ONDJAKI

ORALIDADE AFRICANA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 ondjaki

 

O escritor Ondjaki, nascido em Luanda como o nome de Ndalu de Almeida, lançou, durante a Festa Literária Internacional de Paraty, o livro O leão e o coelho saltitão. O livro infantil foi um convite da editora Língua Geral para adaptar para crianças um conto tradicional angolano para a coleção Mãe Brasil. Em junho, havia lançado outro livro endereçado ao público infanto-juvenil,AvóDezanove e o segredo do soviético (Companhia das Letras).

Autor de Bom dia camaradas (Agir, 2006) — único livro de um autor africano entre os 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2008 —, Ondjaki traz para o universo infantil a oralidade presente na cultura do povo africano. Há este fluxo da contação de histórias nos seus textos.

“Sempre gostei de ouvir histórias e contar também. Acho que a partir dessa oralidade da história que cheguei à escrita, comecei a escrever contos. Luanda é uma cidade cheia de histórias. Acho que Luanda é de facto uma cidade de histórias, uma cidade onde normalmente a própria realidade escreve melhor que os escritores”, afirma.

O escritor preserva uma relação afetiva com autores de língua portuguesa que despertaram seu interesse pela literatura, como Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Sophia de Mello Breyner Andresen e Fernando Pessoa. O carinho pelo Brasil o levou a morar no Rio de Janeiro, onde trabalha ministrando suas oficinas literárias e colaborando para jornais e revistas.

Durante o encontro, o som de um grupo de maracatu invadiu o áudio da câmera, foi inevitável o entrevistado relembrar a alegria dos brasileiros e o encanto com Paraty. “Impossível chegar a Paraty e sermos indiferentes às casas, às pedras e ao mar. Ninguém, sóbrio ou ébrio, esquece uma pedra de Paraty. Porque você está sóbrio tem que olhar para as pedras para caminhar. E se você já bebeu um pouco tem que olhar para caminhar. É uma cidade onde a pedra é muito importante, de facto.”

A seguir, o angolano comenta estes e outros assuntos, como o acordo ortográfico da língua portuguesa, que já está valendo no Brasil, mas ainda precisa ser referendado em Portugal. A transcrição de sua fala respeitou a grafia lusitana utilizado em Angola.

Você passou a infância em Luanda e começou a escrever aos 13 anos, fale um pouco sobre esse período.

Ondjaki – Sou uma pessoa que gosta muito de histórias. Sempre gostei de ouvir histórias e contar também. Acho que a partir dessa oralidade da história que cheguei à escrita, que comecei a escrever contos. Luanda é uma cidade cheia de histórias. Tu não consegues combinar uma coisa com uma pessoa, se ela chega atrasada, ao invés de simplesmente se desculpar, vai contar uma história. Normalmente vai inventar uma história: “Por que chegou atrasada?” É uma cidade onde as pessoas estão viciadas em histórias, há uma teatralidade muito grande.

Acho que Luanda é de facto uma cidade de histórias, uma cidade onde normalmente a própria realidade escreve melhor que os escritores. E são os escritores que seguem a realidade tentando entender um pouco de como poderão trazer essa realidade às histórias. Uma cidade de ficção, uma cidade de fantasia. O povo angolano sofreu muito por várias razões — a guerra e outras privações —, mas nunca perdeu essa capacidade de sonhar. Isso que é interessante num povo: sempre capaz de sorrir no meio da desgraça, sempre capaz de sobrepor o riso aos aspectos menos positivos. Isso é incrível, influencia os escritores. E, pessoalmente, não posso falar pelos outros, a minha tendência é escrever sobre coisas positivas. Posso me referir a alguns aspectos “menos bons”, mas a minha tendência é dar relevo aos aspectos positivos da sociedade angolana.

Além de ouvir histórias, você tinha contato com a literatura impressa?

O – Sim, eu tinha. Eu costumo dizer que comecei a ler tarde, com 13, 14 anos. Eu lembro, por exemplo, a importância que os livros do Asterix tiveram para mim. A própria questão de estudar a geografia da Europa a partir dos livros do Asterix. A influência dos ditados em latim, havia sempre o “homem dos piratas” ou alguém que dizia ditados em latim. Depois alguns livros da literatura portuguesa, um pouco mais tarde, aos 14 15 anos, E depois comecei com Um certo capitão Rodrigo (Companhia das Letras) [da obra O tempo e o vento, de Érico Veríssimo]. E passei para o Graciliano Ramos, já foi uma coisa mais séria e mais bonita. Apaixonei pelos livros do Graciliano: Caetés (Record) e São Bernardo (Record). Graciliano foi uma influência muito importante porque eu era muito novo. Eu achava bonitos os livros do Graciliano. E eu achava isso estranho porque achei que os livros deviam ser chatos. Mas não eram chatos porque eram muito bem escritos. A partir daí, foram uma série de descobertas, também Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena… De portugueses, foi isso. No princípio, fiquei muito impressionado com os versos de Fernando Pessoa, ele é filosófico e simples ao mesmo tempo — o que é sempre difícil.

 

Você escreve romances, contos e poesia. Há diferenças no processo de criação?

O – São processos diferentes. A verdade é: o que comanda a minha a escrita são as histórias. Mesmo quando estou a escrever poemas, eu quero contar histórias. A diferença é que há histórias que se prestam mais ao poema e outras se prestam mais ao conto. Quando a história tem outros detalhes e outro tempo, ela passa a ser um romance. Não é? Eu raras vezes penso na intenção de uma história, mesmo que seja um romance. Digo, não escrevo com intenção de transmitir mensagem política. A mensagem política tem que vir depois da mensagem literária; primeiro há uma história, uma literatura e depois poderá haver aspectos políticos. As pessoas falam do meu livro Bom dia camaradas(Agir, 2006), pensando: ”Ah é um livro sobre os anos 80, a questão ideológica…” Não. É um livro sobre a infância. Só que a nossa infância em Luanda tinha muito de político e histórico, então é preciso se referir a esses aspectos. Quando escrevo para crianças é outro esquema: tenho muito mais cuidado com a linguagem e com os conteúdos. Há um trabalho prévio muito grande. Quando estou a escrever para crianças — caindo, às vezes, no erro de ser um pouco pedagógico demais — tenho um cuidado com a linguagem que não tenho com os outros livros. Nos meus outros livros, a linguagem é uma questão aberta e de liberdade em absoluto.

 

De onde surgiu o interesse de escrever o livro infantil O leão e o coelho saltitão (Língua Geral, 2009)?

O – Na realidade, O leão e o coelho saltitão resulta diretamente de um convite da editora Língua Geral para adaptar um conto tradicional angolano a uma história para crianças. O conto que eu adaptei nem se quer uma história para crianças, ele tem alguns contornos de violência. É complicado, porque o leão e o coelho fazem é matança geral para poder comer, eles estão com fome. Eu tentei trazer essa história ao universo infantil, com outro tipo de palavras e outro tipo de intenção. O livro já foi lançado em Angola e Portugal, está para ser lançado no Brasil. Mas as crianças não prestam atenção a isso, eles gostam de outros tipos de elementos que chamam atenção. E isso que é curioso na criança. Não dá para prever, as crianças descobrem outros aspectos dentro da obra. Foi assim que o livro nasceu, fiz uma pesquisa e gostei da história. Tentei trazer essa história da oralidade para as crianças.

 

Você começou a publicar na Angola, em seguida Europa e Brasil. Como é saber ser lido em outros idiomas?

O – A única diferença que há, quando se publica em outros países que não o seu, é no contacto com imprensa ou no contacto com o leitor. Isto é, o livro existe e é traduzido ou levado para outro país. No contacto com o público há perguntas e questões onde tu aprofundas um pouco mais os aspectos da tua cultura. É uma questão de o autor mediar, há uma mediação cultural entre aquilo que tu já disseste no livro e os comentários que tu vais fazer. Porque é uma coisa que é preciso ter cuidado quando estás a falar num outro país, mesmo no Brasil que não tem muita noção cultural do que se passa em Angola, tem de se ter cuidado com aquilo que tu vais dizer. Porque tu estás a ser simultaneamente um transmissor e um tradutor de uma série de aspectos culturais do seu país. É onde entra a questão que eu digo quando estou fora do meu país: prefiro salientar os aspectos positivos de Angola. Porque o negativo é evidente, toda gente busca o negativo — sobretudo os jornalistas. Então, vale a pena mais ressaltar o positivo.

Ainda consegues? (Referindo-se à captação do som depois que o maracatu invade o áudio. O maracatu se vai, a conversa continua)

 

Na Casa de Cultura de Paraty, você participou de uma mesa sobre o polêmico Acordo Ortográfica da Língua Portuguesa. Os países não perdem a identidade com este acordo?

O – Penso que não. Ao longo do tempo as identidades vão se reconstruindo. Nesse momento, sobretudo para quem escreve, é difícil. Cada um tem o seu egoísmo, cada um tem o seu ciúme da própria língua, da sua própria palavra. Sobretudo quem mexe com a palavra: os escritores, os jornalistas, os políticos, os advogados e os professores. Estas pessoas que têm a palavra como instrumento principal não gostam de ver uma política, ainda que seja ortográfica, invadir seu território de trabalho. Nós sentimo-nos invadidos, incomodados — acho que é normal. Se de facto vai trazer algum tipo de uniformidade, alguma vantagem para os países, não me ficou claro. Esta é principal reserva que eu tenho quanto ao acordo ortográfico. Não sei qual é a sua utilidade prática. Não sei qual o grau de utilidade desse novo acordo. E também não sei o que vai acontecer concretamente com as crianças, a nível pedagógico. Vamos ter que imprimir milhares de dicionários? Isso é óbvio. É bom para quem? Para quem manda imprimir dicionários e quem os vende.

Agora, uma coisa que me assunta é uma questão tão importante como esta do acordo não ter envolvido toda a população. A população civil não foi envolvida no processo, isso é preocupante. Nós não fomos chamados para discutir a questão. Nós estamos a ser chamados a comentar uma decisão, não fomos chamados para decidir. É perigoso, vamos pagar essa fatura mais cedo ou mais tarde. Para dizer a verdade: Se me preocupa como artista? Não. Porque meu instrumento de trabalho é a palavra, não há nenhum acordo que se sobreponha ao meu trabalho. Mas isso não interessa porque o acordo não está a falar do meu trabalho artístico, está a falar de uma coisa muito maior: a formatação gráfica da língua. A única coisa que eu pedi é que fosse mais debatido, que não se tomasse decisões em cima do joelho, do tornozelo ou do dedo mindinho.

Por que a decisão de morar no Brasil?

O – Foi uma conjuntura pessoal que aconteceu. Eu comecei a ter mais contactos com editoras brasileiras, com o mundo acadêmico brasileiro. Comecei a dar aulas, isso me aproximou do Brasil. Isso não é uma decisão definitiva, eu não tenho decisões definitivas muito concretas na minha vida. Estou de facto a viver uma fase onde me considero que estou a viver no Brasil. O que vai acontecer daqui a cinco ou dez anos eu não faço a mínima ideia. Posso estar na Islândia ou Argentina. Não sei.

 

O que te encanta no Brasil?

O – O que me encanta no Brasil são as pessoas. Não é uma coisa só do Brasil, o que me encanta no mundo são as pessoas. Mas quando as pessoas me perguntam: “O Rio é a Cidade Maravilhosa?” Não sei se o Rio é uma cidade maravilhosa. O Rio tem pessoas maravilhosas. Todos os lugares do mundo têm pessoas maravilhosas? Sim, a seu modo. As pessoas de Berlim, na Alemanha, são maravilhosas de outra maneira. Não se pode dizer que o fator mais característico de Berlim seja a alegria ou a simpatia das pessoas. São outros fatores: a vida cultural, a vida tecnológica…

O Rio, não, é o fator humano — que é muito semelhante, de facto, a uma grande sincronia com essa alegria, essa fantasia, que eu digo de Luanda. O Rio tem outra coisa, tem uma descontração, uma facilidade de comunicação, uma empatia humana que ultrapassa todas as outras cidades que conheci. Nem em Luanda, as pessoas lá estão um pouco mais desconfiadas. Esse trejeito carioca de que querer estar com o outro, de convidar o outro a beber uma cerveja, ou até de convidar o outro para ir à sua casa sem dar o endereço ou o número do telefone. O que o carioca quer dizer? “Eu quero te ver, mas não necessariamente na minha casa.” O paulista, neste aspecto, é diferente. Ele, se convidar, vai te dar o número de casa. Mas é quando te convidar. O carioca convida já, pelo sim e pelo não, e vai te encontrando no bar. Conheço gente que são amigos há muitos anos, mas não conhecem a casa um do outro. Mas no Rio há uma preocupação com a convivência, há uma descontração. Há uma alegria inerente ao povo carioca que é confundida com uma certa preguiça, um certo “deixa andar”. Não, penso que é uma celebração da vida. O Rio é uma cidade colorida e musical, isso tinha que chegar às pessoas. O Rio, o que é que tem? Montanha, floresta, mar, pessoas, futebol, literatura e música…

E Paraty também…

O – Atenção: Paraty é muito conhecida pelo Festival Literário de Paraty, mas tem a Festa da Cachaça. Paraty é uma cidade de festas. Ela é uma cidade temática, tem uma componente histórica muito forte, visual e arquitetônica. É imediatamente agradável ao olho. Impossível chegar a Paraty e sermos indiferentes às casas, às pedras e ao mar. É impossível. Ninguém, sóbrio ou ébrio, esquece uma pedra de Paraty. Porque, você está sóbrio, tem que olhar para as pedras para caminhar. E se você já bebeu um pouco tem que olhar para caminhar. É uma cidade onde a pedra é muito importante, de facto.

 


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