RICARDO SILVESTRIN

A MULTIPLICIDADE DE UM POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 ricardosilvestrin

 

Passeando pelo calçadão virtual, no Orkut, esbarrei no poeta gaúcho Ricardo Silvestrin. Fiquei entusiasmado ao perceber que a música, o jornalismo, a performance e o universo acadêmico são quintais explorados pelo poeta.

“A minha arte número um é a poesia. Adoro o poema no papel. Gosto muito também da música e da letra, do palco e de cantar. Aprendi, criando, a compor melodia e então colocar a letra. É um trabalho bastante divertido”.

Formado em Letras pela UFRS, Silvestrin coleciona publicações em verso e prosa, além de se dedicar à Editora Ameop e ao grupo PoETs – que acaba de lançar o CD Música Legal com Letra Bacana, que mistura música e poesia com bastante humor.

“Vivo pensando em poesia. Se me mostram uma caixinha de papelão, já penso, ’ó, ficaria legal poemas ali dentro…’. Exploro possibilidades, leio os outros, enfim, sou poeta. Na letra – não apenas na letra, na composição da música – trabalho predominantemente com o Ronald Augusto e o Alexandre Brito, que, junto comigo, formamos poETs. Nosso processo é coletivo.”

O Menos Vendido (Nankin Editorial), uma coletânea com poemas inéditos, transmite a vontade de dizer a poesia para outras pessoas.

eu poderia ficar a noite inteira aqui

a vida inteira

escrevendo esses poemas

mas preciso viver um pouquinho

para ter mais assunto

O livro recebeu o Prêmio Açorianos, de melhor livro de poesia de 2007, concedido pela Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. É o terceiro livro do poeta a receber a premiação.

É difícil trabalhar com literatura fora do eixo Rio-SP?

Ricardo Silvestrin – Não. A literatura é sempre fora dos eixos.

Internet ajuda a literatura? Como é sua relação com a Internet?

RS – Sim. Hoje conheço muitas pessoas de fora do RS. Mas sempre tive um trânsito bom em todo o Brasil. Desde os anos 80, Alice Ruiz, Leminski, Mano Melo, entre outros, sempre trocaram figurinhas comigo, mesmo sem Internet.

Como acontecia essa troca?

RS – Por exemplo, a Alice e o Paulo vieram a Porto Alegre para um evento em 1987. Passei para eles meu livro Viagem dos Olhos. Gostaram e me convidaram para ir ao Encontro Brasileiro de Haicai, em SP. Fomos. A Roda de Poesia, um evento que acontecia por aqui, no Brique da Redenção, também recebia os poetas que chegavam. Os poetas estão sempre ligados, de uma forma ou de outra se acham.

Eu conheci seu trabalho na Web. De que maneira a Internet colabora para a Literatura? Existe a tão discutida literatura de Internet?

RS – No meu caso, sou pré-Internet. Demorei inclusive para fazer um site. No meu site, coloquei todas as faces de minha produção: a poesia, com os 6 livros para adultos e os 4 para crianças; o caminho para o site dos poETs com o trabalho musical; os ensaios; a crítica a meu respeito; enfim, reuni tudo para que me vissem por inteiro.

Quando você começou a se interessar por literatura?

RS – Desde criança, estou sempre ligado à criação, fazendo música, peça de teatro, na escola, em casa, com os amigos. Gostava muito das aulas de português, das crônicas, dos poemas nos livros como o Criatividade, que tinha quadrinhos, letras de música… Aos 15 anos, quis montar uma banda de rock pesado, mas não tocava nada. Comecei a escrever letras para uma banda que não existia. Então, li o Manuel Bandeira e vi que queria ser poeta. Vi que o texto poderia ficar no papel e ser rock and roll.

Você lançou o CD Música Legal com Letra Bacana, com o PoETs. Como se dá essa relação entre música e poesia?

RS – Há uma parte do trabalho de letra e de poema em que há uma intersecção entre as duas artes, que é na construção do verso. E há outra parte em que cada uma das artes tem sua especificidade. (Nesse momento, brincamos ao falar que a palavra especificidade é um teste para saber se o cara está bêbado.)

Letra de música é poesia? Ou poesia é letra de música?

RS – A letra é parte da música. Tem a harmonia da música, a melodia da música, o ritmo da música, o pulso da música, a interpretação da música e a letra da música. Letra de música não tem esse nome por acaso. Não é um lapso: “puxa, esquecemos de chamar de poesia.” Isso não tem nada a ver com uma ideia de valor. A letra é uma arte que pode ser tão culta e criativa quanto a poesia (escrita ou falada).
O que você prefere fazer, música ou poesia? Por quê?
RS – Tem de escolher? A minha arte número um é a poesia. Adoro o poema no papel. Gosto muito também da música e da letra, do palco e de cantar. Aprendi, criando, a compor melodia e então colocar a letra. É um trabalho bastante divertido.
Há diferença entre o processo de criação da poesia e da música? Como acontece com você?
RS – Sim. Poesia escrevo sozinho. Tenho um caminho criativo já de muitos anos. Vivo pensando em poesia. Se me mostram uma caixinha de papelão, já penso, “ó, ficaria legal poemas ali dentro…”. Exploro possibilidades, leio os outros, enfim, sou poeta. Na letra – não apenas na letra, na composição da música – trabalho predominantemente com o Ronald Augusto e o Alexandre Brito, que, junto comigo, formamos poETs. Nosso processo é coletivo. Juntos criamos uma sequência de acordes (quando não, um de nós traz pronto), daí partimos para a criação da melodia e só no fim colocamos a letra. Mesmo quando escrevo letra para algum músico, penso em letra e não em poema. Penso em algo bom para ser cantado. No poema, crio algo para ser lido.
Não tem vontade de escrever prosa?
RS – Sim. Vou lançar um livro de contos em abril. São 17 contos, cada um com sua história. Tenho também uma coluna quinzenal com ensaios/crônicas no jornal Zero Hora.
Como é a experiência de escrever para jornal?
RS – No jornal, o pedido da editoria é que se fale sempre de algo relacionado à cultura, à arte. Então, faço um misto de miniensaio e linguagem de crônica. Procuro revelar algo interessante, mostrar um enfoque, ampliar o repertório dos leitores. A receptividade tem sido ótima. Muita gente me escreve ou fala que leu.
Por que escrever? Por que poesia?
RS – Escrevo para ser lido. Pelos outros e por mim mesmo. E poesia porque amo poesia.
O menos vendido, ex-Peri,mental, Palavra Mágica, Quase eu, Bashô um santo em mim e Viagem dos olhos, além dos infantis O baú do Gogó, Pequenas observações sobre a vida em outros planetas, É tudo invenção eMmmmonstro!. Qual o seu preferido?
RS – Acho que O Menos Vendido coloca uma produção de 336 páginas, só com poemas inéditos, que foram trabalhados com muita dedicação, ao longo de anos. O Palavra Mágica também reúne uma produção forte, foi a consolidação de uma procura estética. É tudo invenção foi um desafio legal, escrever poemas longos com a temática de encontrar versões para coisas inventadas.

Por que você convidou o poeta Antônio Carlos Secchin para apresentar o seu livro O Menos Vendido?

RS – O dos Planetas também tem um senso de humor e uma surpresa que me alegra muito. Enfim… O Secchin conheceu minha poesia através de um jornal que circulou pelo Rio. Ele gostou muito de um de meus poemas, colocando-o inclusive como encerramento de uma aula inaugural numa universidade carioca. Quando essa aula saiu em livro, ele ligou para Porto Alegre atrás de mim para mandar um exemplar. Um excelente poeta, que publica um poema de minha autoria e ainda acha um jeito de me encontrar merece um tratamento especial. OPequenas Obsevações Sobre a Vida em Outros Planetas está com 20 mil exemplares vendidos. A piazada adora.

Você é professor, graduado em Letras. O conhecimento acadêmico atrapalha sua produção poética?

RS – Não. Fiz Letras para conhecer mais o que faço. Encontrei alguns professores que me foram importantes nessa busca: Tânia Carvalhal, Donaldo Schüler, enfim, gente que sabe das coisas.

Você trabalha também como publicitário. É impossível viver de literatura?

RS – É impossível viver sem literatura.

Você tem uma editora, a AMEOP. Fale um pouco sobre esse trabalho.

RS – A AMEOP lançou 14 livros de 14 poetas: Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Estrela Ruiz Leminski, Frank Jorge, Paulo Seben, Alexandre Brito, Ronald Augusto, entre outros. Fomos eu e o Alexandre Brito atrás de patrocinadores. Conseguimos. A ideia foi lançar livros sem precisar de grana de autor. Nem da nossa! Fizemos lançamentos em Porto Alegre, Curitiba, Campinas e São Paulo. Sempre em sessões de autógrafos com vários poetas. Vendemos cerca de 150 livros em cada lançamento. Foi capa da Ilustrada.

Como conseguem grana para a publicação?

RS – Pedimos papel para a Ripasa. E as gráficas Metrópole e Maredi imprimem. Mas o fundamental é a qualidade dos livros. Colocamos 14 bons poetas nas livrarias.

Qual o critério para escolha dos poetas que serão publicados?

RS – O que eu e o Alexandre gostarmos.

Os títulos de seus livros são bem criativos, por exemplo, O Menos VendidoCulto e Grosso. Como é o processo de escolha dos títulos de seus livros?

RS – Adoro criar títulos. Bashô um santo em mim começou pelo título. Tenho outros títulos sem livro ou que já foram título, mas depois mudei. Guardo o título, quem sabe o uso mais adiante. O Menos Vendido é um exemplo disso. Penso numa solução que seja sonora e que cause curiosidade. E, antes de tudo, que me divirta.

Você tem três livros infantis publicados. Há diferença entre escrever para crianças e para adultos?

RS – Escrevi poesia para ambos. Primeiramente, o que me orienta é fazer um bom poema. A diferença em meus poemas para crianças é que procuro não fazer um poema difícil de entender nem com temática exclusivamente adulta. Desse modo, meus poemas para crianças são lidos também por adultos. E, quando vou às escolas, recito para as crianças os livros que escrevi para adultos.

Você tem filhos?

RS – Sim. A Carolina, que tem 19, e o Leonardo, que tem 10. Os dois adoram arte. Gostam também de criar.
Você publica desde os anos 80. Como você analisa o movimento literário atual?
RS – Acho que há uma boa agitação tanto do mercado editorial – com as grandes editoras investindo, publicando, com grana dessas fusões – como da troca pela Internet, além de eventos, saraus, shows, feiras de livro por todo o país, atividades em escolas. Houve um período nos anos 90 de baixa das editoras. Mas agora vejo com otimismo um grande interesse pela literatura.
Você lê os autores contemporâneos? Quem? Quais são os artistas gaúchos que você admira?
RS – O bom da literatura é que sempre se está descobrindo novos autores. Por exemplo, o Erasmo de Roterdã, de 1511, é um autor novo para mim e com uma visão de mundo extremamente contemporânea no seu Elogio da Loucura. Sobre os contemporâneos-contemporâneos, na poesia, gosto muito de Geraldo Carneiro, Antônio Cícero, Chacal, Alice Ruiz, Ferreira Gullar, João Angelo Salvadori, Ronald Augusto, Alexandre Brito, Paulo Seben, Ricardo Silvestrin, Glauco Mattoso, Augusto de Campos, para ficar nos vivos. Dos gaúchos, há na lista acima quatro deles.
O que e/ou quem o influencia diretamente?
RS – Ler poesia. Ver filme. Ver uma exposição de artes plásticas. Ouvir um cd. Rock, Jazz…
O que você diria para alguém que deseja ser escritor?
RS – Que seja bom! Assim eu posso ler!


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