SUZANA AMARAL

TRANSMUTAÇÃO

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

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Sempre que se fala em Clarice Lispector, especialmente no livro A hora da estrela, lembra-se do filme homônimo, dirigido por Suzana Amaral. E lembramos, ainda, da revelação de 1984, a atriz Marcelia Catarxo, como a impagável Macabéa.

“De repente, ela ressurgiu, a Clarice, e os livros dela tiveram um desabrochar muito grande a partir de A hora da estrela. Não só aqui no Brasil [o filme] teve uma repercussão, mas fora também. Há mais ou menos um mês, foi publicada uma biografia dela por um americano, em inglês — e pouca gente sabe disso”, afirma Suzana, que recentemente esteve no Cine Odeon, Rio de Janeiro, para exibição da restauração de A hora da estrela, que reuniu todo o elenco do filme. A biografia mencionada por ela, Clarice, de Benjamin Moser, chega ao Brasil pela Cosac Naify.

Incansável, Suzana tem-se aventurado por lugares diferentes em sua trajetória, mais fragmentados. O resultado é o excelente filme Hotel Atlântico, um profundo mergulho na obra do escritor João Gilberto Noll. Com uma narrativa fluida, o filme mantém o respeito à obra de Noll, sem ser reverente à literatura. Uma linguagem cinematográfica original e arriscada — do jeito que a cineasta gosta.

“Achei, de repente, que eu queria arriscar, partir para outro universo, um universo masculino, um filme completamente não clássico, não intimista, não psicológico, não social…”

A paixão por obras literárias é notória, mas Suzana Amaral faz questão de esclarecer: “Crio uma nova obra a partir da obra original. Não digo que adapto, eu transmuto. É uma transmutação. Eu pego a obra, leio bastante, procuro entrar na obra e capto dela o espírito, o tema mais central – segundo meu ponto de vista.”

De onde surgiu o interesse de adaptar obras literárias para o cinema?

Suzana Amaral – Não é um interesse. É um interesse interessado, vamos dizer [risos]. Eu não dou roteiros para meus atores. Na minha primeira conversa com eles, eu não entrego o roteiro para que decidam fazer o filme ou não. Eu dou o livro e digo: “Tô pensando em você para esse personagem.” Eles leem a história, sabem quem são os personagens, analisam, veem se têm alguma empatia com a obra. Isso é muito importante para mim. A minha forma de dirigir atores é muito peculiar, bem própria.

Você entrou para a faculdade de cinema aos 37 anos. Quando você começou a se dedicar integralmente ao cinema?

SA – Sou da segunda turma de cinema da ECA. Depois fui trabalhar na TV Cultura, onde fiquei uns três ou quatro anos num telejornal. Mas eu queria fazer ficção, partir para o cinema. Então, fui fazer mestrado nos Estados Unidos, na Universidade de Nova York. Quando eu voltei, continuei fazendo meus documentários — eu estava na Cultura. Mas, paralelamente, eu resolvi… Eu tinha lido o livro da Clarice [A hora da estrela]. Fiz meu primeiro longa-metragem que deu certo. Foi um sucesso, ganhou muitos prêmios…

A hora da estrela é um clássico.

SA – É um clássico. Foi um clássico para mim também. Entendeu? Assim começou a minha luta para captação: um, depois outro, depois outro… O mais difícil não é fazer o filme. O mais difícil é arranjar investimento neste país.

Você já começou a adaptação de Perto do coração selvagem [outro romance de Clarice]. Quem fará a protagonista, Joana?

SA – Não sei. Não sei quem vai fazer. Primeiro, tenho de saber quem vai pagar [risos]. Quem vai me dar o dinheiro. Se não… Demora muito. Nós demoramos sete anos para fazer Hotel Atlântico. Não foram sete anos de trabalho no filme, foram quatro anos e pouco só para captação. E, depois, dois anos e meio, mais ou menos, para fazer — sempre com muita dificuldade financeira. Tive que cortar muito o roteiro também, sabe? Por razões econômicas. Os percalços financeiros são muito difíceis de serem superados.

Quando falo de Clarice Lispector, imediatamente, lembro de você.

SA – [risos] É verdade. De repente ela ressurgiu, a Clarice e os livros dela tiveram um desabrochar muito grande a partir de A hora da estrela. Não só aqui no Brasil [o filme] teve uma repercussão, mas fora também. Há mais ou menos um mês, foi publicada uma autobiografia dela por um americano, em inglês — e pouca gente sabe disso. Ela passou a ficar muito conhecida na Europa e nos Estados Unidos. Quando eu estava distribuindo A hora da estrela nos Estados Unidos… Na França encheram uma vitrine inteirinha de uma livraria só com obras da Clarice. Foi a partir do sucesso de A hora de estrela que, realmente, ela voltou ao mercado.

Por que revisitar a obra da Clarice com Perto do coração selvagem?

SA – Esse roteiro foi feito há muitos anos, antes mesmo de Hotel Atlântico. Devo ter terminado esse roteiro em mil novecentos e oitenta e poucos… Depois que eu fiz A hora da estrela, escrevi o roteiro de Perto do coração selvagem. E depois de fazer A vida em segredo, que foi o meu segundo filme, de repente, comecei a achar que… Eu gosto do risco, da coisa que me demanda muito, da ousadia. Achei, de repente, que eu queria arriscar, partir para outro universo, um universo masculino, um filme completamente não clássico, não intimista, não psicológico, não social… É um risco. Hotel Atlântico é um filme de trama, é um filme de personagem — onde esse personagem sai num road movie, cai na estrada. A história é o que vai acontecendo com esse personagem. Um fato nada tem a ver com o outro. É uma coisa depois da outra, mas narrativamente não tem uma sequência lógica. É tudo fragmentado. É um filme extremamente fragmentado, por isso foi extremamente difícil. Um filme que saía das normas que são aceitas, compreendidas e decodificadas de uma maneira comercial e fácil. Foi um risco a que eu me expus. Eu queria esse risco. E parece que deu certo.

Na adaptação da obra, existe um diálogo com os autores?

SA – Nada. O diálogo é financeiro. Quanto custa? Paga.

É outra obra?

SA – Outra obra. Crio uma nova obra a partir da obra original. Não digo que adapto, eu transmuto. É uma transmutação. Eu pego a obra, leio bastante, procuro entrar na obra e capto dela o espírito, o tema mais central — segundo meu ponto de vista. A partir disso, faço a minha versão. Não tenho nenhum compromisso com o que está escrito dentro do livro. Eu posso matar gente, criar outros personagens. Não posso não ser fiel ao espírito da obra, aquilo que é a essência que capto e me orienta no caminho.

Você já declarou que queria fugir do estigma de “filme de mulherzinha”…

SA – Não é filme de mulherzinha. Eu queria fugir do universo feminino e entrar em outro universo: o masculino. Para trabalhar mais homens. Não há história de amor no meu filme.

Como foi a experiência com a obra do João Gilberto Noll?

SA – Eu peguei obra do Noll porque me atrai pela estranheza da narrativa dele. Uma estranheza sem muita coerência, sem muita sequência, que iria me permitir uma nova linguagem de narrativa cênica e assumir riscos novos. Sempre novos riscos.

Como avalia a sua trajetória de cineasta?

SA – Ainda bem que eu acordei, para mudar um pouco. A gente mudar e ser incoerente na vida é muito importante. Se você não é incoerente, se você não arrisca, o seu processo dialético de desenvolvimento fica muito pobre, muito frustrado. Acho que nossa dialética de desenvolvimento pede riscos. Tem a síntese, se você não dá a antítese não pode passar por uma nova síntese. Procuro sempre subir um degrau.

Quais cineastas jovens você admira?

SA – No Brasil? Não falo. Sou fã de filmes alemães.

O que desperta o seu olhar para uma obra?

SA – Depende do meu estado de ser naquele momento. Talvez, quando eu fiz uma obra mais clássica eu estava mais sossegada. De repente, fiz uma coisa diferente. Eu continuo querendo trabalhar nesse universo masculino. Podem dizer: “Ela está ficando mais velha, ela fica mais frágil.” Não fico mais frágil, estou cada vez menos frágil, com mais vontade de arriscar. Tenho muita saúde, muita força, muita paixão. Eu vou criando à medida da minha maluquice, aquilo que no meu íntimo eu peço. Eu quero o diferente. E agora não quero sair do universo masculino. Filmamos na Amazônia, lá não sei aonde… Eu vou, tenho os meus projetos.

Perto do coração selvagem?

SA – É um compromisso que eu tenho, aquele roteiro está pronto. Não está me fazendo muitas cócegas, entendeu? Não está me incomodando eu não fazer. Eu queria dar mais uma entrada num universo mais arriscado. Perto do coração selvagem não é um risco muito grande, é filme bem comportado. E eu ainda não estou a fim de um bom comportamento.


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