REINALDO MARAES

TESÃO PELA ESCRITA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

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Reinaldo Moraes é autor do cultuadoPornopopéia(Objetiva, 2009), uma saga boêmia recheada de sexo e drogas que muitos homens gostariam de vivenciar. O instigante livro de 480 páginas pode ser considerado um desdobramento deTanto faz(Brasiliense, 1981, 1. ed.; Azougue, 2003, 2. ed.) — seu livro de estreia, hoje um clássico dos anos 1980 — com a vantagem do amadurecimento e refinamento da escrita após anos de dedicação à literatura.

Escritor, roteirista e tradutor paulistano faz de suas histórias, aparentemente simples, um belo trabalho com a linguagem. A sexualidade está impregnada em cada linha de seus livros, como numa busca incessante de entendimento do próprio desejo. Humor, ironia com eco beatnik, “culto e grosso”, como já foi definido.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, que ocorreu durante a Flip 2010, Reinaldo Moraes relembra a trajetória de seus livros, sem perder a ideia de tesão pela escrita.

Você estreou em 1981, com o livro Tanto faz, pela coleção Cantadas Literárias, da Brasiliense…

Reinaldo Moraes – Sim. E 17 anos depois escrevi Órbitas dos caracóis(Companhia das Letras, 2003), que foi classificada como uma novela juvenil. É mesmo, mas eu prefiro classificar como uma novela de aventura urbana com uma levada juvenil. Esse negócio de literatura juvenil no Brasil nunca me cheirou muito bem porque me parece muito artificial, muito encomendada… Não que toda literatura não seja superficial também. Primeiro o livro era chamado de paradidático. Horrível! Paradidático parece um termo depreciativo… Paralítico, paradidático… Você escreve livros paradidáticos? Uma merda. Foi o meu livro que mais vendeu, 18, 19 mil exemplares. Era um livro que já estava, em partes, escrito. Porque nesses 17 anos fiquei escrevendo um monte de coisas: inícios de romances, esboços de contos. São escritos que aproveitei muito nesse último livro que saiu no ano passado, Pornopopéia (Objetiva, 2009). Quando começou a rolar o livro na minha cabeça, comecei a vasculhar as gavetas eletrônicas e achei histórias que poderiam entrar aqui e ali.

Como funciona a administração desse tempo de publicação entre um livro e outro?

RM – Você não pode ter prazo. O resto, tudo tem prazo. Eu trabalho também como tradutor, tem prazo… Você pode dar umas furadinhas no prazo, mas tem uma hora que te encostam na parede. Eu trabalho como roteirista, o império do prazo. Tudo tem prazo, mas a literatura é um lugar que você pode se dar o luxo de não ter prazo. Com o Pornopopéia (Objetiva, 2009) eu furei três prazos com a editora. A Isa Pessoa, excelente editora da Objetiva, fez várias sugestões. Ela julgou que estava bom, mas eu vou relendo e acho que não está… E vou mexendo mais um pouco. Do primeiro prazo até a saída do livro foi exatamente um ano e meio. E foi ótimo! Pude deixar o livro três meses na gaveta, pegar, mexer… Não existe forma literária perfeita, alguém já falou. E muitos escritores simplesmente dão as costas quando o livro está editado. Mas eu não consigo. Uma espécie de narcisismo-paranoico-obsessivo. Eu fico relendo e acho umas merdas, umas cagadinhas, uns furos: uma palavra que está errada, uma coisa repetida… Agora estou infernizando a vida da coitada da Isa Pessoa para sair uma terceira edição revisada, o que para os editores é uma trabalheira. É bom esse vídeo porque força a ela cumprir a promessa… (risos) Ah, Isa, porra! (risos)

O que mudou em sua trajetória desde a publicação de Tanto faz, em 1981, até o lançamento de Pornopopéia, em 2009?

RM – É o processo biológico de amadurecimento, numa boa perspectiva. E apodrecimento, numa perspectiva mais pessimista. São 30 anos de diferença, tenho a impressão que alguma coisa muda na cabeça de um cara, não devo ter sido exceção. É difícil mostrar no texto o que mudou por causa da passagem dos anos. Apesar de muita gente achar que é o mesmo personagem porque tem uma certa irreverência, uma aparente informalidade que é muito construída literariamente… Na verdade você só escreve um livro. O Proust dizia — se não é o Proust, fica sendo — que você só escreve um livro. Ele escreveu Em busca do tempo perdido, são sete volumes, embora mude o narrador, mas é o velho e bom Proust escrevendo no estilão dele. Machado de Assis, depois de (Memórias póstumas de) Brás Cubas, só escreve um livro praticamente, aquele mesmo distanciamento crítico, estilo irônico e dubitativo: “Não sei se foi bem assim. Não sei se foi bem assado…” Eu também não fugi a essa regra. Não me sinto muito tentado a mostrar que sou um escritor versátil e inventar outra voz narrativa, eu não vou fazer isso.

Até que ponto o autor está inserido nesta narrativa?

RM – É meio inevitável que aconteça, mas ninguém pode dizer em que medida acontece. Muita coisa é reflexo longínquo de fatos. A gente sabe quão nebulosa é uma lembrança. Outra pessoa contando o mesmo episódio vai ser outra coisa. Mostrar até que ponto o autor está dentro de sua obra é uma corrente de interpretação literária que tem o nome… Crítica genética, que mostra a gênese autobiográfica de um texto literário. Acho isso uma enorme besteira. Por que não tenho um personagem que passa a vida em busca de Deus? Porque eu estou cagando e andando para essa questão. Então, eu busco outras coisas… A busca da sexualidade, da sensualidade, a busca de alguma verdade que pode estar em algum lugar existencial, mas nunca é encontrada. O que gera uma espécie de ceticismo irônico e cínico, às vezes. É uma coisa, talvez, que esteve embutido na minha personalidade. Mas não está estampado no texto, não é como uma carta ou texto confessional. É um trabalho literário.

Você conseguiria avaliar as principais características de sua escrita?

RM – A chamada “voz literária” – está muito na moda dizer “uma voz literária”, antigamente se falava “estilo” — é uma decantação de vozes não literárias na cabeça: a voz da sua mãe, a voz do seu pai, a voz do rádio, a voz da televisão, a voz do vizinho, a voz do garoto, a voz do professor legal, a voz do professor escroto… Essas vozes que povoam sua cabeça e formaram a linguagem, junto com as prosódias, os sotaques, as visões de mundo. E isso inclui o humor. Isso está muito mais catalisado no texto do que dizer: “Não, a minha ironia é machadiana. Não o Charles Bukowski que eu li…” É claro que todas as leituras que você faz também participam desse processo de decantação. Mas o que está lá na base, o que vibra na hora de escrever, o que dá tesão de escrever… Eu escrevo com muito tesão. É um prazer muito grande de escrever. Esse prazer não vem da leitura que está mais ligada à consciência. São essas vozes que estão vibrando.

As cidades são muito marcantes em suas histórias, principalmente Paris e São Paulo.

RM – O meu primeiro livro,Tanto faz, escrevi em Paris, estava com uma bolsa de estudos. E Paris é uma cidade, todo mundo sabe, uma espécie de lugar-comum delicioso para se estar. Em geral, lugar-comum é enjoativo, tem o dejà vu… Mas estar em Paris como lugar-comum é fantástico! Você mora ali e descobre o seu café, sua rua preferida, seu cineminha preferido… virou essa cidade literária para mim. Eu nunca tinha escrito nada ambientado em São Paulo. No meu segundo livro, que foi de encomenda para a LP&M, eu fiz a continuação do Tanto faz, mas com outro estilo, outra fatura. No Tanto faz é um romance feito de fragmentos e no Abacaxi (LP&M, 1985) é um longo texto quase sem respiração, o cara toma um fôlego e mergulha. É a volta do personagem que sai de Paris e vai para Nova York e depois passa pelo Rio de Janeiro… Como se ele estivesse evitando voltar para o lugar onde estava, ele só chega na última página. Então, até o Abacaxi eu não tinha escrito sobre São Paulo. No Órbitas dos caracóis, a história é toda ambientada em São Paulo. Tem essa geografia sentimental, quando se nomeia uma rua aquilo faz sentido. Apesar de estar fazendo ficção, a geografia tem essa carga emotiva. Quando baixou esse santo doPornopopéia, baixou essa ideia, aí eu deitei e rolei. A primeira parte é toda em São Paulo, é uma personagem importante do livro.

Você já traduziu Bukowski, entre outros autores. Há esse prazer da escrita no trabalho de tradução?

RM – Há, muito. Você só consegue traduzir quando entra na persona do escritor. Eu traduzi um livro do Bukowski chamado Mulheres (Brasiliense, 1984), o segundo publicado no Brasil, e me diverti muito. Eu era o Bukowski, sabe? Durante a tradução, em 1983, aconteciam-me coisas muito parecidas com aquele personagem, Henry Chinaski — um véio bebum que já tinha uma certa reputação como escritor, mas sempre em meios universitários, em bares baratos, das putas… No dia que entreguei a tradução, inclusive para o Luiz Schwarcz, saí da Brasiliense com um alívio: “Puta, acabei finalmente esse trampo.” E fui andando pelas ruas e sentei no bar. E chega uma menina que falei: “Puta que pariu, essa menina saiu do Mulheres do Bukowski!” Uma mulher super rampeira, mas gostosona, com uma camisa desabotoada e amarrada numa barriga proeminente, uma calça com um bundão, sandália de salto alto, unha pintada… Ela sentou ao meu lado, pediu o meu jornal para ler: “Você sabe de um filme legal?” Começou a puxar papo comigo, o negócio foi… Aí, bicho, eu acabei transando com a mulher num motel vagabundo. Era uma mulher completamente “bukowskiana”. Um fato patafísico, a mistura do imaginário com o real de uma forma surpreendente.

O que dizer a quem deseja se tornar um escritor?

RM – Pô, faz engenharia, bicho. Vai estudar informática. Vai ser cafetão na zona! (risos) Faz qualquer coisa porque é decepção atrás de decepção. Ficar duro… Você escreve porque é uma doença mental como qualquer outra. Há pessoas que tem tiques, têm pessoas que escrevem… (risos)

 

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