ROSISKA DARCY OLIVEIRA

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

Formada em Direito, Sociologia, Psicologia e Ciência-Educação, a escritora Rosiska Darcy Oliveira nasceu no Rio de Janeiro, viveu exilada na Suíça, onde estudou com Jean Piaget, e doutorou-se na Universidade de Genebra. Foi presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e já trabalhou com os educadores Darcy Ribeiro e Paulo Freire.

Feminista e estudiosa da obra de Simone Beauvouir, Rosiska atualmente vive o privilégio de participar conviver do projeto ‘Caminhos da liberdade’ com, Fernanda Montenegro. A autora do livro ‘Reengenharia do Tempo’, divide o palco com a ‘dama do teatro brasileiro’, após a apresentação do espetáculo ‘Viver sem tempos mortos’, para debater com a platéia sobre a trajetória da intelectual Simone de Beauvoir (1908-1986).

Qual a importância de realizar um espetáculo sobre a Simone de Beauvoir?

Rosiska Darcy Oliveira – A Simone é uma referência na relação homem e mulher, é uma pioneira neste pensamento. Portanto, é importante levá-la a toda cidade e não só na periferia do Rio de Janeiro. Na periferia, é mais importante porque as pessoas têm menos oportunidade, acesso, a influência dos livros. Somos pessoas preocupadas com a democracia. Essa questão da igualdade de gênero é importante para os jovens, homens e mulheres. No debate, tentamos criar um clima de conversa, reconstruir espaços de conversa. É uma oportunidade de ser mais que um espectador. O projeto ‘Caminhos para liberdade’ tem esse objetivo, trocar idéias e provocar reflexão.

Como tem sido o retorno da platéia nos debates?

RDO – Interessantíssimo, as perguntas são de alta qualidade. Por exemplo, uma moça me perguntou: ‘Se Simone de Beauvoir não acreditava em Deus porque ela fala tanto no acaso? De onde vem o acaso?’ É uma pergunta filosófica, precisaríamos de um seminário de Filosofia para discutir o assunto. O nível de abstração é muito alto.

O que te levou a estudar Simone de Beauvoir?

RDO – A Simone foi a mulher que provocou a revolução no século XX. Uma pessoa que fez história, ajudando a quebrar paradigmas. Minha geração foi diretamente impactada com o pensamento dela. Foi como escritora que me apaixonei pela Simone, ela é uma grande romancista.

Que mulher do século XXI faz esse papel de provocar uma revolução através da reflexão?

RDO– Fernanda Montenegro.

Como surgiu o convite para trabalhar com Fernanda?

RDO – Ela me convidou para conversar sobre o texto e tivemos a idéia de fazer um debate com o público. Tenho muito entusiasmo e prazer de fazer esse trabalho. O tema da mulher acompanha a minha vida inteira.

O que Fernanda Montenegro tem de Simone de Beauvoir?

RDO – A dignidade, a coragem e a persistência. Você sabe que, hoje, para manter uma relação amorosa de 60 anos é preciso ser muito revolucionária. É uma honra participar desse projeto, sou uma grande admiradora da Fernanda. E não só pela atriz extraordinária, mas como mulher e personalidade pública. Fernanda Montenegro faz parte disso que chamo de ‘o melhor do Brasil’. Fernanda muito delicada e inteligente, isso é muito raro de se reunir.

Qual a maior dificuldade da mulher do século XIX?

RDO – É o eterno presente que vive nossa sociedade. Não se valoriza o passado e nem o futuro. O maior problema da mulher não reside no envelhecimento, reside no uso do tempo. As mulheres entraram no ‘mundo dos homens’ sem negociar a vida privada. E esse uso do tempo é tão grave para os homens como para as mulheres porque houve uma mudança de espaço e a sociedade não passou o recibo. A vida é uma correria, um estresse permanente. A sociedade mudou de cara, mas é como se nada tivesse acontecido. Escrevi um livro sobre o assunto ‘Reengenharia do tempo’. É necessário ter tempo para vida afetiva, amorosa e profissional. São questões que levamos para o debate após a peça.

Que lugar na sociedade as mulheres deveriam ocupar?

RDO – Tenho esperanças em relação as mulheres. Elas têm de ocupar um lugar de paridade nessa sociedade feita de homens e mulheres. A mulher tem de buscar na cultura feminina o que há de melhor: a intimidade com o mistério e a solidariedade com o outro. Esses traços, facilmente, podem ser transformados em qualidade na vida pública.

O Brasil está preparado para eleger uma mulher como presidente?

RDO – Deveria estar. E dependendo da mulher, acho que os eleitores estão preparados. Mas estou mais preocupada com a presença qualitativa. Tenho medo que as mulheres cheguem ao poder e percam o que elas têm de melhor. Há uma frase da Simone nesta peça: ‘Eu não quero que as mulheres tomem o lugar dos homens. Que quero que elas mudem o mundo’. Há um enorme potencial de mudança civilizatória com a chegada das mulheres nos lugares públicos, na arte e no poder. Tenho a esperança que a mulher faça diferença.


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