PATRÍCIA MELO

SOBRE PERDAS E IMPUNIDADES

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 patriciamelo

 

A escritora Patrícia Melo acaba de lançar seu oitavo romance, Ladrão de cadáveres, primeiro inédito pela editora Rocco — que relançará os demais livros da autora até 2011. O título do novo livro é uma referência a um autor que marcou sua adolescência, Robert Louis Stevenson. Influenciada pelas perdas pessoais, como a morte de sua mãe, Patrícia Melo solta seus demônios numa narrativa carregada de perversidade, que dialoga com o romance clássico e o policial.

Na história, o jovem narrador, um ex-gerente de uma central de telemarketing, muda de São Paulo para Corumbá em busca de tranquilidade. Até que ele se apropria da cocaína e do corpo de um traficante, filho de um fazendeiro da região, que morreu em um acidente aéreo. A partir deste episódio, começa a trama que mistura ganância, crime, sexo e mentiras. Em entrevista exclusiva aoSaraivaConteúdo, em Paraty, durante a Flip 2010, após um debate sobre violência com a escritora norte-americana Lionel Shriver, Patrícia Melo conversou sobre o novo livro, além de fazer uma análise de sua trajetória e questionar a atuação da crítica.

Você é autora de Acqua Toffana (1994), O matador (1995), Elogio da mentira (1998), Inferno (2001), Valsa negra (2003), Mundo perdido (2006) e Jonas, o copromanta (2008). Em que o novo livroLadrão de cadáveres (2010) difere dos demais?

Patrícia Melo – Ladrão de cadáveres é o título de uma novela muito conhecida de Robert Louis Stevenson, um autor importante na minha adolescência. Ele foi uma espécie de Indiana Jones da minha adolescência, um autor que escreve novelas de aventuras. Novela, não. É um conto curtinho em que ele fala do comércio de corpos que aconteceu no final do século XIX, como esse comércio foi importante para o desenvolvimento do estudo anatômico e das ciências médicas. O conto é carregado de perversidade e maldade, mas existe — ainda que muito questionável — uma ideia nobre por trás desse comércio, da banalização do corpo. Eu dei o mesmo título porque no meu livro esse comércio de corpos — não como no livro do Stevenson — acontece por razões ignóbeis, sem uma justificava nobre da ciência. Essa foi a razão. Gosto do Stevenson, ele é um escritor que tem uma narrativa muito enxuta, carregada, cheia de ritmo. Há um parentesco temático. É um livro basicamente sobre perdas. O ano passado e o retrasado foi um ano muito difícil na minha esfera privada: perdi amigos queridos, minha mãe morreu, minha filha foi morar longe — por quem eu tinha uma verdadeira loucura, uma intimidade grande, uma rotina muito próxima… Tudo isso teve uma impacto muito grande na minha literatura. Esse livro é uma reflexão sobre perdas, em vários níveis, desde a perda de visão de futuro até a perda maior, que é a própria ideia da morte… De como é importante realizar os ritos para introjetar a morte, foi um pouco o que vivenciei com a morte da minha mãe.

Você tem um olhar que retrata a violência e a brutalidade através da literatura. Em que momento você sentiu interesse por esses temas?

PM – É curioso. Porque sempre fui amante do cinema e me via como alguém que trabalharia no mercado cinematográfico: roteirista, talvez diretora. Acabei encaminhando minha vida para ser roteirista. Há quinze anos, era muito complicado porque não existia uma indústria nacional de cinema. Quase todas as pessoas que almejavam trabalhar com cinema acabavam sendo empurradas para a televisão. Comecei a trabalhar muito com programas de televisão, com ficção. Trabalhei com Walter Jorge Durst, que tinha um núcleo de teledramaturgia na Globo. Trabalhei com (Walter) Avancini. Mas sempre acalentando a ideia de ir para o cinema. Tem um jornalista americano, Neal Gabler, que diz que o cinema é a transcendência fácil, você fecha os olhos e está noutra, é tomado por um mundo diferente. Isso sempre foi uma superioridade dessa linguagem. Durante muitos anos achava que era o meu caminho. Nessa frustração de não conseguir realizar meus projetos de cinema e sem possibilidade de desenvolver um trabalho mais autoral na televisão, comecei a escrever um projeto, o Acqua Toffana — não sabia o que ia ser, era um projeto. Foi a primeira vez que me descolei da produção para fazer uma coisa só minha. Cinema e televisão são linguagens muito dialógicas no meu realizar. E roteirista é uma espécie de cavalo: todo mundo tem ideias, aquilo acaba montando em suas costas, você tem que administrar o peso e, ainda por cima, se realizar como autor. Mas, quando me sentei sozinha para escrever o Acqua Toffana, me vi pela primeira vez livre. Não preciso de ninguém, esse é um projeto que posso realizar sozinho, não dependo de budget, produtor, ator… Fui gostando da ideia. É um livro que escrevi quase de uma forma irresponsável, sem planejamento… Eu não estruturei o romance, não sabia como começar, finalizar, foi num surto. Quando acabei o livro já tinha esse vislumbre: “Eu quero trabalhar com literatura.” A escolha do tema? O tema do autor, se é que ele tem algum, diz respeito a sua identidade, e sempre diz muito sobre o autor. A vida toda nunca perdi a atitude de espanto diante da ideia da morte, diante da ideia da finitude das coisas. Estou sempre debruçada sobre essa questão. Não há nenhum prazer, nenhum sentido de entretenimento nessa abordagem. É mais um sentido de entender. É lógico que, no momento que se escreve um livro, essas coisas são transmutadas, são metáforas de alguma coisa que você sente. Muitas vezes, você não tem isso muito claro na sua cabeça. Diz respeito ao meu medo, a minha reflexão e a minha indignação com a ideia da morte.

Você tem medo da morte?

PM – Mais do que medo, eu não aceito a morte. Foi muito impressionante o episódio da morte da minha mãe. Ela teve uma morte muito rápida, descobriu uma doença fatal e praticamente em três meses morreu. Eu a acompanhei no leito de morte; vi minha mãe sendo engolfada pela morte. A sensação que tinha é que, às vezes, ela conseguia sair daquilo e vir à tona, tinha um momento ou outro de lucidez, completamente apavorada… Foi muito triste essa vivência porque, de certa forma, ela confirmou, no nível afetivo, o fim. É pavoroso mesmo, não interessa o quanto você se prepare. Esse é o grande drama da humanidade. Você recebe esse bem maravilhoso que é a vida, mas assim que você começa a entender o que é a vida esse fardo já está nas suas costas: você sabe que tem esse fim. Sua tarefa é esquecer isso um pouco para levar adiante sua breve temporada nesse paraíso.

Como é o trabalho de escrita em diferentes linguagens: teatro, cinema, literatura?

PM – Há uma diferença na maneira de trabalhar e pensar o projeto. No cinema, não existe uma ideia de um autor total… Se um filme pertencer a alguém, em termos de autoria, pertence ao diretor, não ao autor. É um trabalho de troca, basicamente. A literatura não, é você com seus demônios. E o teatro é uma incógnita para mim. Escrevi algumas peças, mas é o espaço onde menos consigo atuar, onde sinto mais dificuldade de compreensão de linguagem. É uma grande paixão. Mas a ficção é minha casa, onde me sinto mais confortável.

Você fez adaptações de livros para o cinema, como Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca. E também teve seus próprios livros adaptados, como O matador, no filme O homem do ano

PM – Acho que há mais prazer quando o texto não é seu. E, teoricamente, certa facilidade na adaptação porque não se está partindo do zero, tem uma situação, tem o esqueleto… Durante o processo, você percebe quanto mais fiel se é a literatura, ao livro, mais se compromete a qualidade do filme. O fato de serem linguagens distintas exige abordagens distintas e, muitas vezes, mudanças na própria trama para que o filme tenha o mesmo apelo do livro. É mais prazeroso, tem uma coisa mais lúdica, se discute muito o livro com a equipe… E não é carne sua; você se sente muito à vontade para fazer isso. Passei por essa experiência de ter uma obra minha adaptada, procurei ficar ausente do processo mais do que pude. Porque você sempre tem a ilusão, quando escreve o livro, de que as suas escolhas são as melhores. Tem que se libertar um pouco disso, em cinema não se pode considerar essa hipótese. Então você acaba sofrendo, emperrando a produção, dificultando o trabalho do roteirista, do diretor…

Seus livros são traduzidos na França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Espanha, Grécia… Como é o seu acompanhamento ao processo de tradução?

PM – Algumas línguas eu acompanho (a tradução). Acompanho bem o inglês, o francês… Algumas mais ou menos, por exemplo: italiano, espanhol… Não falo nada de alemão. O resto você tem que confiar na editora, por isso é importante escolher uma boa casa editorial. Porque a atenção que se vai dar à tradução depende da editora, tem que confiar. As outras (traduções) acompanho mais porque gosto de ver as soluções que se conseguem. É interessante ver como o livro vai ganhar uma pele nova. Tenho procurado manter os mesmos tradutores ao longo da carreira. Na língua inglesa, tive uma sorte tremenda, tem sido sempre o mesmo editor.

O seu despertar para literatura aconteceu a partir de que autores?

PM – Essas coisas nunca são definitivas. Esse despertar para um estilo, para uma literatura, para um desejo de escrever, não é uma coisa que acontece num momento de sua vida e passa a ser a força motivadora de sua literatura. Pontualmente esse despertar acontece. Ultimamente, tive isso em relação aos autores israelenses: Amon Zelon; (Aharon) Appelfeld, que apesar de não ser israelense é considerado um escritor israelense; David Grossman… Eu não sei exatamente o porquê, mas é uma literatura que tem me tocado muito. Cheguei a ir a Israel, fiquei um mês viajando por todo o país. Acabei de ler uma biografia do Appelfeld, uma escrita dura, sofrida e, ao mesmo tempo, sem nada de compaixão. Isso me dá um ar fresco, sabe? Teve um momento na minha vida, na adolescência, que esse delírio com a narrativa e com o desejo de escrever tinha mais a ver com a composição de personagens. Eu ficava muito encantada por um escritor que fazia isso com engenhosidade. Na época, fiquei muito apaixonada pelo Dostoiévski, li tudo, ele é o rei da composição de personagens… E isso vai mudando na sua vida, hoje tenho um acervo de escritores que foram importantes.

Há uma questão sobre a crítica: sempre associam a sua literatura à literatura do Rubem Fonseca. Como você lida com essa questão? Você se incomoda com as críticas?

PM – Olha, ela é muito destrutiva, pode ser muito destrutiva… (barulho de fogos de artifício, estouro) Ufa!

Viu?

PM – (risos) A crítica que vem de fora pode ser muito destrutiva, mas a crítica mais devastadora é a crítica interna. Eu sou muito autocrítica, sou muito dura comigo. Quando vou numa exposição, adoro ver os autorretratos dos artistas porque é sempre uma dureza, tem uma intenção crítica muito maior do que a crítica externa. Então, se você sobrevive a essa crítica, como é o meu caso, no momento em que o livro chega ao público, já enfrentei essa capacidade de me destruir muito bem, e a crítica que vem de fora tem um impacto menor. Entendeu? Essa observação, especificamente em relação ao Rubem Fonseca, resulta de uma falta de conhecimento. Tenho oito livros publicados, uma dicção própria, um ritmo próprio, uma narrativa própria… É uma visão pequena, reducionista. Me incomoda, eu falo: “Não se pode ter uma crítica literária mais antenada, mais esperta? E menos repetitiva.” Às vezes, tenho a impressão de que a crítica acontece de uma maneira banal, alguém fala alguma coisa e aquilo se desdobra eternamente. Ninguém consegue ser original. Dá uma sensação de tristeza, acho pobre essa visão.

 


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates