RODRIGO FAOUR

GOZO DE LETRA E MÚSICA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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A História Sexual da MPB (Editora Record) é um livro que merece ser lido e indicado para os amigos, principalmente para aqueles que gostam de sexo e música. Rodrigo Faour conjuga sua experiência de jornalista e pesquisador com a sua fixação pela música brasileira (e por sexo) para nos presentear com uma bíblia sobre o amor e a sexualidade na MPB.

O título é sugestivo, mas é o subtítulo – “A evolução do amor e do sexo na canção brasileira” – que deixa claras as intenções do autor. Inúmeras reproduções de capas de discos, anos de pesquisa e aproximadamente 80 entrevistas formam o apoio de uma viagem por mais de um século de músicas brasileiras: do maxixe ao funk, das músicas sobre fossa aos temas eróticos dos anos 80, dos tabus às canções com temática gay.

“A partir da década de 60 e 70, a coisa começou a surgir timidamente; como em ’Bárbara’ – de Chico Buarque e Ruy Guerra –, a primeira música gay mais explícita, sem ser em tom de achincalhe, a retratar o amor de duas mulheres. Mas, até meados dos anos 70, as canções que abordavam o amor homossexual tinham mensagens subliminares que só os gays conseguiam entender”, explica o escritor e pesquisador que trabalhou como jornalista no jornal Tribuna da Imprensa.

Engana-se quem espera encontrar histórias sobre orgias ou coisas do tipo. O livro relata a evolução comportamental do brasileiro nos temas de amor e sexo e explora algumas passagens mais picantes do nosso repertório musical. O livro deve ser lido com a mente atenta às letras, que nos levam para momentos marcantes da nossa vida. O texto é leve, é um verdadeiro gozo – de letra e música.

“A sigla ‘MPB’ foi criada na década de 60, nos festivais de canções, e virou um símbolo cult, que as pessoas usam para classificar músicas de qualidade. Mas, na verdade, engloba tudo o que é popular, e é isso o que faço em meu livro. Isso a crítica não entendeu. Não faço um julgamento estético, independe de ser brega ou chique. Acho que isso incomoda muito os críticos. Não fiz um livro pretensioso para aparecer, é uma pesquisa séria, um livro para a reflexão. Quero atiçar as pessoas para o que elas estão cantando, para que sejam mais críticas”, defende Faour.

E você? Saberia dizer qual a música mais sexual da MPB? Entrevistei Rodrigo Faour, na tentativa de obter uma resposta e conhecer um pouco mais do trabalho desse escritor que nos ajuda a entender por que nossa música é tão boa.

Por que o sexo é tão presente na MPB?

“Sexo é importante na vida! E, no Brasil, a música é utilizada como crônica dos costumes, muito mais do que nos outros países. Através dela, é possível escrever a nossa histórica política, social e sexual também… A produção musical brasileira é única, muito peculiar”.

Em seu livro, você escreve que a música “esteve sempre de olho quando um brasileiro arriou as calças – ou as calcinhas – nos últimos 250 anos”. Por que o sexo é tão presente na MPB?

Rodrigo Faour – Sexo é importante na vida! E, no Brasil, a música é utilizada como crônica dos costumes, muito mais do que nos outros países. Através dela, é possível escrever a nossa histórica política, social e sexual também… A produção musical brasileira é única, muito peculiar.

Você diz que cada época exprime em sua música a sexualidade dominante. Qual a diferença entre, por exemplo, ouvir a produção do Noel Rosa na época e hoje em dia?

RF – O Noel era quase uma exceção. Ele estava à frente de toda a sua geração. Mas temos que lembrar que a sociedade patriarcal começa a perder terreno a partir da década de 60. Temos que analisar os compositores pela luz de sua época. Noel tem várias músicas à frente do seu tempo. Há também composições que carregam esse ranço. É só lembrar a canção “mas que mulher indigesta, indigesta/ merece um tijolo na testa…”. A mulher antes só nascia para casar, ter filhos e cuidar da casa. Era difícil dar refresco às mulheres! É muito diferente de quando ouvimos Chico Buarque, que é de uma geração que só começa a surgir na década de 60 e vai vingar nos anos 70 – abordando temas feministas, ideias de amor livre, igualdade de direitos.

Há muito preconceito com as composições escancaradas do funk, como nas letras da Tati Quebra Barraco, por exemplo. Você acha que em algum momento as pessoas vão assumir que gostam de ouvir o funk carioca?

RF – Acho que sim! Existe muita gente que não era considerada MPB e depois passou a ser, como a Rita Lee. Não defendo o funk como modelo, mas acho que eles têm coragem de tocar em temas muito interessantes, que saem do politicamente correto. O funk acaba com o mito da mulher contida, que não gosta de sexo, brinca com o papel da esposa e da amante. A música é tosca, mas tem a ver com a realidade deles. Por que o punk e o rock podem abordar esses temas e o funk não pode? Porque o funk não tem o crivo da mídia, do glamour. É tudo o que a sociedade não quer ver, tem o pobre, o preto e o favelado. Isso incomoda, e muito! O mesmo aconteceu com o maxixe, que também era feito por essa classe desprivilegiada da sociedade. A dança simulava o coito sexual, e existia muito preconceito em ver os mulatos dançando.

Você dedica um capítulo inteiro aos gays em seu livro. Por que os gays demoraram a mostrar as suas composições?

RF – Isso não acontece só na música. Nas outras áreas também acontecia, mas não era nada muito declarado. A exposição era muito sutil ou em forma de gozação. A partir da década de 60 e 70, a coisa começou a surgir timidamente; como em “Bárbara” – de Chico Buarque e Ruy Guerra –, a primeira música gay mais explícita, sem ser em tom de achincalhe, a retratar o amor de duas mulheres. Mas, até meados dos anos 70, as canções que abordavam o amor homossexual tinham mensagens subliminares que só os gays conseguiam entender.

Por que algumas cantoras lésbicas não assumem publicamente a sexualidade?

RF – É uma coisa engraçada, pois todo mundo sabe mas finge que não. Talvez isso aconteça por causa do medo da exposição, de a mídia querer esmiuçar algo que elas não desejam. Mas isso é uma caretice! De toda forma, a Cássia Eller se assumiu e manteve o respeito com um trabalho genial.

Por que grande parte do público gay se identifica com as divas da MPB?

RF – Acho que em grande parte dos homens há uma sexualidade que provém do feminino. Acho que a figura poderosa da mulher – mãe e irmã – é muito significativa para os gays. E é assim em outros países. Nos EUA acontece muito com as divas do cinema.

E por que essa necessidade de falar de tristeza na MPB?

RF – É influência do romantismo: quanto mais difícil é o amor, mais nobre ele é. Herança latina e também religiosa de aclamar o sofrimento.

No livro você afirma que se não tivesse tido influências musicais, não conseguiria escrever o livro. Quais foram as suas maiores influências?

RF – Junto com o Chico, oito cantoras fizeram a minha cabeça, por isso dedico o livro a elas. Ouvia Gal, Bethânia, e todas as grandes, em uma época de ouro na MPB; época em que as músicas eram leves e alegres – talvez por isso eu não seja uma pessoa “para baixo”. Depois, passei a pesquisar as cantoras que vieram antes. Em seguida, passei a trabalhar no Tribuna da Imprensa como jornalista. Plantei muito e hoje, depois de tanto esforço, estou colhendo. Tenho quase 200 trabalhos que levam o meu nome, e isso é gratificante demais. Assim concebi esse livro.

Um crítico do JB declarou que “o problema do livro não é a pesquisa, mas a proposta, que esconde um preconceito e, no afã de se justificar, acha bom o que é ruim e vice-versa”. Como você reage a declarações desse tipo?

RF – A sigla “MPB” foi criada na década de 60, nos festivais de canções, e virou um símbolo cult, que as pessoas usam para classificar músicas de qualidade. Mas, na verdade, engloba tudo o que é popular, e é isso o que faço em meu livro. Isso o crítico não entendeu. Não faço um julgamento estético, independe de ser brega ou chique. Acho que isso incomoda muito os críticos. Não fiz um livro pretensioso para aparecer, é uma pesquisa séria, um livro para a reflexão. Quero atiçar as pessoas para o que elas estão cantando, para que sejam mais críticas.

Quais são as músicas mais sexuais do cenário musical brasileiro?

RF – Não dá para dizer assim… Mas vou lançar pela Universal um CD com 20 músicas que considero as mais sexuais da MPB. Tem desde “Paixão”, do Kleiton & Kledir, à “Café da manhã”, do Roberto Carlos. Mas a seleção sempre vai ser infinita.


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