PAULO JOSÉ E ANA KUTNER

Atores falam sobre Ana Cristina Cesar e o espetáculo em homenagem à poeta

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

 

   

No momento em que a literatura tem servido de fonte para bons espetáculos teatrais, Paulo José e Ana Kutner (pai e filha) embarcam numa viagem com Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar através da paixão pelos textos da poeta carioca.

A intensa trajetória de Ana Cristina Cesar (1952-1983) – que interrompeu a própria vida, aos 31 anos – é encenada num amplo diálogo entre prosa e poesia. A homenagem, construído a partir do texto de Maria Helena Kühner, ganhou uma nova versão dramática com Walter Daguerre.

A narrativa mistura textos inacabados, rascunhos, diários e poemas de Ana C. O recorte biográfico não se prende ao suicídio e suas motivações. No palco, Paulo José faz o personagem de si mesmo, relembrando a rápida convivência com a poeta nos bastidores da TV Globo. Em paralelo, Ana Kutner vive a autora de A teus pés. O resultado é a exposição da angústia de Ana C. diante da relação entre a ficção e a realidade.

Em entrevista ao Cultura.rj, Paulo José e Ana Kutner, falam sobre a experiência de lidar com o universo poético de Ana Cristina Cesar.

Paulo, de onde surgiu o desejo de levar a história de Ana Cristina para o palco?

Paulo José – É um acerto de contas. Eu a conheci quando estava na Globo fazendo um programa chamado Caso Verdade. Ela trabalhava no departamento de análise de textos e assinava A.C.Cesar. Ela odiava, esculachava o meu texto. Nós tínhamos uma relação de antagonismo. Eu a considerava uma acadêmica pedante, filha da PUC. [risos] Só depois da morte dela que descobri sua poesia, através do livro A Teu Pés. Fiquei encantado com os poemas dela. Com esse espetáculo pago a dívida, estou perto de Ana Cristina.

Como é realizar um espetáculo sobre uma poeta muito conhecida no circuito literário, acadêmico, mas pouco conhecida do grande público. Há alguma dificuldade?

Ana Kutner – Acho que só tem facilidade.

PJ – O grande público não conhece a Ana C. Existe um público universitário, o meio acadêmico, que admira e estuda. Ela morreu aos 31 anos de uma forma muito complicada. O suicídio chamou atenção sobre ela, as pessoas ficam curiosas depois que sabem desse fato. Quando Heloisa Buarque de Hollanda organizou a antologia 26 Poetas Hoje, Ana era uma entre tantos: Chacal, Cacaso, Capinan… Ela era uma mulher interessantíssima, muito inteligente, tanto na produção poética como crítica, as teses, os trabalhos acadêmicos.

AK – Estudando se consegue entender melhor a Ana Cristina Cesar. E tem as cartas…

PJ – A correspondência é um gênero literário, epistolar.

AK – Ela cria uma prosa poética, intensa. Temos muita coisa a favor: primeiro que é um projeto nosso, parte do nosso desejo. E isso é um começo maravilhoso.

PJ – E é apenas uma peça, não pretende esgotar o assunto.

AK – Teríamos de ter umas oito ou nove horas de peça para conseguirmos nos aproximar da extensão da obra de Ana Cristina Cesar. Na verdade, a intenção é que as pessoas saiam daqui e queiram ler a obra dela, buscar a Ana Cristina de alguma maneira. Claro que não podemos ser levianos em relação ao suicídio, é um fato muito pesado na biografia de qualquer pessoa. Mas nós não optamos por um espetáculo sobre uma suicida. Nós decidimos falar sobre profundidade da obra dessa mulher, uma poeta. O fato de ela ser uma poeta, não ser uma pessoa pública, nos deu liberdade de composição. Estamos muito mais conectados com os sentimentos da Ana Cristina do que os trejeitos que ela tinha. A obra dela é muito visceral em relação aos sentimentos.

PJ – Quanto mais a gente se debruça na obra de Ana Cristina Cesar ainda mais a gente se surpreende.

AK – Começou a ficar uma maluquice.

PJ – A gente não quis procurar pessoas conhecidas da Ana, como Armando Freitas Filho ou Heloisa Buarque. Não interessava.

A literatura já diz muito sobre ela…

PJ – Exato. Nós contamos a vida dela a partir dessa produção. Até a volta da Inglaterra, quando ela decide fazer um curso na Puc-Rio.

AK – Um curso maravilhoso, mas ninguém se inscreveu. Ela havia acabado de voltar da Inglaterra, traduzir Bliss da Katherine Mansfield. Ana estava num lugar de expansão intelectual e de repente ninguém se inscreve no curso que ela planejou. Foi muito duro para ela.

Em que a Ana Cristina Cesar se aproxima da Ana Kutner?

AK – Tudo, né? Esse é o problema. [risos] Ana fala o que todos sentem, incertezas sobre desejo, morte, realização. Ela é tão contraditória que se expõe muito, se vira do avesso o tempo inteiro. Quem lê os textos dela não consegue ficar distante. Ou você é acionado por essa força e se aproxima de Ana ou você não entende e se afasta.

Como você conheceu Ana C.?

AK – A partir dele (aponta para Paulo José). Há alguns anos ele me chama para fazer a Ana Cristina. Até que conseguimos o patrocínio da Oi, que ainda nos deu o convite de estrear no Teatro Oi Ipanema. Lindo, não? Não posso reclamar, no Festival de Angra nós apresentamos para 900 pessoas.

Qual a diferença entre montar um texto dramático e textos de poesia?

PJ – Existe muita diferença. A poesia não é um texto fechado, é um trabalho em processo. Cada ensaio é a reescritura do texto. Embora tivéssemos o texto de Maria Helena Kuhner, trabalhos com a dramaturgia de Walter Daguerre. E fomos escolhendo os poemas. O espetáculo, antes da versão final, chegou a ficar com três horas.

AK – É uma delícia, dá vontade de colocar tudo: “Esse poema é demais. Não, esse!” Porque cada um tem um poema que mais toca…

Você tem algum poema predileto?

AK – São muitos, não consigo definir um. Mas tem um que coloquei no programa: “não sou idêntica a mim mesma / sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar, sob o mesmo ponto de vista / não sou divina, não tenho causa / não tenho razão de ser nem finalidade própria: / sou a própria lógica circundante.” Divino, não?

O livro Antigos e soltos foi relevante para o espetáculo?

PJ – Esse livro definiu o nosso caminho. Os manuscritos dela, a letra cursiva, está tudo no palco. Criamos projeções que enriquecem: “Nau Frágil”. E tem mais…

AK – “Não sei gatografia nem a linguagem felina de suas artimanhas”. Tem muita coisa linda.


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