SÉRGIO BRITTO

UM HOMEM DE PAIXÃO

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]
Fotos de Tomás Rangel (ao lado) e Divulgação Tinta Negra

   

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Aos 87 anos, Sérgio Britto publica seu livro de memórias, O teatro & eu (Tinta Negra), onde revê sua trajetória, um passeio afetivo pela história do teatro brasileiro no século XX

Por Ramon Mello
Fotos de Tomás Rangel (ao lado) e Divulgação Tinta Negra

 

“Cada um de nós precisa ter uma paixão especial, alguma coisa que deseja realizar muito. Isso sustenta o ser humano vivo até o fim. O teatro é o mais importante para mim.” Seguindo essa filosofia, o ator, diretor e crítico Sérgio Britto mantém uma sólida carreira de 65 anos de palco, com 106 peças feitas no teatro (96 como ator) e 386 na televisão (na época dos teleteatros), além de outras paixões. 

Aos 87 anos, Sérgio Britto ainda encontra tempo e vigor para escrever um livro de memórias – o recém-lançado O teatro & eu(Tinta Negra) –, complemento da autobiografia Fábrica de ilusão (Funarte/Salamandra), publicado em 1996. No livro novo, Sérgio revê sua trajetória, um passeio afetivo pela história do teatro brasileiro no século XX, que inclui o Teatro Universitário, Teatro Brasileiro de Comédia, Arena, Teatro dos Doze, Companhia de Maria Della Costa, entre outros grupos e companhias. 

Entre tantas atividades, ele grava semanalmente o programa Arte com Sérgio Britto, exibido na TV Brasil. E está em cartaz até o final de setembro no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio Janeiro (CCBB-RJ) com a peçaRecordar é viver, de Hélio Sussekind, ao lado de Suely Franco, com direção de Eduardo Tolentino. 

Em 2011, pretende continuar nos palcos, desta vez com um Tchekhov, O canto do cisne, sob a direção de Isabel Cavalcanti – parceria iniciada com o premiado espetáculo A última gravação de Krapp/Ato sem palavras 1, de Samuel Beckett (2008/2009). Isabel também assinará, junto com Célia Freitas, um documentário sobre Sérgio Britto, O Homem das mil fábulas (título provisório), ainda em fase produção e captação de recursos. Sérgio Britto não pára de trabalhar. “A vida é para não parar. O que é que há?” 

 

Antes desta autobiografia, O teatro & eu (Tinta Negra, 2010), você escreveu Fábrica de ilusões (Funarte/Salamandra, 1996), que deu origem ao espetáculo Sérgio 80 (2003), dirigido por Domingos de Oliveira... 

Sérgio Britto. Esse [livro] eu me empenhei muito, comecei a escrever e não parei nunca. Acordava, tomava café, lia O Globo e escrevia. Escrevo à mão, com Bic. 

Depois faziam a transcrição para o computador... 

Sérgio Britto. Depois eu ditava para alguém, que “batia à máquina”. E, às vezes, a Michelle [Strozda], da [editora] Tinta Negra levava e “batia”... Revisão é uma coisa, não gosto nem de pensar. Nunca fica pronto. 

Sua história de vida se confunde com a história do teatro brasileiro. Como é rever a sua trajetória num livro? 

Sérgio Britto. É uma coisa que faço com prazer. A força maior desse livro é que escrevi com muito prazer. Tive vontade de contar. E, engraçado, não sei o porquê, deixei de contar algumas coisas. Vai ver que eu tinha ojeriza ou implicância com aquelas coisas que não queria contar. Não falei das minhas direções de ópera, Macbeth e Elixir de amor, nem citei... Esquisitíssimo. E têm algumas pessoas que reclamam: “Você não botou meu nome!” Mas isso, não. Isso não me preocupou mesmo. Na minha vida entram as pessoas que entram... Não escrevi um relatório, escrevi um livro vivo. 

Tão vivo que você começa o livro relatando episódios marcantes de sua vida: tentativa de suicídio, homossexualidade... 

Sérgio Britto - Eu falo de tudo. No primeiro capítulo, senti obrigação de entrar por aquilo. Não posso pular, cair fora, escapar e começar a falar de teatro. Não! Deixa eu primeiro falar isso... Para dizer que estou fazendo um livro a sério, com vontade de falar tudo que vivi, que senti. Depois, então, no segundo capítulo em diante, é teatro. Eu tinha que escrever esse livro, uma espécie de afirmação de sinceridade, coragem de falar. Não tenho medo nenhum. Enfrento as sombras que Jung fala muito bem. As sombras estão lá, você viveu, não adianta fugir. Viveu! Viveu tudo. Eu conto histórias neste livro que fico boquiaberto. 

No livro, você faz uma relação de sua mãe, Alzirinha, com uma personagem de Tennessee Williams, Amanda. Diz que ela é tão asfixiante quanto... 

Sérgio Britto. Era uma mãe maravilhosa, mas terrivelmente dominadora, presente o dia inteiro. Alzirinha, Alzirinha... Mamãe? Me deu muito carinho. Eu era o filho preferido, isso não foi muito bom. Não foi fácil de “transar”, ser o filho preferido. Mas, ao mesmo tempo, ela me cortava. Lá em casa tinha café da manhã, almoço, lanche, jantar e ceia. Ela queria os filhos em todas as refeições. Eu já tinha 16, 17 anos e começava a sair de casa à noite. Mas ela ficava me esperando... Chegava meia-noite, eu ligava: “Mamãe, não posso ir já. Vou daqui a pouco”. Ela dizia: “Estou te esperando, fiz um bolo de laranja...” 

E o seu pai? Você conta uma passagem sobre ele, quando lhe pergunta se realmente estava namorando o seu amigo. Como era essa relação? 

Sérgio Britto. Meu pai tinha uma relação maravilhosa comigo todo o tempo. Acho que ele era a figura mais importante da minha família. Ele influenciou todo mundo, ajudou todo mundo: eu, meu irmão, minha cunhada... Ele foi um centralizador. Um homem capaz de compreender tudo. Desde a opção sexual e, mais sério ainda, quando resolvi largar a medicina pelo teatro. Eu disse: “Olha, papai, eu fiz medicina porque vocês quiseram. Eu vou é para o teatro”. Ele não disse uma palavra, ficou me olhando. Eu via nele uma admiração. Ele via o filho que tinha uma ideia e queria fazer, ir em frente. Ele era uma pessoa muito rica, um homem muito forte, muito especial. Meu pai é a grande pessoa da minha vida. Mamãe é também, de outro lado, de outro jeito. 

De sua formação como médico, o que ficou para o Sérgio Britto ator? 

Sérgio Britto. Eu acho que o Sérgio Britto ator lucrou tendo feito medicina. Porque eu fiz na prática. No terceiro ano de medicina, fui para uma maternidade, no pronto-socorro. Eu fiz partos... E atendi coisas terríveis: o sujeito que se envenenou porque a mulher o enganava. O homem morrendo e a mulher agarrada nele: “Não morre, não morre... Eu te enganei porque sou uma estúpida. Eu te amo!” O homem morreu e a mulher continuou sacudindo ele. Coisas muito fortes. Um bom lugar para o ator fazer um laboratório, experiência humana. 


 

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Com tantos trabalhos importantes no teatro, cinema e televisão, há algum que você lembre com mais carinho? 

Sérgio Britto. A peça mais importante que fiz na minha vida, marcante, foi um espetáculo que eu tinha um bom papel: o Mambembe, de 1959, início do Teatro dos Sete. Bárbara Heliodora e Sábato Magaldi, dois críticos de teatro muito sérios, consideram Mambembe o melhor espetáculo feito no teatro brasileiro até aquela época. E a Bárbara diz, até hoje, que não teve um espetáculo que superasse o Mambembe. Particularmente, há outros trabalhos como ator: TangoO beijo no asfalto [à esquerda, em 1971, com Fernanda Montenegro] as peças que fiz com Gerald Thomas... E, principalmente, o último [Samuel] Beckett que fiz, com direção de Isabel Cavalcanti: A última gravação de Krapp/Ato sem palavras 1. Essas são as coisas mais marcantes da minha vida. E está acontecendo mais uma, estou ensaiando Recordar é viver [em cartaz no CCBB-RJ até o final de setembro], onde faço um papel delicioso. 

Com direção de Eduardo Tolentino... 

Sérgio Britto. É. Sou marido da Suely Franco. Ela é a dona da peça, ela vai estourar esse ano. Meu papel é um pouco na sombra da Suely, mas adoro fazer. É o homem doente, que acaba meio louco e com câncer. E, no ano que vem, já tenho certeza que vou fazer um Tchekhov, O canto do cisne, com a direção de Isabel Cavalcanti outra vez. 

Você não para, Sérgio? 

Sérgio Britto. A vida é para não parar. O que é que há? 

Sobre a Bárbara Heliodora, você trabalhou com ela como atriz? 

Sérgio Britto. Sim. No Hamlet [abaixo, Sérgio em 4 x Beckett, de 1985], no Teatro do Estudante. Ela fez a rainha Gertrudes. Mas ela estava grávida, teve de ser substituída pela Cacilda Becker. 

Ela era boa atriz? 

Sérgio Britto. Não era má atriz. Era atriz. A experiência foi muito curta, não deu para ver a Bárbara crescer no papel. Ensaiou muito pouco e fez duas apresentações apenas. Corajosamente, aliás. Ela tinha capacidade de falar, projetar a voz... Acho que a Bárbara tem toda a possibilidade de ser atriz. E uma atriz muito especial, uma mulher grande, com presença física muito forte. 

Que ator você destacaria? 

Sérgio Britto. Wagner Moura é o melhor ator da geração dele, sem dúvida. Ele compete com Matheus Nachtergaele, Selton Mello... 

E o teatro contemporâneo? Qual sua avaliação?

Sérgio Britto. O teatro, o cinema, a literatura, tudo no Brasil, avalio menos. Hoje em dia, menos! Não posso ser otimista porque a verdade está na cara da gente. De vez em quando acontecem umas coisas, um espetáculo fora da medida. Mas de vez em quando. 




Que amigos, colegas de trabalho, marcaram sua trajetória? 

Sérgio Britto. Eu tenho três colegas de trabalho principais, que marcaram presença na minha vida e, ao mesmo tempo, pessoas com quem trabalhei bastante. Em primeiro lugar absoluto Fernanda Montenegro. Ela é minha irmã amiga, uma pessoa muito presente na minha vida. E o Ítalo Rossi e a Nathália Timberg. Esses três são absolutos. Mas no passado, a pessoa que mais fez pela minha vida, em relação ao teatro, foi o Sérgio Cardoso. Foi vendo Sérgio ensaiar Hamlet que me apaixonei pelo teatro. Naquela época sabe do que eu gostava? De cinema e de ópera. Eu tinha começado a gostar de teatro quando vi Nelson Rodrigues, Vestido de noiva, do [diretor Zbigniew] Ziembinski. Antes o teatro não era capaz de competir com o cinema e nem com a ópera. Vendo o talento do Sérgio nas mãos do nosso diretor polonês foi uma apaixonante experiência. 

O que é preciso para ser um ator? 

Sérgio Britto. Quando me perguntam, eu coloco na parede e pergunto se é uma paixão absoluta. Se não é uma paixão absoluta, uma escolha definitiva... Tem que ser assim: “Quero ser ator, a única coisa que quero da minha vida”. Se você quer ser ator, tem que ser uma paixão definitiva. 

Voltando ao livro, você diz: “O tempo cura tudo”. Como é a sua relação com o tempo? 

Sérgio Britto. O tempo cura tudo. Vejo as coisas que fiz, as boas e ruins, tudo, com muita naturalidade. Não sofro por nada que fiz. Nada. Mas nada mesmo. Faz parte da experiência, da continuidade da minha vida. Sempre estive em aberto para viver cada coisa. O tempo cura tudo por quê? Porque tudo aplainou, ficou mais quieto. É aprender a viver 80 e poucos anos... Se não aprendeu está perdido. Porque velho e burro eu não quero ser, não. 

Você tem medo da morte? 

Sérgio Britto. Não. Eu não penso nela. Ou, quando penso, digo: “Estou com 87...” Pode ser que um dia eu acorde de manhã passando mal e morra. [risos] A única coisa que quero é morrer na minha cama. Mas não tenho problemas, não. 

O que é mais importante na sua vida? 

Sérgio Britto. Cada um de nós precisa ter uma paixão especial, alguma coisa que deseja realizar muito. Isso sustenta o ser humano vivo até o fim. O teatro é o mais importante para mim. É maior profissão do mundo. É minha ideia.

 

 

 


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