MURILO SALLES

PARA ALÉM DA COMÉDIA ROMÂNTICA E DA BARBÁRIE COTIDIANA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo 2009]

    

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O cineasta Murilo Salles começou a fazer cinema aos 14 anos, sempre transitando entre filmes de ficção e documentários. Desta forma, Murilo foi traçando um caminho autoral que resultou num de seus filmes mais ousados: Nome próprio— baseado na obra da escritora Clarah Averbuck.

Nome próprio foi um projeto que se alongou na minha vida, foi difícil porque não tinha muito a ver comigo. Eu, em 2002, li a história da Clarah. Por que me interessei pelos blogs? Na verdade, exatamente linkando as coisas, eu estava interessado num Brasil diferente. Naquele momento, estava saindo a questão do Brasil no Orkut… O brasileiro é o povo que mais fica conectado no mundo.”

Mais do que um filme sobre o universo dos blogs, Murilo acredita que o grande mergulho foi nas idiossincrasias do mundo feminino, representado na personagem Camila através da atriz Leandra Leal. Uma experiência única para o diretor: “Posso dizer que depois de 40 anos estou descobrindo o que é fazer cinema. E isso é lindo, está me revitalizando muito. E isso se deve um pouco aoNome Próprio, foi um filme que eu mergulhei muito para dar conta dessa questão do feminino.” E continua: “No Brasil existe um aprisionamento, o cinema brasileiro se tornou o seguinte: uma comédia romântica meio idiota para blockbuster. Ou, então, filme da barbárie para ganhar um festival internacional. Tem que ser filme da barbárie, da miséria, violência e corrupção”, critica.

Como o cinema brasileiro pensou o Brasil? É o que Murilo Salles tem-se perguntado, e esta conversa é uma extensão de seus pensamentos sobre o tema. “O cinema, principalmente o contemporâneo, o cinema de que eu gosto, é ficção. Acho que a história da vida da gente é a construção de uma grande ficção. A gente constrói a nossa narrativa, ela é baseada no real.”

O filme Nome próprio, baseado na obra da escritora e blogueira Clara Averbuck, saiu há pouco em DVD. Como surgiu o interesse pelo universo dos blogs?

Murilo Salles- Eu não tinha o interesse de mergulhar no universo dos blogueiros, sempre que acabo um filme persigo outra ideia. No Brasil existe um aprisionamento, o cinema brasileiro se tornou o seguinte: uma comédia romântica meio idiota para blockbuster, se possível uma história que as pessoas já sabem — requentar uma sopa, uma canja. Nada melhor do que uma canja requentada. Ou, então, filme da barbárie para ganhar um festival internacional. Tem que ser filme da barbárie, da miséria, violência e corrupção. A ideia de um Brasil em transe, colonialista, ainda cinema novo. O país está mudando, desde os anos 1960, mudou muito. Isso tudo me move, penso nessas questões na hora que vou escolher meu próximo filme. O Nome próprio foi um projeto que se alongou na minha vida, foi difícil porque não tinha muito a ver comigo. Eu, em 2002, li a história da Clarah. Por que me interessei pelos blogs? Na verdade, exatamente linkando as coisas, eu estava interessado num Brasil diferente. Naquele momento estava saindo a questão do Brasil no Orkut… O brasileiro é o povo que mais fica conectado no mundo, entendeu? Falei: “Uau! Aqui tem o brasileiro diferente, bacana.” Li na coluna da Cora Rónai, n’O Globo, que havia uma blogueira gaúcha — Clarah Averbuck — que tinha o oitavo blog pessoal mais visitado do mundo, naquela época. E ela ia lançar um livro sobre as experiências dela na Internet. Achei aquilo interessantíssimo. Descobri, fiz uma pesquisa, entrei em contato com a Clarah, e comprei meio sem saber. Isso me fez mergulhar no universo da Internet, dos blogs. Mas, na verdade, até a Clarah questiona: ela diz que não é uma blogueira, mas uma escritora.

Tem essa questão, a Clarah critica o filme…

MS – Ela fala que eu alterei o texto dela. Pois é, eu alterei realmente. Ela tem uma coisa meio piadista, meio…

Irônica?

MS – Não é uma questão só de ironia. É uma questão, talvez, de uma pegada mais “comédia da vida privada”, que achava um pouco usada demais. Achava que a pegada cômica dela era muito clichê. O que me interessou foi o universo da mulher, do feminino. Fui descobrindo que, além de fazer um filme sobre Internet e Brasil, era uma mulher que estava falando aquilo tudo. Eu disse: “Caramba! Aqui é uma mulher — e um universo — muito poderosa na feminilidade, no transbordamento feminino, na atitude feminina.” E muito moderna; contemporânea — moderna é antigo. E isso era uma pegada muito nova, aí deu um clique. Mas até eu pegar isso, da Internet e cair no feminino demorou dois anos. Essas fichinhas não caem rápido. Um filme que foi sendo muito modificado nos seus novos tratamentos: dezoito novos tratamentos antes de filmar. Trabalhei com duas roteiristas (Elena Soarez e Melanie Dimantas). Depois que estreei no Odeon (no Festival do Rio, em 2008), eu ainda tirei quatorze minutos do filme. Os homens ficam muito perturbados com o filme: “Essa louca!” Tem muito esse estigma da mulher, da feiticeira. Os homens sempre tiveram muito medo da mulher porque a história da humanidade é masculina, a história da guerra. É o ponto de vista dos homens, não é o ponto de vista da mulher. O que foi a segunda fase do século XX? O feminino, a instância do feminino. Essa questão caiu na minha cabeça. Freud tinha medo de mulher, todo homem tem. Elas são as grandes feiticeiras, guardiães, porque nos geram e fascinam. O filme é também sobre o feminino, embarquei nessa, transformando minha personagem no desejo de ser escritora. Aí eu concordo com a Clarah: oblog é só um veículo. A questão da literatura é maior do que a questão do blog. Claro que existe literatura de blog, mas a literatura não pertence ao blog. A literatura é uma forma de narrar, independente do veículo em que ela está.

Você utilizou a tecnologia digital para filmar e também na divulgação do filme, através de blogs. Fale sobre a influência das mídias digitais no seu trabalho.

MS – Tenho uma produtora chamada Cinema Brasil Digital, mas o “digital” está relacionado ao “dígito” (mostra o polegar) pessoal. O mundo digital é sempre bem-vindo. Mas nós, terceiro-mundistas, temos que olhar com muito cuidado para a questão da tecnologia para não virarmos prisioneiros. A tecnologia é uma ferramenta, não pode virar um aprisionamento. O cinema brasileiro se aprisionou um pouco num gigantismo tecnológico, que ele pretendeu e pretende. Mas que dá conta muito bem por causa da publicidade no Brasil. Hoje, no Brasil, fazemos um cinema de ponta, tecnologicamente falando. Isso tem um preço. Eu, que estou fazendo um filme com baixo orçamento, mergulhei nesse caminho. Talvez, o filme Nome próprio tenha me ajudado a tomar essas decisões com melhor clareza. Antes, eu já havia feito um documentário em que usei um PB 150 e me apaixonei muito pelo formato pequeno da câmera, de ela virar realmente uma ferramenta na mão.

Em Nome próprio, eu faço a câmera, mais do que a fotografia que a Fernanda (Riscali) realmente me ajudou a pensar e executar tecnicamente. Para mim, esse filme, é a câmera e o corpo da Leandra (Leal), a alma da Leandra. E a alma desse ser que a gente construiu, chamado Camila. Então, tinha de ter uma coerência com essa estética na hora do lançamento. E a gente ficou assim: “O que a gente vai fazer para lançar?” Obviamente, um filme de baixo orçamento, não tinha muito dinheiro. E falaram: “Vamos fazer um site!” Entrei no site do Batman e entendi que não dava, com o dinheiro que a gente tinha, ia ficar ridículo. Um amigo, o Giba, me disse: “Você tem que fazer um blog, as pessoas estão a fim de falar com o diretor. Pessoalidade.” E insistiu: “O Fernando já está fazendo o blog do Ensaio sobre a cegueira… Entra lá, de vez em quando, ele responde as pessoas.” Juntamos com o Leozinho (Leonardo Bittencourt) e, com o movimento de uma turma na produtora, fizemos o blog. Também chamamos uma amiga da Clarah, que é uma divulgadora internáutica, que trouxe oMySpace. Assim, fizemos uma rede de gente bacana, uma turma virtual. O filme foi um sucesso, posso dizer. Para um filme que teve R$ 150 mil de lançamento, nós tivemos 40 mil espectadores.

O que mudou no Murilo que começou a fazer cinema aos 14 anos — e ganhou vários prêmios — para o Murilo que está filmando hoje? Como você avalia sua trajetória de cineasta?

MS – Eu sou muito fruto de um desamparo. No cinema brasileiro, teve aquela turma que fez o Cinema Novo, eu seria uma terceira geração. Eu cheguei a trabalhar com (Arnaldo) Jabor, mas fotografei o filme dos assistentes. O Jabor nunca foi um cinema-novista, mas ele é uma segunda geração. Fotografei filme do Prates. Eu sou um pouco essa terceira geração, então fiquei um pouco sem ideologia. Eu sou utópico, apesar de achar ruim. A utopia é no dia a dia, a sua revolução é diária. A revolução do ser humano é individual, no pequeno coletivo. Depois você vai expandindo para o grande coletivo. Como é que eu trato meus filhos, meus amigos, minha mulher, as pessoas com quem trabalho? Essas relações que tem que ser revolucionárias. Como vejo minha carreira? Minha carreira foi indo por uma onda. Não peguei a Novelle Vague, não embarquei nesse grande pensamento que foi o Cinema Novo. Então, fui fazendo uma experimentação de vida. Posso dizer que depois de 40 anos estou descobrindo o que é fazer cinema. E isso é lindo, está me revitalizando muito. Acho que, mais ou menos, estou fazendo os meus primeiros filmes. E isso se deve um pouco aoNome próprio, um filme que mergulhei muito para dar conta dessa questão do feminino. Sou um homem, nunca usei a Internet, até hoje não entrei no Orkut,FacebookTwitter… Não consigo entrar nessas coisas. Já visitei, vi como é que é, mas não. Tô fora! Não tenho tempo pra isso. A Internet é uma ferramenta genial, mas tenho outras coisas que me tomam muito tempo. Por exemplo, pensar meus filmes. Não sou um cara rápido, penso muito. Sou considerado muito racional.

Você faz documentário e ficção. Nome próprio seria a mistura dessas linguagens? Como é a relação entre a ficção e a realidade nos seus trabalhos?

MS – Exato. Eu estava falando com o Chico Diaz que o cinema trabalha muito com a matéria onírica do real, que é o verossímil. O cinema, principalmente o contemporâneo, o cinema de que eu gosto, é ficção. Acho que a história da vida da gente é a construção de uma grande ficção. A gente constrói a nossa narrativa, ela baseada no real. Minha ficção mergulha no real. Preciso dessa esfregação de tempos em tempos. Agora, por exemplo, vou começar a fazer um documentário, um longa. Um filme, em primeira mão, sobre como o cinema brasileiro pensou o Brasil. Exatamente essas questões que comecei. Por que saiu tão fácil? Porque estou pensando muito nisso. Qual foi o primeiro pensamento de uma imagem, de uma ideia de brasilidade? Foi Humberto Mauro, fundador de uma questão nacional. Como é que os estrangeiros viam o Brasil? Depois a Atlântida, uma questão complexa, uma mistura: Oscarito, Grande Otelo e uma tentativa mambembe de imitar Hollywood. É muito patético e lindo porque temos seres humanos maravilhosos naqueles filmes. Uma concepção patética de espetáculo e brasilidade. E, depois, vou para São Paulo, a Vera Cruz, que vou chamar de São Paulo SA, que tem um pensamento de Brasil — hoje imperativo. E, por fim, o Cinema Novo. E o apêndice do Cinema Novo, com Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Andrea Tonacci.


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