TATIANA SALEM LEVY

MEMÓRIAS DE UMA TÍMIDA ESCRITORA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Tatiana Salem Levy. O nome da escritora ficou marcado em minha memória muito antes que eu tivesse acesso ao texto dela. Na época da publicação da antologia 25 mulheres que estão fazendo a literatura brasileira (Record), organizada por Luiz Ruffato, alguém mencionou esse nome que nunca esqueci – em seguida li o conto “Desalento”.

Recentemente, tive a oportunidade de entrevistá-la, na livraria Argumento, no Leblon, no Rio de Janeiro, enquanto tomávamos água mineral. A primeira entrevista de Tatiana Levy no Brasil. Em pouco mais de uma hora de conversa, pude conhecer um pouco da tímida e bem-humorada escritora, que tem rosto de menina e experiência de gente graúda.

“Desde pequena eu sabia que queria escrever. Sempre tive muitos livros em casa, tanto na casa da minha mãe como na casa do meu pai, acho que isso facilitou. Acredito que o interesse surgiu por causa de crises existências da adolescência. Tudo começou pela leitura, como era o que mais me interessava no mundo, então resolvi estudar Letras. Mas nunca estudei pensando que a formação acadêmica fosse me ajudar a ser escritora”.

Tatiana tem dois livros publicados: A Experiência do Fora (Relume Dumará) e A Chave de Casa – este último foi publicado em Portugal pela editora Cotovia e no Brasil pela editora Record. Além disso, possui graduação, mestrado e doutorado em literatura e também é tradutora de francês – a jovem traduziu a biografia da filósofa alemã Haanah Arendt.

“Quero que o livro encontre vários leitores, esse é o maior desejo. Quando acabo de escrever um livro, me distancio dele. Daqui a pouco estarei desapegada da A Chave de Casa. Mas volta e meia alguém me escreve um e-mail dizendo que gostou do livro. Tenho pensamentos apaixonantes por livros”, afirma a autora do romance, que resultou de sua tese de doutorado.

O que faz Tatiana se apaixonar?

“O inesperado. Algo diferente que me coloca em contato com o outro. Se eu citar alguma coisa que me apaixone, já não será possível me apaixonar. Paixão sempre pega a gente de surpresa”, afirma a autora.

A Chave de Casa transita entre diferentes momentos da vida da personagem, em histórias que ao final se completam: a vinda de seu avô ao Brasil, momentos dolorosos de seus pais durante a ditadura militar, o seu relacionamento intenso com um homem violento, a sua viagem à Turquia e a sofrida morte de sua mãe. A memória é grande personagem da história, o inesperado está em cada página.

“Acredito que viagens e memórias podem dar pano para manga. A questão da imigração sempre esteve muito presente na minha casa. Em algum momento, achei que precisava recontar essa história para poder viver a minha história. Acho que é uma história minha, mas muitas pessoas têm histórias parecidas. E também acredito que há memórias que nascem com a gente”.

Qual a expectativa em relação ao lançamento de seu livro no Brasil?

Tatiana Salem Levy – Expectativa eu não tenho, mas, na verdade, tenho vários desejos. Quero que o livro encontre vários leitores, esse é o maior desejo. Quando acabo de escrever um livro, me distancio dele. Daqui a pouco estarei desapegada da A Chave de Casa. Mas volta e meia alguém me escreve um e-mail dizendo que gostou do livro. Tenho pensamentos apaixonantes por livros.

O que a apaixona?

TSL – O inesperado. Algo diferente que me coloca em contato com o outro. Se eu citar alguma coisa que me apaixone, já não será possível me apaixonar. Paixão sempre pega a gente de surpresa.

O que é A Chave de Casa?

TSL – As pessoas têm de ler o livro para achar a resposta. Sempre que alguém me pergunta eu não respondo. Só respondo quando estou numa festa, já meio bêbada (risos). Esse livro é uma tentativa de resgatar a herança e escolher, diante do que se recebe, aquilo que vale a pena.

Por que a atração pela memória?

TSL – Porque acredito que viagens e memórias podem dar pano para manga. A questão da imigração sempre esteve muito presente na minha casa. Em algum momento, achei que precisava recontar essa história para poder viver a minha história. Acho que é uma história minha, mas muitas pessoas têm histórias parecidas. E também acredito que há memórias que nascem com a gente. Por exemplo, eu não conheci os meus avós.

É uma homenagem a seus avós?

TSL – Não sei. Simplesmente achei que essa herança familiar daria uma história, que poderia tocar outras pessoas. Herdei de meus avós o gosto pela viagem, por conhecer outros lugares e outras culturas.

Você morou na França e nos EUA. O que guarda desses lugares?

TSL – Eu destacaria principalmente a situação do estrangeiro. Gosto de ver o outro com um olhar diferente. Em outro país, agimos mais como espectadores, observamos mais. Foi ótimo para escrever. Mas isso também tem várias complicações que mostram que você realmente é um estrangeiro. O lugar que está mais ligado a meu campo de interesse é Paris, toda a minha leitura teórica vem dos franceses.

Por que convidou a escritora Cintia Moscovich para escrever a orelha de seu livro?

TSL – Gosto do que ela escreve. Ela também tem essa ligação com a herança, ela tem um livro em que se dirige à mãe – mas de forma completamente diferente da minha! A Cintia é muito mais bem-humorada do que eu, o texto dela é muito mais bem-humorado. Não a conheço pessoalmente, mas a pedi aos meus editores, porque ela também é da Record. Senti um certo medo, pois não sabia se ela iria gostar. Mas ela gostou, escreveu uma orelha linda.

Como surgiu o interesse pela literatura?

TSL – Surgiu muito antes do que o interesse pela crítica. Desde pequena eu sabia que queria escrever. Sempre tive muitos livros em casa, tanto na casa da minha mãe como na casa do meu pai, acho que isso facilitou. Acredito que o interesse surgiu por causa de crises existenciais da adolescência. Tudo começou pela leitura. Como era o que mais me interessava no mundo, então resolvi estudar Letras. Mas nunca estudei pensando que a formação acadêmica fosse me ajudar a ser escritora. Era um interesse distinto. Eu tenho, desde cedo, a atenção voltada para criação e também para interpretação. Só que acabei juntando tudo, o meu romance é o resultado da minha tese de doutorado.

O seu romance é a sua defesa de doutorado?

TSL – Sim. Foi a tese que apresentei na PUC-Rio. Entrei no doutorado com um projeto teórico que não tinha nada a ver com o romance. Mas depois mudei de projeto teórico e comecei a estudar o corpo do imigrante na literatura, o que tinha tudo a ver com o romance. Então comecei a fazer os dois ao mesmo tempo. Até que a minha orientadora pediu que eu entregasse meu romance como tese. Resisti muito, até que entreguei. O último romance da Adriana Lisboa, por exemplo, foi resultado de sua tese de doutorado. Na PUC-Rio, foi o primeiro romance como tese, mas na UERJ já existem três ou quatro. Muitas pessoas têm feito isso.

A defesa foi difícil?

TSL – Sim, foi muito difícil. Houve professores que entraram no jogo, mas houve um professor que discordou da ideia.

E o livro A Experiência do Fora (Relume Dumará)?

TSL – Foi resultado da minha dissertação de mestrado (risos). Não perco tempo. Fiz um mestrado sobre um estudo de literatura na PUC-Rio.

O que lhe proporciona mais prazer: a ficção ou a tradução?

TSL – Escrever romance, com toda certeza. O texto é meu, posso escolher que palavra usar, onde colocar o ponto. Mas tradução também é muito bom! Só depende do que se está traduzindo. Traduzir a biografia da Hannah (Arendt) foi fascinante, já conhecia bastante da história dela. Traduzir boa literatura é uma experiência incrível! Estou traduzindo um escritor francês, contemporâneo, que é excelente. De certa forma, acabamos reescrevendo o texto.

Como é sua relação com o universo acadêmico?

TSL – Acabei me distanciando da academia porque vejo muita repetição. Mas acredito que o meio acadêmico também pode ser criativo. Não acho que o pensamento teórico pode bloquear o processo de criação. O processo de criação é pessoal. Acho que o grande problema da academia é a repetição dos mesmos discursos.

Como é seu processo de criação?

TSL – Só sento em frente ao computador quando tenho algo para escrever. Às vezes, acho que demoro demais, não tenho pressa. Mas faço muita revisão. Depois que termino faço mais revisão (risos). Se eu fosse ler A Chave de Casanovamente, acho que mudaria muitas coisas.

O que você pensa sobre a literatura contemporânea?

TSL – Acho que há muita coisa boa sendo feita. Existe certa atenção da nossa geração à literatura. Não sei se o que é produzido dá resultado comercial, mas há muita coisa legal sendo produzida. Acho que há até um excesso de produção, nunca foi tão fácil publicar. Gosto muito do Bernardo Carvalho, Adriana Lisboa, Milton Hatoum, Cuenca, Paloma Vidal… São muitos escritores, sempre esqueço alguém. E o melhor romance de língua portuguesa é Grande Sertão Veredas.

Gosta de poesia?

TSL – Sim, adoro poesia, mas leio pouco. Prefiro a poesia brasileira. Quando escolho os autores de fora, prefiro ler em inglês e francês.

Você é muito tímida?

TSL – Sim, muito. O que mais me angustia nas entrevistas é que sei que não estou falando nem metade do que eu gostaria. Quando chego em casa, fico pensando no que poderia ter dito.

Você já está escrevendo o próximo livro. Do que se trata? Já tem nome?

TSL – É um romance. Há dois narradores que tiveram uma relação de amor com a mesma mulher, que é o objeto desejado e não tem voz. Não falo mais, é só isso.

Você tem religião?

TSL – Não.

Acredita em Deus?

TSL – Não (risos). É muito mais fácil acreditar em Deus quando a família é religiosa. Meus pais eram completamente céticos. Eu tenho certa espiritualidade, não acredito que tudo está ao acaso, mas não creio num Deus católico ou judaico.

É difícil publicar um livro?

TSL – Hoje em dia está cada vez mais fácil publicar. Mas eu tive muita sorte. Deus me ajudou (risos). Não posso reclamar de nada, meu romance está publicado em Portugal e no Brasil por uma grande editora.

Você mostra seu texto a alguém antes de publicar?

TSL – Sim, a muita gente. Na edição publicada em Portugal, havia uma enorme lista de agradecimentos. Sempre mostro aos amigos escritores e não escritores, os editores…

O que diria a um jovem que deseja ser escritor?

TSL – Leia, leia, leia. Assim como se faz cinema assistindo a muitos filmes, na literatura deve-se ler muitos livros. É preciso ter muita coragem e um pouco de medo para não perder a humildade. Mas nada disso é uma receita, estou apenas começando.


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