JARDS MACALÉ

"VIVER É PRA SONHAR"

Músico carioca fala sobre sua vida e o filme Jards Macalé – Um morcego na porta principal

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

   

 macalé

 

Uma das figuras mais representativas da música brasileira, Jards Macalé, tem sua história contada nos cinemas no documentárioJards Macalé – Um morcego na porta principal, com direção e roteiro de Marco Abujamra e João Pimentel, jornalista de O Globo. Desde o início de sua carreira, Macalé passeia por diferentes áreas: poesia, música, teatro, cinema…

Subiu ao tablado pela primeira vez na peça Arena Canta Zumbi, dando início a sua profissionalização. Esteve também no lendário show Opinião, de Zé Keti e João do Vale, quando substituiu o violinista Roberto Nascimento. Na época,

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O documentário, filmado em 2002 e 2003, ganhador do prêmio especial do júri do Festival do Rio de 2008, traz entrevistas com gente que fez parte da vida e da carreira de Macalé, como Maria Bethânia, José Celso Martinez Corrêa e Gilberto Gil. O filme é uma viagem pelos acontecimentos mais importantes da cultura brasileira.

Em entrevista ao Cultura.rj, Jards Macalé fala sobre a experiência de assistir o “lado A” da sua vida numa tela de cinema.

Como é assistir sua cinebiografia?

Jards Macalé – O João Pimentel, jornalista de O Globo, me procurou e disse que queria levantar essa produção: “Quero fazer um filme sobre você!” Eu pensei: “Ihh.” O Abujamra, do contrabaixo, meu amigo, me deu referências. Eu não sei como começou. “Vamos fazer?” E assim fomos. Eles precisaram de material, tive que abrir meu baú mágico, onde tem registro de tudo: cinema, teatro, literatura… Está tudo ali.

Você guarda tudo que sai relacionado à sua carreira?

JM – Até pentelho velho. Pelo menos como recordação. (risos) Eu gosto de guardar o que eu gosto. Por exemplo, sou uma pessoa que coleciona fotografias de jornal. Recorto matérias também, principalmente sobre voo espacial.

Não tem vontade de escrever literatura?

JM – Escrevo muito, mas escrevo muito para mim. Não tenho vontade de publicar nada. Eu tenho pudor.

Como era a sua amizade com o poeta Torquato Neto?

JM– Torquato é o meu irmão. Eu o conheci através do João Viana, um grande músico. E Torquato já conhecia o Caetano. Quando juntava essa turma era uma festa, uma amizade grande. O Rogério Duarte também era muito presente. Me lembro muito dos porres do Torquato, sempre puxando briga.

E o filme, você não respondeu: Como é assistir a própria vida na tela?

JM – Não sou eu. É o outro. É o outro Macalé. Eu faço análise há 40 anos, já sei distinguir os Jards que existem dentro de mim. São vários ‘eus’, eu digo isso no filme. Quem souber administrar isso matou a charada. Porque são vários ‘eus’.

E esse ‘outro’ que está na tela te agrada?

JM – Acho interessante. Um rapaz esforçado / Fico parado, calado, quieto / Não corro, não choro, não converso / Massacro meu medo, mascaro minha dor / Já sei sofrer / Não preciso de gente que me oriente. Ele só chora mesmo quando vê o Rio de Janeiro. Essa é a letra de 

, que fiz com o Waly (Salomão). Ele só rasga mesmo por duas coisas: pelo amor e pelo Rio de Janeiro, pela catástrofe que está em volta. Amor ao Brasil. Um cara que deseja colocar o amor na bandeira do Brasil tem de chorar.

O amor salva?

JM – Salva. O amor salva. E destrói.

Então para que colocar na bandeira?

JM – É uma questão de verdade histórica. O (Auguste) Comte não escreveu: “Amor por princípio, ordem por base e progresso por fim”. Então porque cortaram o amor? Eu quero saber o porquê. Acho isso um absurdo. Eu quero colocar o amor na bandeira brasileira, essa é a minha missão. Não por uma questão de ponto de vista, mas poética. Uma questão político-poética. O amor é a maior arma política que existe.

Nessa sua trajetória, você encontrou os baianos: Caetano, Bethânia…

JM – “Ah, os baianos…”. Adoro quando minha mãe fala isso no filme. Como interpretar isso no papel? (risos) Minha mãe é uma alegria, vai fazer 90 anos…Eu fiz alguns filmes no qual eu não podia me esconder atrás de personagens porque eu não sou assim. É engraçado. Anos depois, conversando com o Nelson Pereira dos Santos, ele diz: “Esse cara não sai do personagem!” Isso foi na Cobal, no Humaitá. Eu disse: “Eu não sou ator e você me dá personagens maravilhosos. O ceguinho é imortal, que nem você. O Archanjo também é imortal. Todos os dois têm o corpo fechado. Além de serem filósofos de alta categoria, principalmente o Cego Firmino e Pedro Archanjo. Eu estava caminhando para a música, mas apareceu o ator.

É muito significativo, não? Sua estreia profissional foi no teatro, o público vê o Jards Macalé como intérprete.

JM – É. Estreei no Arena Canta Zumbi, substituindo Dori Caymmi. Tanto que no filme eu digo que as melhores pessoas eu conheci lá no teatro: Dina Sfat, Paulo José, Milton Gonçalves, Maria Gladys… O teatro foi a minha primeira manifestação artística profissional. Profissional mas não careta. Depois fui para São Paulo com (Augusto) Boal. Teve o Arena Canta Bahia também. Depois veio o show Opinião e chegaram os baianos: Caetano, Gil, Bethânia… Mas no filme não dá para colocar tudo, é muita história. Esse é só o lado A.

E o lado B?

JM – Quem vai fazer o lado B sou eu, acho. Vou me arriscar a fazer meu próprio lado B: Sexo, droga e rock and roll puro. Voltando no lado A: Cada imagem na tela me jogava no tempo, um flashback na cabeça. Na tela é uma pessoa. E na platéia é um cara comum, o Jards.

O seu nome artístico, Jards Macalé, uma herança do tempo de moleque…

JM – Eu pegava na bola e todo mundo gritava: “Passa a bola, Macalé” Era para me gozar. O Macalé jogador eu conheci, foi me encontrar. Ele fez bons gols, não é um horror. Fizeram uma peste desse cara, não fui quem fez isso.

No filme, entrou a interpretação antológica de Gal Costa comVapor

JM – Virou um hino, como diz Salomão, um hino hippie. O Waltinho colocou a música no filme (

), ele estava procurando uma música para terminar o filme. Mas a Fernandinha (Torres) estava cantarolando a música desde o início das filmagens. Uma das melhores interpretações de Vapor Baratoé da Gal, sem dúvida. Ela tem uma coragem, naquele momento em particular. É grandioso. O Waly foi quem dirigiu esse show.

Você se entusiasma com os cantores contemporâneos?

JM – Tenho uma satisfação interna, não um entusiasmo. Pouca coisa me entusiasma. Ouço a 

, filha do Glauber, ela está cantando tão bonito. Eu amo as mulheres, não posso trair minha mãezinha, dona Lygia. Viver é bom, é inteiro. Viver é para sonhar.


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