ELISA LUCINDA

POETA DO COTIDIANO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 elisalucinda

 

Poeta, escritora, atriz multimídia, com sensibilidade à flor da pele negra e com uma emotividade que deságua nos olhos verdes e na voz rouca que escapa pelo espontâneo sorriso – essa é Elisa Lucinda, capixaba, radicada no Rio de Janeiro desde 1986, quando resolveu tentar a carreira de atriz.

Como é a relação com as duas cidades?

“A de amor, saudade. As duas cidades se dão muito bem. Vitória e Guanabara agradecem uma à outra. Uma me brotou, a outra me acolheu. O Rio de Janeiro é minha cidade madrinha, e Vitória é minha mãe”.

Elisa popularizou sua poesia com seu jeito coloquial de escrever (e dizer) as belezas mais simples de dia a dia através de seus versos. Considerada um fenômeno na literatura brasileira e também umas grandes representantes da conscientização do negro no Brasil.

“O Brasil ainda quer se embranquecer muito, alisar o cabelo loucamente, porque essa permanece a referência de imagem de um cidadão de respeito. A educação e a mídia têm poder para reverter esse quadro. A educação dá subsídios naturais a um povo para entender a própria história e saber como atuar dignamente dentro dela”, defende.

Na época dessa entrevista (nov. 2006), Elisa estava em cartaz com Parem de Falar Mal da Rotina, gravando a novela Páginas da Vida, na TV Globo, e lançando o livro de poesia, A Fúria da Beleza (Ed. Record).

Novela, teatro, literatura e Escola Elisa Lucinda de Poesia Viva. Como consegue conciliar tudo isso com a vida pessoal?

Elisa Lucinda – Eu me espelho na natureza, que não espera uma planta acabar de crescer para o mar bater sua onda ou o sol nascer. Tento honrar os meus dons, e, se eles são concomitantes, acontecem no tempo que têm de acontecer e de acordo com a minha natureza.

Em que você realmente se realiza?

EL – Não me imponho essa escolha. Essas linguagens todas me traduzem, porque exercidas com a força do desejo, a bênção do dom, o gosto do prazer. Tudo isso que você citou, essas artes, dialoga harmonicamente e doidamente com a minha natureza. Então, não tem essa de “onde mais me realizo”, me realizo trabalhando, e meu trabalho é esse todo.

Quando se descobriu poeta? E por que poesia?

EL – Sempre fui poeta, acho, uma vez que este se distingue pelo olhar, o ângulo por onde olha, o foco, a qualidade “inocente” no sentido de estreia. A matéria do olhar do poeta é a mesma do olhar da criança. Vejo como dom, e dom nasce com a gente. Por que poesia? Não sei explicar. A poesia é a coisa mais útil, o bem cultural de maior utilidade prática, filosófica e esclarecedora que conheço. A gente não percebe, mas há poesia em tudo e consumida largamente pela população. Desde provérbios, ditos populares, a “pensamentos”, frases ilustradoras de folhinha de calendário, salmos; enfim, a poesia é e sempre foi essa literatura de autoajuda chique, profunda e prática. Tenho consciência de que sou menor do que ela. É uma menina-senhora que me puxa pela mão e me convoca. E eu topo.

Fale sobre o seu processo criativo e sobre o hibridismo com que lida na arte.

EL – Sou – no meu sangue e na minha cultura – negra, branca, mulata, egípcia, sudanesa, portuguesa, índia… Sou híbrida também. Se eu fosse homem, seria diverso, mas como sou mulher, sou diversa.

Quais são suas maiores influências?

EL – Mário Quintana (amor da minha vida), Fernando Pessoa (o que guardou meu rebanho) e Adélia Prado (a deusa do cotidiano).

Por que uma escola que ensina a falar poesia?

EL – Porque ninguém sabe falar, ou, pelo menos, porque é muito raro que alguém fale poesia sem espantar o espectador.

Nascida no Espírito Santo e morando há anos no Rio de Janeiro, qual a sua relação com as duas cidades atualmente?

EL – A de amor, saudade. As duas se dão muito bem. Vitória e Guanabara agradecem uma à outra. Uma me brotou, a outra me acolheu. O Rio de Janeiro é minha cidade madrinha, e Vitória é minha mãe.

Seu poema “Só de sacanagem”, que ficou muito conhecido através da cantora Ana Carolina, fala sobre a corrupção na política brasileira. Diante de tantas denúncias de corrupção, como você vê esse período eleitoral no nosso país?

EL – É tão triste essa dilapidação do patrimônio ético, amoroso e cívico do Brasil durante tantos anos, que a gente fica com a esperança muito abalada. Como cidadã, me sinto muito ofendida. Amo meu país, pago impostos altíssimos e nenhum serviço volta para mim, para a gente brasileira, para a saúde, para a escola. É um acinte contumaz que vem calejando o que há de pátria em nós.

O ator Grande Otelo, em 1992, a saudou como “um grito de guerra da mulher e da poesia negra no Brasil”. Como vê a situação do negro no Brasil hoje?

EL – Estamos engatinhando, melhorando muito lentamente. Cento e poucos anos de “libertação dos escravos” – tratando-se de uma história tão cruel, sangrenta, insana como cabe à lógica do poder humano – é muito pouco tempo, historicamente falando. Então, as mazelas dessa história, as feridas dessa herança, ainda estão atuantes e precisam ser olhadas e tratadas. O Brasil ainda quer se embranquecer muito, alisar o cabelo loucamente, porque essa permanece a referência de imagem de um cidadão de respeito. A educação e a mídia têm poder para reverter esse quadro. A educação dá subsídios naturais a um povo para entender a própria história e saber como atuar dignamente dentro dela. Digo que estamos melhorando porque hoje já se pode ver um ou outro protagonista negro nas telenovelas – como o Lázaro Ramos e a Thaís Araújo, ou até mesmo papéis como o meu em Páginas da Vida (Manoel Carlos é um autor de consciência e responsabilidade plenas), que é relevante pelo fato de mostrar uma médica negra. Ainda se contam nos dedos, mas essas gotas já produzem bom estardalhaço na autoestima do homem do povo, da criança do povo, que finalmente se vê refletida no espelho da mídia. Estamos indo. Só no sapatinho. “É devagar, é devagar, é devagar, é devagar, devagarinho…”

Dia 20 de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. Para você, o que nunca deverá ser esquecido nesse dia e o que deve ser mudado?

EL – Não se deve esquecer que a escravidão foi tão cruel quanto o holocausto. Falta ainda um filme direito, uma superprodução séria que documente e revele essa página da história brasileira; mas nada panfletária, e sim esclarecedora dos fatos. Já passou da hora de negro ficar choramingando pelos cantos. Trata-se de adquirir conhecimento, lutar com as armas do saber.

Quais são os próximos projetos?

EL – Estou preparando dois livros, que já estão prontos no seu recheio; um de crônicas, chamado Só de sacanagem – Crônicas do Jornal de Amanhã, e outro com algumas entrevistas que elucidam meu pensamento e reflexão sobre a arte e sua atuação nesse mundo. Se essa ficar boa, pode entrar no livro. Você autoriza? Além disso, estou preparando com calma mais três livros da Coleção Amigo Oculto; preparando-me para cantar em uma noite no Clube dos Democráticos; levar o Parem de falar mal da rotina para Portugal; achar uma sede bacana para Escola Lucinda de Poesia Viva; e, por último, fazer uma Dra. Selma muito bem feita. Gosto de fazer meu serviço direitinho. Muita coisa que hoje realizo – ou, melhor, talvez tudo – tenha sido antes, sonho. Sonhar é o nome romântico que se dá à palavra projeto.


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