RODRIGO BITTENCOURT

TUDO-AO-MESMO-TEMPO-AGORA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Rodrigo Bittencourt se considera essencialmente escritor. “Escritor de música, escritor de cinema, escritor de literatura…”. No meio de palavras, músicas e cenas de filmes ele tem construído uma estrada que parece ser longa e com diferentes rumos.

“O que faço melhor? Cada uma dessas atividades tem o seu valor. Acho que música tem uma consistência mais forte porque comecei aos 14 anos. Mas, por outro lado, trabalho com cinema há três anos, e já acontecem coisas interessantes. Não dá para saber ao certo. Tudo começou com a escrita”.

Com um CD lançado, em 2003, (Canção Pra Ninar Adulto) e o outro em ainda em produção (Coleção de Amores), Rodrigo já comemora outras conquistas. Sua composição, “Samba Meu”, foi gravada pela Maria Rita e dá nome ao novo disco da cantora. Ele também vai dirigir uma série, intitulada Procurando Quem?, com treze documentários, para o Canal Brasil. E ainda, lançará o livro Esmalte Vermelho, pela Editora Língua Geral…

“Comecei escrevendo poesia. Meu pai rasgava as poesias que eu colocava na geladeira, dizia que aquilo era coisa de viado. Com a poesia, comecei a entender que tinha de botar as palavras para dançar. Primeiro, escrevi poemas, depois fui estudar violão. Foi assim que deixei de ser só poeta para fazer música. Então está tudo junto, não tem separação”.

Toda essa característica polivalente tem despertado nos artistas mais atentos o interesse pelo seu trabalho. Tom Zé, por exemplo, em meados deste ano, o convidou para abrir um show no Circo Voador. Sorte? Pode até ser, mas imagino que ela está aliada a muita vontade e trabalho do rapaz.

A conversa com Rodrigo Bittencourt aconteceu no (extinto) Café Severino, da Livraria Argumento, da caótica Copacabana.

Você é escritor, músico e cineasta. O que você faz melhor?

Rodrigo Bittencourt – O que faço melhor? Cada uma dessas atividades tem o seu valor. Acho que música tem uma consistência mais forte porque comecei aos 14 anos. Mas, por outro lado, trabalho com cinema há três anos, e já acontecem coisas interessantes. Não dá para saber ao certo. Tudo começou com a escrita.

Começou escrevendo o quê?

RB – Poesia. Meu pai rasgava as poesias que eu colocava na geladeira, dizia que aquilo era coisa de viado. Com a poesia, comecei a entender que tinha de botar as palavras para dançar. Primeiro, escrevi poemas, depois fui estudar violão. Foi assim que deixei de ser só poeta para fazer música. Então está tudo junto, não tem separação.

Você faz música, poesia e cinema. Não tem receio de críticas?

RB – Não. Eu cago para isso. Já me falaram: “Foca num lugar só que você vai conseguir melhor.” Isso é bobagem. Ainda mais hoje em dia, com a globalização…

Você chegou a estudar teatro também…

RB – Sim. Estudei na UniverCidade, antiga Faculdade da Cidade. Cheguei a fazer seis meses de CAL, mas era muito rebelde e acabei reprovado…

Essa indisciplina se estende ao processo de criação?

RB – Totalmente. Não tenho regra para nada. Leio, vejo peças de teatro e muitos filmes; faço música inspirado por ambos. A que a Maria Rita gravou, por exemplo, me veio à cabeça enquanto eu assistia a uma peça de teatro, por causa de um acorde tocado no violão por um ator. Saí do teatro e fui para casa compor. Por isso falo que tudo é uma coisa só.

Mas existe diferença no momento da criação?

RB – Tecnicamente tem que funcionar diferente. Quando vou compor existe uma técnica. O cinema exige uma outra. Mas para criar não existe essa separação; arte antes de tudo é ideia. Quando me perguntam o que sou, digo escritor. Escritor de música, cinema, literatura… Essencialmente escritor. Penso e escrevo coisas, inicialmente não interessa se para o cinema ou literatura. A ideia que tem que mover o artista.

E o que o move?

RB – A arte. Sou artista vinte e quatro horas por dia. Acho que, se não fosse a arte, eu ficaria deprimido. É clichê, mas verdade. Fico o tempo inteiro pensando em projetos.

Você diz que é essencialmente escritor. Como é essa relação com a escrita?

RB – Não há nenhum artista na minha família. Minto, meu avô chegou a compor umas marchinhas. Mas não tive contato com ele. Acho que essa relação aconteceu pelas coisas que comecei a ler, ouvir… Aos doze anos comecei a ouvir Michael Jackson, Caetano, Tom Zé… Uma coisa foi puxando a outra. Zé Celso falava em Sartre e eu ia atrás. Vinícius citava Rimbaud e “Quem é Rimbaud?” Eu procurava o que essas pessoas falavam. Foi assim que surgiu a vontade de fazer as minhas coisas.

O subúrbio é muito presente na sua escrita. Por quê?

RB – Nasci em Laranjeiras, mas fui direto para Bangu. Morei no mesmo lugar desde os quatro anos. Saí de Bangu com vinte e seis anos, mas aos dezesseis já vinha para a Zona Sul fazer cursos. Os meus amigos me sacaneavam porque eu saía do futebol para ler um livro. Conheci, em Bangu, três pessoas que me despertaram para a filosofia e letras.

O fato de ter vivido em Bangu o incomoda?

RB – Não. Acho que foi vantajoso ter saído de lá. Eu pensava que para vir para Zona Sul tinha de estudar muito, saber de Rimbaud. Aqui tem muita gente que vive a arte apenas pelo fato de ser filho de artista… Bangu foi muito importante para mim. No início existiu um pouquinho de preconceito, mas depois as pessoas viram que era besteira. Há algumas brincadeiras, como: “Quando você vem pro Rio? Isso está meio a Bangu…”

Quem mais o influencia na MPB?

RB – O Caetano Veloso. Ele é um cara incrível, que está atento a tudo. No Brasil, tem o Caetano, o Tom Zé e o Jorge Mautner, que são muito fortes. E “lá de fora” tem muita gente também: Radiohead, Pink Floyd, Beatles… No cinema, por exemplo, adoro Bergman, Tarantino e Glauber Rocha, que é o cara mais foda do cinema mundial.

E na literatura?

RB – De poesia, o Paulo Leminski e o Manoel de Barros. Gosto muito do Bukowski e do Fante. Não leio muito romance não.

Então para que escreve romance?

RB – Para tentar fazer outra coisa. É uma pretensão, mas é verdade. Estou escrevendo uma trilogia. O primeiro é o Esmalte Vermelho, que sairá pela (Editora) Língua Geral. Todos partem com uma ideia de filosofia.

Você lê a galera nova que está produzindo?

RB – Não, não li ninguém senão a Clarah (Averbuck); li os três livros dela.

Você namora a poeta Maria Rezende. Como é conviver com uma pessoa que trabalha na mesma área?

RB – É ótimo porque falamos a mesma língua, não só na literatura como no cinema. Ela montará os filmes que estou dirigindo para o Canal Brasil. Também vamos voltar com o Te Vejo Na Laura. Acho que tudo tem vários lados: bom, ruim, negro, branco… É bom trocar com uma pessoa da mesma “espécie”.

Você já fez um documentário sobre o Ferreira Gullar e outro sobre o Jorge Mautner…

RB – O Por Acaso Gullar eu e Maria Rezende dirigimos para exibir no evento Te Vejo Na Laura. Foi por acaso, como o nome diz. E o filme sobre o Mautner surgiu de uma conversa, com o Cavi Borges, sobre a dificuldade de se achar artistas… Assim nasceu o Procurando Jorge Mautner, que acabou virando a sérieProcurando Quem?, no Canal Brasil. Vamos procurar Clarah Averbuck, Alceu Valença, Moraes Moreira, Julinho de Adelaide, João Gilberto, Los Hermanos… São treze documentários.

Seu interesse é pelo documentário?

RB – Não. Esse Procurando Quem? é metade documentário e metade ficção. Brinco com o lance da verdade e mentira. Inspirado no filme do Orson Welles,For Fake. O que é verdade e mentira na arte? Escrevi O Dono da Bola, um filme de ficção para o cineasta Sérgio Rezende, mas deve ser para o ano que vem.

Você ainda consegue tempo para a música?

RB – Sim. (Risos.) Pretendo lançar o meu segundo disco no ano que vem, pela Nastasha e EMI. Chama-se Coleção de Amores, e é produzido pelo Nilo Romero. Mas, em 2003, já havia lançado, o Canção para Ninar Adulto.

Como foi a experiência de abrir o show do Tom Zé?

RB – Porra, foi o melhor dia da minha vida. Não por ter tocado, mas por ter encontrado com ele na passagem de som. Abracei o Tom Zé e disse que conhecia todas as suas músicas. Isso foi incrível! Cantar com o cara que me despertou para a música foi emocionante. Tom Zé, astronauta libertário.

Como foi essa história de a Maria Rita gravar a sua música?

RB – Foi muito louco. Eu e o Mauro Sta. Cecília estávamos compondo quando soubemos que a Maria Rita estava buscando músicas novas. Mandamos para os produtores dela um samba chamado “Eu, você e Gisele Bundchen”. Depois, pedi a eles para mandar umas músicas minhas também, e mandei cinco. Um amigo fotógrafo me deu o e-mail do produtor, mas ele nunca respondia. Por último, mandei o “Samba Meu”. Depois de quatro meses, a produtora me ligou para avisar que “Samba Meu” tinha sido escolhido para ser gravado e dar nome ao disco. Muito bacana!

Quando sai o seu livro Esmalte Vermelho?

RB – Não sei. A (editora) Língua Geral disse que vai sair ano que vem…

Do que se trata o livro?

RB – É sobre um biógrafo que busca personagens estranhos para escrever o livro. Ele se interessa por um personagem que é tão apaixonado por mulheres, que acaba se tornando uma mulher.

Você diria que é um homem de alma feminina?

RB – Sim. Sou lésbico. Sou muito viado e amo mulheres, então eu sou lésbico. Amo as mulheres.

O que você diria a um jovem que quer se dedicar à arte?

RB – Escrevi uma poesia que diz: “Nervos têm êxito.” Acho que esse é o segredo. Se você faz as coisas com veias e coragem, então o sangue corre. As coisas acontecem se você as fizer com verdade.


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