VALÉRIA PIASSA POLIZZI

VALORIZAÇÃO DA VIDA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 valeriapiassa

 

“É importantíssimo um país ter referência de soropositivos em sua cultura. Aqui no Brasil, personagens como Betinho, Herbert Daniel, Cazuza, Sandra Bréa e muitos ativistas, tornaram a convivência com o vírus mais aceitável. Eles foram uma referência para nós”.

Valéria Piassa Polizzi é o nome da autora do famoso livro Depois Daquela Viagem (Editora Ática) – autobiografia de uma menina que contraiu o vírus HIV, aos 16 anos de idade, na primeira relação sexual. Para quem não conhece, recomendo a leitura, que nos faz valorizar a vida, nos despir de preconceitos. E, principalmente, entender que todos estamos vulneráveis à Aids.

“Sempre amei histórias. Quando era adolescente, fazia teatro e sonhava fazer cinema. Escrever o Depois daquela viagem me abriu um novo universo. Num trabalho de atriz ou cineasta, por exemplo, cria-se a partir de um texto preexistente e todo o processo requer muito trabalho em grupo. Para escrever um livro, ao contrário, a criação pessoal é a primeira etapa e isso é fascinante. Hoje, não me imagino fazendo outra coisa.’’

Conheci a história de Valéria, na pré-adolescencia, e diante dessa conversa fiquei extremamente emocionado, com vontade de abraçá-la. A conversa aconteceu por e-mail porque a escritora estava envolvida com o Dia Mundial Contra a Aids, ministrando palestras sobre o tema, como faz todos os anos.

Aos trinta e seis anos, formada em jornalismo, Valéria tem lutado para inserir a educação sexual nas escolas, para jovens e adultos.

“O maior sucesso do Depois Daquela Viagem, para mim, foi ele ter sido adotado em escolas de todo o país. Defendo bastante a educação sexual contínua nos colégios e o livro ajudou a introduzir o assunto. Com isso, passei a ser convidada a dar palestras em todo o Brasil, tornou-se um trabalho sério”.

Dez anos depois da publicação do seu primeiro livro, a paulistana já tem mais dois títulos publicados: Enquanto Estamos Crescendo (Editora Ática) e Papo de Garota (O Nome da Rosa Editora e Editora Símbolo). Isso sem contar queDepois Daquela Viagem tem mais de trezentos mil exemplares vendidos, e já foi traduzido na Itália, em Portugal, na Alemanha, na Áustria, na Espanha, no México e em alguns países de América do Sul.

Depois Daquela Viagem foi lançado em 4 de dezembro de 1997. Qual é o saldo, dez anos depois da publicação de seu primeiro do livro? O que mudou depois disso?

Valéria Piassa Polizzi – Quando resolvi publicar o livro, não sabia qual seria a reação do público e da mídia. Na época, havia muito preconceito contra o tema, a Aids era sinônimo de morte no Brasil. Mas para nossa grande surpresa o Depois Daquela Viagem foi muito bem aceito e a mídia entendeu as mensagens que quis passar: como era a vida de quem contraiu o vírus; e a Aids pode acontecer com qualquer um – na verdade, não existe grupo de risco, todos são vulneráveis, quem não quer se contaminar tem de se cuidar. O maior sucesso do Depois Daquela Viagem, para mim, foi ele ter sido adotado em escolas de todo o país. Defendo bastante a educação sexual contínua nos colégios e o livro ajudou a introduzir o assunto. Com isso, passei a ser convidada a dar palestras em todo o Brasil, tornou-se um trabalho sério.

No Brasil, Depois Daquela Viagem teve mais de trezentos mil exemplares vendidos. No exterior, foi traduzido na Itália, em Portugal, na Alemanha, na Áustria, na Espanha, no México e em alguns países da América do Sul. Como se sente com isso?

VPP – Muito feliz! É maravilhoso saber que sua mensagem chegou a cantos longínquos do Brasil e do mundo. É surpreendente receber e-mail de leitores de outros países elogiando seu trabalho. Em janeiro de 2007, fui ao México dar palestras em escolas e universidades a convite do Governo do Estado do México e da Editora Santillana, que publicou o livro no país. O Depois Daquela Viagemfoi adotado em escolas públicas mexicanas para tratar do tema da Aids. Levar informação para outra cultura e aprender tanta coisa nova com os jovens de lá foi uma grande experiência para mim. Foi tão enriquecedor que acabou virando um livro-reportagem que fiz para o TCC – Trabalho de Conclusão de Curso – da Faculdade de Comunicação Social, em Jornalismo, que termino esse ano.

Algum cineasta já teve interesse em fazer um filme sobre sua história?

VPP – Estamos pensando primeiro em teatro. O dramaturgo e jornalista Dib Carneiro Neto adaptou o Depois Daquela Viagem para os palcos. Já fizemos uma leitura do texto no teatro do Masp em São Paulo e no Rio de Janeiro. Gostamos muito do resultado e agora o pessoal está buscando patrocínio para montar a peça.

Como foi o retorno do segundo e do terceiro livro: Papo de Garota eEnquanto Estamos Crescendo?

VPP – Foi muito bom. Os adolescentes adoraram. Tanto o Enquanto Estamos Crescendo como o Papo de Garota também foram adotados em escolas. Além disso, escrever ficção foi um processo novo para mim.

Por que a escrita?

VPP – Sempre amei histórias. Quando era adolescente, fazia teatro e sonhava fazer cinema. Escrever o Depois daquela viagem me abriu um novo universo. Num trabalho de atriz ou cineasta, por exemplo, cria-se a partir de um texto preexistente e todo o processo requer muito trabalho em grupo. Para escrever um livro, ao contrário, a criação pessoal é a primeira etapa e isso é fascinante. Hoje, não me imagino fazendo outra coisa. Adoro criar quieta, sozinha, no meu canto. Somente as palavras e eu.

Como funciona seu processo de criação?

VPP – É uma viagem. Na hora de sentar e escrever é um trabalho intenso e solo. Não solitário, pois quem está envolvido com histórias e personagens nunca se sente sozinho – pelo menos eu não me sinto. Mas antes disso tem de haver muita leitura e observação do mundo. Para meu último trabalho, sobre a viagem ao México, utilizei bastante pesquisa, porque conto um pouco da história do país, desde a época dos astecas até a chegada dos espanhóis, a colonização a independência, a revolução… Acabei descobrindo que, além do processo de criação, a pesquisa também pode se tornar uma viagem intensa e prazerosa.

Você formou-se em Jornalismo. Por que você deixou de escrever para a revista Atrevida?

VPP – Mantive uma coluna na Atrevida por sete anos. Mas quando a editora passou por mudanças estruturais e financeiras disseram-me que minha permanência não seria mais possível. É claro que tenho boas lembranças de um trabalho tão legal, mas, ao mesmo tempo, foi bom encerrar um ciclo – o que sempre nos impulsiona a descobrir outros caminhos e a crescer. Fiz jornalismo, mas não pretendo trabalhar como jornalista, numa redação, por exemplo. Minha praia são os livros. É onde mais gosto de me expressar.

Quais são os escritores de que mais gosta?

VPP – Gosto muito de Amós Oz, um israelense autor de A Caixa Preta e Fima. Os latino-americanos Gabriel García Márquez, Isabel Allende e Carlos Fuentes me encantam. Da língua portuguesa, Machado de Assis, Saramago, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Além disso, gosto muito de ler livros de autores estrangeiros que contam sobre a cultura e história de seus países. Por exemplo: a sul-africana Nadine Gordimer (A arma da casa); o israelita A.B.Yehoshua (Viagem ao fim do milênio); o japonês Jun’ichiro Tanizaki (As irmãs Makioka); e uma chinesa chamada Pearl S.Buck. (A boa terra, Os filhos de Wang Lung e Casa dividida).

Quando sairá o próximo livro? Já possui nome? De que se trata?

VPP – Espero que saia em breve. Já mandei o texto para análise nas editoras. E é o da viagem ao México.

Como foi a experiência de morar na Áustria? Por que esse país?

VPP – Namorei um austríaco por três anos. Após casarmos, moramos na Áustria por ouros três anos. Foi uma época boa, num vilarejo bucólico em meio a campos de girassóis. Estudei alemão para estrangeiros na Universidade de Viena. Estava cansada de dar palestras sobre Aids e foi ótimo fazer uma pausa. Foi lá que escrevi o Enquanto estamos crescendo. Quando voltamos ao Brasil, o Markus não se acostumou com o país e nos separamos. Mas somos amigos e mantemos contato até hoje.

Tem vontade de escrever poesia?

VPP – Não é minha praia, deixo para os grandes.

A pesquisa mais recente do Ministério da Saúde revelou que cresceu a contaminação entre os heterossexuais, principalmente entre as mulheres. O que você sente quando lê esses dados?

VPP – O Brasil tem uns dos melhores programas de tratamento de Aids do mundo, pois o acesso a medicamentos aqui é universal. Mas infelizmente deixa muito a desejar no que diz respeito à prevenção.

Qual a importância de se assumir publicamente ser soropositivo?

VPP – É importantíssimo um país ter referência de soropositivos em sua cultura. Aqui no Brasil, personagens como Betinho, Herbert Daniel, Cazuza, Sandra Bréa e muitos ativistas, tornaram a convivência com o vírus mais aceitável. Eles foram uma referência para nós. No México, por exemplo, uma das coisas que achei mais preocupante foi eles não terem, em sua cultura, alguém célebre que viva com o HIV. A doença se torna pior no imaginário das pessoas quando não se tem uma referência concreta.

O que é mais importante na vida?

VPP – Fazer coisas de que gostamos. E das quais nos orgulhamos. Aproveitar o tempo junto a pessoas especiais para nós.

O que é o amor?

VPP – Um livro inteiro seria necessário para se explicar isso. E ainda assim não seria definitivo.

Você tem religião? Acredita em Deus?

VPP – Não tenho religião. Mas acredito em Deus e tenho fé. E aprecio os aspectos culturais de diversas religiões.

Quais são seus planos para o futuro?

VPP – Escrever, viajar e curtir as pessoas e coisas de que mais gosto.

Que mensagem você deixaria para os jovens?

VPP – Leiam muito, exijam educação sexual contínua em suas escolas e se cuidem. Mesmo quando se apaixonarem não esqueçam da camisinha e de conversar sobre prevenção com seus parceiros. Aliás, isso serve para todos, adultos e idosos também!


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