ELIAS COSTA

POLICIAL-POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 eliascosta

 

Eu estava no Dizer Poesia do Bairro Peixoto, no (extinto) Café Vommaro, em Copacabana, quando um homem pediu para ler alguns poemas do seu livro Intérprete do Mal. Timidamente, disse seu nome: Elias Costa. Em seguida, com um sotaque que denunciava sua origem – Goiânia – explicou que era a primeira vez que pisava no Rio de Janeiro. E declarou ainda que, além de poeta, era policial militar.

“(…) sou 1º tenente da Polícia Militar do Distrito Federal. Fico lotado no 3º Batalhão, que compreende a maior área de Brasília: Asa Norte, Lago Norte, Varjão, Granja do Torto, Vila Planalto, Colorado, Setor Militar Urbano e as demais áreas. Há muitas comunidades problemáticas com características bastante parecidas com as das favelas do Rio de Janeiro”.

As pessoas fizeram silêncio para ouvir as poesias de cunho social, religioso e sexual. Elias esboçou um sorriso e fez outra revelação: ”é a primeira vez que falo minhas poesias”. Ele mora e trabalha em Brasília, mas sente-se desconfortável em recitar para os colegas da cidade.

“Por inveja ou ignorância, não sei explicar, as pessoas me olhavam com os olhos diferentes. Alguns não compreendiam o fato de ser polícia e fazer poesia. Isso me prejudicou em determinado momento. Havia muito preconceito, sofri. Mas acabei vencendo e conquistando espaço”, afirma o autor dos livros Sonhos de um Bruxo,Flor na TempestadeA Águia Escarlate e O Intérprete do Mal.

No fim do evento, resolvi marcar uma conversa com o poeta na Livraria Argumento, no falecido Café Severino, na Barata Ribeiro. À paisana, ele contou como mistura a paixão pela poesia com a brutalidade do ofício militar.

É raro, mas existe ”policial-poeta”.

Você é poeta e policial?

Elias Costa – Sim. Além de poeta, sou 1º tenente da Polícia Militar do Distrito Federal. Fico lotado no 3º Batalhão, que compreende a maior área de Brasília: Asa Norte, Lago Norte, Varjão, Granja do Torto, Vila Planalto, Colorado, Setor Militar Urbano e as demais áreas. Há muitas comunidades problemáticas com características bastante parecidas com as das favelas do Rio de Janeiro.

Joaquim Elias Costa Paulino?

EC – Sim, sou eu. Mas na poesia uso Elias Costa.

Você trabalha em Brasília, mas nasceu em Goiânia?

EC – Exatamente. Nasci em Goiânia e resido no Distrito Federal há cerca de 16 anos. Decidi ir a Brasília para estudar no Colégio Militar. Depois prestei vestibular para Direito na UnB e para o Curso Superior de Segurança Pública. Passei nos dois, mas fiquei com a Segurança Pública, que forma os oficiais da Polícia Militar do DF.

Você já conhecia o Rio de Janeiro?

EC – Não, é a primeira vez que visito o Rio. Fiz questão de conhecer os morros de Copacabana. Fui, à paisana, em dois morros de que não lembro o nome. Lá em cima, se alguém me perguntasse, diria que sou poeta (risos). O Rio é lindo.

Como foi sua infância?

EC – Eu era muito curioso, destoei das crianças que residiam perto da minha família. Naquele tempo, não tínhamos televisão, então busquei entretenimento fora de casa. Foi ótimo o ensinamento do meu pai. Porque não fiquei bitolado pela mídia. Fui para o mundo conhecer a vida, observar o cotidiano das pessoas. Passei a buscar assunto nos livros. Gosto muito de ler: (William) Blake, Victor Hugo, Baudelaire, Omar Caian… Uma literatura variada. Não senti falta da TV, me acostumei. Meu pai gostava muito de música clássica e música francesa, era tudo diferente lá em casa. Só aos 19 anos comprei uma televisão, mas até hoje assisto pouco. Vi muito desenho do Pica-Pau e Pato Donald (risos). Lá em casa há duas televisões grandes, mas quase não assisto. Moro numa chácara no lado Norte de Brasília, prefiro dedicar meu tempo às plantas.

Quando você começou a despertar para a escrita?

EC – Escrevo desde os 14 anos de idade. Mas aos 19 anos surgiu o desejo de publicar, eu já tinha cento e poucas poesias. Nessa época, eu já era cadete da Polícia Militar. Então, um escritor goiano chamado José Mendonça Telles teve acesso às minhas poesias. Foi através dele que publiquei meu primeiro livro, Sonhos de um Bruxo, com uma tiragem de mil exemplares.

O que você lê?

EC – Gosto de autores clássicos da literatura brasileira. Meu primeiro contato com a poesia brasileira foi na infância, meu pai tinha muitos livros: Augusto dos Anjos, Alvarez de Azevedo, Vinícius de Moraes, Mário Quintana… Li e leio todos eles. E acompanho os autores de Goiânia: Gilberto Mendonça Telles, Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Vianna, José Jeronymo Rivera, José Mendonça Telles…

Você gosta de falar poesia?

EC – Aqui no Rio foi a primeira vez que falei minhas poesias. Em Brasília, fico muito acanhado.

O que sua família pensa sobre o poeta Elias Costa?

EC – Meu pai acha bacana. Ele também escreve algumas poesias. Coloquei uma poesia dele no meu livro Intérprete do Mal.

Seus colegas policiais têm preconceito contra sua atividade poética?

EC – No começo, tive um pouco de dificuldade. Por inveja ou ignorância, não sei explicar, as pessoas me olhavam com os olhos diferentes. Alguns não compreendiam o fato de ser polícia e fazer poesia. Isso me prejudicou em determinado momento. Havia muito preconceito, sofri. Mas acabei vencendo e conquistando espaço. Tenho quatro livros publicados: Sonhos de um BruxoFlor na TempestadeA Águia Escarlate e O Intérprete do Mal. Hoje é diferente.

Por que você optou pela carreira militar?

EC – Não foi uma questão de escolha, mas de circunstância. Em Brasília, o policial militar ganha muito bem. E também porque sou muito apegado à questão da justiça. Trabalho na área operacional, na rua. Já troquei muito tiro.

Há militares em sua família?

EC – Só meu pai, que é do Exército. Ele entrou como soldado e chegou ao posto de capitão. Eu entrei como cadete e, se eu permanecer, posso chegar a coronel – o posto mais alto da Polícia Militar.

De que maneira o trabalho militar influencia sua produção poética?

EC – Acredito que é um trabalho muito enriquecedor para minha poesia. Porque situações conflituosas e revoltantes me fazem escrever.

Você consegue enxergar poesia nesse trabalho?

EC – Sim. A vida em todos os aspectos é poesia. Até mesmo da situação ruim eu consigo tirar um poema.

Como é seu processo de criação?

EC – Não há regra. Pelo menos na poesia, não é? (Risos.) Gosto de escrever sobre a alma humana. Minha poesia também aborda muito o aspecto social. Tento tirar a brutalidade da minha poesia. Gostar de falar do sublime que há na mulher.

Você pode ler um poema?

EC – Sim. Vou ler o “O suicida”:

A caminho do sepulcro, sobre um parapeito

O homem decide o seu tempo

E pensa encontrando seu leito.

Um atordoado olhar no vale do nada

Uma amargura infinda

Uma palavra não encontrada.

Decidido em destino imperfeito,

Premeditado à luz da madrugada

O homem se rende aos caprichos do mal

O grito engasga, o olhar enlouquece,

Um coração se confunde; um corpo já desce

Rumo ao funeral.

Arrependido no meio da estrada

O irreversível suicida observa sua vida

Num intervalo de uma gota d’água.

Em breve ânsia de não despedida

Arrependido no meio da estrada,

O suicida percebe que o inferno

É a sua próxima morada.

E tudo gira em um só momento

No curto flash do seu último lamento

E frente a frente com a única verdade

Ele grita: Deus, Deus, tende piedade.

Fale sobre essa poesia.

EC – Fiz essa poesia depois que atendi a um chamado no trabalho: um senhor havia pulado de uma ponte, no Lago Sul. Quando cheguei perto, vi que seus pulsos estavam quebrados, como se quisesse segurar a queda…

Você acredita em Deus?

EC – Sou cristão. Mas não sou religioso. Gosto de ler a Bíblia. E ler sobre outras religiões.

O que é Deus?

EC – Deus é Deus. Não sei definir. Sinto que está além de mim. Ninguém compreende o que é Deus. Sei o que é vida, amor e solidariedade. E o mais importante na minha vida é Deus. Acho que nem todo mundo vai entender, mas eu entendo… (Risos.)

Por que escrever poesia?

EC – Eu não gostava de escrever poesia. Tinha raiva, mas não conseguia parar de escrever. Minha poesia é meu grito de amor e revolta. Não há jeito.

O que você diria para um jovem que deseja ser poeta?

EC – Nunca desista. Leia, muito. E tenha cuidado com a arte, pois ela pode mudar a sua vida.


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