PABLO KASCHNER

O JORNALISTA CHAVEMANÍACO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 paulokaschner

 

Quem nunca se divertiu assistindo às trapalhadas e aventuras do Chaves e Chapolin, no meio da tarde? Pois foi essa paixão e admiração pelos seriados mexicanos que inspiraram o jornalista Pablo Kaschner a escrever o livroChaves de um sucesso (Editora Senac Rio), em que conta histórias e curiosidades dos personagens que ultrapassaram barreiras e conquistaram o mundo.

“Não contavam com minha astúcia”, brinca o autor diante do famoso bordão.

Mas se engana quem pensa que o livro é uma síntese superficial dos programas. Existe sim um inevitável saudosismo dos anos 80 (que tem aflorado nos últimos anos), mas o trabalho é resultado de uma criteriosa pesquisa, que a princípio serviu de base para a conclusão de sua monografia na faculdade de Rádio e TV, da UFRJ. Pablo oferece, em um texto leve e muito bem humorado, curiosidades, entrevistas e um ponto de vista crítico sobre um seriado que conquistou o Brasil e o mundo há mais de vinte anos.

“Eu estava para concluir o curso de Rádio e TV, na UFRJ, e precisava escolher um tema para a monografia. Não gosto muito da linguagem acadêmica – sempre a considerei meio parada e difícil –, então resolvi escolher um assunto que, tanto na forma quanto no conteúdo, fossem leves, e fugissem do academicismo. Meu orientador da monografia – projeto inicial do livro – falava que eu não poderia escrever tão informalmente, mas fui meio rebelde e com causa… (Risos.) Por fim, consegui encontrar um meio termo para a execução da pesquisa. Depois, para transformar em livro, não tive tanta dificuldade. Mas acrescentei o conteúdo sobre o Chapolin, porque a monografia foi somente sobre o Chaves.”, explica Kaschner, fã do Seu Madruga e do Quico.

O jornalista carioca, de apenas 25 anos, é um “chavemaníaco”, oficializa a homenagem aos personagens que passearam pela nossa infância e que, em muitos casos, ainda permanecem na fase adulta.

“Acho que demorei quase 3 anos; desde o final de 2003 que me dedico a esse projeto. Não consegui uma editora facilmente, ela desistiu por causa das outras publicações que já existiam sobre o tema e depois voltou atrás. Cheguei a ler o outro livro que foi lançado nessa época e notei que o tema não havia se esgotado, pois a abordagem era completamente diferente da minha”.

O encontro aconteceu num café do Cinema Arteplex em Botafogo, no Rio de Janeiro. Antes de iniciarmos a conversa, confundi um cinéfilo cabeludo com o autor… Pablo Kaschner é barbudo, cabeludo e torcedor do Flamengo – chegou feliz com a camisa do time, por conta da vitória, no dia anterior, contra o Madureira.

Um papo tranquilo com um escritor tímido, inteligente e extremamente bem humorado.

Pablo, como surgiu a ideia de escrever um livro sobre os seriadosChaves e Chapolin?

Pablo Kaschner – Eu estava para concluir o curso de Rádio e TV, na UFRJ, e precisava escolher um tema para a monografia. Não gosto muito da linguagem acadêmica – sempre a considerei meio parada e difícil –, então resolvi escolher um assunto que, tanto na forma quanto no conteúdo, fossem leves, e fugissem do academicismo. Meu orientador da monografia – projeto inicial do livro – falava que eu não poderia escrever tão informalmente, mas fui meio rebelde e com causa… (Risos.) Por fim, consegui encontrar um meio termo para a execução da pesquisa. Depois, para transformar em livro, não tive tanta dificuldade. Mas acrescentei o conteúdo sobre o Chapolin, porque a monografia foi somente sobre o Chaves.

Foi difícil encontrar um editora que apoiasse o seu projeto?

PK – Defendi a monografia, em seguida registrei e comecei a mandar para algumas editoras. No dia em que consegui uma, um livro sobre o mesmo tema foi lançado em São Paulo. Mas não desisti, estava disposto a defendê-lo. Várias pessoas me diziam que havia um apelo comercial grande, pois muita gente gosta de Chaves e Chapolin

A ideia do projeto é saudosista, uma tentativa de resgatar algo da sua infância ou dos anos 80?

PK – Não. É verdade que anos 80 – vide festas Ploc – está na moda, mas não foi com essa intenção que o escrevi. Claro que todo mundo tem uma ponta de saudosismo do que já passou, mas o intuito foi tratar sobre um assunto que eu gostava, entender o porquê desse sucesso e poder mostrá-lo para as pessoas. É engraçado, pois, mesmo quem cresceu no meio de videogames, também gosta de Chaves – que é tosco, com sua estética simplória dos anos 70; parece que você vai dar um peteleco no cenário e ele vai cair…

Quanto tempo você levou para concluir todo o trabalho, da monografia à publicação?

PK – Acho que demorei quase 3 anos; desde o final de 2003 que me dedico a esse projeto. Não consegui uma editora facilmente, ela desistiu por causa das outras publicações que já existiam sobre o tema e depois voltou atrás. Cheguei a ler o outro livro que foi lançado nessa época e notei que o tema não havia se esgotado, pois a abordagem era completamente diferente da minha. Então continuei insistindo, mandando o original para outras editoras. E logo consegui outra, que foi importante para o livro – eles me deram o toque sobre acrescentar o estudo sobre o Chapolin, que até então não existia –, mas acabei fechando com uma terceira, a Senac Rio, por questões comerciais.

O que foi mais difícil na sua pesquisa?

PK – Acho que o mais difícil foi falar com o Bolaños, que é o criador da série e faz o Chaves. Hoje ele tem 78 anos. Foi um longo processo; quase seis meses só para a assessora dele responder ao meu e-mail. Então aconteceu uma cúpula de mídia em 2004 e, como eu estagiava numa produtora, pude participar do evento. Lá conheci o pessoal da Televisa – os exibidores do seriado – que me passaram o e-mail da filha do Bolaños, que, por conseguinte, repassou o e-mail para a assessora dele que, finalmente, repassou o e-mail para ele. O Bolaños é muito querido no México, o apelido dele lá é Chespirito – que significa pequeno Shakespeare. Mas há intelectuais que o criticam, acham que o México não precisa ser retratado pela pobreza…

Já entregou o livro para o Bolaños?

PK – Não, já enviei um e-mail para a assessora dele pedindo o endereço, mas ela ainda não respondeu. De toda forma, já foi divulgado que ele virá ao Brasil ainda neste ano, e, se ele vier, vou à caça!

Como foi entrevistar os dubladores da série?

PK – Eu os entrevistei em um encontro de “Chavesmaníacos”, há mais de um ano. Foi ótimo. Eles foram supersimpáticos, fiz um bate-papo com eles. A Cecília Lemes, que faz a Chiquinha, e o Nelson Machado, que faz o Quico, são de São Paulo. Só tem um que mora no Rio, que é o Carlos Seidl, que faz o Seu Madruga. Uma vez, pedi que ele gravasse o recado da minha secretária eletrônica, foi engraçado… Ah, teve o caso do Gustavo que é um fã que virou dublador; fez o teste para o desenho e agora dubla o Nhonho.

Qual foi a informação mais curiosa que você descobriu?

PK – O carteiro Jaiminho, um velhinho que fala o bordão “Sou de Tangamandapio”, foi o mais curioso. Porque descobri que essa cidade realmente existe. E perto dela tem outra chamada San Ramon, fazendo referência ao ator Ramón Valdez, o Seu Madruga…

Por que um seriado consegue arrastar uma legião de fãs – crianças e adultos – durante décadas, mesmo com as pessoas sabendo que a história é sempre a mesma?

PK – Tem a estratégia da repetição, as pessoas gostam de ver aquilo que elas já conhecem. No livro, até citei o Umberto Eco, sobre a teoria do espelho: o espectador vê aquilo e quando sabe que vai acontecer o que ele estava esperando, se sente satisfeito… Mas ainda me surpreendo com os episódios, o roteiro é simples, mas é ótimo. Na verdade, não existe uma fórmula de bolo para explicar o sucesso do Chaves. Se existisse, as pessoas já teriam copiado. Mas no livro eu explico direitinho (risos).

Em quantos países o seriado ainda é exibido?

PK – Não tenho o número exato. Só na América Latina são 17 países: Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai… Mas isso varia também. Às vezes, o programa sai do ar tanto no México como no Brasil. O Sílvio Santos sempre tira do ar, acho que nem ele sabe o que o tem na programação dele… (Risos.) Mas no Brasil ele é exibido desde 84, em agosto faz 23 anos. No México, desde 71.

Por que o Seu Madruga é personagem considerado cult no Brasil?

PK – Talvez pelo lado malandro dele, que lembra o “jeitinho brasileiro”. Desde a interpretação, ao fato de não gostar de trabalhar e o aluguel atrasado há 14 meses.

Por que as pessoas se identificam tanto com o Chapolin, um anti-herói, um personagem tão avesso?

PK – Acho que porque ele é mais humano, e as pessoas se identificam porque também têm defeitos. Até falo isso no livro: o que adianta ser valente se você é indestrutível? Assim é fácil! O Chapolin não; ele é fraco, medroso, mulherengo – é tudo o que não se espera de um herói. Contraditório mesmo, pois, sentindo medo, ele consegue reforçar o seu heroísmo.

Quais são os personagens de que você mais gosta?

PK – Gosto muito do Seu Madruga (risos) e do Quico. Do Seu Madruga por causa do ator (Ramón Valdez), que eu achava excelente, e do Quico por certa identificação: sou filho único, de mãe viúva, sou mimado, quando era criança não gostava de perder as brincadeiras… (Risos.) Mas, hoje em dia, não sou mais assim não, tá! Ah, eu fui criado numa vila também.

Você escreve ficção?

PK – Sim, contos. Já tenho algumas ideias, mas, no momento, estou voltado para esse projeto. O primeiro livro que escrevi foi um diário que fiz durante uma viagem à Europa, aos 7 anos, a pedido da minha avó. Esse é um projeto que tenho vontade de publicar. Mas já lancei um livro de contos e crônicas cômicos, em parceria com outros autores. Chama-se Humor, tô vivo! (risos). Foi uma produção independente feita por sete autores, em sua maioria mulheres…

Você também escreve num blog de humor chamado Mico na Rede. Como é isso?

PK – É um blog feito por cinco amigos, nem sempre bem-humorados… (Risos.) A maioria é da área de comunicação, mas tem um “errado” que estuda direito. Faz tempo que estou atolado com o livro e em falta com eles, mas estou voltando!

Você pretende tentar publicar em outros países?

PK – Ainda não sondei isso com a editora, mas mercado não falta! Pelo menos na América Latina… Acho que é só revisar o livro e fazer as adaptações necessárias. Mas, no Brasil, o livro já está à venda; a distribuição é nacional!

Gostaria de dizer algo mais?

PK – Gostaria que lessem o livro! É um trabalho com humor, mas tem seriedade na pesquisa. Costumo dizer que, para quem gosta de Chaves, é um prato cheio. E, considerando que o Chaves sempre está faminto, nada melhor que um prato cheio… (Risos.)


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