SIMONE CAMPOS

TALENTO COMPROVADO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 simonecampos

 

Jeitinho doce e um olhar desconfiado, assim é Simone Campos. Uma jovem escritora que publicou o seu primeiro livro, No Shopping, aos 17 anos e agora curte o amadurecimento do seu novo romance A Feia Noite – ambos pela editora Sete Letras.

“Acho que é isso, amadureci nesse livro. Quando penso nele penso em ramificações. Por ser muito entrecortado, acho que é de mais difícil acesso para os leitores. Às vezes, eu mesma fico perdida no final…(Risos.) No Shopping é uma obra pop e A Feia Noite é uma obra para poucos…(Risos.) Mas, engraçado, adaptei A Feia Noite pro cinema e ficou um roteiro legal, com todas as cenas, sem ser filme cabeça. As minhas experiências estão no livro, a minha primeira profissão foi como consultora política, porque eu era da Igreja Universal….”, revela a escritora, que até os 17 anos frequentava a Igreja Universal do Reino de Deus.

A conversa que aconteceu na livraria Letras e Expressões, em Ipanema, numa noite chuvosa e tumultuada de compromissos, foi marcada sem previsão, de um dia para outro. Em exatamente uma hora conseguimos falar bastante sobre as delícias do ofício de escrever e jogar na mesa, entre uma xícara e outra de café, algumas angústias.

“Aos sete anos, não sabia que os roteiros eram escritos, achava que a série nascia pronta. (Risos.) Até que perguntei à minha avó se eram as pessoas que faziam aquilo, e ela me respondeu que elas escreviam, aí fiquei encantada. De toda forma, eu tinha histórias para contar, e, com o tempo, passei a investir nisso”.

Sua fala pausada e pensada às vezes tropeçava em minhas perguntas e não escondiam a imensa ansiedade com o futuro de seu trabalho. Atualmente já está, em silêncio, “ruminando” o próximo trabalho e se dedicando aos idiomas para se tornar tradutora.

“Tenho a impressão de que escrevo melhor quando está silencioso, o que acontece mais à noite. Moro sozinha, então não preciso esperar as pessoas saírem de casa. Sento e escrevo, mas ando com um caderninho para anotar as ideias que surgem, senão esqueço”, explica Simone.

Sua vocação é nítida, leia a entrevista e comprove.

É difícil para um novo autor publicar um livro. Como aconteceu com você?

Simone Campos – Desde que descobri a escrita como o que queria para a minha vida, comecei a tentar escrever um livro, mas eles nunca tinham final muito bom. Escrevi um para a minha mãe, outro para minha tia, ia escrevendo. Depois fui tentando escrever um livro a sério, como Pedro Bandeira, João Carlos Marinho… Resolvi tentar, uns ficavam para trás e outros não. Percebi que poderia usar o que estava à minha volta e não me agradava no papel. Por exemplo, quando estudava no Santo Inácio, era ignorada pelas panelinhas, como se eu fosse um fantasma, e resolvi usar essa fantasmagoria para uma coisa produtiva. Comecei a escrever o No Shopping assim, depois o levei para uma editora. Tinha visto no jornal que a Sete Letras aceitava novos autores e resolvi tentar, duas semanas depois eles entraram em contato.

 

Você é carioca?

SC – Engraçado, as pessoas sempre me perguntam isso; falam até que não pareço brasileira, deve ser por causa do meu bronzeado… (Risos.) Sim, moro em Botafogo, perto da Ana Paula Maia – descobri isso no blog dela –, de quem hoje sou amiga. Tenho muitos amigos homens, mas atualmente tenho feito muitas amizades com mulheres.

É bom ter amigos escritores?

SC – Bom quando o santo bate, né!

Como acontece o seu processo criativo?

SC – Tenho a impressão de que escrevo melhor quando está silencioso, o que acontece mais à noite. Moro sozinha, então não preciso esperar as pessoas saírem de casa. Sento e escrevo, mas ando com um caderninho para anotar as ideias que surgem, senão esqueço.

Por que você escreve?

SC – Tenho que pensar… Você tem muita fita aí? (Risos.) Escrevo porque desde pequena gosto de contar histórias. Sabia que existia TV, cinema, mas não sabia ler ainda. Mas, quando aprendi, entendi que ali estava o jeito de contar o que fervilha na minha cabeça ou o que passa pela dos outros. A literatura é o veículo ideal para o tipo de história que me proponho a contar. Antes disso, pensei em escrever seriado de TV… Aos sete anos, não sabia que os roteiros eram escritos, achava que a série nascia pronta. (Risos.) Até que perguntei à minha avó se eram as pessoas que faziam aquilo, e ela me respondeu que elas escreviam, aí fiquei encantada. De toda forma, eu tinha histórias para contar, e, com o tempo, passei a investir nisso.

Quais são suas influências?

SC – Acho que tudo influencia; o cinema, a música, a literatura… Adoro os filmes de ficção científica. Tem um cineasta, da Indonésia, que eu amo, o nome dele é Pen-ek Ratanaruang. Tudo influencia: Clarice, Dostoiévski, Nabokov, Viana Moog… Devorei a biblioteca do Santo Inácio e hoje sou uma rata de sebo. Gosto de procurar livros da cultura japonesa.

Você acredita na existência de uma literatura feminina ?

SC – Acho que isso já existiu, quando elas eram em menor número. Acho que essas vozes se misturam… Não acredito que, por ser mulher, a minha literatura seja direcionada por uma mulher. A Feia Noite é feito pelo ponto de vista do Francisco, depois que troca para a Maria Luiza….

 

Ao ler o primeiro e o novo livro, percebo um amadurecimento na sua escrita. Fale um pouco sobre A Feia Noite.

 

SC – Acho que é isso, amadureci nesse livro. Quando penso nele penso em ramificações. Por ser muito entrecortado, acho que é de mais difícil acesso para os leitores. Às vezes, eu mesma fico perdida no final…(Risos.) No Shopping é uma obra pop e A Feia Noite é uma obra para poucos…(Risos.) Mas, engraçado, adaptei A Feia Noite pro cinema e ficou um roteiro legal, com todas as cenas, sem ser filme cabeça. As minhas experiências estão no livro, a minha primeira profissão foi como consultora política, porque eu era da Igreja Universal….

 

Você era evangélica, então…

SC – Fiquei na Igreja até os 17 anos, depois saí.

Sua religião passou a ser a escrita?

SC – Não sei, acho que não… Ou um pouco, né?! A escrita quero levar até o fim da vida. Mas a questão aí são os questionamentos. Se eu não questionasse tudo, não teria deixado a religião; se não questionasse tudo, não estaria escrevendo. É o que me move: o questionamento. Ana Paula e eu somos evangélicas e, portanto, temos a ética protestante do trabalho (a de Weber). Vamos até o final com nossos livros, não deixamos pela metade, somos trabalhadoras e organizadas…

Você lê os seus pares?

SC – Leio os que acho legais… Ana Paula Maia; Índigo – uma escritora de São Paulo que usa esse pseudônimo; Luiz Ruffato – mas ele já não é tão novo; Antônio Prata, que também é muito bom; encomendo tudo pela Internet.

Você lê mais romance ou poesia?

SC – Romance, nem de conto sou muito amiga, não. Mas, quando o livro é bom, me conquista; por exemplo, o de poesia da Bruna Beber foi um dos melhores que li neste ano.

Você usa números decimais “7.5”, “3.4”, nos capítulos do primeiro livro. Por quê?

SC – É para lembrar as versões de programa computador. Como se cada momento que você vivesse fosse uma nova versão.

Já está escrevendo um novo romance?

SC – Estou ruminando ainda, mas desta vez será um livro de contos. Fora uma novelinha que escrevi disponível na Internet, Penados y Rebeldes, sobre a questão do fim da linguagem e da literatura…

 

E como você lida com as tecnologias?

SC – Muito bem, sou tão nerd que entrei na Internet em 1994 (risos); usava um modem antigo do meu pai. Hoje tenho Orkut e blog, mas o meu forte não é a comunicação; o meu celular vive desligado…

Por quê?

SC – Ah, esqueço… Mas o Ipod está sempre ligado! Ouço todo tipo de coisa: eletrônica, bizarrice, brega. Ele é a minha torre de marfim portátil. Faço playlist temáticas; com músicas biorkianas, mobilianas, orientais, para ouvir de manhã, para fazer ginástica. Às vezes coloco o fone de princesa Lea para escrever, ou, às vezes, escrevo em silêncio…Mas escrevo ao som de qualquer coisa.

Como você foi parar no Jô Soares?

SC – Eles me viram numa reportagem do Valor Econômico, em que eu dava uma declaração a respeito de uma pesquisa sobre o porquê de os jovens não lerem, e me convidaram. A minha mãe também fez uma campanha digna de um assessor de imprensa: conseguiu colocar meu livro na mão do Manoel Carlos e o primeiro foi parar na novela.

 

E o que mudou depois disso?

SC – Eu ter percebido que o sucesso é descartável para mim e que eu sou descartável para o sucesso. Quero pessoas que me leiam, só isso.

O que você diria aos jovens que querem se tornar escritores?

SC – Que eles se meteram numa fria? Quando tem muita gente perseguindo um mesmo sonho, muitos ficam de fora. Então é preciso ser honesto quanto aos próprios talentos literários – primeira coisa, descobrir se existem – e trabalhar em cima de suas virtudes e deficiências para criar um estilo. Depois, realizar várias tentativas até conseguir algo que você mesmo compraria, se visse numa livraria… Há muitas formas de se destacar escrevendo. A mais duradoura é o talento, construindo uma base de pessoas que acompanham o que você faz; a mais rápida – e fugaz – é expondo a sua intimidade e posando de cool. Mas, de qualquer modo, não se pode ser preguiçoso; é ilusão achar que vai explodir no primeiro livro que puser na praça e que, caso isso aconteça, vai permanecer no pódio para sempre, conhecendo biblicamente os(as) fãs mais ajeitados(as)…


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