LOURENÇO MUTARELLI

Com quadrinhos, romances e trabalhos no teatro e no cinema, o autor atrai cada vez mais fãs para suas histórias cobertas de angústias e com reflexos autobiográficos.

Por Ramon Nunes Mello [Saraiva Conteúdo 2010]

   

 lourençomutareliFoto de Tomás Rangel


 

Renomado escritor, com cinco romances publicados – Jesus Kid (Devir), O cheiro do ralo (Devir), O natimorto (DBA, 1. ed.; Companhia das Letras, 2. ed.), A arte de produzir efeito sem causa (Companhia das Letras) e Miguel e os demônios (Companhia das Letras) –, além de graphic novels como O dobro de cinco e Transubstanciação, e trabalhos no teatro e no cinema, Lourenço Mutarelli atrai cada vez mais fãs. Suas histórias, cobertas de angústias, com reflexos autobiográficos, despertam curiosidade. 


A porta de entrada para as idéias foi a Faculdade de Belas Artes, onde iniciou a carreira fazendo quadrinhos pouco convencionais, com traço perturbador – que lhe rendeu alguns prêmios.  No entanto, cansado do excesso de imagens da vida contemporânea, Mutarelli dedica-se cada vez mais à palavra.

Lourenço Mutarelli deixa-se contaminar por ela através de suas leituras, buscando, muitas vezes, outras linguagens para se expressar – vide suas participações em filmes adaptados de suas obras, como O cheiro do ralo, dirigido por Heitor Dhalia e O natimorto, dirigido por Paulo Machline, e sem previsão de estreia no circuito comercial.

Para outubro deste ano, está previsto o lançamento de Nada me faltará, romance em forma de diálogos. E no primeiro semestre do ano que vem deve ser publicado Ninguém gritava da ponte - romance escrito para a Coleção Amores Expressos, em que o autor foi convidado para passar um mês em Nova York. Ambos saem pela Companhia das Letras, editora que vai lançar também em 2011 a HQ Quando meu pai se encontrou com o ET, fazia um dia quente, parceria do selo Quadrinhos na Cia. e a RT Features. Inspirada  em livros infantis antigos, desenhada na horizontal e pintada em tinta acrílica, com uma ilustração por página e capa dura, Quando meu pai... vai marcar a volta do autor às artes gráficas. Na verdade, ele protagoniza outra grahic novel recém-lançada, O astronauta (Zarabatana). Além de escrever o texto,atuou como a personagem principal da trama, no set improvisado montado entre a sala e a cozinha de seu apartamento.

Paulista, morador de Vila Mariana, Mutarelli cultiva seu sossego – o que considera mais importante na vida – num apartamento simples, rodeado da mulher e do filho, além dos gatos que se espalham pelos cômodos. Durante a visita, Mentira, um dos felinos de estimação, fez questão de participar do encontro, acomodando-se no colo do autor, acompanhando a conversa. 

 

Você chegou a cursar faculdade de Belas Artes, o que despertou seu interesse imediato pelo desenho?

Lourenço Mutarelli. Meu começo é muito ligado ao desenho, às artes plásticas em geral. E também aos quadrinhos, que eu lia muito quando era novo, meu pai tinha uma coleção. Meu pai tinha muitos livros e muitos quadrinhos em casa. Eu gostava muito, primeiramente dos quadrinhos. Começando a me tornar um leitor, a primeira identidade que eu tive foi com Kafka, me marcou bastante na juventude. Era uma influência estética também, eu gostava muito de expressionismo. Eu via uma identidade muito grande ali. Comecei trabalhando como desenhista, ilustrador, mas o meu objetivo era fazer quadrinhos. Foi muito difícil encontrar um espaço... Mas acho que a palavra vem invadindo meu trabalho, desde as ilustrações, que eu acabava escrevendo alguma coisa, depois os quadrinhos, até a literatura. Na época, e frequentava muito cineclube, em São Paulo. Então, todas essas influências se misturam - tanto a música, o cinema, a literatura, a nossa própria vivência vai se misturando... Quando encontrei o meu estilo, principalmente de quadrinhos, desenhos e texto...  Na verdade não encontrei, eu assumi. A questão é assumir suas limitações, isso é que determina o estilo de cada um, em qualquer área.

Seus livros frequentemente têm sido adaptados para o cinema e você acaba fazendo participações como ator, por exemplo, O cheiro do ralo, dirigido por Heitor Dália e O natimorto, dirigido por Paulo Machline...

Mutarelli. A participação como ator aconteceu de uma forma muito inesperada. Eu nunca tinha imaginado. Quando eu estava escrevendo a minha primeira peça de teatro, me convidaram para protagonizar um curta-metragem do pessoal da USP. Eu achei o convite tão absurdo que acabei aceitando para experimentar o outro lado, para vivenciar esse outro lado. A partir daí, acabei participando do O cheiro do ralo, de vários curtas e alguns longas, né? Fiz uma peça de teatro como ator [Música para ninar dinossauros], um peça do [Mário] Bortolotto. Mas é uma coisa que eu quero parar, eu queria experimentar. É muito bom de sefazer, mais fascinante, que é algo que quando estou criando, fazendo, executando, não vejo o resultado daquilo. Desenhar e escrever tudo acontece no seu campo de visão. E atuar é uma coisa que você não tem como ver, talvez, muito tempos depois, se é filmado. Como experimentação, foi interessante, mas fico pensando em parar um pouco. Sei lá, eu sou tímido, não gosto muito de me expor... No cinema não tem tanto essa exposição durante a execução porque você trabalha com uma equipe pequena. Está todo mundo ali trabalhando junto, você não sente essa exposição. Mas no momento em que vai para o cinema [salas de exibição] é muito desconfortável para mim. E o teatro é muito tenso, até entrar em cena assim... Depois que você acaba se concentrando e a coisa funciona. Gera uma insegurança que eu não tenho, normalmente, no meu trabalho, tanto de escrever quanto desenhar. Pelo menos até sair, quando um livro sai os críticos destroem... Mas quando um livro sai já estou em outro.

A experiência com o teatro e com o cinema trouxe modificações no seu trabalho de autor?

Mutarelli. O teatro foi muito mais impactante do que o cinema. Porque o cinema você não vivencia o ambiente, o personagem, ou a cena. É feito tudo de forma fragmentada, então você não entra naquele ambiente, vai aqui e ali, fazendo as cenas aos poucos. É sempre um mergulho, você entra e sai do personagem várias vezes, e tem toda espera de técnica. E em teatro você está no personagem, e você volta nesse personagem todo fim de semana. Eu comecei a perceber esse lado mais perturbador de onde as coisas se misturam: o personagem começa a agir um pouco em você e vice-versa. Muito fascinante, mesmo que eu não queira, vai refletir de alguma forma no meu trabalho. O olhar, a experimentação, a vivência nas personagens que eu faço, talvez, elas diminuam um pouco esse laço... Talvez as coisas se misturem um pouco mais, porque sempre se misturam um pouco.

 

 

Como você recebe as adaptações cinematográficas de seus livros?

Mutarelli. Eu gosto muito da adaptação de O cheiro do ralo. As mudanças foram muito boas para história, para atrair um público maior. Comecei a pensar, depois de um tempo, que essa visão de um diretor em cima do trabalho é muito próxima, às vezes, do que um editor faz. Porque até eu começar a publicar pela Companhia das Letras eu nunca tinha tido um editor. Ele tem trabalho que muitas vezes é de um editor de filme, um montador, terminar um capítulo antes e jogar uma parte... É um olhar que jamais conseguiria ter sobre o meu trabalho. E eu tive isso com o meu editor, Thiago Nogueira, na Companhia das Letras.Sempre vou dizer, o direito é de quem comprou. O mais interessante é o olhar sobre a obra. O natimorto é difícil julgar, sou muito mais próximo do Paulo Machline do que eu era do Heitor, e acabei fazendo o personagem principal. É muito difícil ter um olhar distanciado. Foi uma experiência fascinante, mas é um filme mais difícil. O Paulo foi muito mais no sentido de tentar a fidelidade. Acho que essa fidelidade acabou prejudicando o filme, tornado menos acessível do que é O cheiro do ralo. Com O natimortonão conseguimos nem distribuição, acho que isso tem a ver com a proximidade com que o Paulo conseguiu trazer do meu universo.

Há diferença no processo de criação de uma história em quadrinhos e uma história em palavras?

Mutarelli. É muito diferente fazer uma história com imagem... Agora estou trabalhando numa história que não é quadrinho, mas uma imagem por página. Então trabalhar quadrinhos ou um texto com imagem e só um texto é muito diferente. Quando eu tenho a ideia, eu já sei o meio que vou executar. Não é algo que eu pense, senão fica quase uma adaptação. São processos muito diferentes. Eu estava muito incomodado em trabalhar com a imagem, tenho gostado muito do poder da palavra. Quando você lê imagina algo muito mais próximo da realidade do que se você vê imagens que já vão determinando ou te distanciando, são representações... Tem outro lado, interessante, de se trabalhar imagem, que são possibilidades que o texto não dá. Essa história que estou trabalhando agora é toda fora de registro, as imagens não casam com o que está sendo dito. Isso eu acho um recurso legal porque o leitor tem que ir associando essas imagens e entendendo que antevieram ou virão depois... São elementos que ajudam contar a história. Mas a imagem tem me incomodado um pouco. Mesmo como leitor, eu não tenho conseguido ler quadrinhos há muito tempo. Acho que o mundo está muito sobrecarregado de imagem. E o poder do texto, essa evocação de uma representação da realidade eu acho mais convincente, mais interessante.

Você criou algum ritual para executar seus trabalhos?

Mutarelli. Eu tenho que me disciplinar muito. Eu começo a trabalhar muito cedo, na hora que levo meu filho para escola. Levanto sempre às 6 da manhã. Sempre ouço muita música. Quando escrevo não, não consigo escrever ouvindo música. Escuto um pouco de música antes de começar.

O que música você escuta?

Mutarelli. Eu gosto muito dos minimalistas [Philip Glass, Steve Reich, Arvo Part, John Coolidge Adam], de música concreta, que me levam mais para um estado mental do que a apreciação da música. O minimalismo, a repetição, me ajuda muito na concentração. Quando desenho, eu ouço música o dia inteiro, isso é muito bom, eu acabo entrando num ritmo favorável, vai desligando as interferências externas, é quase um mantra. Eu mais ou menos brinco que música é minha religião porque ela me leva para um estágio muito próximo do que seria a religião, a meditação ou a oração. Quando trabalho com desenho, que exige muitas horas por dia, preciso estar num estágio onde não sinta peso ou pressão desse tempo. Quando escrevo, trabalho menos horas por dia, tento estar ligado ao trabalho todos os dias, mas passo menos tempo. Escrever também é interessante, embora cada vez seja mais difícil para mim. Eu escrevia muito rápido, mas como gosto de experimentar a forma tenho levado mais tempo...

Há pouco você citou Kafka. E os autores brasileiros?

Mutarelli - Eu adoro o Valêncio Xavier, é o cara que mais gosto dos escritores brasileiros contemporâneos. Têm épocas, Kafka foi uma época, muitas vezes a gente volta a esses autores. Tive uma fase William Burroughs, que me contaminou profundamente. Estava lendo Kurt Vonnegut, um cara que o Antonio Prata me indicou, fiquei obcecado. Quando descubro um autor gosto de ler o máximo, ou a obra completa, ou uma quantidade de livros que me deixe saciado de alguma forma. Dos brasileiros gosto do Valêncio Xavier, Marçal de Aquino, Marcelino Freire... Tem muita gente contemporânea, inclusive são amigos, que eu gosto muito desse contato... Quando a gente se encontra é sempre muito descontraído, se brinca muito, mas quando estou lendo eles é uma distância, uma grandeza, tão interessante... Eu gosto de separar isso, quando vejo um deles falo: "Não pode ser o cara que faz aquele trabalho, senão eu não conseguiria brincar como a gente costuma fazer". O problema é que quando estou trabalhando muito intensamente não consigo ler, não consigo desligar minha cabeça daquilo. Se vou ler, sempre relaciono com o que estou fazendo e acabo não aproveitando. Isso é uma pena. Eu queria conseguir ler mais. É mais fácil ver filme, é mais fácil se desligar... Eu tenho uma coisa que os livros me chamam, descubro livros que saltaram numa livraria e sempre tem uma afinidade. É impressionante. Quando se está aberto a coisas inanimadas, como discos ou livros, nos chamam...

A cidade de São Paulo é presente em seu trabalho. De que forma você vivencia a cidade e leva para sua criação?

Mutarelli. Acho que São Paulo aparece muito no meu trabalho e talvez esteja aparecendo mais. Desde que estou morando nesse bairro, que é muito importante para mim, Vila Mariana - onde estou há sete anos, e passei a minha infância aqui. É um bairro antigo, tem de tudo, não uso mais o carro, uso o metrô ando muito por aqui. Pode parecer estranho, meu trabalho é muito brasileiro, embora seja muito paulistano, paulista. Vivi meu primeiro bloqueio criativo porque sei o que não é ser brasileiro. Acho que esse bairro e alguns lugares que morei entram muito no meu trabalho.

Gostaria que você falasse a respeito de cada um de cada um seus livros. Podemos começar com Jesus Kid (Devir), por exemplo.

Mutarelli -Jesus Kid era uma encomenda, feita pelo Heitor Dália, que dirigiu O cheiro do ralo. Ele estava pensando em fazer um filme de baixo orçamento inspirado no Barton Fink, filme dos irmãos Coen. Ele me deu essa premissa, escrever um livro sobre um personagem que recebe a encomenda de escrever um livro e tem que passar três meses num hotel escrevendo esse livro. E o personagem está num momento de crise criativa. E foi muito divertido escrever, eu ria muito enquanto fazia. E ele [Heitor] me ligava todos os dias me pedindo cada coisa mais absurda; e eu tinha que incorporar isso na trama, enquanto escrevia, era muito divertido esse processo. É o meu terceiro livro.

Tem O cheiro do ralo (Devir)...

Mutarelli - Eu nunca pensei seriamente em escrever um livro porque eu respeitava muito a literatura. Eu achava que não saberia fazer... O quadrinho te dá uma liberdade, não tem um olhar crítico tão rigoroso, é um lugar onde pode se experimentar muito. Quando tive a ideia do O cheiro do ralo, pensava que era uma história que não podia ser acompanhada de imagens. Algumas imagens tinham que ser ideais para cada leitor. Comecei a escrever meio brincando, uma ideia que tinha. É um livro que escrevi em cinco dias, estava sozinho e aproveitei esse tempo. Depois levei mais 10 dias amarrando algumas coisas, enxugando outras.. Foi um livro que fluiu de uma forma muito impressionante, prazeroso. Quando acabou eu não sabia exatamente o que era, mostrei para minhas cobaias que sempre lêem... E o pessoal gostou. É um livro que foi muito importante para minha vida, mudou muitas coisas, abriu muitas portas a partir dessa experiência.

O natimorto (DBA)?

Mutarelli -O natimorto comecei no dia seguinte que terminei O cheiro do ralo. Mas achei que estava muito ligado ao livro anterior e parei. Fui voltar alguns anos depois, uns dois anos depois, quando me convidaram a participar de uma coleção com um livro novo. Então, retomei esse livro e terminei. Muito perto de quando eu fiz o Jesus Kid, minha primeira peça de teatro é dessa época. Eu gosto muito de O natimorto, é o meu favorito de tudo que já fiz.

Seguindo pela A arte de produzir efeito sem causa (Companhia das Letras).

Mutarelli - Exato. Depois disso veio A arte de produzir efeito sem causa, que é um livro que gosto muito também. É um livro que tem uma estrutura muito lenta e muito difícil porque construí a partir de vários elementos da obra de William Burroughs, trazendo para o terceiro mundo e depois para o meu mundo. É o meu primeiro trabalho que faço na terceira pessoa. E eu quis não quebrar tanto as frases, fazendo blocos acinzentados de texto. Ele é muito experimental, me deu bastante trabalho, mas foi muito prazeroso.

De que forma o Lourenço Mutarelli aparece em sua literatura?

Mutarelli. Tem algumas coisas de algumas fases minhas. Acho que, em algumas fases, fui muito parecido com meus personagens. Conforme o meu trabalho foi seguindo, fui melhorando muito como pessoa, muitas coisas foram se resolvendo na minha vida. O trabalho é a forma de você olhar, refletir e entender. E, além de tudo, é como uma fonte, algo que me traz muita inspiração, revisitar esses lugares. Como o Marçal de Aquino costuma dizer, quando ele escreve, é uma história que está sendo contada para ele mesmo. Gosto muito de ideias, de fagulhas, que quando eu penso, elas me mostram vários caminhos e, conforme vou escrevendo, escolho esses caminhos, me surpreendendo ou experimentando. A maioria dos meus personagens está vivendo um momento de transição, muitas vezes irreversível. E a minha história pega um momento próximo.

O que é mais importante na vida?

Mutarelli. Tem uma música: “Sossego” [de Tim Maia]. O importante é isso, certa tranquilidade. Se você tem o desejo de escrever, ou de pintar, tem que fazer isso para você. É um jeito das coisas darem certo ou não, não ter muita expectativa. É o que vejo nas pessoas que estão começando, o que é muito desgastante. A pessoa tem que perceber se ela quer escrever ou ser famosa. Se ela quer fazer a arte dela, é só fazer, conseguir um tempo para viabilizar. Como eu consegui, nunca foi fácil. O melhor da vida é ter uma certa tranquilidade, é a grande coisa.

 

PARTE 1

 

 

PARTE 2

 


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates