MARIA REZENDE

BENDITA MARIA-DA-POESIA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 mariarezende

 

Em seu novo livro, Bendita Palavra, a lúcida poeta Maria Rezende insiste em enxergar a vida a partir do próprio umbigo, mas, sem ser egoísta, agora seu olhar está voltado para o mundo. A palavra é uma paixão declarada:

“A palavra para mim realmente é uma coisa bendita. Mais do que pela poesia, tenho apreço pela palavra. A palavra que você usa para brigar, conquistar alguém ou falar com a mulher da companhia telefônica porque seu aparelho quebrou. Para mim, é bendita a palavra, não é bendita a poesia. A poesia é o que eu, Maria, consigo fazer com essa palavra. A palavra é muito além, muito maior do que isso. Tenho amor pela palavra”.

Carioca, 28 anos, conhecida como Maria da Poesia no meio literário, mal curtiu o sucesso do primeiro livro, Substantivo Feminino, e já está com o novo livro de poesia no prelo e na busca por uma editora. Enquanto isso, seu poema mais famoso “Adoro Pau Mole” tornou-se um hit dentro (e fora) da web.

“’Adoro Pau Mole’ foi um dos primeiros poemas de quando comecei a escrever poesia seguidamente. Tinha uns 21 anos. Escrevi esse poema porque era coisa que eu pensava na minha intimidade, por isso fiz. Mas eu não gostava do final, por isso não mostrava para ninguém. Um ano depois, inverti a ordem de umas estrofes. Ficou pronto e começou a andar ’sozinho’. É um poema que fala com homens e mulheres de jeitos diferentes, mas fala com todo mundo”, defende a “dizedora de poesia”, fã de Adélia Prado e Ferreira Gullar, que tem a paixão tatuada na pele.

O que a motiva a escrever?

“Acho que o que me motiva é o que me mobiliza. Pode ser o cotidiano, por exemplo. Não sofro. Demoro tanto para escrever que, quando o poema vem, é um enorme prazer. Mas escrevo totalmente sem regra, até porque escrevo pelo que me mobiliza”.

O agradável bate-papo se estendeu por horas no Humaitá, no Rio de Janeiro, na casa da poetisa de fala firme e bem dita.

Como você chegou à poesia? Ou como ela chegou até você?

Maria Rezende – Na verdade, foi um encontro. Comecei lendo muita poesia. Com quatorze anos, ganhei de presente da minha mãe uma pilha com sete livros de poesia. E, entre esses, Vinicius (de Moraes) me pegou, fiquei totalmente viciada nele! Nessa época eu escrevia aqueles versinhos no caderno, umas coisas horríveis… (Risos.) Depois, quando fui fazer faculdade de letras, contraditoriamente, me afastei da escrita. Só passei a me considerar poeta mesmo quando entrei para a escola da Elisa Lucinda (Escola Elisa Lucinda de Poesia Viva), que é um lugar que não ensina a escrever, mas a falar poesia sem ser chato. Então, fiquei apaixonada por essa coisa de falar poemas, falar poemas dos outros: Drummond, Cecília Meirelles…

Como surgiu seu primeiro livro de poesia, Substantivo Feminino?

MR – Quando comecei a escrever, já vinha maturando aquela poética que aprendia falando. Em um ano, já tinha um livro. As pessoas falavam que eu tinha muitos poemas, que deveria publicá-los. Mas só fiz isso quando senti realmente necessidade, que veio com a parceria com o Rodrigo (Bittencourt, poeta) meu namorado. Então, pensei que o livro devia vir com o CD, como corpo integrante. Era a necessidade da palavra falada. Eu tinha muita insegurança, me perguntava “será que sou poetisa mesmo?”. Fiz o livro com o CD, para me sentir segura.

Como é ser “dizedora” de poesia?

MR – Eu adoro. Sou superexibida. Quando era criança, o xingamento que me davamera “exibida”, e eu detestava. Depois, descobri que eu o era mesmo (risos). Cheguei a fazer teatro um tempo, mas descobri que dizer poesia era o meu caminho. Adoro o palco. É o outro lado de ser poeta. Posso escrever sozinha em casa e também falar para uma galera com uma luz em cima de mim. E tem gente que gosta de ouvir poemas. Na maioria das vezes, vendi meu livro porque alguém ouviu meus poemas serem ditos.

E como é essa parceria – namoro/trabalho – com Rodrigo Bittencourt?

MR – Nós trabalhamos muito juntos; fizemos, por exemplo, o CD do primeiro livro e o Te Vejo Na Laura (evento de poesia da Casa de Cultura Laura Alvim), nossa primeira parceria profissional. Mas, lentamente, estamos diminuindo isso, senão acaba não ficando legal para o trabalho, viramos tipo dupla: Ginger e Fred ou Xuxa e Marlene. A pessoa pensa em um e, em seguida, já pensa no outro. Estamos nos “separando” para ser mais casal do que dupla…

Seu pai é cineasta (Sérgio Rezende). Até que ponto isso influenciou na sua poesia?

MR – Meu pai é cineasta e minha mãe é produtora, um casal e dupla, e só agora eles também estão meio que se “separando”, cada um com seus projetos. Não sei se eles influenciaram a forma como escrevo. Talvez tenham contribuído para a minha tendência “visual” de escrever. Tenho uns poemas que são mais imagéticos, outros mais sensoriais. Na verdade, nunca pensei sobre isso.

O que a motiva a escrever?

MR – Acho que o que me motiva é o que me mobiliza. Pode ser o cotidiano, por exemplo. Não sofro. Demoro tanto para escrever que, quando o poema vem, é um enorme prazer. Mas escrevo totalmente sem regra, até porque escrevo pelo que me mobiliza.

E como é sua relação com a palavra?

MR – A palavra para mim realmente é uma coisa bendita. Mais do que pela poesia, tenho apreço pela palavra. A palavra que você usa para brigar, conquistar alguém ou falar com a mulher da companhia telefônica porque seu aparelho quebrou. Para mim, é bendita a palavra, não é bendita a poesia. A poesia é o que eu, Maria, consigo fazer com essa palavra. A palavra é muito além, muito maior do que isso. Tenho amor pela palavra.

Como surgiu a ideia da sua tatuagem?

MR – Fiz essa tatuagem recentemente, escrevi “PALAVRA” nas minhas costas. Acho que ela surgiu com esse momento que estou vivendo, de estar querendo publicar o Bendita Palavra. É a minha primeira tatuagem. Fiquei um ano para decidir o que escreveria. Decidi que não seria poesia, vai que um dia eu não quero mais ser poetisa… Mas nada vai me fazer perder o amor pela palavra.

A poeta e filósofa Viviane Mosé tem uma relação muito forte com a palavra em seus livros. Percebe-se essa intensa relação no Bendita Palavra. Há alguma influência da Viviane nessa produção?

MR – Tem, totalmente. A Viviane é uma forte influência, além do fato de ser mulher e estar próxima de mim – diferente da Adélia Prado, inatingível. Eu a conheci há algum tempo por causa da Elisa e acompanho a produção dela; fico sempre ansiosa pelos livros novos. O meu tem o primeiro bloco sobre a palavra, sobre a própria escrita, sobre o escrever…

E as palavras de quais poetas você admira?

MR – Muita gente… Estou apaixonada atualmente por Ferreira Gullar. Ah, e pela Adélia Prado! A poesia dela é maravilhosa e ela tem uma coisa idiossincrática que é genial. Ela é uma mulher do interior de Minas, lá ela mora, de lá nunca saiu e é universal. Isso além da Viviane Mosé e da Elisa Lucinda, que é a minha mestra. Da minha geração é difícil escolher, mas tem o Vitor Paiva, ótimo poeta.

Nos dois livros suas poesias estão divididas em blocos e não têm títulos. Por que você não dá título aos poemas?

MR – Não sei dar título, não é nada conceitual não. A Elisa diz que vai me dar um curso de como dar títulos, porque ela dá títulos ótimos. Acho que o legal do título é quando ele abre o poema para você, quando aquilo te acrescenta. Simplesmente não consigo, tudo o que quero dizer está dito no poema. Não coloco título por incompetência… (Risos.)

Você acredita na existência de uma literatura feminina?

MR – Engraçado, pois no e-mail que o Gullar me mandou, sobre o meu novo livro, ele falou que estava gostando e colocou “não é ‘literatura feminina’, mas tem a voz de uma mulher falando ali…”, e fiquei muito feliz, pois é no que acredito, é apenas uma voz…

Você esperava o sucesso do “poema-de-vida-própria” “Adoro Pau Mole”?

MR – “Adoro Pau Mole” foi um dos primeiros poemas de quando comecei a escrever poesia seguidamente. Tinha uns 21 anos. Escrevi esse poema porque era coisa que eu pensava na minha intimidade, por isso fiz. Mas eu não gostava do final, por isso não mostrava para ninguém. Um ano depois, inverti a ordem de umas estrofes. Ficou pronto e começou a andar “sozinho”. É um poema que fala com homens e mulheres de jeitos diferentes, mas fala com todo mundo.

O que falaria para os jovens que estão a fim de escrever livros?

MR – Escrevam, façam o que estiverem a fim de fazer! Ah, escrevam e mostrem, pois o retorno dos outros nos ajuda a tomar o rumo certo. Não tenham medo de experimentar para descobrir o caminho e corram atrás para construir a chave para abrir a porta. Eu agora estou procurando a chave da editora!

Um poema do novo livro – BENDITA PALAVRA:

Escrever o nome azuleja o corpo, dá status de palavra e consistência de papel.

Letra grafada

gravada

esculpida no branco da página

é mais que carne,

mais que imagem,

é mais que som:

é símbolo decifrável,

é alegoria da gente,

alegria perene de se escrever.


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