TICO SANTA CRUZ

POETA COM VEIAS POLÍTICAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 tico

 

Tico Santa Cruz é conhecido através das músicas dos Detonautas ou por sua atuação política em manifestações contra a violência e impunidade junto à Ong Voluntários da Pátria. Poucos sabem que por trás das tatuagens, dos piercings e da insatisfação do músico está um poeta sensível e angustiado. Não, ele não está lançando nenhum livro (ainda), mas a cada dia mais se envolve entre as palavras.

O que ele pretende com protestos?

“Não espero nada… Na verdade, espero que pelo menos uma pessoa pare diante dessa mobilização e questione. O povo brasileiro aceita muitas coisas sem questionar. Se tocar uma pessoa, estou satisfeito. O que estamos tentando plantar é o questionamento.’’, e continua:

“Não tenho rabo preso com ninguém. Vejo que a nossa política ainda está muito poluída, e para despoluir é um processo lento. Estou do lado oposto, do lado da contestação. Isso não quer dizer que, daqui a 20 ou 40 anos, não cogite a possibilidade de me tornar político. Mas, neste momento, não penso nisso de forma alguma”, declara o músico que tem Raul Seixas, Cazuza e Renato Russo como ícones.

Há um ano, conheci o Tico no Corujão Poético – Universo da Leitura, um encontro de poetas que acontece durante as madrugadas na Livraria Letras e Expressões, no Leblon. E foi nesse mesmo lugar que conversei com o músico-poeta, que toda semana bate ponto no evento de plateia cativa: atores, músicos, poetas, professores e boêmios apaixonados por literatura.

“Gosto de poesia marginal, não gosto tanto de coisas muito clássicas. Embora, outro dia, eu tenha descoberto o Drummond e me encantado. Antes falavam em Drummond e eu lembrava daquela coisa chata, quando você está na escola e é obrigado a ler. Foi assistindo a um documentário sobre o poeta que desfiz essa imagem”.

O papo rápido, nos corredores da livraria e durante a falação poética, foi muito produtivo. Em pouco mais de dez minutos Tico falou de política, literatura, música e processo criativo. A cada poesia falada, ele se comportava como um adolescente embevecido.

Gostaria que você começasse falando sobre a sua atuação política, sobre as manifestações contra a violência, impunidade, corrupção…

Tico Santa Cruz – Na verdade, fazemos um movimento simbólico. Por não contarmos com o apoio popular de massa, resolvemos fazer ações como a do Greenpeace: atuamos para gerar a reflexão, fazemos o protesto e pessoas pensam… Nesta quarta-feira, dia 25 de abril, vamos fazer uma manifestação dos fantasmas, nas escadarias da ALERJ, representando a sociedade fantasma: a justiça fantasma, os funcionários fantasmas, os políticos fantasmas, o STJ fantasma… Tudo o que é fantasma no Brasil, que nós pensamos que existe, mas não conseguimos ver além da imaginação. É isso o que queremos representar.

E o que você espera com esses protestos?

TSC – Não espero nada…Na verdade, espero que pelo menos uma pessoa pare diante dessa mobilização e questione. O povo brasileiro aceita muitas coisas sem questionar. Se tocar uma pessoa, estou satisfeito. O que estamos tentando plantar é o questionamento.

Na rua, há rumores de que o Tico Santa Cruz quer se tornar político. Isso é verdade?

TSC – Não. Quem falou isso? Não, não… (Risos.) Não tenho rabo preso com ninguém. Vejo que a nossa política ainda está muito poluída, e para despoluir é um processo lento. Estou do lado oposto, do lado da contestação. Isso não quer dizer que, daqui a 20 ou 40 anos, não cogite essa possibilidade. Mas, neste momento, não penso nisso de forma alguma. Até porque, se me colocar à frente de um partido político, limitarei o que quero falar; quero poder me expressar livremente!

Você é músico e um grande simpatizante de poesia. Como funciona essa relação da música com a literatura?

TSC – Isso tudo é muito novo para mim. Comecei a ler e a me dedicar à literatura realmente de uns 5, 6 anos para cá. Até os meus 23 anos, que foi quando o meu filho nasceu, descobri que eu tinha o hábito de ler. Mas nessa época não era algo frenético como é hoje, que leio muito e escrevo.

O que chegou primeiro, a música ou a literatura?

TSC – A música chegou primeiro! A música veio para mim de uma forma diferente;por meio da sonoridade e não da letra em si. Na música, gosto de fonemas e não necessariamente da palavra como significado poético. E, hoje em dia, o que tento fazer no meu trabalho é fonemas com a poesia. Isso é um trabalho difícil – as pessoas pensam que é porque é uma melodia popular –, realizar um trabalho bonito, bem escrito, é complicado. Estou começando a aprender agora.

E como funciona o seu processo criativo?

TSC – Sou meio livre. Não tenho uma regra, não me condiciono a nada. Aparece e vem… O novo CD do Detonautas – O Retorno de Saturno – que estamos produzindo, por exemplo, foi assim: viajei para Trancoso; lá foram batendo várias inspirações e assim surgiram sete músicas. Para mim, isso é uma riqueza espiritual. Não sigo uma regra, mas, quando aparece, estou atento. Meu celular tem um gravadorzinho, com que gravo tudo, qualquer ideia.

Há pouco tempo você declarou numa entrevista que é um eterno angustiado. Você só escreve quando está neste estado?

TSC – Ah, normalmente sou angustiado, então costumo escrever angustiado. Mas aprendi a lidar com essa angústia de forma positiva, entendendo que ela faz parte da minha natureza e que tenho de aprender a lidar com isso.

Quais são as suas maiores influências, seja na música ou na literatura.

TSC – Na música, posso citar três pessoas com quem me identifico imediatamente; grandes ícones para mim: Raul Seixas, Cazuza e Renato Russo. Três caras que eu miro, é onde miro. Três músicos que reverencio. Já na literatura, gosto muito de ler filosofia. Dois autores são meus mestres filosóficos: um é Osho e o outro é André Comte-Sponville – um autor contemporâneo, que escreveu Bom DiaAngústiaFelicidade DesesperadamenteO Pequeno Tratado das Grandes virtudes… E gosto muito do Irvin D. Yalom, que escreveu Quando Nietszche Chorou e A Cura de Schopenhauer. Gosto dessas leituras que misturam psicanálise e trabalho da mente. Poesia leio pouco, mas há um tempo peguei Florbela Espanca, que é incrível. Gosto também de poesia marginal, não gosto tanto de coisas muito clássicas. Embora, outro dia, eu tenha descoberto o Drummond e me encantado. Antes falavam em Drummond e eu lembrava daquela coisa chata, quando você está na escola e é obrigado a ler. Foi assistindo a um documentário sobre o poeta que desfiz essa imagem. Tem Mário de Sá-Carneiro, um poeta português contemporâneo do Fernando Pessoa, de quem gosto bastante.

E os autores contemporâneos?

TSC – Tem uma galera que conheci no Corujão Poético, no Leblon: o Tavinho Paes, Leprevost, Igor Cotrim, Gean Queiroz… Todas essas pessoas que conheci, com quem convivo e cujo trabalho admiro.

Esse evento – Corujão Poético – da Letras e Expressões é o primeiro movimento poético de que participa?

TSC – Sim, foi onde comecei. E o vi acontecer numa época em que não era tão grandioso; era uma coisa muito sublime, voltada para poucas pessoas. Era impressionante, parecia a época do Tom e do Vinícius, a galera de chapeuzinho… Eu me perguntava se era verdade mesmo. É muito bom ver pessoas interessantes, falando coisas boas. E aí comecei a frequentar e isso foi mudando minha vida.

Você tem vontade de publicar um livro?

TSC – Sim, tenho vontade. Tenho um blog, Clube da Insônia, em que escrevo muito, desde 2004. Não tenho pretensão de lançá-lo agora não, ainda quero adquirir mais bagagem, mais carga para poder usar isso como literatura e não só como forma de expressão.

Que recado deixaria para jovens autores e jovens músicos que estão por aí?

TSC – Ah, isso é engraçado… Sei lá! Eu diria “experimente!”. Experimentar é tudo, a transformação vem da experimentação.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates