MAURO SANTA CECÍLIA

ENTRE LETRAS E MÚSICAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 maurosanta

 

Pode-se dizer que Mauro Sta. Cecília é abençoado. O poeta, letrista e romancista tem o nome da padroeira dos músicos – Santa Cecília – em seu sobrenome. Também carrega a imagem da mulher canonizada, tatuada na pele, junto com outros desenhos de significados intensos.

Quantas tatuagens?

“Treze. Tem ‘O acrobata’, do Picasso. Tem a Santa Cecília, padroeira da música” , e completa:

“Eu não podia ter outro nome. E não tenho outro sobrenome, é só Mauro Santa Cecília. Isso na época de colégio era um inferno, já fui muito sacaneado, ’Santinha’, ’Cecília’… Ficava me questionando porque o meu pai tinha me dado esse nome. Demorei a descobrir que Santa Cecília é a padroeira da música.”

A relação com a música parece fortalecer sua escrita; as suas palavras têm um ritmo muito próprio. No seu romance de estreia, Cão de Cabelo (Língua Geral), a história do letrista pobre é inserida nos bastidores do universo musical – lugar que Mauro Sta. Cecília conhece bastante.

“Comecei a escrevê-lo em duas etapas, iniciei o processo em 2003. Mas tive que parar para escrever letras para o Barão (Vermelho), que ia lançar um disco de inéditas. Mais ou menos cem páginas ficaram guardadas e só fui mexer nelas novamente dois anos depois. O que me ajudou muito a voltar para o livro foi o fato de ter ouvido as mesmas músicas durante o processo de trabalho. Zeca Pagodinho, Radiohead, Cartola, Nelson Cavaquinho, Edith Piaf… Uma mistura absurda”.

A relação com arte chegou através da poesia, mas foi com a letra da música “Por Você”, gravada pelo Barão Vermelho, que Mauro ganhou projeção. Ele diferencia música de poesia, mas é evidente que elas estão misturadas em todo seu trabalho. Além do romance, ele tem outros dois livros publicados: Olho Frenético (Aeroplano) e A Todo Vapor (7Letras).

Uma conversa, num fim de tarde de domingo, enquanto tomávamos um chopp e jogávamos músicas e palavras numa mesa de bar, no Leblon, no Rio de Janeiro.

Como foi esse processo de publicação do primeiro romance?

Mauro Sta. Cecília – Uma coincidência muito grande. Tinha lido no jornal que a editora Língua Geral publicaria novos autores. O Frejat é muito amigo da Coni (Conceição), sócia da editora. Quando terminei o livro, pensei em procurá-la para apresentar o trabalho, mas ela veio falar comigo durante uma festa na casa do Frejat.

Como surgiu o livro Cão de Cabelo?

MSC – Comecei a escrevê-lo em duas etapas, iniciei o processo em 2003. Mas tive que parar para escrever letras para o Barão (Vermelho), que ia lançar um disco de inéditas. Mais ou menos cem páginas ficaram guardadas e só fui mexer nelas novamente dois anos depois. O que me ajudou muito a voltar para o livro foi o fato de ter ouvido as mesmas músicas durante o processo de trabalho. Zeca Pagodinho, Radiohead, Cartola, Nelson Cavaquinho, Edith Piaf… Uma mistura absurda. Fiz o teste da gaveta e, em seguida, terminei o livro. Dois meses depois, negociei com a Língua Geral.

Você consegue escrever ouvindo música?

MSC – Antes desse romance tinha dificuldade, mas agora já adotei esse método no processo do próximo livro. Sempre fui um cara muito curioso. Poesia é a base do que escrevo. Mas sempre tive vontade de escrever um romance. Eu não sabia se conseguiria porque a minha formação sempre foi voltada para o texto curto: poesia, letra de música… E o romance é o outro lado disso. Adorei escrevê-lo, brincar de Deus.

Você teve dificuldade de passar da poesia para o romance?

MSC – A poesia está na essência do que escrevo. Aconteceu uma coisa engraçada durante a criação desse livro. Eu estava sem saber como seria o final do Lelo (protagonista) e ganhei um flyer escrito “Matelelo”. Entendi: mate Lelo. Descobri o caminho do personagem. A literatura chegou primeiro – com a poesia –, mas a música sempre foi muito presente na minha vida. Não sou músico, sou letrista. Não penso a composição a partir da melodia. Tenho a sorte de compor com pessoas que gostam de fazer a melodia a partir da letra. Tenho dificuldade em “letrar” a melodia. Sei muito bem que letra de música é uma coisa e poesia é outra completamente diferente. A música me dá a cadência das palavras num trabalho literário.

E qual a diferença entre a poesia e a letra de música?

MSC – A poesia é autônoma, independente, se sustenta sozinha. A letra de música pode não ser boa no papel. A letra de música depende do refrão, do que se está cantando. Ao mesmo tempo, não necessariamente uma boa poesia dá uma boa música. O processo de criação do romance é mais disciplinado. Letra de música faço tomando chope, numa mesa de bar.

Geralmente um compositor é um bom poeta?

MSC – Acho que não. Poetas e músicos são parentes, mas não necessariamente fazem as duas coisas bem. Por exemplo, a minha primeira letra gravada foi “Por Você”, que fez sucesso com o Barão Vermelho. Eu a escrevi como poesia, mas o Maurício Barros e o Frejat a transformaram em letra de música. Assim, comecei aprendendo na prática essa diferença. Conheço o Frejat desde a época do colégio, quando nos reencontramos resolvi mostrar o que eu estava escrevendo; ele gostou, mas disse que eu fazia poesia e não letra de música. Depois, lhe enviei “Por Você”, e ele disse que dava música. Seis meses depois, me ligou e a colocou no telefone para eu ouvir; lágrimas rolaram, muita alegria.

O que mudou depois que a sua música fez sucesso?

MSC – A minha vida. Tive muita sorte no meu início como letrista, pois, apesar de pertencer à mesma geração das pessoas com quem comecei, só passei a escrever letra de música aos trinta e seis anos. Fui beneficiado por começar com pessoas que tinham mais de vinte anos de experiência. A minha primeira música gravada tocou na rádio; tive sorte! Mas, antes de começar a escrever, errei muito na vida, fiz coisas que não tinham nada a ver comigo; sou formado em direito, pode? Também fiz mestrado em letras, mas não defendi a tese – vi que o meu lugar não era a vida acadêmica, e sim a criação.

Quer dizer que você é formado em direito?

MSC – Antes de me tornar letrista, bati muito na trave; a minha história de vida tem muito de tragédia e comédia. Na época em que as coisas aconteceram, foi trágico, mas hoje fico rindo. Por exemplo, já sabia que direito não era o meu lance, mas continuei. Depois que me formei, fui procurar um emprego. Fiz uma entrevista em um escritório, e os executivos quiseram me contratar – me mandaram voltar na semana seguinte –, mas o prédio pegou fogo no dia marcado para a contratação. Foi o edifício Andorinhas. (Risos.) Porra, além disso, também fui reprovado em um concurso público, numa prova de português – o que eu sabia fazer melhor! Hoje rio, mas, quando essas situações aconteceram, fiquei muito mal, me senti o último dos últimos.

A vida acadêmica atrapalha o processo de criação?

MSC – Acho que, em geral, sim. Mas são duas coisas que se complementam. Foi muito bom ter feito mestrado. Hoje tenho base para saber quem é quem na literatura.

Você também já trabalhou no consulado do Japão. Como foi essa história?

MSC – Durante quatro anos, trabalhei no consulado, como redator e assessor de análise política. Minha função era escrever discursos e cartas diplomáticas, e ler todos os jornais para explicar a política brasileira para o cônsul. Era surreal! Todos os dias eu ia para um exílio, sem falar nada de japonês. Foi um período complicado, mas muito rico. Eu tinha um horário muito rígido. Falavam: “Tem que chegar às nove horas, Mauro!” Logo eu, que sou boêmio. No primeiro dia útil do ano de 1998, entrei na sala do chefe e pedi demissão para tentar viver de escrever. Nesse mesmo ano, saiu o disco do Barão Vermelho, com “Por Você”.

É possível viver de literatura?

MSC – É possível viver na corda bamba. Somos meio acrobatas. Basicamente, vivo do direito autoral das músicas.

Com o download de música ainda é possível viver de direito autoral?

MSC – Faz dez anos que vivo das letras de música. Mas já vivi altos e baixos. Já viajei muito e também já vendi uma aliança para sobreviver. Com os downloads, estou ganhando menos do que há dois anos. Por isso quero expandir a minha criação. A música é o meu forte, mas também escrevo literatura.

Você baixa música na Internet?

MSC – Não. Não me habituei a isso. É uma questão ética, é a minha profissão. Não gosto da qualidade.

Qual seria a solução para essa questão do direito autoral?

MSC – Estamos vivendo um período de transição, não se sabe exatamente o que acontecerá daqui para frente. O CD está morrendo, agonizando, mas a música não acabará. O mercado vai ter de encontrar um jeito de remunerar dignamente o compositor. Não sei como e nem quando isso vai acontecer. Assim, a música vai acabar. Nessa situação toda quem perde mais é o compositor.

Você também escreve para teatro. Lembro-me de ter assistido O Rei dos Escombros, com o Ricardo Petraglia…

MSC – Essa peça do Ricardo escrevi com a Ana Paula Maia. Na verdade, foi uma peça meio louca, pois o Ricardo começou com a Ana Paula, mas eles não fecharam a ideia. Logo fui convidado para escrever, mas peguei o bonde andando. Conheci a Ana Paula depois da peça montada. Agora, acabo de escrever Amor Bicho Instruído, com a atriz Tessy Callado. É uma batalha. Estou escrevendo um musical com o escritor e produtor Bruno Levinson.

Quantas tatuagens você tem?

MSC – Treze. Tem “O acrobata”, do Picasso. Tem a Santa Cecília, padroeira da música.

Santa Cecília é seu nome artístico…

MSC – E nome de batismo. Ela é padroeira da música, isso é incrível! Eu não podia ter outro nome. E não tenho outro sobrenome, é só Mauro Santa Cecília. Isso na época de colégio era um inferno, já fui muito sacaneado, “Santinha”, “Cecília”… Ficava me questionando porque o meu pai tinha me dado esse nome. Demorei a descobrir que Santa Cecília é a padroeira da música.

Você tem religião?

MSC – Estudei em colégio de padre, o que faz com que eu seja avesso à Igreja. Mas tenho minha conversa com Deus, longe de instituição religiosa.

De tudo o que você faz, o que lhe proporciona mais prazer?

MSC – Acho que é a bola da vez. Será sempre o que estou fazendo no momento. Mas estou muito empolgado com o romance. Muitas pessoas têm me falado da relação do livro com o cinema. Estou experimentando escrever novela, o gênero literário. Mas Cão de Cabelo ainda está muito vivo; tenho tido um retorno muito maior com o romance do que com a poesia.

Qual a diferença entre Olho FrenéticoA Todo Transe e Cão de Cabelo?

MSC – Quando escrevi A Todo Transe, não tinha começado como letrista. Já oOlho Frenético veio depois de eu ter lançado “Por Você”, então recebi atenção maior da mídia. E, agora com o romance, percebo boa receptividade, embora a crítica tenha um pouco de desconfiança. Só vou conquistar com o trabalho de romancista no próximo livro.

O Rio de Janeiro está muito presente em seu livro. O Rio influencia a sua produção artística?

MSC – O Rio influencia muito. A rua e a geografia urbana me atraem. Caminhar, ficar perto do mar, é muito importante para mim. Na primeira versão, não localizei a história no Rio de Janeiro. Mas depois o meu editor, Eduardo Coelho, leu o livro, fez uma análise sensível, e sugeriu que a história fosse localizada no Rio. Eduardo é um jovem culto, muito sensível com a literatura.

Quais são as suas influências mais fortes?

MSC – Drummond, o meu primeiro contato com a poesia. Depois o Chacal, que me transformou e mostrou que poesia coloquial era possível. A família nunca me deu força; não tive o menor incentivo em casa, ainda que hoje em dia, eles tenham muito orgulho. Mas sempre fui muito bom em português, desde a infância. Fui procurando conhecer o que estava à minha volta: Clarice Lispector, Guimarães Rosa. A TV também influenciou muito, sou da primeira geração da televisão. Na música tem o Chico Buarque, Bob Dylan… Dos novos escritores, gosto do (João Paulo) Cuenca, Ana Paula Maia, Jonathan Safran Foer, Efraim Medina Reyes…

Por que você escreve?

MSC – Porque é o que mais gosto de fazer e o que faço melhor. A minha forma de expressão preferida.

O que você diz a quem quer se dedicar à arte?

MSC – Acho que se a pessoa puder evitar, melhor, porque é muito difícil; os ganhos existenciais são maiores do que os financeiros. Se essa vontade não for vital, deve-se fazer outra coisa. Mas se é isso o que o move na vida, deve ir de cabeça!  


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