THALITA REBOUÇAS

POP!

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

thalitarebouças

 

Quando Thalita Rebouças decidiu largar o trabalho de assessora de imprensa para se dedicar à literatura juvenil, sua família foi categórica: “Vai morrer de fome! É o Brasil, ninguém lê aqui.” O que ninguém esperava é que ela se tornasse a escritora brasileira que mais vende livros para adolescentes.

Quantos livros já foram vendidos? “Passei dos 400 mil”, afirma, entre sorrisos, a escritora carioca.

Em dez anos de carreira, Thalita conseguiu um espaço privilegiado na cabeceira de adolescentes — em especial das meninas que, além de acompanhar a escritora pela Internet, vão aos lançamentos e fazem tietagem como se estivem na frente de ícone da TV. Pode-se dizer que a autora se tornou uma celebridade literária.

“As meninas, e alguns meninos, têm uma relação muito emocionante perto de mim. Eles se emocionam, vibram, choram, abraçam… Abraço de gente que fala para mim: ‘Eu odiava ler, passei a gostar de ler com seu livro’. E do meu livro vai para Jorge Amado, Rubem Fonseca, João Ubaldo, Shakespeare, Kafka…’”, declara a escritora, que neste ano teve livros da série Retratos de Malu (Fala Sério) publicados em Portugal, sob o título Que Cena.

“Adolescentes e pré-adolescentes estão definitivamente lendo mais. No começo da minha carreira, quando ia numa escola, eu perguntava: ‘Quem gosta de ler?’ Dois ou três levantavam a mão, meio envergonhados. ‘E quem não gosta?’ Todo mundo: ‘Ahhhh…’ Agora isso não acontece. As pessoas têm vergonha em admitir que não gostam de ler, acho isso o máximo. Viva Harry Potter!”, defende.

Queiram ou não, Thalita é pop, e em um universo onde isso é escasso, a literatura.

Você iniciou sua trajetória na literatura há dez anos, em 1999. O que mudou?

Thalita Rebouças – O que aconteceu? As pessoas estão lendo mais. Adolescentes e pré-adolescentes estão definitivamente lendo mais. No começo da minha carreira, quando ia numa escola, eu perguntava: “Quem gosta de ler?” Dois ou três levantavam a mão, meio envergonhados. “E quem não gosta?” Todo mundo: “Ahhhh…” Agora isso não acontece. As pessoas têm vergonha em admitir que não gostam de ler – acho isso o máximo. Viva Harry Potter! Ela (Joanne Kathleen Rowling, autora dos livros do bruxo) fez o que todo mundo queria, mostrar para adolescente e pré-adolescente que não importa o tamanho (do livro). Adolescente é muito ligado nisso: “Livro grosssssooo!” Tendo uma história boa para ser lida, não tem essa. Acho que ela fez isso por todos nós. Valeu J. Kathleen.

Você está no décimo livro e começou a publicar em Portugal…

TR – Esse ano foram três livros Fala sério, mãe!Fala sério, amor!Fala sério, professor! (todos os livros da série são editados no Brasil pela Rocco). Ano que vem, vou para Portugal lançar o Fala sério, pai! e o Fala sério, amiga! — que viraram Que cena, mãe… E passaram pela adaptação. Para minha surpresa, os livros foram adotados nas escolas, eu vou dar palestras. Cheguei à conclusão que adolescente é tudo igual. Incrível! São as mesmas perguntas, as mesmas dúvidas… A mesma excitação de se ver num livro, sabe? Do mesmo jeito que as adolescentes aqui falam “parece que você estava olhando num buraco da fechadura, lá em casa…”, os portugueses também falam. É uma experiência muito boa e enriquecedora.

Você é a escritora brasileira que mais vende livros para adolescentes. Quantos livros já foram vendidos?

TR – Passei dos 400 mil.

Só você e o Paulo Coelho…

TR – (risos) Um dia eu chego lá!

Como é viver de literatura?

TR – É muito difícil. Quando eu era jornalista e lancei o meu primeiro livro, eu achei que fosse ser mais uma. Tantos coleguinhas lançando um livro de vez em quando. Não achei que eu fosse conseguir viver de literatura, até porque não tive nenhum apoio da minha família. Quando resolvi abandonar um trabalho como assessora, numa assessoria de imprensa grande, eles me acharam louca. Eles falaram: “Vai morrer de fome! É o Brasil, ninguém lê aqui.” Entendeu? Tenho o maior orgulho de viver de literatura neste país que realmente, ainda, não tem o hábito de leitura como tantos outros. Mas acho que a gente está caminhando, pessoas estão lendo cada vez mais, adolescente está lendo cada vez mais. Fico muito orgulhosa de viver de literatura. Falo isso com maior prazer (risos).

Em 2007 perguntei se você sentia vontade de escrever para adultos, e você respondeu que “adulto é chato”…

TR – Adulto é chato (risos). Continuo achando, “adulto é chato”. A pré-adolescência e a adolescência é a fase em que as pessoas começam a implicar com o livro. Com 13 anos eu falei: “Ler é chato!” Saí dos gibis — Chico BentoCalvin eTurma do Pererê… Lia livros infantis, Ziraldo, Ruth Rocha. Quando cheguei a 13, 14 anos achei: “Humm. E agora?” Acho que é o que acontece muito: “O que vou ler agora?” Me sinto orgulhosa em fazer companhia nesta fase, que é complicada: a cara está cheia de espinhas; o corpo está mudando; a cabeça está mudando; não é mais criança, mas está longe de ser adulto e de se achar adulto. É tão prazeroso ter um lugar e destaque na mesinha de cabeceira das pessoas dessa idade, complicadas.

Como é lidar com a responsabilidade de fazer parte da formação de adolescentes? Você publica um livro por ano, não tem medo de cair na mesmice?

TR – É uma responsabilidade. Quando começou a vender, aumentar o negócio… Falei: “Glup!” É uma responsabilidade fazer parte da formação de tanta gente. Eu me sinto muito orgulhosa, mas, é claro, tem um peso muito grande. Eu não fico falando o caminho certo ou errado nos meus livros. Tento mostrar que a vida não é uma novela, aquela coisa maniqueísta: o bom e o mau. Os meus personagens não são bons ou maus cem por cento do tempo. Gosto de fazer o adolescente pensar e que tire a conclusão dele a partir da história. “Essa atitude que a personagem tomou eu não tomaria. Humm, isso não é legal.” Tento não ensinar nada. Tudo que, talvez, eu posso ensinar está no subtexto. Eu não falo “faz isso, faz aquilo”. Então, quando o leitor entende a mensagem é uma maravilha. E quando não entende a mensagem, porque ainda não tem maturidade, ele ri.

Qual o maior retorno de trabalhar com jovens leitores?

TR – O maior prêmio que eu recebo é o carinho dos leitores. Leitores que se dizem fãs. Achei que para ter fã eu tinha que ser cantora, atriz de novela… Nunca achei que escritor tivesse fã. Eu sempre fui louca pelo João Ubaldo, mas nunca fiquei: “Ah, João Ubaldo, eu te amo!” Nunca pensei que o dia que estivesse com o João Ubaldo eu fosse ter uma reação. As meninas, e alguns meninos, têm uma relação muito emocionante perto de mim. Eles se emocionam, vibram, choram, abraçam… Abraço de gente que fala para mim: “Eu odiava ler, passei a gostar de ler com seu livro.” E do meu livro vai para Jorge Amado, Rubem Fonseca, João Ubaldo, Shakespeare, Kafka… Sabe? Acho que fiz o meu papel. A minha grande emoção são esses prêmios que recebo cada vez que vou autografar num lugar. São mães que me agradecem porque veem os filhos atracados com o livro. São pais, avós, leitores que falam tanta coisa bonita. Isso é a melhor coisa do mundo.

O que você lê?

TR – Cara, eu tô lendo um livro agora que estou aqui pensando nele. Acabei de ler o O cavaleiro inexistente (Companhia das Letras), do (Ítalo) Calvino, que li em português de Portugal. E agora eu ganhei da minha terapeuta A menina que brincava com fogo (Companhia das Letras), do Stieg Larsson, daquela sérieMillenium. Menino, é um espanto aquilo! É um espanto. É porque eu tinha que acordar cedo hoje, se eu não tivesse, eu estaria devorando ele até agora. Terminei de ler Se eu fechar os olhos agora (Record), do Edney Silvestre. Leio de tudo. Quero me jogar na biografia do Erasmo [Carlos, Minha fama de mau(Objetiva)] que já ganhei de presente também. Leio muita biografia. Vou de Bridget Jones a Saramago com a maior facilidade. É uma boa história? Me dá que eu leio e devoro.

No Brasil, geralmente, há um preconceito com os artistas que têm êxito nas vendas. Você sente?

TR – Sinto. Ia mentir se dissesse que não sinto. É muito pouco. Na última Bienal foi uma loucura, autografei 600 a 800 livros por dia, nos 11 dias de evento. Eu ouvi gente falando: “Uma fila de adolescente por causa de uma escritora? Deve ser ruim.” A pessoa sequer leu o meu livro e já supõe que aquilo é ruim, uma porcaria. Oh, que pecado! As pessoas gostam de um livro, não pode ser bom. Mas, ao mesmo tempo, tenho recebido resenhas maravilhosas. O último elogio que até agora não caiu a ficha foi do Ziraldo. Fui ao programa dele, na TV Cultura, e simplesmente ele me pegou no colo. Ele falou para mim: “Você não ébest-seller à toa. Ao contrário de muitos best-sellers vazios, você faz sucesso porque tem conteúdo e o seu texto tem muita qualidade. Eu comecei a ler e não consegui parar…” Você tem noção do que é o Ziraldo falar isso para você? Eu assim, querendo chorar no programa. Achei tão carinhoso, tão delicado. O que eu sigo com adolescente, ele segue com criança: não tratar criança como idiota, não tratar adolescente como idiota. Adolescente é tudo, menos idiota. É isso que tento fazer com eles, tratá-los com respeito e dignidade, falar de igual para igual. Quem quiser falar mal de mim pode falar porque o Ziraldo gosta de mim (risos).

O que você diria para os jovens leitores que sonham em se tornar escritores?

TR – Que bacana você perguntar. Sabe que comecei a escrever com 10 anos. Tem muita gente que me escreve: “Quero ser escritora e não sei por onde começar!” Não existe uma faculdade, você vira escritor. A dica: persistir muito porque é muito difícil. Ler muito. Quanto mais a gente lê, melhor a gente escreve. E escrever. Porque quanto mais a gente escreve, mais a gente escreve. Mas meu principal conselho é: não desista.


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