SÉRGIO BRITTO

"O TEATRO ME REVIGORA"

Ator lança livro de memórias no qual narra 65 anos de carreira

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

Sergio Britto, um dos atores mais expressivos do Brasil, resolveu, aos 86 anos de vida e 65 de carreira, rever sua trajetória na ponta da caneta: escreveu a autobiografia O Teatro & Eu, uma encomenda da editora Tinta Negra. As memórias são resultado de sua paixão pelo ofício de ator, profissão que escolheu quando ainda cursava, a pedido da família, faculdade de medicina.

O ator, que começou no teatro encenando Romeu e Julieta, surpreende – no auge da maturidade – pela vitalidade e memória prodigiosa. No livro, Sergio traça um panorama de sua carreira, que circunda a história do Teatro Brasileiro no século XX: Teatro Universitário, Teatro Brasileiro de Comédia, Teatro de Arena, Teatro dos Doze, companhia de Maria Della Costa, Teatro dos Sete.

E, na nonagésima década de vida, não para de trabalhar. Além de escrever o livro e gravar semanalmente o programa Arte com Sergio Britto na TV Brasil, o ator começou a ensaiar com Eduardo Tolentino, nesta quarta-feira, dia 02 de junho, a peça Recordar é Viver, de Hélio Sussekind.

Em entrevista ao Cultura.rj, Sergio Britto fala – com paixão – sobre a experiência de registrar no papel os momentos que marcaram sua vida.

Como foi a experiência de escrever sua autobiografia, rever a história de sua vida, a teatro brasileiro, na ponta da caneta?

Sergio Britto – Foi um enorme prazer, seis meses escrevendo com prazer. Escrevi no impulso. Escolhi falar em primeira pessoa, a escrita saía compulsivamente. Escrevi todas as páginas desse livro à mão, são 416. Tenho um tesão forte dentro de mim. Só se deve fazer teatro se você não puder fazer outra coisa na vida. Por quê? Porque teatro só faz sentido com entrega total. Vivi assim também o livro. Minhas lembranças são muito sólidas, não fiz pesquisa nenhuma. E não tem melancolia, sou atento ao futuro. Amo viver.

A Tônia Carrero diz que ‘envelhecer é estar no inferno’. Como você lida com o envelhecimento?

SB – Bobagem. Sabe quando eu percebi que estava envelhecendo? Há uns dez anos. Um dia parei e pensei: ‘Estou ficando velho!’ Só percebi que estava ficando velho quando comecei a não fazer questão de não ficar acompanhado. Quando vi que não precisava de uma companhia afetiva, amorosa ou sexual, então eu vi que estava envelhecendo. A velhice tem outro valor. Eu não fico pensando na morte. Quando penso, involuntariamente, é assim: ‘Bom, um dia desses eu vou morrer. Quando será, hein?’ É surpresa. Você vê tanta gente que morre de repente. Isso é um pouco mais difícil. Sabe o que acontece? Quando vejo meus amigos indo embora, se eles estão mal, eu rezo para que eles partam logo. Na verdade, as pessoas não querem sofrer a perda. Penso que um dia vai chegar a minha hora. Eu gostaria de saber, compreender para saber o que eu faço. Será que vou fazer como nos filmes: reunir os amigos para uma despedida? Não sei se vou fazer isso. Mas eu gostaria de saber para que eu pudesse me despedir direito de certas pessoas que me consideram importante. Tem muita gente: minha empregada Xica, que trabalha comigo há 33 anos; o Antônio, meu administrador e amigo; os meus sobrinhos; e alguns amigos mais ligados, como Fernanda Montenegro e Natalia Thimberg.

Sua autobiografia servirá como uma referência para os atores, principalmente os mais jovens. Em algum momento de sua vida, você imaginou que se tornaria um ícone do teatro brasileiro?

SB – É engraçado, quando envelhecemos nos tornamos ícone. Eu nunca pensei em ser ator de teatro. Estudei medicina porque a família me empurrou. Mas tive pais excepcionais, como descrevo no livro, maravilhosos de carinho e atenção. Quando eles ficaram naquela ânsia para que eu estudasse medicina, não tive como dizer não. Sou médico formado, mas nunca peguei o diploma de médico. Porque esse negócio de formatura é assim: você recebe um diploma falso e tem de voltar na faculdade depois. Eu não fui buscar! No dia 02 de janeiro de 1948 eu me formei em medicina, no  Theatro Municipal – uma badalação enorme. Aliás, fiz vários partos, o que mais me apaixonou. É muito emocionante ver uma criança nascer. Eu comecei a me afastar da medicina fingindo não notar, estava enganando a mim mesmo. Até que um dia meu pai apareceu na temporada doHamlet em Campinas: ‘Sergio, como é que é? Você não ia fazer um curso de pediatria? É teatro ou medicina, Sergio?’ Ele me empurrou contra a parede, meu pai era incrível. No dia seguinte, pela manhã, bati na porta do quarto do meu pai e disse: ‘Papai, vou largar a medicina’. Ele ficou assustadíssimo: ‘Você está louco? Me disse que não tinha talento, que não gostava de teatro’. Eu retruquei: ‘Eu sei. Mas tenho que tentar alguma coisa. O que vou fazer é teatro. Eu tenho que ficar nesse mundo’. Estreamos o Hamlet no dia 6 de janeiro de 1948, no Teatro Fênix, que hoje não existe mais. Na verdade, comecei uma brincadeira de fazer teatro, tão pouco importante. Foi assim: entrei na Escola Nacional de Música e uma moça chamada Juresa Simões me achou simpático e perguntou se eu não queria fazer teatro. Eu disse: ‘Quero!’ Aliás, até hoje, esse ‘quero’, essa irresponsabilidade do ‘quero’ é culpada de tudo.

Sua estreia foi com o espetáculo Romeu e Julieta, fazendo o papel de Benvólio. Foi nessa mesma peça que estreou também o ator Sérgio Cardoso. Foi nessa época em que vocês ficaram amigos?

SB – Sim. Nós tivemos uma longa amizade. Quando chegou em 1948 o Sérgio me disse assim: ‘Vamos conhecer o Paschoal Carlos Magno?’. E disse: ‘Ah, Sérgio, eu não quero não. Isso é para você que é ator. ’ Ele insistiu e eu fui. O Paschoal era danado, um sedutor, com sua paixão pelo teatro. Quando acabou a conversa eu já estava me candidatando ao elenco do Hamlet. Fizemos o teste, o Sérgio ganhou o papel do Hamlet e eu ganhei o Laerte. Eu disse que não queria, mas fiz. Depois, aconteceu um desastre durante a temporada, o ator que fazia o Rei Claudius ficou tuberculoso. Quem o substituiu? Eu. (risos) Eu era muito jovem. Fazer o Rei Claudius aos 25 anos era muita responsabilidade. O amor pelo teatro foi me conquistando aos poucos. De repente, comecei a faltar aos meus compromissos da medicina. Fiz com o Sérgio Cardoso o Teatro dos Doze, em 1949. Aí eu já estava perdido de vez. Mas o curioso é que não tinha nada para discutir comigo mesmo. No Doze eu fiz, péssimo, um galã do  Arlequim e, depois, fiz um papel um pouco melhor: Uma tragédia em Nova York. Isso me animou um pouquinho mais. Também fizemos Simbita e o Dragão, da Lucia Benedetti. Mas depois acabou o dinheiro, acabou a companhia, acabou tudo. Voltei para o Teatro Universitário. Lá encontrei a Natalia Thimberg, com quem fiz duas peças: O Pai, de Strindberg, e Quebranto, de Coelho Neto. No Quebranto, um crítico de O Globo, Gustavo Dório, disse: ‘Sergio Britto está muito bem nesta peça, foi a melhor coisa que vi ele fazer’. São essas coisas que começam a provocar. Parei tudo, não sabia o que ia fazer, até que o Gero Jacob me convidou para fazerElectra, do O’Neil, em São Paulo. Eu fiz dois papéis numa versão de três horas e quarenta e cinco minutos. Foi durante esses ensaios que comecei a perceber que era ator: ‘Estou vibrando? Sou ator!’. Eu fazia um velho de 70 anos, isso com 27 anos. Era muito difícil. Antes de ir para São Paulo, descobri que eu tinha um problema sério de surdez. Eu falava muito alto, gritava. Fui estudar com professores de voz para sanar o problema. Mas nada me levava a um grande entusiasmo. Até que surgiu um amor na minha vida: o cinema. Trabalhei em duas companhias de cinema, a Maristela e a Multifilmes. Essas companhias não deram certo, mas foi onde me preparei para ser ator de cinema. Me lembro que comecei a gostar mesmo de teatro em 1943, antes eu era cinema, cinema, cinema…Teatro eu comecei a gostar por um motivo bastante forte, vi Ziembinski dirigir Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Nesse dia o teatro passou a fazer parte da minha vida. De repente me vi trabalhando com Maria Della Costa em Manequim, de Henrique Pongetti, com direção de Eugênio Kusnet – essa foi uma experiência muito importante. Kusnet resolvia tudo na maior simplicidade, com verdade. Depois fiz o negro de A Respeitosa, do Sartre, porque os negros não tinham espaço no teatro.

No livro O Teatro & Eu você relembra detalhes sobre a criação e os bastidores dos grupos e espaços teatrais mais importantes do Brasil, como o Teatro Universitário, Teatro Brasileiro de Comédia, Arena, Teatro dos Doze, companhia de Maria Della Costa, Teatro dos Sete… Qual foi o momento mais difícil no teatro?

SB – Acho que foi essa fase que estou contando, era tudo muito atribulado. Eu me atirava nas coisas com uma paixão enorme. Lembro que nessa época eu fiz No fundo do poço, de Dinah Silveira de Queiroz. Essa foi uma fase de experiências muito violentas. Eu era ajudado pelo Kusnet, mas nem sempre ele estava junto. Eu era muito desequilibrado como ator, muito jogado na emoção. Em 1953, eu comecei a descobrir o ator quando coloquei um nariz de palhaço, fazia todas as palhaçadas possíveis. Foi numa peça do Teatro de Arena, do José Renato, onde encontrei o ponto de partida para confiar em mim como ator. A partir daí, ainda errei, comecei minha carreira de ator mais consciente. Em seguida fiz Delfim noCantos da cotovia, com o qual ganhei o meu primeiro prêmio de ator. Depois fiz, com Maria Della Costa, Com a pulga atrás da orelha e comecei a me especializar em composição de personagens. Eu não queria ser galã, ter papéis vazios. Só a habilidade do ator defende o galã. Então, comecei a fazer composições. Depois disso fomos todos para o TBC: Fernando Torres, Fernanda (Montenegro), (Ambrósio) Fregolente, Milton Moraes, um bando… Largamos a Companhia Maria Della Costa e fomos todos para o TBC, onde fiz a peça A casa de chá do luar de agosto. Viemos para o Rio e eu me meti na televisão, onde ofereci um projeto chamado Grande Teatro. Ficamos na Tupi seis anos e na TV Rio dois anos e alguns meses na Globo . Foram 400 peças em cinco anos e meio, ao vivo, decorávamos uma peça por semana. Nós nos tornamos, a Fernanda que diz muito bem, ‘atletas do teatro’. Ficamos bem treinados, mas fazíamos umas bobagens de vez em quando. Uma vez o Ítalo Rossi avisou ao vivo: ‘Disse aos guardas para ‘viajarem o cadáver’. Era pra dizer: ‘Diga aos guardas para vigiarem o cadáver’. (risos) Esse programa foi importantíssimo, era muito repertório: Dostoievski, Pirandello, Sartre, Simone de Beauvoir, Sartre, Balzac… Nos animamos a constituir o Teatro dos Sete, em 1959. Nós saímos do TBC e fizemos o Mambembe, no Municipal, com direção de Gianni Ratto. Em Copacabana, em 1960, o Mambembe sustentou 60 pessoas com o dinheiro de bilheteria. Acredita? Hoje em dia nem com o patrocínio se consegue ganhar dinheiro. Foram seis anos de Teatro dos Sete, depois acabou. Então fizemos o Torres e Britto Diversões Ltda., com a Fernanda e o Fernando. Nós fizemos A mulher de todos nósO homem do princípio ao fim, de Millôr Fernandes e a Volta ao lar, de Harold Pinter. Fiz, depois, Marido vai à caça com direção de Amir Haddad e no elenco: Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e eu. O Amir fazia aquela bagunça costumeira, era ótimo, muito divertido. Também fizemos A noite dos campeões, com direção do Cecil Thiré. Aí surgiu o Teatro dos Quatro com Paulo Mamede e Mimina Roseda. O Teatro dos Sete e o Teatro dos Quatro foram as coisas mais importantes como construção e criação. O Teatro dos Quatro era um teatro de repertório, fizemos: Gorki, Tchekov, Fassbinder… Mas o dia que terminou o patrocínio da Shell, que começou com Rei Lear em 83, o Teatro dos Quatro acabou. E nunca mais conseguimos uma verba, então vendemos o teatro.

Você está começando a ensaiar a peça Recordar é viver, de Hélio Sussekind, dirigida por Eduardo Tolentino. Qual a expectativa de voltar ao palco aos 86 anos?

SB -Digo sempre que o teatro me revigora. No ano passado, fiz A Última Gravação de Krapp e Ato sem palavras 1, do Beckett. E, sem dúvida, foi uma das experiências mais importantes da minha carreira. A danadinha da diretora Isabel Cavalcanti soube mexer comigo, ele me desconstruiu. Agora vou trabalhar com o Eduardo Tolentino, já fiz o Outono Inverno com ele. Nós nos entendemos muito bem, ele foi meu aluno no Teatro dos Quatro. Estou ansioso para subir ao palco.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates