NÉLIDA PIÑON

PALAVRAS E MEMÓRIAS AFETIVAS

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

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A escritora Nélida Piñon é consagrada no Brasil e no exterior, onde sua obra já foi traduzida em diversos países. Em mais de três décadas dedicada a sua grande paixão — a literatura —, Nélida construiu a carreira com palavras que estão intimamente ligadas à vida.

“A literatura como que me guiou, foi uma luz que me fez pensar, ter paixão e olhar o outro — não como quem o olha como mirada passageira e volúvel —, me fez interpretar os códices antigos. Por isso, me tornou uma mulher arcaica e moderna ao mesmo tempo.”

Nascida em Vila Isabel, descendente de galegos, Nélida extrapola os limites da ficção, suas histórias, principalmente os romances, relacionam as raízes culturais latino-americanas através de um constante mergulho em suas memórias.

Em Coração andarilho (Record, 2009), seu livro de memórias, a romancista resgata lembranças da família, como o seu avô Daniel — anagrama do nome Nélida — e o seu pai, que por anos esteve em silêncio em sua escrita.

“A presença do meu avô, Daniel, foi sempre muito marcante ao longo da minha vida. Em muitas oportunidades, falava nele. Mas, talvez, a presença mais destacável nesse livro é a de meu pai, que esteve soterrado durante anos e anos, sobre quem eu falava só o mínimo necessário.”

A primeira mulher eleita presidente da Academia Brasileira de Letras, respondeu às perguntas com simpatia e humildade, permitindo entender que literatura só é possível com “paixão pela escrita” e “audácia de criar.”

Nélida, vamos começar com Coração andarilho, seu livro de memórias. Daniel, seu avô, é resgatado por lembranças. Daniel é anagrama do seu nome, Nélida. Fale um pouco da relação com esse livro.

Nélida Piñon – A presença do meu avô, Daniel, foi sempre muito marcante ao longo da minha vida. Em muitas oportunidades, falava nele. Mas, talvez, a presença mais destacável nesse livro é a de meu pai, que esteve soterrado durante anos e anos, sobre quem eu falava só o mínimo necessário. Não que eu não o amasse, mas é que sofri muito com sua morte. Eu teria meus 22 anos e de repente… Ele era o meu amparo. Havia uma relação, não digo ambígua, mas de mistérios: ele me introduziu a Machado de Assis, me fazia ler; olhava para mim entendendo que aquela não era uma filha comum, mas singular e ao mesmo tempo amorosa. Ele não conseguiria me controlar, a filha nascera para ter asas. Acho que percebeu isso, tanto que não conseguia me dar mesadas — era o homem mais generoso com essa filha, que era eu, e passou a me enviar flores, rosas vermelhas, aos 15 anos. Uma generosidade, uma delicadeza sem fim. Então, deixei de falar nele. De modo que a sensação que tenho, a partir do desenvolvimento das evocações das lembranças, é a de que ele começou a exigir visibilidade, provas de amor e apreço. Quis espaço público, o meu pai. Já o meu avô, seguindo a sua indagação, sempre foi muito visível, sempre falei muito nele. Mas claro que agora dou um contorno, um entorno social, um entorno sociológico, quase antropológico, da sua origem e da composição dos nossos dois imaginários: o espanhol, especialmente galego, e o brasileiro. De alguma forma, ele aglutina os membros da família, que é o Brasil. Uma metáfora do Brasil, as comidas na casa dele, né? Como se a nossa família se bastava entre eles. Com isso, aquela família ao desembarcar aqui sabia que tinha como destino amar este país. Mas tinha como destino, também, preservar as próprias tradições, atar uma alma à outra. E eu fui a menina que percebeu o desenrolar desse espetáculo afetivo e, vamos dizer, cultural.

Você é filha única?

NP – Sou filha única.

Nunca teve vontade de ter filhos?

NP – Não, nunca tive.

Por quê?

NP – Essa é uma resposta muito íntima que não vou lhe dar agora (risos).

(risos) Não tem problema.

NP – Acho o seguinte: sou muito amorosa, mas um filho exige devoção absoluta, de mãe e de pai. Não só de mãe, de mãe e de pai. Percebi, desde cedo, que não tinha temperamento para uma vida estável, conjugal. Não tinha. Sempre me percebi grande aventureira, o que, de verdade, fui sempre. Responsável, séria, mas aventureira. Não desejaria ter um filho que não tivesse um lar. Eu tinha como paradigma da maternidade a minha mãe, que foi excepcional, então não poderia fazer por menos. E a literatura já era uma paixão, como a vida era uma paixão. Eu era uma espécie de Simbad, o marinheiro, marinheira, singrando pelos Sete Mares. Minha vida tem sido de grandes aventuras: afetivas, amorosas, da criação… Até hoje sou uma espécie de Ulisses, não cheguei a Ítaca, não cheguei. Estou navegando o tempo, sendo seduzida pela Circe, pelos deuses, por todo mundo… Tenho uma vocação cultural muito intensa, mas não quero dizer vocação acadêmica, intransigente. Não. A minha vocação cultural é entender todos os povos, sou uma grande mestiça. Então, dentro desse caldo de cultura e dentro desse quadro, eu não teria sido a mãe que acho necessário quando se tem um filho, isto é, a mãe cuja grande paixão da vida é o filho.

Até porque a sua devoção foi para a literatura.

NP – Foi para literatura.

Como é ficar mais de trinta anos dedicada a uma paixão?

NP – Não é “como”, ainda é. Nunca reduzi esse ímpeto, me sinto apta para amar a literatura. Mesmo que o mundo dos seres possa, eventualmente, me decepcionar ou que a própria literatura, às vezes, não corresponda às minhas expectativas. Nada disso importa para mim. Acredito, piamente, que ela me deu tudo: me deu a compreensão, me fez pensar, não me reduzir à mesquinharia e mediocridade do cotidiano. Ajudou-me a entender que esse cotidiano, mesmo trivial ou até banal, é extraordinário e está a serviço do homem, da interpretação e da história do homem. A literatura como que me guiou, foi uma luz que me fez pensar, ter paixão e olhar o outro — não como quem o olha como mirada passageira e volúvel —, me fez interpretar os códices antigos. Por isso, me tornou uma mulher arcaica e moderna ao mesmo tempo.

Você fala dessa duplicidade, diz que é mestiça. Você nasceu em Vila Isabel, não é isso?

NP – Exato.

Mas foi criada na Espanha?

NP – Não. O Rio de Janeiro sempre foi minha casa. Mas tive a grande alegria, a grande sorte de, aos 10 anos, ter sido levada para a Europa, especialmente Espanha, por sua vez, especialmente Galícia e, por fim, especialmente as aldeias de Cotobade, de onde provinham meus avôs e meus pais. Fiquei quase dois anos viajando, mas, sobretudo, sediada numa “aldeinha” chamada Borela. Vivi como camponesa, mas, claro, com regalias. Trabalhava na terra porque queria imitar as pessoas, era uma vocação mimética que eu tinha. Discutia a terra com os camponeses, que eles ficavam impressionados. Sabia quando estava seca, quando havia a charla. Como as terras eram modestas, difíceis — não eram essas abundantes e fartas do Brasil —, aprendi que tinha de caçar, como se tivesse de buscar um pássaro; caçar um filete de água e desviá-lo para que beneficiasse as terras. Tudo isso eu fazia. Tive uma liberdade frondosa e faustosa. Também aprendi a imaginação: escutava aqueles velhos contatos, histórias intermináveis. Toda história é prorrogável, nenhuma pode ter um parágrafo final. Histórias que, também, eu desenvolvia desde São Lourenço [em Minas Gerais]. Sempre digo que São Lourenço foi a minha caixa de memórias porque íamos todos os anos para lá. A família inteira. De modo que tudo isso conjugado me tornou, fatalmente, mulher de dupla cultura. E me fez muito bem. De verdade, não é dupla, é uma cultura só, antropológica, arqueológica, rica, que não tem medo dos desdobramentos e da consequência da cultura em si.

Por que a necessidade de lançar um livro de memórias? Você tem o livro O pão de cada dia (Record, 1994), que é de confissões…

NP – Exato. Engraçado, tudo isso vem porque a cada dia tenho vocação mais intensa para pensar. As pessoas dizem que formulo as ideias assim com certa agilidade, certo atrevimento, vamos imaginar que assim seja. De verdade, fui adquirindo, ao longo dos anos, o hábito irrenunciável de pensar. Penso o tempo todo. Enquanto estou tomando um copo de vinho, estou desfrutando da vida, mas há uma parede dela, um lado meu, um compartimento meu, que está pensando “quem somos nós?” — uma indagação profunda. Então, cada vez mais, fui me dedicando aos ensaios, fui me dedicando à reflexão, aos aforismos, às frases que poderiam ser pinçadas e ter vida própria. Ao mesmo tempo, me preocupando e inquietando, de forma até difícil, mas prazerosa, com a morte, a finitude e atos radicais.

Como uma “Imortal” lida com a finitude?

NP – [risos] Não me iludo com a imortalidade. Esse conceito de imortalidade que nos é atribuído ou que nós nos atribuímos — não sei muito bem —, é para disfarçar… Disfarçar que cada cadeira é um rodízio, você vê a linha da sucessão…

Com mais de 250…

NP – A sucessão é inevitável. Tanto que olho para os jovens — como olhei para vocês e fiquei contente por serem muito delicados, além de talentosos — e digo “graças a Deus que já tenho um sucessor!” As pessoas olham para mim, assim, espantadas. O meu grande esforço é passar para quem seja, sobretudo aos jovens, as forças da civilização. A tarefa de todos nós é passar a tradição. Não a tradição anacrônica, mas a que moderniza o mundo, que está nos fundamentos de uma obra de arte ou de um pensamento. Porque nós não podemos acreditar que sejamos inaugurais. Pobre do ser que se imagina o primeiro a dizer “eu te amo”. O mundo já diz “eu te amo” há milênios, até com formas diferentes. Acho que dentro desse quadro que lhe estou dizendo, fui pensando que tive a necessidade de registrar certas circunstâncias. Mas não quis um registro eloquente, pomposo ou faustoso da minha vida: prêmios, publicações de livros, pessoas de grande prestígio que conheci. Não. Quis a história, a trajetória de uma menina brasileira que chega à maturidade. A história de uma formação, história de carne de mulher, de desejo. É a história de alguém que, sendo quem sou, somos todos.

Nélida, desde pequena você quis ser escritora. Você falava para seu pai preencher nas fichas de hotéis que você era escritora…

NP – [risos] Verdade.

Você sempre planejou sua vida?

NP – Não. Desejei, sim, ser escritora, mas não sabia o que havia de fazer para ser escritora. Sequer sabia que dependeria de editor para publicar um livro. Nem imaginei que faria um livro, um romance. Queria escrever, contar, escutar histórias que pudessem ser narráveis. Queria que existisse um mundo narrável. Queria acreditar que o mundo é narrável, que a história humana é narrável e pode resistir, passar para outras pátrias, outros espíritos, outras gerações. Basta ler. Você lê Homero e vê atualidade. Aliás, daí um livro meu do ano passado, que publiquei: Aprendiz de Homero (Record, 2008). Quer dizer, somos eternos aprendizes de Homero.

Como você lida com essa transição entre ficção e a memória?

NP – Muito bem. Sabe por quê? No início do livro faço uma espécie de decálogo de invenção. Não acredito em memória mimética. A memória é espúria, caótica, feita de cacos, da poeira do tempo. A memória se ampara, inevitavelmente, na invenção. Assim como a invenção requer, exige, subsídios da memória. É claro que nesse livro não vou inventar: meu pai é Lino, minha mãe é Carmem e meu avô é Daniel. Há feitos que tenho como transcrever. Mas, dependendo de onde eu esteja, ou no livro, no papel, no dia em que escrevi, olho de outro jeito. Todos os fatos sofrem a metamorfose da vista e do coração. Você não é capaz de olhar para trás, num determinado dia ou determinado ano, com a mesma mirada do dia seguinte. Se no dia seguinte você olhar para o mesmo local, você já está em outra cidade e outra casa. A sua mirada vai estar embaçada ou cansada, você vai ver tudo diferente. Vai ver que aquela parte, aquele filtro, que lhe parecia essencial já não é mais. Você desloca a sua vida, e, quando a desloca, você sai do foco. A vida da arte é um mistério excepcional. A arte não é para ser esclarecida, ela é feita de toda a matéria desordenada do mundo. Cabe ao artista selecionar, filtrar o que lhe parece bom. Tanto que sempre acho muito bem-vinda a matéria que surge quase como fluxo sanguíneo, matéria poderosa que você, depois, com seu dom, estratégia narrativa e capacidade de selecionar, vai pinçando, palavra por palavra. Porque cada palavra é imantada, tem um compromisso com todo um passado, com seu modo de esclarecer o mundo. A palavra esclarece o mundo. Mas não precisa esclarecer como se fosse fotográfico. O esclarecimento vai depender da exegese, da sua maneira de dizer. Eu esclareço o mundo através da neblina. A neblina esclarece o mundo. Então, tudo isso vai me dando essa noção de que há uma simbiose entre memória e invenção. Elas não existem uma abdicando da outra. Aliás, comento isso no livro, digo que minha memória é imprecisa. Ai de mim se tivesse uma memória precisa. Não tem memória precisa. Tentei compor uma pedrinha, que vai compor um mosaico romano. A beleza do mosaico onde está? Na distância. Perto não existe mosaico. Quando você se distancia, vê um pouco da própria história, o seu lado policrômico, a sua reverberação.

Você ganhou os maiores prêmios literários do Brasil e do mundo: Prêmio Jabuti, Príncipe das Astúrias… E foi a primeira mulher a ser presidente da Academia Brasileira de Letras. O que muda com tudo isso?

NP – Bom, é muito importante. Se eu dissesse que não, estaria mentindo. Claro que consolida muita coisa em você. Não é que ganhe confiança, mas começa a ver que tinha razão de trilhar aquele caminho, escolher aquele livro, pensar daquele jeito, pegar o microfone, embora com medo, e dar uma palestra em língua estrangeira; havia razão de resistir àquela tentação: alguém bate na sua porta convocando você a desistir, mas você não desiste. Então, tudo isso ajuda a encontrar o próprio ser. Mas atrapalha se você se levar demasiadamente a sério. Na Espanha, às vezes, me fazem essa pergunta e digo: “Os prêmios me honram muito e me deixam muito satisfeita. Mas eles não escrevem os meus livros, o medo me acompanha sempre e eu não posso prescindir dele.” O medo me dá segurança estética, convicção de que ainda sou uma escritora e poderei, de repente, fazer um livro importante. Ou uma página importante. Ou travar uma batalha com uma emoção que acho que existe em algum lugar, que, com meu esforço, vou tocar no coração dessa emoção — como se diz, no coração dessa matéria. Os prêmios são muito bons, talvez até ajudem a envelhecer podendo dizer “tô perdendo isso, mas tenho um ‘premiozinho’” [risos].

Como você lida com o envelhecimento?

NP – Não gosto de falar em idade. Detesto.

Há uma ambiguidade em relação à sua data de nascimento…

NP – Isso vem da minha mãe. Mas não me comporto, em nenhum momento, negando o meu tempo de vida. Nunca fiz botox, plástica, a minha maquiagem é muito simples… Minha vaidade limita-se às roupas. Mas tenho que comprar tudo de uma vez só. Detesto fazer compras, sou exagerada. Vou para casa livre daquele problema. Sei que o problema não é envelhecer, é morrer.

Você tem medo da morte?

NP – Penso nela todos os dias. Mas, do que não gostaria, peço a Deus diariamente, é sentir dores terríveis. Essa circunstância humana é indecorosa, indigna. A dor faz com que você perca uma elegância natural, a dignidade. A beleza está aliada à dignidade. Não a beleza como estética canônica, mas a da limpeza e da honra. Não me importa o aspecto sombrio e feio, quase febricitante da velhice. Mas, sim, volto a dizer, a dor. De repente, você fica inválida, melhor digo, desvalida. Podem deixar você numa cama de hospital, até nua, como um ser inanimado. As pessoas esquecem que você é um ser digno que batalhou para ser respeitado. Aliás, no livro digo: “Não aceito que alguém queira aperfeiçoar o seu currículo às minhas custas”, digo o currículo amoroso. É essa noção exaltada da dignidade que defendo como contraponto da velhice.

Você costuma dizer que a literatura está muito ligada à vida. O que mais te encanta na vida?

NP – Agora me encantam menos coisas. Mas me encantam muitas coisas. Sinto que não tenho a disponibilidade que tinha antes, mas ainda tenho uma intensa curiosidade. Por exemplo, quando chego num país, leio cinco, seis jornais. De vários países, sei a vida profunda. Ainda continuo apaixonada pelos gregos, leio muita História, sou uma grande leitora de História. Sou apaixonada por alguns séculos, vario de séculos: de vez em quando, me apaixono pelo século XII; de vez em quando pelo XV, XVI, XIV menos… [risos] Também gosto muito de música, sou apaixonada por música.

Você escreve ouvindo música?

NP – O tempo todo! Adoro ópera. E gosto da mesa, dos vinhos, de receber amigos em casa. A minha restrição profunda, além da ideia da morte e do envelhecimento, é você pensar que já não lhe chega com dissonância aquela emoção. Uma vez me perguntaram sobre o envelhecimento e eu disse assim: “Se eu não tiver emoções, compro com o cheque” [risos]. Brincando, né?! Claro. Emocionar-se é o sobressalto da emoção… Sabe quando você de repente se apaixona? De repente você vê uma flor, um olhar bonito —, como ele [referindo-se ao assistente de câmera] está me olhando agora, o jovem com aquele colar de prata, bonito, varonil e bonito, mas com o colar. Isso para mim é uma maravilha, foi uma comunhão que nós tivemos. É o sobressalto, o apogeu, o ápice, que depois fenece. Mas naquele momento você foi dona daquela emoção humana.

Lembro que, ao ser eleita presidente da ABL, na época de comemoração do centenário da casa, você fez uma abertura da instituição, informatizando o setor…

NP – O Centro de Memória trouxe grandes escritores internacionais, fiz livros… Muita coisa, nem me lembro mais. Esse projeto, Visitas Guiadas, é o grande sucesso da casa até hoje.

E sobre a implementação da informática na ABL, como foi isso? Sei que você teve resistência em relação à Internet. Só em 1999 começou a utilizar a web…

NP – Como você sabe?

Pesquisei.

NP – Tô vendo [risos].

Como é a relação com a Internet?

NP – Acho extraordinário. Não temo que a práxis da Internet tenha afetado o meu estilo, absolutamente. Não tenho o menor receio. Aprendi a fazer aquilo que é necessário. Não sou uma internauta profunda, não sou. Mas tudo de que preciso sei fazer. A Internet é muito prática, facilita muito. Sempre fui obcecada pela palavra, pela linhagem da palavra, para saber até onde posso ir. A palavra é de borracha? Posso esticá-la, sem que ela perca a emoção. Faço isso na tela, rapidamente.

Você manda muitos e-mails? Gosta de escrever cartas?

NP – Respondo, mas não mando nenhum e-mail por iniciativa própria. Nunca faço isso. Respondo ou mando para o meu secretário responder. Ontem, por exemplo, fiz uma carta longa porque senti que a pessoa precisava recebê-la. Escrevo muito rápido. Engraçado, sinto que, para certas coisas, a Internet me deu muita naturalidade, a carta por exemplo. À mão eu faria uma carta mais elaborada, mais cuidadosa. Perdi os escrúpulos com a carta, nesse sentido.

Ficção você ainda escreve à mão?

NP – Não. Comecei a escrever à mão depois do advento do bendito computador. Abandonei a máquina de escrever e não cheguei ao computador. Fiquei no limbo, alguns anos no limbo. Aprendi a escrever à mão porque não escrevia à mão, com 12 anos ganhei uma máquina de escrever do meu pai.

Uma Hermes.

NP – Uma Hermes Baby. Exatamente. Então, passei anos da minha vida só com máquina de escrever. Um aprendizado extraordinário, lidar com a caneta. Achei um instrumento tão erótico, fiquei fascinada em escrever à mão. Via meus gestos, olhava… Gostei muitíssimo, mas agora estou abandonando.

O que você ouve quando escreve?

NP – É uma opção aleatória. Às vezes, sinto que está me faltando um temperamento, uma espécie de textura nas emoções. Então escolho determinado compositor, cuja música, também escolhida por mim, vai me emocionar de forma mais intensa ou me induzir a pensar alguma coisa que não estava em pauta naquele momento.

Que compositores?

NP – Por exemplo, às vezes, os improvisos de Schubert me exaltam. Às vezes, Schumann me exalta. Wagner me exalta muitíssimo. Depende.

Música com palavra?

NP – Ouço ópera, sou apaixonada por ópera.

E MPB?

NP – Gosto muito da Maria Bethânia.

Você é muito amiga dela, não é?

NP – Quero um bem enorme a ela. Mas falo de Bethânia não por corporativismo, ela é uma grande cantora. Ontem, eu estava conversando com a minha funcionária, Deise, uma mulher inteligente. E teve um momento em que apareceu um trecho de um filme de Edith Piaf, falei “Deise, você conhece Edith Piaf?”, ela respondeu que não. Continuei: “Cada país tem seus músicos. Por exemplo, na área da canção, essa mulher é a França. Como Amália Rodrigues é Portugal. E como Maria Bethânia é Brasil.” São vozes e circunstâncias estéticas que podem encarnar um país num determinado momento. Então, ontem falei na Bethânia… [risos]

Gostaria de saber mais do seu processo de criação. Li em algum lugar que você dessacralizou sua escrita: escreve no aeroporto, no hotel…

NP – Nesse sentido. Mas tenho que acrescentar que o medo sacraliza outra vez. Não acho que literatura é para ser banalizada, comercializada. Não acho. A literatura opera entre o sagrado e o profano. A literatura está em todos os lugares, foi pensada por todos os seres. Não fomos nós, escritores, que inventamos a literatura, foi o clamor de cada indivíduo, o desejo de ter nossa história, captar um suspiro, uma emoção secreta. Literatura não é para brincar. Pode-se brincar como jogo verbal, mas a literatura é muito séria — é apaixonante. E falam que as pessoas não leem. Se isso ocorrer, importância tem, a barbárie vai perdurar e emergir. Eliminar a literatura é dar acesso à barbárie. E, depois, sempre sobrarão jovens como vocês que irão para as catacumbas. A literatura há de ser sempre poderosa.

Você tem horários para escrever?

NP – Já tive muitíssimo. Hoje faço o que posso. Lido com a palavra diariamente. E se, de repente, não o faço em termos concretos — papel, máquina, Internet —, penso em frases o tempo todo. Ou seja, também crio pensando.

Sobre os autores contemporâneos, você é atenta à produção dos jovens?

NP – Muito. Inclusive, já fui jurada de muitos prêmios para jovens. Sobretudo, um prêmio que me atualiza muitíssimo com os de língua portuguesa, o Prêmio José Saramago. Estou desde a inauguração, estamos na sexta edição. É muito interessante, um prêmio para livro publicado por autores com menos de 30 anos.

Adriana Lisboa ganhou esse prêmio.

NP – Lutei por ela. Essa foi uma vitória por que lutei.

Você destacaria algum jovem autor?

NP – Não, porque posso esquecer alguém. Assim cometeria um perjúrio, um esquecimento. Gosto de muita gente, procuro sempre me atualizar.

O que o jovem precisa para ser escritor?

NP – Paixão pela escrita. A decisão de ser escritor. Mesmo que ele sinta que não está à altura de suas expectativas. Deve saber que vai poder melhorar profundamente, ter uma evolução própria. Ele é instrumento de sua metamorfose, de sua grande subversão. Eu me inclino aos escritores cultos, não creio que a incultura ajude. O primeiro livro pode surgir, tal a força voraz dos jovens, mas depois o segundo já não vem, e o terceiro requer um aprimoramento, refinamento, técnicas narrativas… Não é que cada vez fique mais difícil, cada vez é quase impossível. Só com esse instrumental nas mãos você é capaz. Não é só cultura livresca. É olhar o mundo pedindo uma tradução dele. Outra coisa importante: audácia de criar. Tudo é possível desde que você se atreva.

 


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