanto, sempre há aqueles autores que, independente da influência direta no que escrevo, são absolutos na minha formação. Aí poderia citar Faulkner, Dostoiévski, António Lobo Antunes, Raduan Nassar, Lúcio Cardoso, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Drummond, Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Walt Whitman, Antonio Cisneros, entre outros. Mesmo alguns poetas contemporâneos brasileiros foram muito importantes para mim, e aí cito com segurança, entre outros, Carlito Azevedo, Paulo Henriques Britto, Heitor Ferraz e Eucanaã Ferraz. Lembrando que, obviamente, muita gente importante ficou de fora.

O curso de Letras contribuiu para sua produção poética?

MDS – Acabei trancando o curso e não terminei. É claro que acrescenta, não há dúvida, principalmente na parte teórica, no conhecimento da crítica. Além do contato mais aprofundado com os autores. No meu caso, porém, somou ao que eu já tinha de conhecimento adquirido, pois sempre tive interesse em ir atrás das coisas, ler e estudar literatura por conta própria. Mas ninguém pode achar que um curso de Letras é uma escola de escritores. Há muita gente que confunde e faz pensando nisso. Não é assim.

E o trabalho de jornalista influencia?

MDS – Não acho que influencie diretamente. Houve um tempo em que a literatura dialogava mais com o jornalismo. Hoje já não é assim, salvo alguns raros espaços na imprensa. O jornalismo é muito imediato, e a literatura exige reflexão. Tempo para trabalhar o texto, para apurar. Isso praticamente acabou. O que influencia minha produção são outras coisas: leituras, músicas, filmes, tudo que assimilo de outras artes e também o dia a dia, a memória, a observação, etc. O jornalismo talvez esteja no pacote do dia a dia, da vivência. Mas não dá para dizer que, isoladamente, é uma influência.

Por que convidou Marcelino Freire para escrever a orelha do livro?

MDS – Marcelino é, antes de tudo, um amigo. Tirando isso, é um escritor que admiro e foi um cara que deu força para meu trabalho começar a circular, além de contribuir com palpites e orientações na produção do livro, nos poemas e tal. Pensando em tudo isso, a escolha foi lógica.

Por que Rumor Nenhum?

MDS – Confesso que tenho dificuldade com títulos. Porém, quando escrevi um poema cujo título é Rumor Nenhum, pensei imediatamente que esse seria o nome do livro. Penso neste poema como espinha dorsal do livro, o que torna o título coerente com todo o resto. O poema fala de uma tentativa de assimilar o passado, de aquietar a memória, o tempo, que estão sempre nos assombrando. Somos feitos justamente daquilo que não queremos lembrar. Isso é muito presente no livro. Portanto, não poderia ter outro nome.

Alguns de seus poemas têm o olhar voltado para o social. Por quê?

MDS – Sinceramente, não é minha preocupação literária, no sentido de escrever pensando no social, como se fosse uma responsabilidade. Acho que a arte não deve nada a ninguém. Não acho que um escritor que isole completamente de sua obra o fator social deva ser julgado por isso. Pelo contrário. Existem bons e maus escritores, isso é tudo. Se existem uns poucos poemas com esse teor em meu livro, é porque foram elaborados de maneira natural. Vivo em uma cidade grande e convivo com a situação de miséria nas ruas todos os dias. Sou um ser urbano. Nada mais comum do que aparecerem alguns poemas que levem o lado social em consideração. Mas acho que a maior parte do livro se direciona para outro viés: das reminiscências familiares, da morte, do estar imediato, até do amor. Acho que a parcela do livro voltada para o social, para a realidade que me circunda, não deve desaparecer daqui para frente, mas também não é de forma alguma uma obrigação.

Você escreve às segundas no blog Haja Saco. Por que um só dia na semana?

MDS – O blog foi uma criação conjunta de 5 jornalistas, contando comigo. E ficou combinado que cada um escreveria num dia da semana. Fiquei com a segunda-feira. Assim, a atualização é diária e não pesa para ninguém. O bom é que temos estilos diferentes, então o leitor consegue enxergar claramente uma identidade para cada colunista. Não tenho competência nem disciplina para ter um blog individual, com atualizações diárias de qualidade. Uma vez por semana é suficiente. O Haja Saco é livre para escrevermos o que quisermos: crônicas, contos, ensaios, poemas, críticas. Já existe há 1 ano e 7 meses e continua indo bem. Realmente, em termos de acesso e retorno dos leitores, superou bastante nossas expectativas.

O que alguém precisa para ser escritor?

MDS – Ler. E não se incomodar com o fracasso.


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