PATRÍCIA REIS

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Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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A escritora portuguesa, Patrícia Reis, é publicada no Brasil pela editora Língua Geral:Amor em Segunda Mão(2006) eMorder-te o Coração(2007). Os livros, como Patrícia gosta de afirmar, ”falam sobre a condição humana”, através das vozes de diversos personagens que permeiam conturbadas histórias de amor.

“Só havia duas possibilidades: odiar ou amar os livros. Preferi a segunda opção. É muito melhor ter um livro do que um cão como melhor amigo. Ele te acompanha no hospital, no avião, no café, em qualquer lugar. É o único bilhete de viagem que uma pessoa tem sem grande esforço”, afirma a escritora que escreveu o primeiro livro, Cruz das Almas, quando estava no Brasil

“É uma novela que comecei a escrever aqui no Brasil, em Maceió, e publiquei somente em 2004, em Portugal. Peguei uma máquina de escrever e comecei a criar uma história, mas já havia passado da fase dos poemas da adolescência. Cruz das Almas é o nome de uma aldeia perto de Maceió. É um livro muito português, um conjunto de histórias de famílias que ouvi no decorrer da vida”.

A experiência de publicar fora do país?

“Um orgasmo intelectual! É ótimo ter esse reconhecimento. Todos nós escrevemos para que gostem de nós. Todos nós escrevemos como forma de expressão e de recebimento de afeto. Ninguém escreve para si”.

Com uma reconhecida carreira de jornalista, passando do semanário O Independente à revista norte-americana Time, Patrícia dedica-se ao ofício da escrita, sem cerimônias, preservando a paixão nutrida na infância, atenta ao que o outro tem a dizer.

O encontro, testemunhado pelo escritor moçambicano Nelson Saúte, aconteceu num hotel em Ipanema, no Rio de Janeiro, durante a passagem da escritora pelo Brasil.

Quando surgiu o seu interesse pela literatura?

Patrícia Reis – Eu era muito pequenina quando decidi ser escritora. Aos sete anos, eu era fascinada por máquina de escrever, jornais, livros… Idealizava o jornalista e escritor. Tinha um tio-avô que lia muito e me obrigou a ler em voz alta os clássicos portugueses: Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco…

Por que em voz alta?

PR – Porque tinha uma tia deficiente que não lia. Toda vez que eu gaguejava numa palavra, meu tio me mandava ao dicionário procurar o significado dela. Quando acabava, eu repetia os livros. Assim tomei gosto pela leitura. Só havia duas possibilidades: odiar ou amar os livros. Preferi a segunda opção. É muito melhor ter um livro do que um cão como melhor amigo. Ele te acompanha no hospital, no avião, no café, em qualquer lugar. É o único bilhete de viagem que uma pessoa tem sem grande esforço. Reclama-se que os livros são muito caros, mas existem bibliotecas! E depois gasta-se tanto com tênis, futebol, sites pornográficos…

Você chegou a estudar letras?

PR – Não. Sou formada em história, apaixonada pelo “fio da história”. Queria ser jornalista, mas acreditava que história poderia me dar toda a base de contextualização. Acabou que a faculdade não foi o suficiente para mim, então fui estagiar em jornais. Durante anos, vivi para os jornais, completei 20 anos de carreira neste ano. Amava trabalhar neles, mas odeio jornalistas… (Risos.). Nos EUA não fazem mais experiências com ratos, só com jornalistas. Eu desencantei, desapaixonei; não de contar a história do outro com verdade e ética, mas pelo modo como as coisas são feitas.

A Cruz das Almas foi o seu primeiro livro publicado. Fale um pouco sobre ele.

PR – É uma novela que comecei a escrever, aqui no Brasil, em Maceió, e publiquei somente em 2004, em Portugal. Peguei uma máquina de escrever e comecei a criar uma história, mas já havia passado da fase dos poemas da adolescência. Cruz das Almas é o nome de uma aldeia perto de Maceió. É um livro muito português, um conjunto de histórias de famílias que ouvi no decorrer da vida. Isso aconteceu coincidentemente com a morte do meu tio-avô, que era o guardião dessas histórias e da minha infância. Quando voltei para Portugal essas histórias continuavam na minha cabeça, então resolvi passar para o computador. Depois entreguei a uma editora que resolveu publicar.

Você é uma escritora disciplinada?

PR – O que vou dizer é uma coisa horrível! (Risos.) Não tenho disciplina nenhuma, não me levo tão a sério, não escrevo todos os dias, não tomo notas e não faço diário. Sou a antítese do escritor mitificado pelas pessoas. Levo as crianças à escola todos os dias; tenho período menstrual como todas as mulheres; problemas com a empregada doméstica; crises de dor de cabeça; vida sexual ativa; sou uma mulher como as outras! Não sou aquela escritora que tem de sentar para escrever três horas. Sou uma leitora compulsiva. Se tivesse de escolher entre ler e escrever, não tenho dúvidas de que escolheria ler! Há livros maravilhosos para ler e não há tempo…

O que há de mais importante na sua vida?

PR – A coisa mais importante para mim é ser mãe! Tenho dois rapazes maravilhosos, não há adjetivos para descrevê-los. Eles amam literatura, me incentivam muito. Perguntei o que queriam para o Natal e eles disseram: “Mãe, escreva-nos uma história.” É muito bom isso. Não me interessa essa vida de “escritor profissional” de viver em feiras de livro com um saco de livros na mão, a repetir, sistematicamente, a mesma merda.

O que é a Revista Egoísta?

PR – Uma revista trimestral que publica curtas ficções de escritores contemporâneos do mundo inteiro. Também publicamos fotografias, amo fotografias. A revista é propriedade de um grande grupo empresarial de cassinos portugueses, que tem uma maravilhosa política cultural. Esse é um projeto da minha empresa que faz designer e conteúdo. Faço hoje um livro, depois de amanhã um site… Sem abaixar a calça, faço tudo o que dê dinheiro.

Você escreveu a biografia do ator português Vasco Santana. É melhor escrever romance ou biografia?

PR – É muito difícil escrever biografias, ainda mais quando o biografado está morto. Acabei de escrever um livro sobre um músico português e foi muito divertido porque gosto muito de ouvir as histórias dos outros. Por isso fui para o jornalismo, porque gosto de ouvir as pessoas. O mais importante em nossas vidas não é a nossa imagem do outro lado do espelho, é o que podemos apreender com o outro. Tenho prazer em escrever qualquer coisa e uma relação fácil com a escrita, o que não quer dizer que eu vá escrever uma obra-prima. Nem o desejo. Não sou de sofrer para escrever. Sofrer é parir e não escrever. Já pari, sei muito bem o que estou dizendo.

Seus livros, Amor em Segunda Mão e Morder-te o Coração, foram publicados no Brasil pela editora Língua Geral. Como é a experiência de publicar fora do país?

PR – Um orgasmo intelectual! É ótimo ter esse reconhecimento. Todos nós escrevemos para que gostem de nós. Todos nós escrevemos como forma de expressão e de recebimento de afeto. Ninguém escreve para si. Uma das coisas maravilhosas de estar no Rio de Janeiro, neste projeto da Língua Geral, é poder criar laços de amizades com esses escritores e depois conhecê-los ainda mais nos livros.

Fale um pouco sobre o movimento cultural do seu país.

PR – A democracia em Portugal é muito recente, vivemos durantes anos sob ditadura, portanto os nossos movimentos culturais e nossa liberdade de expressão são muito recentes. É bom poder analisar o movimento cultural após 1974 e ver a nova safra de intelectuais e artistas que provoca furor na sociedade. Mas, infelizmente, o sistema educacional é bastante fraco! Essas questões passam pela educação e formação da família. As pessoas não são incentivadas a ler ou ir ao teatro. Há artistas extraordinários em Portugal. Temos forte influência dos países lusófonos.

O que você destacaria como influência no seu trabalho?

PR – É evidente que somos influenciados por tudo e todos, da melhor e pior maneira. Recuso-me a dizer que minhas influências são A ou B, por uma única razão: ando à procura da minha voz. Sou produto do meu tempo, tudo o que está ao meu redor me influencia.

No seu livro Morder-te o Coração você cita Caetano Veloso. O que mais a atrai na cultura brasileira?

PR – A cultura brasileira faz parte da trilha sonora da minha vida. Nasci e cresci com a cultura brasileira dentro de casa. Após a ditadura portuguesa, o Brasil surgiu como um farol, uma referência da liberdade que procuramos a vida inteira. Ouvi bastante os músicos brasileiros! Não lembro de não ouvir Caetano Veloso, Vinícius de Moraes… Não é incrível?! Li muito Drummond. Não é do meu país, mas é meu. É nosso patrimônio. O Brasil é o avesso de nós, portugueses.

O que você pensa sobre o projeto de unificação da ortografia dos países de língua portuguesa?

PR – Acho uma merda. Acredito que temos um patrimônio comum, mas temos riquezas e multiplicidades na língua que devem ser preservadas, pois fazem parte da identidade de cada país.

Por que você escreve?

PR – Ora, porque posso. Escrevo porque posso contar histórias que me passam pela cabeça. Porque existe essa possibilidade em minha vida. Eu poderia ser caixa de hipermercado e passar o dia a ouvir “pim, pim, pim” da máquina registradora. Nós escrevemos para que gostem de nós, para encontrar no outro um eco qualquer de nossas ideias. No dia em que a escrita subir à cabeça e me fizer uma pior mãe ou mulher, deixo de escrever. Não tenho aquele discurso: “Não consigo viver sem escrever.”

Os relacionamentos amorosos estão muito presentes em seus livros. Por quê?

PR – Ora, porque é um livro de uma mulherzinha. (Risos.) Quando é um homem a escrever uma história de amor, ele está a meditar sobre a condição humana… Ora, escrevo também sobre a condição humana. Há vozes distintas em meus livros e escrevo uma história para cada um dos personagens. Não existe literatura feminina. Estou farta desta questão. As pessoas têm manias dos rótulos e dos gêneros. Por quê? Os homens gostam mais de sexo do que a mulher? Isso é o que os homens gostam de pensar…

Como é a sua relação com a Internet?

PR – Minha relação com a Internet é utilitária e funcional. Sou incapaz de escrever um blog, não me interessa. Mas acho interessante notar como os humanos tornaram as cartas coisas do século passado. Guardo os e-mails dos meus amigos em pastas, como quem guarda cartas numa caixa.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

PR – Leia. Ninguém é escritor sem ler. O melhor escritor é aquele que lê. Isso é absolutamente fundamental! Um escritor é aquele que lê o outro, esse é um escritor. Faz de nós melhor pessoa, permite-nos viajar e não estar sozinho. O resto é imaginação. Leia.

 


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