OS SETE NOVOS

Mariano Marovatto, Augusto de Guimaraens Cavalcanti e Domingos Guimaraens

CÁLCULOS POÉTICOS DE UMA GERAÇÃO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 setenovos

 

Os Sete Novos é composto por três poetas. Sim, não é um erro de matemática. Foi com essa licença poética que Domingos Guimaraens, Mariano Marovatto e Augusto Guimaraens Cavalcanti resolveram se unir para lançar os respectivos livros: A Gema do Sol, O Primeiro Voo e Poemas para se ler ao Meio-Dia – todos pela editora 7 Letras.

“É uma ironia com essa ’coisa’ de movimento poético. É um ’nome-sátira’, em que há três poetas no meio dessa bagunça, três poetas começando juntos. E por que não seriam sete também? Acho que vai por aí…”, Augusto Guimaraens Cavalcanti tenta explicar e Mariano Marovatto completa:

“Somos três poetas, mas onde estão os outros quatro? Ou estamos ’esperando Godot’? Sete é número cármico: sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete mares, sete dedos das mãos…”, ironiza.

O papo rolou na Livraria da Travessa, em Ipanema, num fim de tarde de uma terça-feira. Domingos não pôde comparecer, respondeu as perguntas por e-mail e mandou um poema pelo Mariano e pelo Augusto – dois poetas bem humorados.

morreu o objeto / morreu o autor / morreu a metáfora / Ana Cristina César / que celebrava a vida / se matou / sobrou você / leitor… / tá aí?! / alou!!

Eles são jovens, mas as poesias deles não deixam a desejar. Muito pelo contrário, conseguem falar e escrever poesia sem serem chatos.

Mariano resume a intenção do coletivo: “Enfim, um dos motivos de termos criado Os Sete Novos é para chamar a atenção para a poesia. E escrevo porque é o que melhor sei fazer, assim tento chamar atenção para a poesia: reunindo poetas, escrevendo dissertação, fazendo música… E vivemos nesse caos”.

Os Sete Novos é um grupo formado por três poetas. É isso mesmo?

Mariano Marovatto – Ah, não sei explicar isso não… (Risos.)

Augusto de Guimaraens Cavalcanti – É uma ironia com essa “coisa” de movimento poético. É um “nome-sátira”, em que há três poetas no meio dessa bagunça, três poetas começando juntos. E por que não seriam sete também? Acho que vai por aí…

MM – Somos três poetas, mas onde estão os outros quatro? Ou estamos “esperando Godot”? Sete é número cármico: sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete mares, sete dedos das mãos… (Risos.)

AGC– Falou o nosso numerologista! (Risos.)

Como você se conheceram?

MM – Conheci o Domingos há uns sete anos… Domingos é o poeta ausente, que mandou um abraço e um depoimento. Teve uma exposição no Paço Imperial, em que o pai do Augusto foi curador, e estavam procurando poetas novos… Chamou o filho. Como sabia que ele escrevia, convidou também o Omar Salomão e o Domingos, que me convidou. Nessa época já falávamos poesia no CEP 20.000. Em seguida, formamos o grupo QUEM, porque saiu uma foto do Arnaldo Antunes aplaudindo a gente, de joelhos, na revista QUEM…(Risos.)

AGC – Mas aí o Omar lançou o livro À Deriva (Dantes) primeiro, então ficamos à deriva e nos reunimos para publicar também.

MM – E como chegar a uma editora? Três camaradas que nunca escreveram coisa nenhuma?! Resolvemos nos juntar para tentar fazer um selinho, um grupo… Não necessariamente um movimento, mas algo para chamar atenção e dizer que existe poesia nova. E somos sete, mas somos três. Mas quem são outros novos poetas?

Vocês preferem escrever ou falar poesia?

AGC – Prefiro escrever a falar. Acho que o Domingos e o Mariano também.

MM – Claro que nos eventos de poesia a gente fala poesia, não entregamos papelzinho para as pessoas ficarem lendo…

AGC – Mas a poesia é tão marginalizada que, se não a falarmos, ela morre. E o falar é outro barato, conta com a performance.

Domingos, como as artes visuais entram em sua literatura?

DG – Posso dizer que a ordem se dá de forma inversa. No meu caso, a literatura entra muito mais nas artes plásticas. Tenho um trabalho como artista visual, trabalhando com performances e instalações. Em muitos desses trabalhos, coloco a poesia, e muitos deles são recortes visuais de poemas meus. Alguns do livro fazem parte de trabalhos meus de artes visuais. Gosto muito dessa interação palavra/imagem e, mais do que gostar, a acho importante, porque somos o tempo todo massacrados por imagens hoje em dia. Em todo lugar há uma câmera, uma foto enorme num outdoor, uma televisão ligada e o YouTube, com sua infinidade de loucuras maravilhosas. Eu me relaciono, vivo neste mundo e sou fascinado por ele. Ao mesmo tempo, esse massacre pode ser nocivo, e aí entra a palavra. Quando um autor diz a coisa mais banal como “a mulher mais bonita do mundo entrou na sala”, há o trabalho do leitor de construir a imagem dessa mulher, que é a mais bonita do mundo na concepção dele; sem interferência da imagem pronta do cinema, da televisão, do videogame ou da fotografia.

Augusto fez parte das bandas O Bem e o Mal (com Bem Gil) e Veludo Azul (Diogo Cruz, Rodrigo Franklin e Omar Salomão), e Mariano já foi vocalista e compositor da banda Mulher que Matou o Pop. Como é essa relação da música com a literatura?

AGC – Ainda continuo com o Veludo Azul, pensamos em gravar um CD… Meus amigos acabaram indo para esse lado, não sei vou. O Omar (Salomão) tem o Quinho e os Caras, o Vitor Paiva tem Os Outros, com o Botika… Isso é muito reflexo dos anos 80, quando os poetas acabaram fazendo letras de rock; temos o Chacal, Bernardo Vilhena, Antonio Cícero e Arnaldo Antunes, que surgiram primeiro como letristas, por exemplo. Mas, hoje em dia, é difícil você fazer só poesia ou só letra de música, está tudo muito interligado… É só saber respeitar as duas linguagens, porque letra musicada é muito diferente de palavra no papel, não há artifício. Prefiro a poesia escrita – que sempre estará cristalizada no papel e não é tão etérea…

MM – Quando eu tinha 13 anos, achava que era tudo separado, e hoje tento estreitar minha relação com a música da poesia. Essa ligação é mais como ouvinte do que compositor. As minhas composições não passam pelo meu lado poético. Estou tentando fazer uma coisa só, estou descobrindo. Toco violão, guitarra e tento cantar. O Augusto também…

AGC – Na verdade, estou meio cansado de música, me parece que, hoje em dia, tudo é música. Estamos neste café e somos obrigados a ouvir Novos Baianos… Não se consegue fugir mais, e essa obrigação me incomoda muito, parece que está explodindo tudo. E as coisas se misturaram, há grandes letristas que não são poetas. Nem tudo o que o Caetano e o Cazuza escreveram se sustenta no papel como poesia…

MM – Mas não dá para comparar o poder da poesia com o poder da música, que atinge todo mundo…

E por que produzir poesia hoje?

MM – Para nada, né?! De que adianta?, só o poeta lê (risos). Hoje, tudo é imagem! Ah, taí a declaração que o Domingos enviou: “No mundo somos massacrados pela imagem, só a palavra pode construir novos territórios imaginários.” Então, por que ser poeta hoje? Não sei. Precisamos de mais palavras…

AGC – Precisamos do silêncio!

MM – Silêncio não existe, cara…

AGC – É… O silêncio não se lê.

MM – Enfim, um dos motivos de termos criado Os Sete Novos é para chamar a atenção para a poesia. E escrevo porque é o que melhor sei fazer, assim tento chamar atenção para a poesia: reunindo poetas, escrevendo dissertação, fazendo música… E vivemos nesse caos.

E você acredita que pode surgir algum movimento a partir disso?

MM – Não sei. Hoje cada um faz sua própria ideia. É a tal estética do supermercado: você é poeta, pode pegar a referência que quiser na prateleira. Podemos misturar Manuel Bandeira com a música de hoje, cada um é o seu próprio movimento. E o grande lance é saber respeitar essas fronteiras e saber se juntar, mesmo tendo cada um sua singularidade.

AGC – Hoje em dia, para escrever, as pessoas têm que ser dadaístas. É uma escrita de colagem. E, para mim, isso prova que a poesia atingiu a sua maioridade. Ela pode se voltar para o seu próprio texto e reinventar suas próprias referências. A palavra já virou tudo, agora é só recolher os restos. Como diz o Michel Melamed, temos que recolher o vômito do mundo e ficar com o que interessa. E escrevo assim, pegando vários rascunhos e esculpindo o poema. Acho que escrevo por essa vertigem de estar vivendo. A poesia sempre a minha escolha, porque eu não poderia fazer outra coisa; é visceral.

Depois de ter lido os livros, tenho a seguinte opinião: o Augusto tem escrita mais próxima a uma linguagem cotidiana; o Mariano apresenta texto bastante clássico; o Domingos parece oscilar entre o clássico e o contemporâneo. Diante disso, eu gostaria de saber do Mariano se ele não tem receio de estar sendo hermético demais ou de não ser compreendido?

MM – Esse receio não tenho, pois nem eu entendo o que escrevo (risos). Na verdade, O Primeiro Voo é o “the best of” da vida, acho que muita coisa do que estou escrevendo agora não tem a ver com esse livro. Vejo que a poesia tem realmente que dialogar mais com o contemporâneo, e o aprendi muito com o Augusto. Mas esse livro é totalmente de experimentação.

Como é o processo criativo de vocês?

AGC – Escrevo assistindo televisão. Vou filtrando e pegando frases da TV. Poesia é uma coisa meio lisérgica para mim, escrevo bebendo cerveja; escrevo tentando achar um lirismo no caos. Gosto do dizer simples, o simples da ironia. Quero escrever falando do mundo em que vivo, olhar para o meu lado. Não tenho hora sagrada para escrever. Escrevo quando estou puto com o mundo: isso acontece quando estou apaixonado ou quando o Fluminense perde…

MM – Ele está escrevendo para caramba! (Risos.)

AGC – Muito… O meu livro, por exemplo, tem muito a ver com minha ex-namorada. Mas tem o lance de pegar a catarse e transformar em ficção. Ultimamente, tenho escrito bastante, ando meio desiludido, meio mal-humorado (risos). Mal-humorado com minha inocência, meu romantismo deslavado. Estou tentando “carnavalizar” tudo para não escrever nada muito triste…

MM – Atualmente meus escritos têm partido de uma ideia. Por meio de uma música ou de um livro que estou escrevendo. Antes eu sofria mais para escrever, mas hoje as referências mudaram. Acho que cresci bastante.

DG – Poesia é construção e trabalho, mas também, como disse Wordsworth: “Poetry is the spontaneous overflow of powerful feelings from emotions recollected in tranquility.” Uma situação inusitada, algo banal do dia-a-dia, um pensamento vago, tudo pode suscitar um poema. Escrevo sempre essas ideias que me vêm, seja à mão ou no computador, e vou aos poucos trabalhando os versos, trocando palavras, aparando arestas ou alargando os limites.

Augusto e Domingos, até que ponto ser de uma família de escritores prejudica e favorece vocês?

AGC – Acho que ajuda muito! O meu avô me dava muitos livros de poesia. Comecei a ler Drummond com 14 anos. A gente conversava bastante e eu tentava entender por que ele gostava de uns poetas e não de outros. Já levei esse parentesco como um peso, mas decidi me divertir e tirar a poesia desse lugar sério. Parei de me importar com o que as pessoas pensam. Quero ser eu mesmo e não ser tachado como um Guimaraens; sou Guimaraens, mas também sou Cavalcanti…

DG – Tenho que falar também sobre esse lado da pressão. Há um nome e uma tradição em jogo, e as pessoas sempre te comparam e te pedem uma obra à altura dos seus ascendentes. Mas, no fundo, acho que basicamente só existem vantagens! Devo muito da minha formação literária ao meu avô, Alphonsus de Guimaraens Filho. Sempre conversamos muito sobre literatura; ele sempre contou histórias dos escritores que conheceu e com quem conviveu. É muito enriquecedor estar ao lado dele, ouvir tudo isso e vê-lo criar. E é reconfortante estar no meio de uma família que tem quase 200 anos de literatura. Se nós, agora desta geração mais jovem, estamos à altura dos que nos precederam ou não é algo que o futuro dirá, e se poesia não serve para nada…

Quais são as maiores influências de cada um de vocês?

MM – Maior poeta brasileiro para mim é o Murilo Mendes. Mas também poderia citar todos os poetas da nossa geração…

AGC – Eu gosto muito do Paul Éluard, que descobri num filme do Godard. E, na prosa, adoro o Cortázar, que parecia estar nessa busca incessante de descobrir beleza em tudo. Acho o Chacal um poeta genial. Tem também a Ana Cristina César e o Armando Freitas Filho. São três brasileiros que leio muito.

DG – Meu avô com certeza é muito importante. E valeu Murilo Mendes, Jorge de Lima, Walt Whitman, Leopoldo Lugones e o Rubén Darío… Também li muito do pessoal ligado ao surrealismo nos anos 60 no Brasil, como o Roberto Piva e o Cláudio Willer, e não poderia deixar de citar o Afonso Henriques Neto (que é meu tio). Um camarada de prosa que me deixa maluco é o Campos de Carvalho. Chegando nos anos 90 tenho que falar do Guilherme Zarvos que foi importante como escritor e como incentivador. E, para além de referências clássicas, gosto do diálogo com o pessoal da minha geração, como os outros dois 7 novos e gente como Luiz Felipe Leprevost, Bruna Beber, Nadam Guerra, Vitor Paiva, Botika, Omar Salomão, Marília Garcia, Angélica Freitas e seguimos por aí…

Mariano, fale um pouco de sua tese de mestrado, orientada pelo poeta Paulo Henriques Brito.

MM – Graças a Deus, acabei o mestrado. Comecei com um mapeamento de uma galera que está escrevendo e a gente não conhece. Minha dissertação é sobre o panorama dos poetas a partir de 1975. Tento explicar de alguma forma o quebra-cabeça desses poetas, fui montando um caminho… Comecei pelos mais velhos, pelas referências. Descobri pessoas maravilhosas, jovens que estão na ativa com ótimos poemas. Agora tenho que formatar, mandar para a PUC. Depois quero enviar para os poetas lerem.

Que recado deixaria para a galera jovem que deseja escrever?

MM – Ah, faz um blog e vai colocando no mundo que as pessoas vão achando. O Mário de Andrade falou certa vez: “Escreve, escreve, escreve bastante até sair sangue. Depois joga fora aquilo tudo e escreve novamente.” (Risos.) Acho que não existe fórmula, tudo é questão de maturação. É fazer a ideia e lançar, com humildade!

AGC – E nós somos os 7 Novos… (Risos.)

Domingos Guimaraens –

morreu o objeto

morreu o autor

morreu a metáfora

Ana Cristina César

que celebrava a vida

se matou

sobrou você

leitor…

Tá aí?!

Alou!!!


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