MICHEL MELAMED

O REGURGITADOR

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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O processo de criação sempre me deixa bastante angustiado. Perguntas simples, como ”Por que escrever?”; ”Como escrever?” e ”Quais são as influências de escritor?” nunca me abandonam.

O resultado desse questionamento é o blog Click(in)Versos, que reúne uma coletânea de encontros com jovens escritores que, primordialmente, falam sobre o processo de criação, a gênese de uma obra. Em 1 ano, conversei com 38 escritores: uns mais conhecidos, outros premiados, alguns anônimos lançando o primeiro livro. A intenção é tentar mostrar a pluralidade da produção literária contemporânea, sem preconceito e juízo de valor.

Para comemorar esta data, pedi ao designer e escritor Fabiano Vianna para fazer um novo layout para o blog, e convidei um artista, que passeia por diversos meios, para levar ao público sua relação afetiva com as palavras: Michel Melamed.

“Tenho interesse pelo que as pessoas fazem. Não sou jornalista, minha proposição no programa é de anfitrião, um artista que recebe artistas. O centro desse encontro é o próprio encontro, muito mais do que assuntos factuais. Lógico que tenho a preocupação de me preparar para encontrar a pessoa, e de oferecer entretenimento com confronto de ideias.”

Conversamos por duas horas, no café do Parque Lage, no Rio de Janeiro, enquanto “filávamos” cigarros de um grupo de meninas que lia Clarice Lispector, numa mesa ao nosso lado. Com uma imensa capacidade de se expressar e fazer associações entre um assunto e outro, Michel falou sobre a satisfação de realizar o Recorte Cultural, o ofício de poeta, a indignação com a política brasileira e o porquê de provocar paixões extremas.

“Eu não me classificaria, não tenho essa necessidade. Mas quero crer que se trata de um trabalho de poeta. Entendo que em tudo que faço a perspectiva é da poesia, com um olhar perplexo sobre as coisas. Esse é o olhar do poeta e da poesia. A integração entre as linguagens é uma característica da arte contemporânea. Ah, poderia dizer que sou regurgitófago. O tempo todo estou engolindo tudo e vomitando tudo, vomitando tudo e engolindo novamente…”

Enfim, uma longa conversa com um artista que admiro e respeito.

 

Você se sente mais confortável entrevistando ou sendo entrevistado?

Michel Melamed – São coisas bem diferentes, não é? Eu me sinto mais confortável na posição de anfitrião, de quem recebe. Mas o outro lado também é interessante, uma forma de poder se ouvir. W. H. Auden fala uma frase, que eu adoro: “Como saber o que penso até que veja o que disse.” Ao ser entrevistado, também me ouço, o que provoca um conflito.

 

Por que você entrevista as pessoas?

MM – Tenho interesse pelo que as pessoas fazem. Não sou jornalista, minha proposição no programa é de anfitrião, um artista que recebe artistas. O centro desse encontro é o próprio encontro, muito mais do que assuntos factuais. Lógico que tenho a preocupação de me preparar para encontrar a pessoa, e de oferecer entretenimento com confronto de ideias. Outro dia estava lendo o livro de um cara chamado Pierre Bourdieu, que fala que na televisão as pessoas fazem o teatro do “estamos fazendo alguma coisa”. Tento fazer com o Recorte um painel plural da produção cultural brasileira, não quero fazer juízo de valor. São vários motivos, provavelmente há outros motivos que não sei (risos). E esses são fundamentais, sempre me pergunto porque faço esse trabalho.

 

Eu também me questiono o tempo inteiro: por que entrevisto as pessoas? Não paro de me perguntar isso…

MM – Isso é bom! É sinal de que você pensa no que você está fazendo, não é um trabalho autômato. Quando você se pergunta “por que estou conversando com essa pessoa agora?”, há uma possibilidade de (re)avaliação e transformação. O que se aprende entrevistando é incrível, a experiência do Recorte é interminável, é linda.

 

Qual foi a melhor entrevista que você fez?

MM – Eu não saberia nem teria como dizer, a maioria esmagadora foi de encontros generosos. A medida para que eu possa aferir se um encontro foi bom ou ruim é a disponibilidade. Olho para o artista e vejo sua disponibilidade, não é uma entrevista no sentido canônico, é uma disponibilidade artística.

 

Há alguém que você ainda deseja entrevistar?

MM – Não (risos). Existem personalidades da cultura brasileira que são bissextas na mídia. Por exemplo, seria ótimo receber o João Gilberto! (Risos.) Tenho interesse pelo João Gilberto, mas também pela banda punk que lançará um CD. O interesse é pelos artistas, pelo encontro – para se descobrir o porquê de nos encontrarmos.

 

Seu programa tem uma linguagem fragmentada, seu pensamento é bastante assim: um assunto, que puxa outro assunto, que leva a outro e outro…

MM – Sem dúvida, vejo-me completamente identificado com a linguagem relacionada a minha forma de pensar. É o que busco em todas as manifestações artísticas. No entanto, o Recorte é fruto de um trabalho coletivo, muita gente trabalha e contribui.

 

Como surgiu o programa Recorte Cultural?

MM – Fui roteirista e apresentador do programa Comentário Geral, por dois anos. Na ocasião da morte do Wally Salomão, eu e o Paulo Dionísio apresentamos, para a recém-empossada direção da extinta TVE, um especial sobre o Wally, chama-se Wally Salomão – O Mel do Melhor. O trabalho foi muito legal e em seguida levei novos projetos, falei que tinha ideias, ideias, ideias… (Risos.) A Rosa Crescente propôs fazer uma revista de cultura. E nosso foco não estava em lançamentos, mas em processo criativo. Por que o cara vai fazer um filme? Por que o poeta escreve um poema? Eram os porquês das motivações. O objetivo é estimular a criatividade do telespectador, a produção de subjetividade e emparelhar imagens aparentemente desconexas para criar novas conexões. A Maria Rita Kehl usa a expressão “falha no gozo”, porque a televisão trabalha com uma ideia de completude, de início-meio-fim. Cortando-se de uma entrevista para outra não se perde nada, temos de recusar essa ideia de perda. Agora, por exemplo, estamos conversando e nos olhando nos olhos, é uma opção. No Recorte, queremos afirmar que não existe entendimento, existe a possibilidade de cada um estabelecer de forma criativa o que está acontecendo. Não queremos apontar para o espectador um único olhar, apresentamos um monte de imagens, um caleidoscópio. É uma tentativa de fazer uma televisão generosa. Uma visão plural e multifacetada, portanto, da vida.

 

Qual a maior satisfação do seu trabalho? Como é o retorno?

MM – Desde servir de referência para a indicação de um filme a estar ocupando um lugar na televisão com um viés diferenciado. Satisfação por contribuir com uma forma diferente de pensar.

 

O que você acha da TV brasileira?

MM – A televisão no Brasil, e no mundo, é um veículo muito forte. Talvez seja o “zereiro do poder”… (Risos) A TV é fonte número um de informação, principalmente nos canais abertos, as pessoas mamam ali e acreditam que é verdade. Mas há muita coisa de péssima qualidade, existe gente podre na televisão produzindo lixo cultural. A televisão está engatinhando, mas é um veículo muito poderoso. A televisão poderia ser uma ferramenta para estimular a criatividade e ajudar a conscientização do processo civilizatório.

 

E se pintasse a proposta para trabalhar em outra emissora? Você faria novela?

MM – Dependeria da proposta. Se me chamarem para fazer lixo, não vou. Não sei. Mas se eu tiver possibilidade de transgredir esse lixo, pode ser bom. Se eu faria novela? Em alguma hipótese, sim. Por que não? Você faria? Acho que em certa hipótese qualquer um faria. E em outra hipótese ninguém faria. É um projeto meu? Não. Não ambiciono exatamente isso, nem me vejo como ator que faz novela. Meus trabalhos de atuação se unem aos meus trabalhos de escritor e poeta. Então, estou ator. O nosso mestre Nelson Pereira do Santos me convidou para fazer uma participação no filme Brasília 18%. Não foi um convite, foi um chamado. Estou com o HomeMúsica, pretendo viajar com o espetáculo e lançar o cd e o romance, no qual o espetáculo é baseado. E desejo que a conclusão desse projeto seja um longa, estou concluindo o roteiro e faria a direção do trabalho.

 

Michel Melamed, Guilher Zarvos e Chacal. Acervo Michel Melamed.

 

E o evento de poesia CEP 20.000. Você ficou muito tempo lá?
MM – Não sei quantos anos, mas comecei logo no início e passei a me apresentar com os meus textos. Depois passei a coordenar o CEP com o Zarvos e o Chacal. Devo muito ao CEP e aos artistas do CEP, é a minha formação. Foi um evento muito importante para mim e, quero acreditar, para a cidade do Rio também. Conheci pessoas de cinema, literatura, todas foram fundamentais na minha vida. O nome do CEP é Centro de Experimentação Poética, então passar alguns anos da minha vida experimentando foi ótimo.

Certa vez, li uma entrevista em que você dizia não ver TV. A declaração repercutiu, as pessoas ficaram surpresas…

MM – Isso é uma história. Por um determinado período eu não tive TV em casa, foi uma opção, eu preferia fazer outras atividades. Sou um leitor, gosto de dedicar meu tempo para a leitura. Eu falei isso e a repórter resumiu que eu não tinha TV e estava lendo 100 livros. Não é isso, eu não tinha TV, hoje eu voltei a ter, e não estava dedicado a 100 livros, estou dedicado a ler. Ou seja, tenho televisão, assisto a TV. Trabalho com TV e estou atento aos novos programas, tenho interesse pela linguagem.

 

Há pessoas que acreditam que a academia bloqueia o processo de criação. O que você acha?

MM – Eu não posso achar isso, não tenho uma formação acadêmica. Cheguei a fazer vestibular para direção de teatro, na UFRJ, acabei entrando para História, na UFF, mas não continuei. Não posso acreditar nessa tese. Acredito que quanto mais instrumento você tem mais habilitado você está para criar.

 

Poeta, apresentador de TV, ator, roteirista, músico. Os jornalistas costumam te definir como um artista múltiplo. Como você se definiria?

MM – Tenho várias respostas (risos) Eu não me classificaria, não tenho essa necessidade. Mas quero crer que se trata de um trabalho de poeta. Entendo que em tudo que faço a perspectiva é da poesia, com um olhar perplexo sobre as coisas. Esse é o olhar do poeta e da poesia. A integração entre as linguagens é uma característica da arte contemporânea. Ah, poderia dizer que sou regurgitófago. O tempo todo estou engolindo tudo e vomitando tudo, vomitando tudo e engolindo novamente…

 

Por que fazer arte?

MM – A maior riqueza do mundo é a criatividade das pessoas, a maneira única que cada um tem de perceber o mundo. No entanto, temos ideologias hegemônicas que não deixam as pessoas exercerem essa riqueza. A arte, por ser um lugar essencialmente maior de liberdade criativa, passa a ter a responsabilidade de transgredir os valores estabelecidos. O Jacques Rancière usa a expressão “desestabilizar o olhar”. Uma forma de desestabilizar o público de arte é trabalhar com várias linguagens artísticas ou com a intersecção entre as linguagens.

 

Televisão, teatro, literatura. Existe preconceito por circular em diferentes áreas?

MM – Não, nunca vi nada disso, meu trabalho tem consistência. E um poeta pode tudo. Não entendo alguém que faça isso. As pessoas podem não gostar do trabalho de alguém, é natural, mas esse pensamento eu não entendo. Esse é o meu trabalho.

 

Aos 18 anos você foi trabalhar num bordel?

MM – Estava procurando trabalho com um amigo e fui a um lugar que precisava de barman. Fomos contratados, trabalhei uns três meses. Duro trabalhar como barman num puteiro, mas foi muito rico (risos). Na época saiu uma matéria sobre meu trabalho como poeta e o cafetão me chamou para escrever a biografia dele. Mas não continuei, ele não queria me pagar…

 

Qual o papel da política na arte?
MM – Política é tudo, qualquer escolha é uma escolha política. Desde a camisa que a gente usa, corte de cabelo e as palavras que escolhemos. Aqui, estamos fazendo política, e na arte não é diferente.

Como você encara a situação política do nosso país?
MM – De muitas formas. O Brasil é um país muito muito muito doente. Mas o maior problema é o fato de as pessoas tratarem o país como se estivesse morto. Então, se está morto, podemos extrair o dente de ouro, pode tudo. É a era do “já era”, o “já erismo”. Como se as pessoas recebessem uma autorização para deixarem de ser generosas, corretas, éticas. Por mais que me sinta agredido diariamente, ainda acredito na civilização, na educação, no código de ética. Eu acredito que posso escrever um poema, por que não acreditaria que no Brasil as pessoas podem ter condições mínimas de vida? É um país rachado: de um lado, pessoas que acham que vale tudo, de outro, pessoas que fazem esse discursinho aqui (risos). Não podemos perder a capacidade de nos indignarmos.

Você provoca paixões extremas, tem gente que o ama e gente que o odeia. Você se incomoda com as críticas?

MM – O trabalho que defendo é fruto de uma reflexão. Faço proposições, defendo estéticas e ideias, me coloco de muitas formas – tudo isso causa confronto. Quando você se coloca no mundo o se que gera é um confronto de ideias. Estranharia se meu trabalho não gerasse reações. Que bom, é isso aí.


Você tem site, blog, vídeos no YouTube? Como você lida com a Internet no seu processo de trabalho?

MM – Internet é incrível, um fenômeno. Temos praticamente todo o patrimônio cultural à disposição dentro de nosso quarto. Estou o tempo todo navegando, acho a Internet maravilhosa. Mas não uso Orkut, todos perfis que estão lá são falsos!


Você está fazendo 30 anos. Está em crise?

MM – Crise é o tempo todo, a vida é uma crise. É um movimento de embate constante. Essas perguntas: Para que serve a vida? Vida? Que porcaria, merda, droga, depressão… Esse carrossel louco é a vida, a crise. É maravilhoso.


O que você espera daqui a vinte anos?

MM – A mesma coisa que estou fazendo agora, vivendo. Espero expandir a criação, fazer muitos livros e programas de TV.


O que você diria para alguém que deseja ser escritor?

MM – Não existe uma forma única, existem vários métodos que são usados em alguns momentos e recusados em outros. Crie e se permita estar no processo de criação, no encontro com o desconhecido. O que você falaria?


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