GABRIEL BÁ e FÁBIO MOON

IMAGENS LITERÁRIAS

Por Ramon Nunes Mello e Bruno Dorigatti [Saraiva Conteúdo 2009]

   

 gabrielefabio

 

Os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá vêm merecidamente conquistando o reconhecimento pelo seu trabalho, que, com alguns importantes prêmios, começam a chamar a atenção do público que não é tão aficionado assim por quadrinhos. Na batalha há mais de dez anos, os irmãos começaram com o fanzine 10 Pãezinhos, publicaram alguns livros com as estórias que ali saíram pela Via Lettera. Desde então, participaram de algumas antologias, lançaram alguns álbuns autorais, realizaram trabalhos sob encomenda e adaptações. O alienista, adaptação da clássica novela de Machado de Assis, ganhou o Prêmio Jabuti de “Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino Fundamental ou Médio”, no ano passado, e também foi selecionado, junto com outro álbum da dupla, Meu coração, não sei porquê, para a lista do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) 2009. Ainda em 2008, os irmãos levaram alguns prêmios no Eisner Award — o principal no universo dos quadrinhos, que homenageia o mestre Will Eisner, autor de Spirit, entre tantas outras estórias —, como Melhor Antologia (5), Melhor Série Limitada (para Gabriel Bá, por The Umbrella Academy, junto com Gerard Way) e Melhor Comic Digital (para Fábio Moon, pelo trabalho em Sugarshock, em parceria com Joss Whedon).

Em 2009, além de colaborarem semanalmente com uma tira na Folha de S. Paulo aos sábados, chamada “Quase nada”, eles publicaram na Época São Pauloa história “Procurando São Paulo”, onde, em certa manhã, a cidade amanhecia livre de carros, ônibus e motos. Atualmente, além dos trabalhos sob encomenda, a dupla está escrevendo uma série, chamada Daytripper, ainda inédita, que será publicada lá fora pela Vertigo. “A gente já tem umas 100 páginas desenhadas, estamos quase na metade. É a primeira oportunidade que a gente teve de escrever uma história longa, desenhar e publicar numa editora grande. Essa é chance que temos de mostrar nosso trabalho de autor e não só contar as histórias de outras pessoas — que são histórias de que gostamos bastante, mas que são bem diferentes das histórias que escrevemos”, eles nos contam nesta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. As histórias da dupla abordam o dia a dia de pessoas normais, que amam, sofrem, choram e se alegram com as pequenas coisas, são tocadas pelos pequenos gestos, um tanto diferente das histórias de super-heróis, aventurescas ou fantasiosas que ainda imperam no Estados Unidos.

Na entrevista, realizada em Paraty, durante a última Flip, eles apontam algumas de suas influências e falam das facilidades e dificuldades de fazer uma adaptação e comentam sobre o trabalho duro e disciplinado que é fazer história em quadrinhos. “Porque os quadrinhos têm essa dicotomia de que você lê em 20 minutos um livro de 80 páginas. Esse livro de 80 páginas você vai ficar um ano fazendo. Essa diferença entre ‘eu adoro quadrinhos, eu leio em 20 minutos, é super rápido, dinâmico e divertido’ e o dia a dia de ficar trabalhando nas páginas, meses esperando aquela história ficar pronta. É muito difícil de passar essa fase. O que nós vemos é um monte de gente que quer fazer quadrinhos e desiste justamente quando percebe que não é fácil, que não é sempre divertido. É super legal criar, é super legal desenhar, mas tornar isso uma rotina e levar o trabalho até o fim é desgastante como qualquer outro trabalho.”

Vocês ganharam o Prêmio Jabuti ao adaptar O alienista, de Machado de Assis, para os quadrinhos. Qual a importância dessas adaptações?

Fábio Moon – Eu acho que o legal ao fazer uma adaptação literária é criar uma curiosidade nas pessoas, juntando duas formas diferentes. Você pode criar interesse no leitor, de querer saber sobre o cara que faz os quadrinhos, que fez aquela adaptação. E, se tudo der certo, também cria o interesse do leitor correr atrás do autor original. É um bom jeito, um novo jeito de introduzir histórias que as pessoas já contaram. Autores que as pessoas já conhecem, passam a conhecer de novo com outro olhar, isso reacende essa curiosidade do material original.

Como surgiu o convite para essa adaptação?

Gabriel Bá – A (editora) Ediouro estava querendo começar a fazer essas adaptações e entrou em contato com a gente. Nós podíamos escolher entre umas três ou quatro opções que eles tinham lá: Euclides da Cunha, eu acho…

FM -Tinha O pagador de promessas (de Dias Gomes, que foi adaptado por Eloar Guazzelli para a mesma coleção). E tinha O alienista, que era o que eles queriam adaptar de Machado de Assis. Gostamos muito de Machado de Assis.

GB – A gente nunca tinha lido.

FM – O alienista a gente nunca tinha lido. A gente leu, gostou, viu que O alienista é um texto relativamente curto, não é um livro gigante. Então, fazendo a adaptação ia nos possibilitar manter quase tudo do texto original. Não ia ter que decepar o texto original, que é bem bacana. Isso também nos motivou a fazer a adaptação. Era acrescentar uma nova camada de significado, de interpretação, da nossa visão de O alienista, do que ficar mudando todo o original, para manter a sonoridade do texto de Machado de Assis que a gente gosta bastante.

Qual a dificuldade de adaptar uma obra de outro autor?

FM – O que facilita é ter a história já bem fechada. O mais difícil é você conseguir contar a história, fechar a história, e fechar contando tudo que você queria da ideia original…

GB – Numa história original, você parte do zero. Então, você tem uma ideia, tem que criar uma história inteira que conte essa ideia e que seja interessante, cative o leitor. Se partir de uma obra pronta, você já tem isso. A dificuldade, o desafio, é recontar essa história nos quadrinhos, numa nova linguagem, aproveitando tudo que os quadrinhos podem ter. Então, é olhar com outros olhos para essa história. Você não pode simplesmente pegar e ler. Você não vai estar mais lendoO alienista. Vai ter que olhar a história, entender mais a fundo o que está sendo contado ali. O que é importante? Aonde a gente vai poder explorar mais as imagens? Aonde a gente vai poder manter texto… Tem todo um trabalho diferente, adaptando outra obra, do que criando a própria história original.

Vocês começaram publicando suas próprias histórias, em fanzines. Como foi o processo para chegar às editoras? O reconhecimento surgiu primeiro fora do Brasil?

GB – Não. Surgiu no Brasil primeiro. A gente fez os fanzines, que tiveram uma certa repercussão. Entramos em contato com as editoras depois de fazer uma série de fanzines. As editoras estavam interessadas em publicar os fanzines, as histórias que eram mais longas.

FM– Era uma época em que as editoras estavam voltando a publicar histórias nacionais, e começando a ir para as livrarias. Isso foi no início do ano 2000. E tiveram interesse de publicar o que fazíamos no fanzine, coletado num álbum.

GB – Acho que desde o primeiro livro, O girassol e a lua (Via Lettera), em 2000, e Meu coração, não sei por quê (Via Lettera), em 2001, o reconhecimento do trabalho aqui (no Brasil) começou a crescer…

FM -Porque sempre produzimos coisas novas…

GB – Continuamos produzindo. Fazendo meio que um livro por ano e participando de antologia com outros autores. E lá fora, o reconhecimento só veio de dois anos pra cá. Ano passado, quando ganhamos o Eisner (Awards, o mais prestigiado prêmio para HQ, que leva o nome do mestre Will Eisner), que foi o reconhecimento maior, deu uma repercussão grande aqui também. Mas aqui já tínhamos um espaço, pelo menos no mundo dos quadrinhos a gente tinha nosso espaço. Ganhar o prêmio lá fora serviu para fortalecer, expandir para além do mundo de quem só lê quadrinhos.

Vocês estão produzindo algum trabalho para o mercado internacional?

FM -Lá fora a gente faz alguns trabalhos. Mas o que nos empolga mais é nosso trabalho mais autoral. A gente está escrevendo uma série, a gente escreve junto e eu estou desenhando, chama-se Daytripper. Não começou a sair ainda, a gente já tem umas 100 páginas desenhadas, estamos quase na metade. É a primeira oportunidade que a gente teve de escrever uma história longa, desenhar e publicar numa editora grande, que é a Vertigo, a editora que publicava oSandman. Essa é chance que temos de mostrar nosso trabalho de autor e não só contar as histórias de outras pessoas — que são histórias de que gostamos bastante, mas que são bem diferentes das histórias que escrevemos, são muito mais fantasiosas, heróicas e “aventurescas”. Diferente das nossas histórias, que tem muito mais a ver com a realidade brasileira, situações cotidianas, conflitos de relações. Agora temos essa chance de fazer um livro que é mais próximo ao que a gente tem feito aqui no Brasil. É o que a gente tem trabalhado com afinco desde o meio do ano passado.

No Brasil, a grande referência de história em quadrinhos, principalmente para crianças, é a Turma da Mônica, do Maurício de Souza. Quais quadrinhos vocês leram na infância?

GB – A gente leu de tudo.

FM – Quando a gente era criança, não havia critério, lia o que caísse no nosso colo ou encontrássemos na banca. Lemos de tudo que caiu na nossa frente, Mônica, Disney… Na biblioteca da nossa escola tinha Príncipe Valente, Henfil e o Fradim… E tinham tiras das mais variadas: Garfield, Calvin, Os sobrinhos do Capitão… Minha mãe gosta de quadrinhos, então sempre teve quadrinhos em casa, mesmo na idade em que os moleques param de ler quadrinhos. Crescemos e continuamos lendo quadrinhos porque ela comprava para ler. Lendo quadrinhos de super-heróis…

GB – Lendo quadrinho europeu muito cedo. Aos 10 anos lendo Manara, Moebius… O que mais?

FM -Sei lá.

GB – Um pouco de tudo. Aos 12, descobrimos Will Eisner. A gente sempre leu muito quadrinho, mesmo o que a gente não entendia. Então, tudo isso foi acrescentando nessa vontade de fazer quadrinhos e mostrando que podia ser um monte de coisas diferentes, não uma coisa só.

Há sempre um questionamento se os quadrinhos são ou não literatura. O que vocês pensam sobre o assunto? Por que quadrinhos?

FM -Eu acho que a nossa escolha por fazer quadrinhos vem do que possibilita contar em quadrinhos. Adoramos escrever, desenhar, história em quadrinhos, livro… A gente adora tudo. Mas, para fazer história em quadrinhos, existe uma síntese. Existe uma pontualidade de direcionar o leitor para aquele sentimento, ou para aquela frase, ou para aquela situação, no uso da palavra e da imagem, que não se consegue sozinho. Não se consegue fazendo uma ilustração, não se consegue só escrevendo. Tem uma coisa de juntar a palavra com a imagem, e a história funciona no meio disso, entre um quadro e outro. Quando você faz uma boa história em quadrinhos, o leitor esquece quantos quadrinhos têm por página, qual foi a cena que você desenhou… Na cabeça dele, depois, a história tem muito mais imagem do que você desenhou, a história acontece entre um quadro e outro. E, para algumas pessoas, a imagem que elas gostam mais na história a gente nem desenhou. Poder usar a imagem e a palavra para poder contar a história é um negócio que só dá para fazer em quadrinhos. Escrever uma história e ter uma cena que acontece toda em silêncio, só dá para fazer em quadrinhos. Então, tem umas coisas que só conseguimos fazer em quadrinhos. Esse apelo da forma de contar a história a gente só encontrou fazendo história em quadrinhos.

Vocês não têm vontade de escrever só texto, literatura em prosa?
GB – Até temos vontade de tentar escrever alguma coisa só em prosa.
FM -Porque também tem coisas que funcionam melhor.
GB – Tem tipo de narração…
FM– Funciona melhor, não, funciona diferente. Tem um jeito de contar a história…
GB – Só nas palavras…
FM -É, quando só usa as palavras. Você tem que ficar seduzindo o leitor, com o jeito que você constrói a frase para ele imaginar e mergulhar na história.
GB – Às vezes, tentar colocar uma imagem no meio fica redundante…
FM -Distrai.
GB – Até pensamos em fazer algo só em texto. Tem uma história que começamos a escrever há alguns anos, tentamos fazer uma história em quadrinhos, mas ela funcionava quase que somente no texto. A imagem virava uma distração. Talvez ela termine só em texto. Mas é como dissemos antes, demora muito fazer uma história em quadrinhos. Ainda estamos lutando, na guerrilha, para consolidar essa coisa. É importante manter a produção de quadrinhos, ao invés… Ao invés de, sei lá, tentar outras coisas para angariar vocabulário: escrever um livro, fazer um curta. Melhor é fortalecer: nós fazemos histórias em quadrinhos, dá para contar qualquer história para qualquer público, com uma qualidade excepcional. É produzir mais, mas isso demora. Quando isso estiver consolidado talvez a gente se aventure, tente fazer outras coisas.
FM -Para não ficar com essa imagem de que fazemos quadrinhos como trampolim para depois fazer alguma coisa séria. Para nós, quadrinhos é uma coisa muito séria.
GB – Hoje em dia têm muitas adaptações de cinema de histórias em quadrinhos. Nós vamos para convenção em San Diego, e tem muita gente que vem falar, perguntando se não queremos transformar o gibi num filme. Diz que acha muito interessante… E nem leu. Eles querem mercado, acham que estão te fazendo umsuper favor transformando seu gibi num filme. Mas, para mim, a história em quadrinhos é o auge daquela história que estou fazendo. O máximo que posso conseguir, contando a história, vai ser com a história em quadrinhos. Fazendo o filme não vai ser a mesma coisa, para mim não é um produto acima. “Ah, vai virar um filme!? Uau!” Não, se virar, legal. Mas vai ser outra coisa. O máximo que eu consigo chegar, que eu quero chegar, é fazer uma história em quadrinhos. Ainda estamos lutando para que as pessoas entendam isso.
FM – Quando fazíamos o fanzine, tínhamos um contato muito direto com o público, fazíamos o fanzine e saíamos vendendo na faculdade, para os amigos. E, quando paramos de fazer o fanzine, percebemos que tínhamos desaparecido, praticamente. Íamos ficar trancados, desenhando no estúdio, desaparecendo… Ninguém ia saber quando sairia o próximo livro. Era 2000/2001, na época que o Neil Gaiman estava começando o blog, para divulgar Deuses americanos(Conrad). Ele criou o blog para divulgar, ficava falando que chegou a prova… Então, percebemos que o blog, naquela época, ia ser um ótimo jeito de continuar conversando com o leitor, um bate-papo. Criamos o site/blog (que leva o nome do fanzine, 10 Pãezinhos) para continuar interagindo com o leitor entre um trabalho e outro, para falar como era o dia a dia de produção de quadrinhos: como a gente pensava nas histórias, onde faríamos o lançamento… Até hoje a função, mais ou menos, é essa. Agora colocamos as tiras que saem no jornal (“Quase nada”, na Folha de S. Paulo) no blog também. O foco do blog/sitesempre foi mais atiçar a curiosidade sobre o trabalho do que simplesmente mostrar o trabalho, dar de mão beijada para as pessoas. Acreditamos que as pessoas têm de correr atrás do que elas querem. Se elas querem os quadrinhos, a gente direciona, mas têm que ir até a livraria, virar a página, essas coisas.

Recentemente, alguns livros foram “censurados” pelo governo de São Paulo. O que vocês pensam sobre esse patrulhamento ideológico?

FM – Acho que é uma questão de desinformação, o caso do Dez na área (Via Lettera, 2002), o livro de quadrinhos que foi distribuído e recolhido. Quem selecionou, não leu! Porque não é um livro para crianças. História em quadrinhos não é só para crianças. Quem pegou, viu: “Quadrinhos? Criança gosta de quadrinhos. Futebol? Criança gosta de futebol. Então, vou distribuir para crianças!” Não leu, não abriu (o livro). Falta de informação do material. E o (José) Serra faz aquela declaração infeliz, dizendo que o desenho é de mau gosto. Ele também não leu e coloca a culpa no gibi. Falta de informação! Eu li uma reportagem que tinha uma declaração assim: “Não dá para censurar o livro que vai para biblioteca da escola porque tem criança pequena.” É a mesma biblioteca da escola que vai ser usada pelo aluno da 1ª série e da 8ª série. Quem trabalha na biblioteca, os professores, têm que saber discernir para onde eles vão direcionar o aluno. Porque o material tem que estar lá, para todas as idades. Só tem que ter maturidade para dizer ao aluno o que ele vai poder aproveitar. Não dá para fazer só material para crianças. E tem jeito, se for bem trabalhado, para mostrar o material para crianças. Não tem problema. Nós éramos crianças quando lemosCapitães de areia (de Jorge Amado). Ficou marcante a cena dos moleques estuprando na praia. Só porque não tem desenho? Só o jeito de contar cria a sedução na narrativa, não importa se você tem quatorze, quinze, trinta anos. Existe um preconceito do que se pode contar em quadrinhos e falta de informação para direcionar aos alunos. Na literatura não tem tanto (preconceito). Embora tenha ocorrido com os poemas do Joca (Reiners Terron) naquela coletânea (Poesia do Dia – Poetas de hoje para leitores de agora, Ática), que também foi indicada para uma faixa etária equivocada, e acabou por ser recolhida. É como achar que o Joca é a mesma coisa que a Ruth Rocha. Colocam tudo no mesmo saco, nos quadrinhos eles fazem isso. Não é tudo a mesma coisa. E não tem nada de errado fazer um quadrinho mais adulto, mais duro. Só tem que saber que aquilo lá não é para uma criança de oito anos…

O que é preciso para se tornar quadrinista?

FM – Você precisa gostar muito de fazer quadrinhos para fazer quadrinhos.

GB – É difícil.

FM – Porque é difícil, a maior dificuldade de fazer quadrinhos é atravessar a arrebentação de ser o fã para se tornar o autor, o desenhista de quadrinhos. Porque os quadrinhos têm essa dicotomia de que você lê em vinte minutos um livro de oitenta páginas. Esse livro de oitenta páginas você vai ficar um ano fazendo. Essa diferença entre “eu adoro quadrinhos, eu leio em vinte minutos, ésuper rápido, dinâmico e divertido” e o dia a dia de ficar trabalhando nas páginas, meses esperando aquela história ficar pronta. É muito difícil de passar essa fase. O que nós vemos é um monte de gente que quer fazer quadrinhos e desiste justamente quando percebe que não é fácil, que não é sempre divertido. Ésuper legal criar, é super legal desenhar, mas tornar isso uma rotina e levar o trabalho até o fim é desgastante como qualquer outro trabalho. É um trabalho sério que exige que você seja responsável, determinado e empenhado. E, às vezes, as pessoas se desestimulam porque elas achavam que ia ser mais fácil. Tem uma diversão, uma satisfação, quando se produz. Cada página nova que você faz é uma vitória. Você viu e fala: “Uau!” É aquilo mesmo que queria fazer. A história vai-se construindo ao longo do tempo, você vê a coisa nascendo… Mas é muito desgastante. Trabalhamos dez, doze horas por dia, todo o dia, todo final de semana, todo feriado, há dez anos. Então, tem gente que só olha o resultado. Publica no exterior, ganha prêmio… Resultado, resultado e resultado. É tudo resultado do trabalho. Tem que gostar muito para fazer quadrinhos. Fazer sempre, fazer, fazer e errar. E errar é mostrar para outro, porque o outro vai mostrar o que você não viu, o que não funcionou. É só assim que se aprende, errando, errando, errando… E tentando de novo, fazendo mais. Porque também as pessoas têm medo de errar, não mostram. O importante é mostrar: fazer um fanzine e mostrar para os amigos, fazer uma tira e colocar no blog, ir fazendo, mostrar para pessoas e ter uma reação. É uma profissão muito solitária, você fica lá sozinho com o seu trabalho. Você só vai saber se funcionou se mostrar para alguém. Então, são as coisas que a gente fala para quem está começando a fazer quadrinhos.

Quais são as maiores referências: europeus ou americanos? O que vocês leem hoje em dia?

GB – Estamos muito mais direcionados. Ficamos sabendo de um quadrinho que dá mais vontade de ler e vamos atrás. Seguimos muito mais um autor do que um título. Lemos muito quadrinho americano quando estávamos crescendo porque havia mais acesso. Chegavam alguns Manaras, Moebius, Tintim, Corto Maltese… Nos últimos anos, tivemos acesso ao outros tipos de quadrinhos. Hoje em dia, têm uns autores europeus que fazem trabalhos mais sensíveis do que os americanos. Tem um que se chama Cyril Pedrosa, acho que ele trabalha com animação… Ele fez um livro que se chama Três sombras, a história é muito sensível, muito legal. O que mais? Gipi, um italiano que começou fazendo quadrinhos há uns oito anos, mas ele deve ter uns 50. Ele começou muito tarde, fazia outra coisa. O quê?

FM – Acho que ele era ilustrador editorial…

GB – Ele tem um desenho muito cinematográfico, exagera muito nos ângulos e tudo, sempre ali meio fechado… Ele era arquiteto! É muito bom, e umas históriassuper legais, pessoais. A gente adora também o Michelangelo Prado, espanhol, que também era arquiteto. Francês? Christopher Blanc, do Isaac, o pirata. O que mais? A gente leu muito Asterix. Quando você é criança, você não presta atenção que os quadrinhos são feitos por alguém. Hoje em dia, é ao contrário, o que importa é quem faz o quadrinho, e não o personagem. Descobrimos, indo a uma convenção nos EUA, que tem muito quadrinho americano que se parece com quadrinho europeu, mas que não tem tanto espaço de divulgação. Porque lá o que se divulga são os super-heróis. O tipo de história que gostamos de contar, mais intimista, história fechada, tem muito mais espaço no mercado europeu do que no mercado americano. Nós trabalhamos muito em preto e branco e o mercado francês, franco-belga, são muito pintados. Os europeus olham diferente para o material e para os artistas, enquanto nos EUA eles vivem muito mais de produzir um gibi por mês. Nós temos aprendido essas diferenças.


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