JEAN WYLLYS

LUTA CONTRA OS "JUÍZES DO BOM GOSTO"

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

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Jean Wyllys é jornalista, professor universitário e escritor. Seu primeiro livroAflitos, foi premiado em 2001 na Bahia e tem a orelha assinada pelo escritor Antonio Torres. No entanto, foi pela participação na quinta edição do programa Big Brother Brasil, que Jean ganhou projeção nacional.

“Me joguei no Big Brother depois de ter implantado uma pós-graduação de jornalismo e direitos humanos. Imagina como isso causou estranheza nas pessoas! Mas fiquei feliz, o povo me abraçou, se identificou com minha história”.

Após a saída do reality show, ele escreveu Ainda Lembro (Editora Globo), uma coletânea de crônicas sobre a experiência no programa e contos do primeiro livro – mais de 100 mil exemplares foram vendidos.

“No livro, cito Joaquim Pedro de Andrade, que responde que faz cinema para chatear os imbecis. Gosto muito dessa reposta. Eu diria que escrevo porque é imperativo, porque é meu melhor canal de expressão. Escrever para intervir, para dar meu palpite e para colocar meu pingo no ’i’.”

A exposição na mídia abriu muitas portas para o baiano de Alagoinhas, mas também atraiu o preconceito de alguns para o seu trabalho. Jean, porém, não teme as críticas destas pessoas e as nomeia de ”juízes do bom gosto”.

“São os críticos literários, as pessoas que têm opinião publicada em jornais, as pessoas que fazem seleção dos editais de incentivo à cultura. Essa gente, chamada intelligensia, tem seus preconceitos”, e continua:

“O programa me deu visibilidade nacional, me jogou no debate e me deu existência. Deixei de ser um escritor baiano para me tornar uma persona conhecida no Brasil inteiro. Não atrapalha minha atividade como escritor, em nenhum momento eu parei de escrever. Mesmo tendo trabalhado em programas de televisão, não parei de escrever meu novo livro, meu blog e minha coluna na G Magazine”.

Convidei Jean para uma conversa no (extinto) Café Vommaro, em Copacabana, bairro onde mora. Depois de uma pequena confusão com os horários, iniciamos a conversa que se pautou na sua relação com a escrita.

Jean, você é jornalista e escritor. Até que ponto ter participado do BBB o atrapalha a exercer essas profissões?

Jean Wyllys – Não me atrapalha absolutamente nada, sou muito grato por ter participado do Big Brother. O programa me deu visibilidade nacional, me jogou no debate e me deu existência. Deixei de ser um escritor baiano para me tornar uma persona conhecida no Brasil inteiro. Não atrapalha minha atividade como escritor, em nenhum momento eu parei de escrever. Mesmo tendo trabalhado em programas de televisão, não parei de escrever meu novo livro, meu blog e minha coluna na G Magazine. Eu diria que a minha participação no programa atrapalha a leitura que os “juízes do bom gosto” fazem do meu trabalho.

Quem são os “juízes do bom gosto”?

JW – São os críticos literários, as pessoas que têm opinião publicada em jornais, as pessoas que fazem seleção dos editais de incentivo à cultura. Essa gente, chamada intelligensia, tem seus preconceitos. O programa adquiriu uma reputação não muito boa junto a essas pessoas porque os participantes depuseram contra. Mas eu não tenho medo de brigar contra a tradição. Essa gente não tem coerência entre discurso e prática. Minha vida sempre foi resistir: sobreviver, nascer e me criar abaixo da linha de pobreza; sair da periferia de Alagoinhas; ir para Salvador me tornar jornalista e resistir. Vou à luta pelos meus direitos! Direitos como gay, direitos como escritor baiano e direitos como celebridade produzida em reality show. Como diz Mário Quintana: “Para aqueles que estão aí atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho.” Baterei asas!

Você sente preconceito por ter participado do BBB?

JW – Sim! Na feira do livro de Porto Alegre, houve um escritor muito conhecido que se recusou a sair para jantar com o grupo se eu estivesse junto. Mas tive dúvida se o preconceito era por eu ter participado do BBB ou se pelo fato de eu ser gay. Existe preconceito em relação ao Big Brother, sim. Mas existe preconceito de uma forma geral contra quem se relaciona com o mercado. Qualquer artista que estabelece uma relação com o mercado é depreciado por esses “juízes”. Isso vale para o escritor. Se considerarmos casos típicos na história da literatura, perceberemos que os escritores que viveram (ou vivem) exclusivamente de literatura foram considerados escritores menores, por exemplo: Jorge Amado, Érico Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro e Paulo Coelho. Como se a qualidade literária estivesse ligada ao mercado ou se o ofício literário fosse obra do Espírito Santo. Se já existe esse tipo de preconceito, imagine para uma pessoa – professor universitário, escritor e jornalista – que decide participar de um programa de massa extremamente depreciado.

Por que participar do reality show?

JW – Foi tudo muito banal, todo começo é banal. A gente, olhando pelo retrovisor, dá magnitude à narrativa que construímos depois. Eu estava assistindo TV na Faculdade Jorge Amado, onde eu dava aula de Cultura Brasileira, quando a atriz e professora Jucilene Santana perguntou se eu participaria do programa. Respondi que sim, mas tinha medo de perder tudo. Aceitei o desafio, fiz um vídeo com Danilo Escaldaferi e me inscrevi no último dia da prorrogação. Corri poucos riscos na vida, sou arrimo de família, trabalho desde os 10 anos, então achei que era o momento de me arriscar. Me joguei no Big Brother depois de ter implantado uma pós-graduação de jornalismo e direitos humanos. Imagina como isso causou estranheza nas pessoas! Mas fiquei feliz, o povo me abraçou, se identificou com minha história.

Os jornalistas costumam eleger os brothers que deram certo e sempre citam Grazi, você…

JW – Não compactuo com isso. Acredito que dar certo é estar feliz com o que você é. Acho que muitos deram certo porque fazem aquilo que querem. Eu estou muito feliz com meu lugar no mundo, que conquistei depois do programa. O saldo é muito positivo. Por exemplo, haverá uma conferência nacional da AGLBT (Associação de Gays Lésbicas, Bissexuais e Travestis) e fui indicado para ser conferencista, como sugestão da comunidade. Não tem preço se tornar uma referência positiva por direitos civis e direitos humanos. Hoje, há um grupo enorme de leitores, que sensibilizo e emociono, é tudo que eu queria como escritor. Vendi mais de 100 mil exemplares de livros. Sem considerar que o leitor do livro não é o leitor da G Magazine e nem do meu blog.

Você é professor universitário. Como é a sua relação com o universo acadêmico?

JW – Percebo que na academia há uma reprodução do discurso do orientador e um cuidado para não ferir a repetição da linha de pesquisa. Falta um conhecimento mais libertário, precisamos de uma algazarra teórica. A academia disciplina o processo criativo de uma pessoa, mas para toda disciplina há resistência. Porém, na academia há também pessoas incríveis como Silviano Santiago e José Miguel Wisnik.

Você ministra aulas na ESPM. Como é ser professor após a participação no BBB?

JW – As aulas já eram um show antes do programa. Tenho algo de show man quando dou aula, faço muitos links com cultura de massa e cultura erudita. Por causa do programa, há muita gente que vai à aula para ver como é a minha performance como professor. Também sou muito convidado para dar palestras em instituições do ensino médio e superior.

Você já trabalhou como roteirista e repórter do programa da Ana Maria Baga. Você pretende voltar a trabalhar na televisão?

JW – Eu vou voltar a trabalhar em televisão. Estou fazendo um programa para o Canal Brasil chamado Armário Embutido, com o cineasta Luiz Carlos Lacerda, o Bigode. É uma revista com uma linguagem próxima ao documentário.

Existe literatura gay?

JW – Claro que não existe uma literatura gay, existe uma literatura. Toda literatura é marcada pela experiência de quem a escreve. É óbvio que minha literatura está marcada pela minha identidade sexual, mas isso não configura a minha literatura de gay. Nunca chamei o que Machado de Assis escreve de “literatura hetero”.

Você sentiu algum retorno por ter assumido em rede nacional sua condição sexual?

JW – Tive um retorno amplo, não dá para medir o impacto positivo na vida dos gays. E fico feliz com a representação positiva de minha aparição no programa: inteligente, sensível e não tão afeminado (risos). Sim, pois não abro mão dela. Recebi muitos depoimentos de gays sobre essa representação. Os gays têm de fazer o que os negros fazem na Bahia com Ilê Aiyê: “Os mais belos dos belos sou eu sou eu! Bata no peito mais forte e diga: Eu sou eu!” É isso: black is beautiful! O gay tem de pensar nessa representação.

Você diz na abertura do livro Ainda Lembro: “Como todo escritor – embora alguns finjam que não – quero ser livro, circular, estar na prateleira, quero ser Paulo Coelho”. É isso mesmo?

JW – Isso foi tão mal interpretado pelos rancorosos, pelos que alimentam “mágoa de cabocla” (risos). Eles leram essa abertura com arrogância. Não é que desejo ser Paulo Coelho. Citei-o porque ele é rejeitado e depreciado pelo cânone, mas vende e penetra no coração de muita gente. Paulo Coelho é o modelo que se estabeleceu para além do que é julgado como literatura boa ou ruim.

Ainda no segundo livro, você diz que deve-se perguntar “quando é literatura?” e não “o que é literatura?”…

JW – Sim. Quando é literatura? Quando sensibiliza, emociona e politiza a existência é literatura. Foucault diz que o livro é só um paralelepípedo, quem confere valor literário é o leitor. Quando o livro o mobiliza é literatura.

Por que você escreve?

JW – No livro, cito Joaquim Pedro de Andrade, que responde que faz cinema para chatear os imbecis. Gosto muito dessa reposta. Eu diria que escrevo porque é imperativo, porque é meu melhor canal de expressão. Escrever para intervir, para dar meu palpite e para colocar meu pingo no “i”.

Por que seu primeiro livro Aflitos aborda tanto a violência?

JW – Esse livro traz muito minha experiência como jornalista, com as notícias de violência. Sempre me interessei pela vida dos fracassados, pelas pessoas que recebem um péssimo jogo da vida. A imagem do colorido do Carnaval da Bahia esconde uma Bahia escura e subterrânea. O nome do livro é Aflitos porque gosto do nome de um lugar na Bahia chamado Largo dos Aflitos. Esse livro é uma outra leitura da Bahia.

Em sua literatura, você cita muito versos da MPB. Por quê?

JW – Adoro a música popular brasileira. Não consigo entender minha vida sem música. Adoro as cantoras. Com meu pai, que era pintor de automóveis e pintava na noite, passei a consumir música. Há letras de música que são peças literárias, isso muito me atrai. Gosto muito de Caetano Veloso, do nome próprio “Caetano Veloso”, Zeca Baleiro, Chico Buarque, Marcelo Camelo, Otto… Amo a Rita Ribeiro. Dirigi o show Meninas do Brasil com Tereza Cristina, Rita Ribeiro e Jussara Silveira. Tenho uma relação muito forte com a música. Tenho quatro paixões na vida: jornalismo, cinema, música e literatura.

O que você tem lido?

JW – Acabei de ler as correspondências entre Mário Andrade e Drummond. LiEntre Nós, do Luiz Ruffato, com contos de temática gay. E li todos os livros do André Comte-Sponville. Gosto de ler novos autores: Alex Leila e Lima Trindade. Quero ler A História Sexual da MPB, do Rodrigo Faour.

Você está escrevendo o seu primeiro romance?

JW – Sim, chama-se Romances com o Coração, pela editora Globo. Ainda estou escrevendo, está no tempo de maturação. É uma história linda e feminina.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

JW – A primeira coisa que se tem a fazer é escrever! Sentiu vontade? Escreva, sempre.


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