LUCAS VIRIATO

Oriente-se

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 lucasviriato


Lucas Viriato de Medeiros não se considera poeta. Mas foi através da poesia e da militância poética que o autor se tornou conhecido. Editor do jornal Plástico Bolha, que publica autores jovens e veteranos, Lucas Viriato prossegue com o projeto literário sobre o Oriente, iniciado em 2006.

“Eu gosto, acho charmoso ser poeta. Mas muito antes de escrever poesia, escrevi prosa. Eu nem sabia que estudaria Letras e já escrevia contos. Só me interessei por poesia quando fui fazer uma matéria com Paulo Henriques Britto”.

O livro Memórias Indianas (Íbis Libris), sua estreia no universo oriental, surgiu a partir de um convite de viagem à Índia. Sem ”planejamentos”, nasceu Retorno ao Oriente (7Letras), novo registro da experiência no leste do mundo. O jovem escritor segue os passos de mestres como Oswald de Andrade e Drummond. E tem o aval do poeta Paulo Henriques Britto e da editora Isabel Diegues.

“Sempre escrevi muito antes de ter qualquer relação com o Oriente. Eu fazia um jornalzinho para cobrir os assuntos da minha casa: as viagens dos meus pais… Era um jornalista que cobria o cotidiano (risos). A relação com a escrita é muito maior. Escrever sobre a viagem foi um convite feito por uma professora da Puc-Rio: Marília Rothier Cardoso – ela fez o prefácio do meu segundo livro. Quando contei que estava indo à Índia, ela disse: ’que sensacional! Poderíamos estudar literatura de viagem…’. Ela me deu Memórias Sentimentais de João Miramar do Oswald (de Andrade), um livro de viagem.”

Estudante de Letras da Puc-Rio, Lucas Viriato faz ioga, estuda Sânscrito e traduz – sem pressa – o livro sagrado dos hinduístas, Bhagavad Gîtâ. E garante que não é rigoroso:

“Sou vegetariano conveniente, como peixe e tomo cerveja. Há sempre o perigo de a pessoa ficar zen, chata, sem inquietação. É a falta que nos movimenta. Temos que cultivar o equilíbrio e o desequilíbrio”.

Nosso encontro aconteceu no café do Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro. Devido ao caótico trânsito da cidade, atrasei uma hora para chegar ao local marcado. Mas o entrevistado foi paciente, a conversa fluiu entre viagens, poesia e muita literatura.

 

Você é autor dos livros Memórias Indianas (Íbis Libris) e Retorno ao Oriente (7Letras). Por que o interesse pela cultura oriental?

Lucas Viriato – Fui levado para essa cultura, convidado por minha mãe para fazer ioga. E outras pessoas me convidaram para conhecer um templo Hare Krishna. Surgiu espontaneamente. Por vários pontos diferentes da vida a Índia foi chegando até mim. A minha professora de ioga me convidou para ir ao Sul da Índia, essa foi minha primeira viagem. Não havia uma viagem pronta na cabeça, me apaixonei. Tudo é chocante, principalmente sair do Ocidente. A viagem à Índia representou chegar a uma cultura complexa, estruturada e milenar, muito diferente da nossa.

O projeto sobre o Oriente tem continuidade? É uma trilogia?

LV – Muita gente me cobra isso. Já tenho até um nome: Índia Derradeira (risos). Isso seria forçar a barra. As viagens para Índia foram convites.

O que é a Índia?

LV – É a chance de sair um pouco de si.

O que mais impressionou nessas viagens à Índia?

LV – Acho que estar fora do Ocidente. Tudo lá é diferente.

E o Brasil?

LV – É muito mais impressionante do que a Índia. Somos mais plurais.

Antes das viagens você tinha alguma relação com a literatura?

LV – Sim. Sempre escrevi muito antes de ter qualquer relação com o Oriente. Eu fazia um jornalzinho para cobrir os assuntos da minha casa: as viagens dos meus pais… Era um jornalista que cobria o cotidiano (risos). A relação com a escrita é muito maior. Escrever sobre a viagem foi um convite feito por uma professora da Puc-Rio: Marília Rothier Cardoso – ela fez o prefácio do meu segundo livro. Quando contei que estava indo à Índia, ela disse: “que sensacional! Poderíamos estudar literatura de viagem…“ Ela me deu Memórias Sentimentais de João Miramar do Oswald (de Andrade), um livro de viagem. Então, o meu trabalho de Literatura Brasileira II foi escrever sobre a viagem à Índia.

Como surgiu a segunda viagem à Índia?

LV – Eu já tinha feito um ano de Plástico Bolha, com muito trabalho. Fiz uma viagem para Europa e fiquei de saco cheio, então decidi ir para Nova Deli. Fui ao consulado da Índia em Paris e tirei um visto. Depois fui para Londres, comprei uma passagem e fui para a Índia. Não era um plano fazer uma segunda viagem. Mas prometi escrever o segundo livro se conseguisse fazer essa viagem.

De onde surge o interesse por literatura?

LV – Não veio tanto dos meus pais. Eles não fizeram faculdade, são comerciantes. Mas se interessam por ler, têm uma relação de “telespectador” da literatura. É uma coisa minha, não sei. Era mais interesse pela escrita do que pela leitura. Mas estou sempre lendo alguma coisa.

Você faz Letras ou curso de Formação de Escritor?

LV – O curso de Formação de Escritor é uma habilitação do curso de Letras. Eu já tinha decidido que faria Cinema na Estácio. Larguei a escola e fiz um supletivo para fazer faculdade. Estava gostando, mas achando fraco. Resolvi fazer Publicidade na ESPM, sem trancar o curso de Cinema. Por um ano, fiz Publicidade pela manhã e Cinema à noite. Chegou um momento em que tranquei tudo e fiquei parado por seis meses. Também tentei fazer Gastronomia, mas ainda bem que desisti antes de comprar as facas (risos.) Um belo dia, eu estava andando pela Puc e a amiga de um amigo meu falou: “há um curso de Formação de Escritor”. Depois é que descobri que era uma habilitação de Letras.

Você acredita numa formação acadêmica para o escritor?

LV – Não. Sim e não. Por que um escritor não pode ter uma formação acadêmica? Que escritor não vai se tornar melhor se tiver uma formação? Nenhum curso forma ninguém. No curso, encontrei pessoas importantes, alunos e professores, como Marília Rothier, que falou para eu escrever o primeiro livro, e o Paulo Henriques Britto, que me ensinou a fazer poesia. Encontrei pessoas que me estimularam. Minha vida teria sido outra coisa se a menina não tivesse me falado sobre o curso.

Que escritor você descobriu na faculdade?

LV – Carolina Maria de Jesus. Sabe quem é?

Sim. A mineira que morava na favela do Canindé, em São Paulo, autora do livro-diário Quarto de despejo.

LV – Isso mesmo. Gostei tanto dela. Realmente, não se precisa de formação para ser escritor. Ela escreve tudo errado, mas são as coisas mais bonitas do mundo. A capacidade cognitiva do ser humano é igual em todos. Ela fala do cotidiano e da favela sem roupagens politicamente corretas.

Algum outro escritor especial?

LV – Na poesia, quem me despertou foi o Manuel Bandeira. Libertinagem eEstrela da Manhã foram importantes.

Engraçado, porque sua poesia é quase uma prosa.

LV – Em vários momentos não considero como poesia o que escrevo. Minha leitura é muito ”zapeada”, nunca peguei um escritor e mergulhei. Também leio prosa: de Agatha Christie a Rubem Fonseca… Rubem é uma inspiração pela contemporaneidade.

Em seu primeiro livro, você cita Oswald de Andrade, Caetano, Camões e Drummond – escritores que escreveram sobre viagens.

LV – Exatamente. A viagem e a escrita me levaram a citar essas pessoas. O Oswald de Andrade foi o que mais influenciou o livro, no sentido de que a forma do livro é dele. Memórias Sentimentais de João Miramar é todo em fragmentos, numerado. O formato que encontrei foi um pastiche do formato do livro dele. Outro livro com que se relaciona é Serafim Ponte Grande, pelo seu excesso de deboche.

 

 

Você se considera escritor ou poeta?

LV – Um escritor.

Mas você é visto como poeta. Será por causa do jornal Plástico Bolha?

LV – Sim. Eu gosto, acho charmoso ser poeta. Mas muito antes de escrever poesia, escrevi prosa. Eu nem sabia que estudaria Letras e já escrevia contos. Só me interessei por poesia quando fui fazer uma matéria com Paulo Henriques Britto.

Você fez Letras, mas trabalha como jornalista.

LV – Verdade. Mas não me deixam registrar o Plástico Bolha porque não sou jornalista. Engraçado.

Como você classificaria seus livros?

LV – Livros de fragmentos, vários deles poéticos. Até mesmo quando é prosa, há lirismo, uma percepção poética da realidade. Escrevo continhos, fragmentos e poesia. É para ser lido como um livro de viagem. Não tenho poesias suficientes para escrever um livro de poesia. Quero lançar um livro de contos.

Na apresentação do livro Memórias Indianas você diz: ”a ideia é extrair a linguagem aproveitando a pseudolegitimação da viagem.” Fale um pouco sobre isso:

LV – Faço parecer que foi igual à viagem, não é menos construção. Vai ser válido se alguém escrever sobre a Índia sem visitá-la? Acho que sim, a visita só legitima.

Você planeja pouco sua vida?

LV – Tenho metas para este ano: quero lançar mais um livro, adiantar as matérias do mestrado, dar prosseguimento ao Plástico Bolha… É um planejamento de tópicos. Outras coisas vão surgindo e vou topando.

Quer fazer mestrado em quê?

LV – Literatura Brasileira, aqui na Puc-Rio. Mas ainda não tenho projeto.

A ioga favorece o quê?

LV – Um equilíbrio que pode ser até perigoso. Porque uma pessoa muito equilibrada pode gerar uma criação boba, ruim. Tenho esse medo. Não sou muito rigoroso. Sou vegetariano conveniente, como peixe e tomo cerveja. Há sempre o perigo de a pessoa ficar zen, chata, sem inquietação. É a falta que nos movimenta. Temos de cultivar o equilíbrio e o desequilíbrio. Não quis fazer um livro certinho, meu livro também fala de haxixe.

Você estuda sânscrito? Como é isso?

LV – Sim. Eu não falo sânscrito, só leio. É o tipo de coisa em que você entra mesmo sabendo que não vai ganhar.

Por que você entra em algo mesmo sabendo que não vai ganhar?

LV – É a vida (risos). Todo dia aprendo um pouco, mas nunca vou chegar a um ponto de proficiência, até porque a língua está morta. É uma língua fonética, consigo ler tudo. Só não pergunte o que estou lendo. Meu mestre é Walter Santa Helena.

Mas você traduz o Bhagavad Gîtâ, o livro sagrado dos hinduístas.

LV – Há algumas traduções no Brasil, a mais famosa é do (Bhaktivedanta Swami) Prabhupada, fundador do movimento Hare Krishna. O devanágari, o alfabeto Sânscrito, é o meu sudoku. É como se fosse uma brincadeira do sudoku, fico traduzindo o alfabeto para saber o que significa. É uma terapia, uma malhação mental, que gera vários insights: relaciono com francês, inglês, português… Estudo há três anos. Posso alfabetizar você em sânscrito, se for muito empenhado, em seis meses. Pelas minhas contas, termino minha tradução em 20 anos. Mas ter traduzido Bhagavad Gîtâ antes dos 60 anos está ótimo. Poucas pessoas fizeram isso: Gandhi, Prabhupada…

Você acredita em Deus? Tem religião?

LV – Acredito. Mas não tenho religião, não gosto. Frequento algumas coisas, mas penso que é um pouco “atraso”.

Você acompanha a produção literária dos escritores indianos?

LV – Não. Já li algumas coisas: Sua resposta vale um bilhão (do indiano Vikas Swarup). Eles estão em muitos lugares.

Vindo para a entrevista, encontrei vários indianos no metrô…

LV – (Risos.) Viu como eles estão espalhados? E agora vai começar a novela:Caminho das Índias. O meu primeiro livro foi parar nas mãos da Glória Perez (risos).

Como você avalia do cenário da literatura contemporânea?

LV – É estranho falar do que está acontecendo agora. Várias pessoas convivem comigo, com outras eu não tenho nenhuma relação. Outros não me convidam, mas será que eu convido a todos? Existe o grupo, a panela. Mas isso não é só na literatura. Não há licitação para poeta. Eu sinto isso, mas o Plástico Bolha, talvez, seja um grupinho. Mas acredito que há espaço para todos: Plástico Bolha, CEP20000, Click(in)Versos…

O que o Plástico Bolha lhe deu?

LV – Muita coisa! Toda a inserção no meio literário veio através do Plástico Bolha.

O que você tem lido?

LV – A galera: Leandro Jardim, Diana de Hollanda, Alice Sant’Anna, Marília Garcia, Carlos Andreas… Inclusive falei deles numa aula que ministrei na Puc.

Você até pouco tempo não tinha um blog…

LV – Não era uma posição ideológica. Era falta de interesse, planejamento. Não era uma posição, já abri um blog do Plástico Bolha.

O que diria para um jovem que deseja ser escritor?

LV – Me procure (risos). Tô brincando. Diria: Concentre-se mais em entrar para a História do que para entrar na mídia. Faça algo em que você acredite, mesmo que não seja reconhecido.


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