PALOMA VIDAL

NAS FRONTEIRAS DA ESCRITA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 palomavidal

 

“Paloma significa pomba em espanhol”, explica Paloma Vidal. Nada mais apropriado para uma escritora cujo trabalho é marcado pela liberdade. A capa do seu novo livro de contos, Mais ao Sul(Língua Geral), é uma bela metáfora da sua escrita: aves migratórias no céu azul.

“Quando escrevi o conto, eu não tinha consciência da ideia do pássaro como viagem, liberdade ou migração. E nem sabia que isso se relacionava com meu nome, com minha vida. Quando meus pais colocaram um nome de origem espanhola, não era nada comum na Argentina. No segundo livro, decidi trabalhar com a ideia de suspensão, de não dizer tudo”.

Filha de imigrantes argentinos, Paloma vive em São Paulo numa constante busca pelo seu espaço na literatura. Na fronteira entre o ficcional e o biográfico resgata fragmentos de memória para transformá-los em palavras. Acompanhando os pares da literatura, ela promove um diálogo com as idiossincrasias do nosso tempo.

“A relação com o Brasil é forte, é a minha língua. No meu primeiro trabalho, enviei meu livro para tentar uma bolsa de obras em fase de conclusão junto a Biblioteca Nacional. E ganhei a bolsa. Mas só depois de ver o nome do prêmio é que me dei conta de que poderia haver um problema. Estava escrito: ’bolsa para escritores brasileiros com obras em fase de conclusão’. Bom, tecnicamente eu não sou uma escritora brasileira, porque não sou naturalizada. Então, não pude receber o prêmio. Na época, escrevi uma carta para eles e disse: Eu sou uma escritora brasileira, minha língua é o português.”

A nossa conversa aconteceu no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, durante a passagem da escritora para lançamento do livro. O encontro tranquilo na Confeitaria Colombo não existiu, o lugar estava lotado – devido à apresentação do Projeto Aquarius. Mas depois da espera por uma mesa, o bate-papo fluiu, sem pressa, ao som de clássicos da Bossa Nova.

Além de ter uma escrita sedutora, Paloma Vidal é extremamente bem-humorada.

Em seu último livro, Mais ao Sul (Língua Geral), você fala muito dos pássaros como metáfora de liberdade. Por que a relação?

Paloma Vidal – Essa metáfora surgiu no primeiro livro A Duas Mãos (7 Letras), num conto chamado “Quem Tem Asas”. Depois fiz um blog com o mesmo nome e comecei a trabalhar a questão das viagens, até porque eu estava morando fora do Brasil. O blog era uma espécie de diário de viagem. E com o tempo essa imagem foi ficando mais forte para mim, de alguma forma ela foi me guiando. Fui explorando essas imagens como registro e, em seguida, como metáfora. Há a questão do meu nome, Paloma quer dizer “pomba” em espanhol. Quando escrevi o conto, eu não tinha consciência da ideia do pássaro como viagem, liberdade ou migração. E nem sabia que isso se relacionava com meu nome, com minha vida. Quando meus pais colocaram um nome de origem espanhola, não era nada comum na Argentina. No segundo livro, decidi trabalhar com a ideia de suspensão, de não dizer tudo.

Por que o primeiro livro chama-se A Duas Mãos?

PV – Porque “A Duas Mãos” condensava de forma fundamental a relação com a tentativa de chegar ao outro. Esse nome foi muito importante para o livro. Até pensei em chamar de “Quem Tem Asas”, mas achei estranho. “A Duas Mãos” também é estranho, mas ficou. Eu gosto da sonoridade, me lembra A Teus Pés, da Ana Cristina César. O blog deu origem a parte do livro e a meu primeiro romance: Algum Lugar – estou escrevendo graças a Petrobras! (Risos.)

E você conseguiu receber o dinheiro?

PV – Sim (risos). Recebi. É importante ter um incentivo para escrever. Principalmente um romance em que se precisa de mais dedicação.

Você teve dois blogs: Escritos Geográficos e Quem Tem Asas. Como é essa relação com a Internet?

PV – Sim tive dois blogs. Foi uma ótima experiência. Encerrei o primeiro porque não tive mais nada a dizer. O blog é um diário aberto, trabalhamos com o biográfico e o ficcional. É um meio eficaz para exercitar a escrita.

Mais ao Sul seria o seu livro mais autobiográfico?

PV – Na primeira parte, que trabalho muito a memória familiar, fragmentos de memória. Trata-se do exílio, comecei com uma pergunta: “Como meus pais vieram para o Brasil?” Na segunda parte, trabalhei a questão cultural, o idioma.

Como os seus pais vieram para o Brasil?

PV – Nunca perguntei.

Por quê?

PV – Porque há certas coisas difíceis de serem ditas. Assim que comecei o livro, pensei em entrevistar meu pai. Mas logo considerei a ideia um absurdo. Eu não tinha a menor condição de colocar um gravador para o meu pai. Nós falamos sobre o assunto, não é um tabu. Mas são memórias dolorosas. Preferi trabalhar com meu distanciamento.

Nos livros de contos, você trabalha de uma forma muito intensa sua relação com a Argentina. No romance também será assim?

PV – Na verdade, agora estou tentando me distanciar. Porque já mergulhei demais nesta questão: o que é pertencer a um lugar? O que é falar duas línguas? Como isso define a subjetividade? Esses dois livros deram essa possibilidade. De alguma forma, esse lugar entre a Argentina e o Brasil é o meu espaço. A primeira coisa em que pensei foi escrever um romance. Mas não deu muito certo. Eu queria escrever A Paixão Segundo GH, só que alguém já havia escrito… (Risos.) Foi uma questão que ficou travada. Mas depois que escrevi o conto “Contra-Dança”, que acontece num baile de tango no Rio de Janeiro, achei meu lugar.

Você dança tango?

PV – Sim, danço tango. Foi importante para me encontrar. Eu tive um professor que virou um personagem. No segundo livro tem um conto chamado Aula de Tango que tem muito a ver com a relação dele com essa cultura. É impressionante alguém se dedicar tanto a uma outra cultura: viajar, conhecer o idioma… Embora a personagem não seja eu, mas tem algo de mim. Pelo menos na tentativa de ficar confortável nesse lugar que não é nem de lá e nem de cá; o que me permite escrever.

Você tem um livro chamado A história em seus restos?

PV – Sim. É o resultado de minha dissertação de mestrado sobre o exílio. São quatro escritoras latino-americanas que foram exiladas e escreveram sobre essa experiência. O título é um trecho do romance do Ricardo Piglia que diz: “o exílio permite aprender a história em seus restos”. O século XX é o século das migrações. E na Argentina esse problema é permanente: migrações no início do século; migrações por causa da Guerra Civil Espanhola; a recente diáspora econômica… Eu tento fazer esse diálogo entre a Literatura Argentina e a Literatura Brasileira. Embora já haja pessoas trabalhando muito bem esse cruzamento de culturas, como o Milton Hatoum, o Raduan Nassar… Minha pesquisa de pós-doutorado é sobre literatura e viagem, Literatura Argentina.

Você viaja muito para Argentina?

PV – Sempre vou. Tenho uma revista de Literatura Argentina e Brasileira, chama-se Revista Grumo. Somos quatro editores, na verdade. A revista surgiu num momento de crise financeira na Argentina.

Como você enxerga o Brasil a partir do seu trabalho?

PV – É curioso. Eu me sinto um pouco deslocada, mas não muito. A relação com o Brasil é forte, é a minha língua. No meu primeiro trabalho, enviei meu livro para tentar uma bolsa de obras em fase de conclusão junto a Biblioteca Nacional. E ganhei a bolsa. Mas só depois de ver o nome do prêmio é que me dei conta de que poderia haver um problema. Estava escrito: “bolsa para escritores brasileiros com obras em fase de conclusão”. Bom, tecnicamente eu não sou uma escritora brasileira, porque não sou naturalizada. Então, não pude receber o prêmio. Na época, escrevi uma carta para eles e disse: ”Eu sou uma escritora brasileira, minha língua é o português”. No livro, faço algumas perguntas sobre essa situação. Como seria a minha vida se eu não falasse espanhol? Essa pergunta dá conta de uma divisão permanente, mas sou uma escritora brasileira. Faço tudo o que está ao meu alcance.

Há pessoas que acreditam que a academia bloqueia o processo de criação. O que pensa sobre isso?

PV – Tenho vários amigos que têm vontade de escrever e não escrevem, talvez por conta do ”superego acadêmico”. Tem de poder escrever com a intuição. Adoro o trânsito com a academia, não renego nem um pouco. Acredito que pode haver um trânsito entre uma coisa e outra. Confesso que tenho mais prazer escrevendo ficção. Sofro muito para escrever um ensaio porque a linguagem argumentativa é penosa. É uma relação tensa, mas pode ser prazerosa.

Como é a relação de sua família com a literatura?

PV – Meus pais são clássicos: psicanalistas argentinos. Figuras folclóricas: psicanalistas lacanianos. E meu avô era tradutor e teve uma relação de amizade com o Cortázar. Meu avô exerceu uma influencia grande na minha vida.

E você é casada com um filósofo?

PV – Sim, um filósofo analítico, o Pedro (risos).

Você morou mais de 20 anos no Rio de Janeiro. E agora mora em São Paulo. De que maneira isso influencia sua escrita?

PV – Penso muito sobre isso. Num certo sentido, estou repetindo a trajetória de meus pais: levei meu filho, o Antonio, para longe dos avós. Mas eu precisava desse distanciamento do Rio de Janeiro. Mas não vou escrever sobre São Paulo, sobre concreto. Tem gente mais autorizada para escrever sobre.

Como funciona processo de criação com a escrita?

PV – Eu tenho filho. E isso acaba com o ritual da escrita. Se tenho 15 minutos, sento e escrevo. Há o horário para a escrita: de manhã, trabalho a pesquisa, e de tarde trabalho o romance.

A crítica literária Beatriz Resende escreveu o seguinte sobre a sua estreia na ficção: ”Finalmente, trata-se da escrita de uma jovem mulher.” Cometo aqui a heresia de dizer: trata-se de literatura feminina. O que você pensa sobre ‘literatura feminina?

PV – ”Literatura feminina” não é um termo muito feliz. Esse termo teve valor quando as mulheres lutavam para se legitimar como escritoras numa determinada época. A Beatriz diz isso na resenha.

Os contistas são menos valorizados pelas editoras?

PV – Existe uma resistência forte no mercado editorial. Na Argentina, por exemplo, é muito difícil um escritor começar publicando um livro de contos. No Brasil, ainda bem que não foi assim… (Risos.) Isso acontece porque o romance é mais comercial. Mas há contistas maravilhosos, como o Sérgio Sant’Anna.

Sua escrita não é tão fragmentada como a dos escritores contemporâneos. Saberia explicar o motivo?

PV – Desde que meu filho nasceu, fiquei seletiva com a cultura contemporânea. Por exemplo, no computador em que escrevo não há Internet. Mas acho que a minha escrita incorpora o contemporâneo. E, também, explora a herança, a memória, o passado. Talvez eu não seja uma pessoa muito contemporânea, eu comprei um Ipod há um mês (risos).

Quais são suas influências?

PV – Minhas influencias são completamente literárias: Virginia Woolf, Kafka, Clarice, João Gilberto Noll… E leio muito meus pares: (João Paulo) Cuenca, Cecília Giannetti, Marçal Aquino, André Sant’Anna, (Marcelo) Mirisola… Não quer dizer que são minhas preferências, mas já li e pensei sobre o trabalho deles. E ouço: jazz, MPB, tango…

Que livros marcaram a sua vida?

PV – Paixão Segundo GH. Quando li esse livro, fiquei baratinada. É um livro que engole a literatura. Eu pensava que não daria para escrever depois desse livro. A literatura da Clarice Lispector tem a potência do mínimo. E, depois, os livros João Gilberto Noll.

O que a motiva escrever?

PV – Sempre escrevi. A escrita é uma forma de organização do pensamento. Não consigo viver sem escrever. O que me motiva? Não sei. Eu não saberia como não fazer. Mas isso não quer dizer que tudo que eu escreva vire literatura.

O que você diria para alguém que deseja ser escritor?
PV – Leia muito, escreva sempre.


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