MAYRA DIAS GOMES

O UNIVERSO UNDERGROUND DE UMA “ROCKER-ESCRITORA”

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 mayradiasgomes

 

Ela foge do estereótipo do escritor angustiado que se tranca em um quarto e sofre para escrever. Também não faz o tipinho cool ou intelectual para conquistar os pares da literatura. Mayra Dias Gomes, cujo sobrenome entrega a herança literária, estreia na literatura arrastando consigo o seu universo underground com o livro Fugalaça (Editora Record).

“Meu pai deixou uma enorme porta aberta para mim; conseguir publicar e despertar o interesse nas pessoas não foi difícil. Como filha de um escritor, tive a honra de viver entre os livros, de aprender desde cedo a ter gosto pela coisa. Por outro lado, é uma pressão enorme ser sua filha, pois muitos esperam que eu seja como ele, aborde os mesmos temas e siga os mesmos caminhos. A comparação, porém, não me incomoda, só me incentiva a querer ser cada vez melhor e maior”.

Como o próprio título sugere – fugalaça é uma corda comprida usada para adestrar animais –, o livro arrasta o leitor para um submundo onde as drogas, paixão e Rock and Roll participam como personagens. Sem temer as críticas e comparações, a jovem escritora ri quando dizem que seu livro tem um quê autobiográfico. Suas palavras têm o aval da polêmica Fernanda Young, que assina a orelha do livro.

“Existem doses fortes de realidade, mas também de ficção nesse livro. A história é mistura daquilo que vivi com o que presenciei. Seja através de pessoas que passaram pela minha vida ou através da imaginação. Satine é meu alter ego, o outro eu – aquele que controlo e dirijo –, portanto posso minimizar, maximizar, dramatizar, romantizar ou modificar sua história. Há grande semelhança com o mundo em que vivi, pois escrevo sobre o que sei e o que sei faz parte de quem sou.’’

Há um mês estou tentando entrevistar a jovem escritora, que marcou algumas vezes e desmarcou outras mais. Até que chegou o dia do lançamento do livro e não conseguimos marcar a entrevista pessoalmente, trocamos as palavras por e-mail.

A festa de lançamento aconteceu na boate Pista 3, em Botafogo. O segundo andar do inferninho estava lotado de amigos e fãs, uma mistura de tribos: rockers, “punks”, emos e góticos – a maioria vestida de preto, com um copo de bebida e cigarro nas mãos. No canto, debaixo de uma luminária de mesa de sinuca, Mayra estava sentada atrás de uma mesa autografando os livros e posando para fotos enquanto os convidados se afogavam nas bebidas.

“Escolhi uma boate porque tinha tudo a ver com a história, é o ambiente deFugalaça.”

O que espera uma jovem de 19 anos ao publicar o primeiro livro?

“Quero dizer para as pessoas:‘Olha, estou aqui!’, e abrir caminho para futuros trabalhos”.

Como surgiu a ideia do seu livro?

Mayra Dias Gomes – A literatura sempre fez parte da minha vida. O mundo onde nasci e cresci me incentivou a ler e escrever – que, desde muito cedo, tornou-se uma das minhas atividades prediletas. Descrevi em diários que percorrem todas as idades minha infância e adolescência em minuciosos detalhes. Escrever sempre foi uma terapia, uma maneira de colocar para fora sentimentos que me incomodavam e também de meditar sobre meus comportamentos. Na escola, escrevia peças, letras de músicas e contos também. Mantive blogs e mais tarde fui colunista de alguns sites alternativos, falando sobre shows de Rock e resenhando CDS. O processo natural foi escrever um livro, esse sempre foi meu sonho. No começo, tinha medo das comparações com meu pai e de me julgarem oportunista, o que me fez hesitar um pouco. Mas um dia resolvi deixar isso para lá e ir em frente com o que amava de verdade. Só que era muito difícil estruturar meus pensamentos compulsivos e eu detestava tudo o que produzia, então sentei à frente do computador e decidi que só leria o que havia criado ao atingir a metade da história. Ao chegar lá, percebi que havia de fato material para um romance. Usei como inspiração o mundo que me cercava. O underground rocker carioca e paulista e o mundo elitista da escola onde estudava.

Quanto tempo levou para escrever esse livro? Foi difícil conseguir uma editora?

MDG – Escrevi compulsivamente por seis meses, durante meus 17 anos. Apresentei o manuscrito para um publisher amigo do meu pai que me indicou para a Editora Record. No dia do réveillon daquele ano, a Sonia Machado me ligou e disse que eles estavam pasmos e maravilhados com o livro. Deu-me boas vindas à Record e um enorme incentivo para começar o ano com o pé direito.

Na infância você era ligada aos livros? Recebia incentivo do seu pai?

MDG – Ler sempre fez parte da minha rotina. Meu pai vivia comprando livros para mim, e eu era completamente apaixonada pelas palavras. Isso somado ao fato de que eu o admirava muito, o que fazia com que eu quisesse escrever como ele.

Até que ponto ser filha do Dias Gomes ajuda e/ou prejudica o seu trabalho?

MDG – Meu pai deixou uma enorme porta aberta para mim; conseguir publicar e despertar o interesse nas pessoas não foi difícil. Como filha de um escritor, tive a honra de viver entre os livros, de aprender desde cedo a ter gosto pela coisa. Por outro lado, é uma pressão enorme ser sua filha, pois muitos esperam que eu seja como ele, aborde os mesmos temas e siga os mesmos caminhos. Ele era um grande homem e tem um acervo extenso, enquanto eu estou somente iniciando a carreira; ainda preciso amadurecer demais, tenho somente 19 anos. A comparação, porém, não me incomoda, só me incentiva a querer ser cada vez melhor e maior.

Existe preconceito por ser filha de um escritor famoso?

MDG – Preconceito é o que não falta. Existem sempre aqueles que vão dizer que só cheguei aonde cheguei porque tenho sobrenome. Realmente tive mais portas abertas por esse motivo, mas escolhi o que fazer ao atravessá-las e estou traçando meu próprio caminho.

Por que convidar a Fernanda Young para escrever a orelha do seu livro?

MDG – Identifico-me demais com a Fernanda. Ela é bela, desbocada, complicada, tatuada, neurótica, psicótica, compulsiva e, acima de tudo, talentosa e polêmica. Polêmica no sentido que mais gosto da palavra: por falar o que pensa e simplesmente ser quem é. Eu a convidei para escrever a orelha do livro porque achei que ela capturaria a essência da história. Foi exatamente o que ela fez. Fiquei muito satisfeita.

Para quem você mostrou primeiro o livro?

MDG – Para o namorado que eu tinha na época; eu o obrigava a ler tudo o que eu escrevia, era uma chata.

Como está o retorno em relação ao seu trabalho? Como está lidando com as críticas?

MDG – Se recebi críticas ruins, não as li. O negativismo que encontrei vem de pessoas que não leram meu livro, que não me conhecem e que, como já disse, têm preconceito. Os leitores, por outro lado, estão demonstrando imenso carinho pela história e pelos personagens. Já recebi até emails de pessoas que disseram que eu havia as ajudado a enfrentar situações particularmente difíceis como suicídio, morte e traumas. No final, é só isso que importa. O resto é passageiro.

Há muitos comentários sobre o seu livro ser autobiográfico. O que você diz sobre isso?

MDG – Ele não é autobiográfico. Existem doses fortes de realidade, mas também de ficção nesse livro. A história é mistura daquilo que vivi com o que presenciei. Seja através de pessoas que passaram pela minha vida ou através da imaginação. Satine é meu alter ego, o outro eu – aquele que controlo e dirijo –, portanto posso minimizar, maximizar, dramatizar, romantizar ou modificar sua história. Há grande semelhança com o mundo em que vivi, pois escrevo sobre o que sei e o que sei faz parte de quem sou.

A questão das drogas e do suicídio é muito presente no seu livro. Como você lida com esse universo?

MDG – Detesto a maneira como a sociedade tenta marginalizar esses assuntos, em vez de tratá-los com delicadeza, considerando os fatores psicológicos que existem por trás deles. Com o meu trabalho, tento mostrar a humanidade e o desespero das pessoas consideradas “drogadas”, “perdidas”, “covardes”, “malucas”.

O que pensa sobre a comparação do seu livro com o Hell, livro da francesa Lolita Pille?

MDG – Gosto muito da Lolita e outras escritoras jovens que tiveram coragem de surgir com obras honestas sobre o mundo em que viveram. Acho a comparação inevitável, e não me incomodo. Os temas dos nossos livros podem ser semelhantes, mas o desenrolar das histórias e a mensagem que passam são bem diferentes. Hell é uma menina niilista e conformada, já Satine sofre de sensibilidade profunda enquanto embarca em uma busca incansável por identidade, amor e evolução.

Como é a sua relação com a Internet?

MDG – Sou uma junkie de Internet, que triste! Sou completamente viciada e, às vezes, passo o dia inteiro frente à tela do computador. Tenho Orkut, Fotolog, Myspace, Facebook, Yahoo Messenger, MSN, comunidades, e-mails… Baixo CDS e um monte de seriados nos quais sou fissurada. Também uso a Internet para divulgação pessoal e para me comunicar com leitores que já me acompanham há muitos anos pelos blogs, fotologs e live journals da vida. Faço parte de uma geração que já nasceu à frente da Internet, de uma geração muito mais imediatista do que as outras. Vivemos em uma época em que podemos encontrar qualquer assunto no Google e em um mundo onde cada vez mais informação é cobrada de nós; acabo sofrendo as consequências desse imediatismo e dessa superexposição de dados.

O que espera uma jovem de 19 anos ao publicar o primeiro livro?

MDG – Quero dizer para as pessoas “Olha, estou aqui!” e abrir caminho para futuros trabalhos.

Por que você escreve?

MDG – Escrevo, portanto existo. Escrever é exorcismo, terapia, meditação, solilóquio.

Pensa em adaptar o seu livro para o cinema?

MDG – Penso e já tenho alguns planos sobre os quais ainda não posso falar.

Já pensa no próximo livro?

MDG – Já o estou finalizando, mas também é surpresa. A verdade é que só consigo entender o que escrevi depois que está pronto. Preciso ler e reler um milhão de vezes para transformar todas as palavras em um único pensamento. Elas são mais rápidas do que minha cabeça e os personagens tomam passos próprios.

Você lê seus contemporâneos?

MDG – Procuro estar sempre em dia. No momento, estou navegando no mundo de Fernanda Young.

Quais são as suas maiores influências?

MDG – Sou fissurada pela literatura beatnik e junkie. Por Jack Kerouac, William S. Burroughs e Bukowski, principalmente. A minha maior influência ao escrever Fugalaça, porém, foi o Flores do Mal, do poeta Charles Baudelaire. Esse é o meu livro preferido de todos os tempos. Os poemas são uma contradição e tratam de vazio, tédio, morte, insatisfação, excessos e amores não correspondidos. Foi a maior influência literária, pois a história que escrevi trata dos mesmos temas.

Qual a sua relação com a música? Você tem uma banda?

MDG – A música tem um grande papel na minha vida. Além do mundo da literatura, também cresci dentro da música. Todos os meus irmãos são músicos, e inicialmente fui obrigada a ter aulas de piano clássico. Como sempre gostei de contrariar, decidi que queria tocar guitarra e, por meses, narrei em um diário o drama de conseguir comprar minha primeira guitarra com o dinheiro que estava juntando. Foi na mesma época em que encontrei o Voodoo Lounge dos Rolling Stones, na coleção de CDS dos meus pais. Com 11 anos, comprei uma Lyon Washburn e comecei a fazer aulas de guitarra e canto. Meu sonho era ter uma banda de Rock, sonhava em ser uma grande rockstar e participava de todos os Talent Shows na minha escola. Aos 13, enquanto me preparava para tocar no auditório lotado da escola, emprestei minha guitarra para um americano bonitinho por quem eu tinha uma quedinha. Ele usou distorção e, como eu era inocente e leiga, não chequei nem passei o som. Entrei no palco e o som saiu terrivelmente embolado, pesado. Paralisei e não consegui tocar. Aquilo me traumatizou. Tentei ter várias bandas depois, mas nunca saíam do papel. Tenho um medo enorme de palco depois desse incidente. Comecei a escrever e passei a usar a música como inspiração. As colunas de rock que eu tinha eram de uma música frustrada. Sempre andei pelos backstages da vida com vontade de chegar ao microfone, mas a caminhada pode ser assustadora. Nesse processo de divulgação do meu livro, estou perdendo um pouco do medo de público que tenho. Tenho um novo projeto e estou compondo em parceria com um antigo guitarrista do DeFalla, Bruno Della Motta. Acho que desta vez vai rolar. Já escrevi músicas para várias bandas e ainda não interpretei na minha voz. Acho que está na hora! Será que dá para ser escritora e rockstar?

Por que fazer o lançamento em uma boate?

MDG – O ambiente descontraído ajuda a relaxar. Escolhi uma boate porque tinha tudo a ver com a história, é o ambiente de Fugalaça.

Como é o seu processo criativo?

MDG – Não tenho rotina alguma. Esse é um dos fatores que me ajudou a escolher a carreira de escritora. Não tenho saco para acordar cedo, ir trabalhar, seguir uma sequência. Escrevo quando a inspiração surge ou quando me obrigo a encontrá-la. Às vezes, caio em hiato e sou forçada a viver novas situações para encontrar influência para o que vou criar.

O que você diria a um jovem que deseja se tornar um escritor?

MDG – Leia, leia, leia, escreva, escreva, escreva… Senão, já era. Só a prática e a experiência podem formar um escritor.

* Esta entrevista foi realizada no dia 13/06/07, dia do lançamento do livroFugalaça.


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