LUÍS CARDOSO

O desafio de escrever a partir de uma voz feminina

Por Ramon Nunes Mello [Saraiva Conteúdo 2010]

   

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Luís Cardoso nasceu no Timor-Leste. É autor de quatro romances: Crónica de uma travessia (1997),Olhos de coruja olhos de gato bravo (2002), A última morte do coronel Santiago (2003) e Requiem para o navegador solitário (2007), seu primeiro livro publicado no Brasil. O Timor-Leste, país marcado por sucessivas invasões e conflitos intensos, é, como diz o próprio autor, “uma colcha de retalhos etnolinguisticos”. Além disso, há neste país forte tradição da cultura oral. Por isso, Luís Cardoso é considerado o primeiro autor timorense a escrever em língua portuguesa. O autor, entretanto, rejeita o rótulo. Homem de gestos simples e delicados, Luís Cardoso fala, nesta entrevista, de sua relação com a língua portuguesa e com o Brasil. E conta um pouco sobre os desafios de criar a partir de uma voz feminina. Como fez com Catarina, a personagem principal de Requiem para o navegador solitário.

No Timor Leste o Tetun é o idioma oficial. Diante de tantos dialetos existentes no Timor, por que você escolheu a língua portuguesa? E de onde surgiu seu interesse por literatura?

Luís Cardoso - Por escrever em língua portuguesa desde a infância. Há um episódio muito interessante. Eu vivia numa ilha chamada Taurus, uma ilha mais pequena que o Timor, onde havia um desterrado político português - por oposição ao regime de [António de Oliveira] Salazar. Ele resolveu fazer uma padaria, o filho dele era meu colega. Meus pais não tinham dinheiro para comprar pão porque era um objeto de luxo. Os nativos, nós, os timorenses, comíamos batata-doce, mandioca... São essas coisas que faziam parte do nosso pequeno almoço. Quando havia as redações, que se fazem nas escolas primárias, eu fazia sempre duas versões: uma versão pra mim e outra pra ele. Ele que era filho de português, e eu timorense. E como recompensa ele me dava um pão com manteiga. Foi assim, digamos, que passei a tomar o gosto de escrever em português. Como eu tinha que escrever duas versões, isso fez com que eu tivesse uma imaginação maior. Porque toda as vezes tinha que escrever uma versão para mim e outra pra ele. Deu-me o gosto desde a infância. E depois, com o tempo, fui me habituando, gostando de escrever em língua portuguesa. E foi assim que se iniciou a minha relação afetiva com a língua portuguesa, mas só tive a oportunidade de escrever bem quando finalmente fui para Portugal, em 1975.

Você mora em Portugal até hoje...

Luís Cardoso - Estou lá até hoje. Quando estive em Portugal, começou a invasão do Timor pelos indonésios. Nunca mais pude regressar ao Timor. Então, comecei a fazer parte da frente diplomática da chamada Resistência Timorense. Como falava alguma coisa de inglês, os meus colegas decidiram utilizar-me nessas andanças todas. Quase todo o resto da minha vida foi, precisamente, a fazer diplomacia pela Resistência Timorense.

Embora rejeite o título, você é tido como o primeiro escritor timorense. Como é a relação desses conflitos étnicos e políticos do Timor Leste com o seu trabalho?

Luís Cardoso -O primeiro livro que escrevi chama-se Crônicas de uma travessia. O personagem principal não está nomeado, muito gente diz que é uma autobiografia, posso citar como sendo, mas ao mesmo tempo podia ser a vida de qualquer outro timorense. O Timor é uma manta de retalhos de vários grupos etnolinguísticos. Quase podemos afirmar que atravessamos de nação em nação por todo o Timor. Tentei dizer mais ou menos em Crônicas de uma travessia, para as pessoas conhecerem um pouco do Timor real, e não somente aquele que conhecem pelos jornais, pelo drama da Resistência Timorense. Depois da minha estreia, procurei me adentrar no universo timorense através do segundo livro, que se chama Olhos de coruja, olhos de gato bravo. Olhos, portanto, um olhar interior sobre o povo timorense, sobre seus ritos e mitos. E, sobretudo, um olhar feminino. Todo o universo timorense é dominado pelo olhar feminino. As mulheres que leram o livro disseram que é um texto mágico, mulheres timorenses e mulheres feministas portuguesas. Isso me deu orgulho porque achei que eu tinha ganhado um desafio. O terceiro livro chama-se A última morte do coronel Santiago, um título que se relaciona com a América Latina. Depois da libertação do Timor, regressei ao Timor para acompanhar o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago. Foi muito interessante descobrir que por trás do Prêmio Nobel, do escritor, existe outra pessoa que muita gente desconhece.

Quem é essa pessoa?

Luís Cardoso -É um grande contador de histórias, uma pessoa afável. O grande escritor, o escritor que todos nós conhecemos, é diferente daquele que conheci nessa viagem ao Timor. Ele foi encantador em Timor, atencioso com as pessoas... A última morte do coronel Santiago tem esse nome porque nessa ocasião, em que estive no Timor acompanhando José Saramago, um tio meu que foi tenente da segunda linha do exército colonial português me perguntou: "Quando os portugueses regressam ao Timor?" “Bom, os portugueses não vão regressar ao Timor”, eu respondi, “neste momento estão as Nações Unidas em Timor, que farão a transição e o Timor vai ficar independente. Portanto, os portugueses já não vêm ao Timor. Até podem vir, mas integrados com as Nações Unidas.” Ele ficou magoado com minha resposta. Passado um tempo, ele voltou a perguntar: "Quando os portugueses regressam ao Timor?" E só aí eu descobri o motivo da pergunta recorrente de meu tio: "Se os portugueses regressassem neste momento ao Timor, o meu posto seria coronel e eu receberia os retroativos todos." A resposta dele me fez lembrar um livro do Gabriel Garcia Márquez, Ninguém escreve ao Coronel, em que estão à espera do vencimento que nunca chegava. Por isso decidi dar aquele título ao romance.

Qual o importância da língua portuguesa para os timorenses?

Luís Cardoso -A língua portuguesa teve um papel muito importante durante o tempo da Resistência. Porque os documentos que nós recebíamos do interior do Timor, que a Resistência fazia circular, eram em língua portuguesa. O que significava que a língua oficial da Resistência era o português. Só que a maioria dos falantes de português foi morta durante a ocupação. Diante disso, depois da independência há a necessidade de fazer uma reintrodução da língua portuguesa em Timor. E, neste momento, há países que colaboram: professores portugueses, professores brasileiros, angolanos, da Guiné... Portanto, a lusofonia. Mas isso levará algum tempo, porque as Nações Unidas, mesmo estando em Timor, não veem com bons olhos, acham que é uma utopia a reintrodução do português em Timor. Pensam que é mais fácil utilizar o inglês. Motivados por essa pressão das Nações Unidas, muitas vezes parece que não temos vontade de acelerar o processo de reintrodução da língua portuguesa em Timor. Também por causa da instabilidade política em Timor, muitas das questões fundamentais são relegadas para um segundo plano. Acredito que uma vez politicamente mais estável o Timor terá a possibilidade de fazer uma reintrodução mais rápida do português.

No final do anos 1980 você veio ao Brasil e se encontrou com o Lula. Atualmente você está lançando Requiem para o navegador solitário (Língua Geral) e Lula está terminando o segundo mandato de presidente. Como é lançar seu livro no Brasil neste contexto político?

Luís Cardoso -É uma alegria. É bom que um país como o Brasil possa ler o livro de um autor lá do fim do mundo. Muitos brasileiros não sabem onde fica o Timor. Espero que os brasileiros gostem do livro, sei que têm bom gosto. Espero que seja bem aceito. É uma honra para o Timor. Fico muito satisfeito. Qualquer dia a minha filha, que hoje tem seis meses, quando crescer vai poder dizer: "Meu pai foi editado no Brasil." É uma honra pra mim também.

Catarina. Quem é essa personagem do livro Requiem para o navegador solitário? Seria sua terra natal, o Timor?

Luís Cardoso -Ah Catarina... [pausa] Depois desse livro ganhei uma afeição especial por escrever a partir do universo feminino. Há escritores que fazem isso de uma forma magnífica, como é o caso de António Lobo Antunes, cujas personagens femininas são excelentes. Eu também decidi aventurar-me por isso. Acho que falo melhor assim, não me travestindo como mulher, mas julgo que através de uma voz de mulher consigo expressar-me melhor. Decidi contar uma história sobre a Segunda Guerra Mundial em Timor através de uma personagem feminina muito forte, que é a Catarina. Timor sempre foi um ponto de encontro de várias pessoas, desde aventureiros, negociantes, desterrados políticos do regime de Salazar... E também uma terra marcada pelas invasões. Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor teve duas invasões. A primeira pelos Aliados e a segunda invasão pelos japoneses, que durou mais tempo. Sempre tive uma afeição muito grande pelos navegadores solitários, pelas pessoas solitárias, e por todos aqueles, alguns mais desesperados que outros, que passavam por Timor: viajantes. Há um viajante que passou por Timor, Alain Gerbault, um navegador solitário francês que fez uma viagem de circunavegação e escreveu um livro que se chama À la Porsuite du Soleil. E, por uma terrível coincidência, ele morre em Timor - que nós, o timorenses, chamamos de "a terra onde nasce o Sol". A partir desse fato desenvolvi toda a trama do livro Requiem para o navegador solitário. É a história de Catarina, uma pessoa que vai a procura do amor e, ao mesmo tempo, tem reveses. São pessoas que perante reveses contornam as situações. E isso aconteceu com Timor, teve um revés tremendo em toda sua história e deu a volta por cima. E hoje Timor é um país independente.

Você se considera um homem solitário?

Luís Cardoso - Acho que nós todos somos solitários em algum momento de nossas vidas. Ser solitário implica estarmos sós, estarmos com o mundo. Quando estamos solitários o que nos vem à cabeça são os momentos que estamos com toda a gente, mas não estamos com ninguém. O ato de estar solitário não é de desespero, mas o ato de estarmos também com os outros.

Seja na música e literatura, o que mais te atrai na cultura brasileira?

Luís Cardoso -Eu lamento não ter lido na minha infância os grandes escritores brasileiros. Semana passada, quando estava em Brasília, eu disse: "Vou começar a ler Machado de Assis. Vou começar a ler Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa..." Provavelmente, vou ler com outros olhos, na medida em que já fiz uma travessia. Muito dos meus amigos já leram, muitos escritores foram influenciados por escritores brasileiros. Mas lamento não ter tido essa iniciação. Provavelmente, eu seria um escritor melhor se tivesse feito essa iniciação. Não fiz, lamento. Obviamente, conheço os escritores brasileiros, os músicos brasileiros, os cineastas brasileiros... Acho os poetas brasileiros magníficos, adoro os poetas brasileiros. Conheço pouco o Brasil, a minha humildade diz-me que tenho que conhecer melhor. E, provavelmente, vou precisar de outra vida para conhecer melhor o Brasil. Porque o Brasil é tão grande e tão rico, vou precisar certamente de outra vida.

Quando você pensa no Timor, qual a primeira imagem que aparece?

Luís Cardoso -A infância. Fui muito feliz na infância em Timor. [silêncio]

 


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