RENATO TERRA e RICARDO CALIL

Uma noite em 67, reflexões sobre o tempo

Por Ramon Nunes Mello   

 renatoterraFotos de Wilson Santos/CPDoc JB

 

O documentário Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, faz um recorte afetivo sobre a Era dos Festivais. O filme é desdobramento da monografia de conclusão do curso de Comunicação de Renato Terra, em 2003. Ao se encontrar com o jornalista Calil, que foi seu chefe no iBest, Terra encontrou a parceria necessária para compartilhar a ideia de retratar um período emblemático na história da música popular brasileira: a noite de encerramento do Festival da Record de 1967.

"O projeto inicial era fazer um documentário sobre a Era dos Festivais. Foi nessa sala onde apresentamos a ideia para o João Moreira Salles, já com o propósito de fazer o filme a partir do Festival de 67. Acho que foi isso que conquistou ele, que falou uma frase famosa entre os documentaristas: 'Se você quer fazer um documentário sobre Correios faça um documentário sobre uma carta'. A intenção era fazer um filme a partir do Festival de 67, mas que falasse da Era dos Festivais. Partimos para as entrevistas com isso na cabeça. Nunca quisemos esgotar o assunto da Era dos Festivais. Desde a ideia de fazer o filme até o lançamento são sete anos...", afirma Terra, codiretor do filme que recebeu o apoio da Videofilmes, disponibilizando a equipe que participou dos documentários de Eduardo Coutinho.

“1967 é considerado entre críticos, de forma unânime, o festival musicalmente mais rico. As quatro primeira colocadas são grandes clássicos da música que sobreviveram muito bem ao tempo. É um ponto de inflexão na música brasileira, o momento em que Gil e Caetano trazem elementos  de fora para a música popular brasileira, representada pela guitarra elétrica. Existe um embate fundamental da música brasileira, essa tensão entre tradição e modernidade”, defende Calil.

Entre os 12 finalistas do festival, Chico Buarque e o MPB4 vinham com “Roda viva”; Caetano Veloso, com “Alegria, alegria”’; Gilberto Gil e os Mutantes, com “Domingo no parque”; Edu Lobo, com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, carnaval e cinzas”; e Sérgio Ricardo, com “Beto bom de bola”. As quatro músicas que dominaram a competição foram “Ponteio”, “Domingo no parque”, “Roda viva” e “Alegria, alegria”.  Os músicos, hoje ícones da MPB, participam do filme com histórias emocionadas sobre o encontro, entre aplausos, vaias e guitarras estridentes, como o raro depoimento de Roberto Carlos.

"Foi Zuza Homem de Mello, consultor do filme, que conseguiu o acesso ao Roberto Carlos. Zuza é um grande historiador da Era dos Festivais, é crítico musical respeitadíssimo e uma pessoa muito querida, muita gente tem um carinho enorme por ele", diz Renato Terra.

Além de depoimentos das estrelas do festival, os diretores conseguiram imagens inéditas dos bastidores do Teatro Paramount, em São Paulo, onde os jornalistas Randal Juliano e Cidinha Campos, hoje deputada, roubam a cena com entrevistas hilárias. Com a montagem de Jordana Berg, privilegiando o diálogo de depoimentos atuais e imagens de arquivo, a dupla ouviu pessoas que participaram diretamente do festival, entre eles o jornalista (e jurado) Sérgio Cabral e o diretor da Record Paulinho Machado de Carvalho. 

"Se tivéssemos que ir pelo esquema tradicional, comprar minutos de arquivo, seria um filme muito caro. Nunca fizemos as contas, mas talvez 40% do filme sejam de imagens de arquivo. É um tesouro da música brasileira, tentamos aproveitar ao máximo. Sempre que a gente desanimava com o filme a gente olhava de novo as imagens de arquivo, se emocionava", diz Ricardo Calil.

Machado de Carvalho dá um depoimento polêmico, que faz entender melhor a atitude do músico Sérgio Ricardo ao quebrar o violão e atirar na platéia, que vaiava ensandecida sua interpretação de “Beto bom de bola”:

"Para o êxito do megaespetáculo era preciso escolher o mocinho, o bandido, a heroína..."

Mais do que um resgate sobre os elementos que transformaram aquela final de festival no clímax da produção musical dos anos 1960 no Brasil, o documentário Uma noite em 67 é uma sensível reflexão sobre o tempo. É assistir e se emocionar.

 

 


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