THIAGO PICCHI

AS DIVERSAS FACETAS DE UM POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Conversar com Thiago Picchi foi uma surpresa agradável. Tive acesso ao livro Papagaio e outras e histórias há um ano, mas foi com Os Rumores Imprecisos de Conversas Alheias (ambos da Editora 7 Letras) que fiquei interessado por seu trabalho e com vontade de entrevistá-lo.

Jovem e extremamente consciente do seu ofício, Thiago não é só um. Sabendo disso, ele permite que esses outros “eus” venham à tona – para a alegria do público: escritor, músico e ator. E, antes de tudo, um ser humano sensível e atormentado por suas ideias e pela solidão.

“Se sou uma miscelânea de ideias imprecisas, acho que o público ainda é dividido. No Brasil, a novela é muito forte, a maior parte das pessoas só conhece meu trabalho de ator e não sabe que escrevo”.

A literatura?

“Eu já era músico e ator, e tinha um medo enorme que essas duas coisas brigassem entre elas. Mas o meu maior tomento se tornou a literatura. De repente, me surgiu um desejo de escrever; na verdade, acho que transbordou. Tentei contê-lo o máximo que pude, mas chegou um dia que jorrou… Da mesma forma que a vida ou um orgasmo”.

Sorriso estampado, olhar tímido, voz firme e mãos inquietas, esse era o quadro que se revelava aos poucos na Livraria Renovar, em Ipanema. Tudo isso ao aroma do café, que serviu de combustível para o papo.

Para quem só conhece o músico e/ou ator Thiago Picchi, é uma ótima oportunidade de se aproximar da intimidade criativa desse promissor escritor:

“O que me leva a escrever é necessidade. Não é capricho, vaidade, desejo; é realmente necessidade. Eu poderia afirmar que o que me norteia como escritor é a sonoridade. Escolho a palavra pelo som”, declara.

Através de que área você se comunicou primeiro?

Thiago Picchi – Sou filho e neto de atores, cresci praticamente nas coxias de teatro; esse foi o primeiro contato que tive com o mundo artístico. A música veio depois. Comecei a estudar música seriamente depois que li o livro Ator e Método, do diretor teatral Eugênio Kusnet. Num trecho do livro, havia uma partitura de música para explicar ritmo e eu não entendia nada. Então, resolvi estudar música e descobri que tinha para ela grande facilidade, em três anos já me tornara músico profissional. Cheguei a estudar na UNIRIO até o 6º período de Bacharelado em flauta…

E a literatura, quando chegou?

TP – Eu já era músico e ator, e tinha um medo enorme que essas duas coisas brigassem entre elas. Mas o meu maior tomento se tornou a literatura! De repente, me surgiu um desejo de escrever; na verdade, acho que transbordou. Tentei contê-lo o máximo que pude, mas chegou um dia que jorrou… Da mesma forma que a vida ou um orgasmo!

Por que você escreve?

TP – Poderia dar desculpas mais nobres, mas acho que se deve a uma enorme dificuldade de me sociabilizar e a uma solidão tremenda desde pequeno. Por isso, tive que me cercar e criar o meu próprio mundinho. O que me leva a escrever é necessidade. Não é capricho, vaidade, desejo; é realmente necessidade. Eu poderia afirmar que o que me norteia como escritor é a sonoridade. Escolho a palavra pelo som.

O fato de ser filho de atores – Marcelo Picchi e Elizabeth Savalla –influenciou de alguma maneira a sua literatura?

TP – Não. Minha família é de iletrados. Meus pais nunca leram, ou melhor, a leitura deles foi muito específica, voltada para a atuação. Então, não sei de onde surgiu esse desejo. Eu até lia os livros que tinha em casa, dos teóricos de teatro e dos dramaturgos – como Shakespeare, Strinberg –, mas nunca tive estímulo para esse tipo de leitura. Muito pelo contrário, como eles tiveram uma vida difícil, me encorajaram a fazer outras coisas.

Mas nenhuma outra pessoa te incentivou?

TP – Sim, mas fora de casa. Tive a sorte de ter encontrado pares na vida. A Edinha Diniz foi uma espécie de mentora intelectual, eu a conheci através da música. Mais tarde conheci o Naum Alves de Souza, com quem me identifiquei muito, porque é um sujeito “poli e valente”: diretor de teatro, autor, cenógrafo, figurinista…

Em Papagaio, seu primeiro livro, música e literatura caminham lado a lado, e, ao mesmo tempo, independentes. Como surgiu esse trabalho?

TP – Nunca fui um fidalgo das artes, sempre tive que trabalhar desde muito cedo. E quando surgiu Papagaio, me senti absorvido por umas histórias, umas “ruminâncias” do pensamento de que não conseguia me livrar. Então, fui morar num conjugado, em Santa Teresa, para não ter que me preocupar com dinheiro. E, quando comecei a escrever, surgia uma música para cada história que eu criava. Logo pensei em fazer um livro com uma trilha sonora, a música é o único personagem que não sai de cena.

Existe o público do Thiago músico, do Thiago escritor e Thiago ator? Ou é tudo misturado?

TP – Se sou uma miscelânea de ideias imprecisas, acho que o público ainda é dividido sim. No Brasil, a novela é muito forte, a maior parte das pessoas só conhece meu trabalho de ator e não sabe que escrevo. O meu personagem na TV é músico, e existe gente que ainda acha que estou dublando (risos).

Existe preconceito no meio literário por ser também ator?

TP – Claro que sim. Tenho uma amiga, cujo nome não vou citar, que me disse que nunca farei parte da cúpula dos escritores da geração pós 2000. Mas não to nem aí para esse tipo de coisa, meu compromisso é com a minha escrita.

Recentemente, você fez um personagem homossexual na novelaPáginas da vida. Como foi realizar esse trabalho?

TP – Trabalhar na televisão para sobreviver me apraz demais, além de poder comprar mais livros e não precisar frequentar sebos… (Risos.) Quanto à questão da homossexualidade do personagem, só pensei que sexualidade é uma das características do homem! O meu personagem é gay, mas também gosta de azul, de música… Minha preocupação era ser crível, não busquei os estereótipos. E não sofri nenhum tipo de preconceito por causa do personagem; acho que as pessoas já sabem discernir a ficção da realidade.

Você já escreveu sob encomenda?

TP – Sim, fiz o livro Sexo, Drogas e Tralalá, a pedido da editora 7 Letras. Foi uma parceria com os escritores Fábio Fabrício Fabretti e Ana Paula Maia. Fiquei incumbido de escrever sobre sexo. Esse livro saiu primeiro, mas Papagaio veio na frente.

Você lançou um livro de microcontos, depois um de contos e agora um romance. Como foi essa transição?

TP – Há um trecho de uma música do Hermeto Pascoal que diz “Música é que nem filho. Primeiro a gente faz, depois a gente dá o nome”. Trabalho assim. Simplesmente escrevo, depois me preocupo em classificar o que criei.

Fale um pouco sobre o seu novo livro Os Rumores Imprecisos de Conversas Alheias.

TP – A ideia principal era a de um personagem que ouvia as conversas alheias e trazia para o chefe, para não perder o emprego. Então, como ponto de partida, fui para a rua ouvir as conversas alheias com um gravador. Mas nunca conseguia ouvi-las inteiras, por isso são “rumores imprecisos”. Depois, peguei os rabiscos de conversas que eu tinha para desenvolver, isto é, transformar confissão em ficção. Sempre tive essa mania de ouvir conversas, e, depois que escrevi o livro, piorou bastante…

E a literatura vai virar filme e peça de teatro, é verdade?

TP – Sim, estou muito feliz! O Naum me ligou e disse que quer transformarPapagaio numa peça, e me convidou para atuar. A peça estreia em junho aqui no Rio. E também tem um cineasta que quer fazer a adaptação de Rumores

Como é o seu processo criativo?

TP – Passei a vida toda tentando desenvolver uma disciplina, para conseguir dar conta disso tudo, mas minha vida sempre foi um labirinto caótico. Não consigo organizar nada, simplesmente a coisa transborda quando tem que sair. Produzo muito à noite, com a insônia. Depois descobri que a insônia não é falta de sono, é excesso de vida. Quando negligencio a literatura, ela vem puxar meu pé à noite em forma de angústia.

Quais são suas maiores influências?

TP – Pergunta difícil, acho que todos os clássicos que todo mundo lê, eu teria que citar vários… Acredito que os livros nos escolhem. Mas, se tivesse que dizer um, sob ameaça (risos), eu diria Cervantes, com Dom Quixote. Autores que abordam a morte me fascinam bastante.

Que recado deixaria para a galera jovem que deseja escrever?

TP – Ah, gosto da resposta do Nelson Rodrigues para uma pergunta parecida com essa. Ele diz: “Jovens, envelheçam…” (Risos.) Mas diria para os jovens procurarem valores eternos no tempo em que vivem e na própria literatura.


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