DIANA DE HOLLANDA

OS BASTIDORES DA ESCRITA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 

Diana de Hollanda é escritora, poeta e diretora teatral. Também já teve vontade de ser atriz, até descobrir que a timidez a levaria ao recolhimento necessário para refletir sobre sua produção literária/teatral, nos bastidores.

Diana lida com essas diferentes personas, enfrentando conflitos e escolhendo linguagens, sem limites. Dois que não o amor (7Letras), seu primeiro livro de poemas, lançado em 2007, pode ser lido como um pequeno e intenso romance, recheado de referências literárias e cinematográficas — o cinema também é uma paixão da poeta.

“Há quem prefira impor e se impor limites. Quanto a mim, não consigo, nem quero, me tachar assim ou assado. Meu próximo livro é de fragmentos. Se eu disser que é poesia vão falar ok. Se eu afirmar é prosa, vão dizer ok também (risos). Para mim, chamar de texto é suficiente.”

Se ela acredita no amor? “Não duvido.” Ela acredita na palavra como oxigênio: “Escrevo para respirar melhor.” Essa conversa numa ruela do Catete (RJ) e a produção exposta em seus blogs (são mais de três) comprovam essa relação (afetiva?) com as palavras. Vide o título de um deles: Não proferir palavras em vão.

“(…) daí você poderia me perguntar: ‘Mas quando não é em vão?’ E eu não saberia te responder”.

Você é poeta e diretora de teatro. Como iniciou essa trajetória?

Diana de Hollanda – Aos nove, comecei a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), depois passei pelo Tablado e, enfim, entrei para a Unirio, onde me formei em direção teatral. Também escrevo desde cedo, porque, como no colégio não conseguia prestar atenção às aulas — achava o sistema de ensino entediante, massacrante —, para não dormir, passava o tempo escrevendo.

Então, inicialmente, você queria ser atriz?

DH – É. E também escrever. Aliás, esse último lado sempre foi mais perceptível. Tanto que, na época do vestibular, os meus colegas afirmavam “você vai fazer Letras, né?”, mas eu nunca tinha pensado em fazer Letras porque achava que isso poderia me afastar da literatura.

Por quê?

DH – Porque… Hum, é complicado de explicar porque é bem idiossincrático. Deixa eu dar um exemplo: depois de completar metade do curso de cinema na UFF (Universidade Federal Fluminense), não só chutei o balde e larguei a faculdade, como fiquei um ano sem conseguir ver filmes. Acho que, intuitivamente, eu desconfiava que se cursasse Letras poderia ficar de saco cheio a ponto de não querer mais escrever. Tem a ver com confundir ambiente, pessoas, estudos e a coisa em si. Confundir não é difícil, aliás, acho que agora estou um pouco confusa (risos). Mas apenas três considerações. A primeira: na época do vestibular, eu achava que precisava estreitar e reafirmar o vínculo com o cinema e o teatro, e não sentia essa necessidade em relação à literatura. A segunda: a principal razão de ter abandonado cinema foi o curso de direção, com o qual estava muito envolvida — e não me sentia capaz de levar os dois ao mesmo tempo. A terceira: contrariando tudo o que disse acima, hoje até que me agrada a ideia de fazer mestrado em letras.

Há quem diga que quando o ator pensa demais ele desiste de ser ator…

DH – É, parece que sim (risos).

Como surgiu seu interesse por direção teatral?

DH – Na Unirio entrei como atriz, mas já querendo dirigir. Lá a prova é interna, não tem vestibular direto para o curso de direção, ao contrário da UFRJ (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Optei pelo caminho mais longo porque na Unirio eram no máximo quatro alunos por turma — e, considerando o que te disse sobre a dificuldade de prestar atenção às aulas, achei esse caráter intimista significativo. Descobri que devia seguir na área de direção porque enquanto interpretava, pensava “nossa, está uma merda”. Daí cada vez fui ficando mais tímida. Não sei se tímida é a palavra. O fato é que fui ficando com vergonha da exposição, do palco. Não dava para ser atriz assim. Mas ao mesmo tempo eu precisava — preciso — do teatro, então tinha que entender qual era o meu lugar. Mas sei também que os lugares mudam. Ainda que continue me parecendo muitíssimo remota, não desconsidero a possibilidade de um dia atuar. Da mesma forma, acho que só sou diretora quando e se dirijo.

E a escrita?

DH – Também é um lugar constantemente em crise (risos). Minha mãe tem uma relação forte com as palavras — cresci e continuo envolvida por muitos livros, para o desespero de minha alergia —, e meu irmão do meio, que sempre foi uma referência para mim, é jornalista, então o interesse surgiu naturalmente.

Havia uma predileção entre prosa e poesia?

DH – Não. Nem há. Os primeiros livros de que participei foram de contos, mas o primeiro livro que lancei foi de poesia.

E como é essa definição? Ainda há essa separação: fulano é poeta, sicrano é escritor, beltrano é contista…

DH – Há quem prefira impor e se impor limites. Quanto a mim, não consigo, nem quero, me tachar assim ou assado. Meu próximo livro é de fragmentos. Se eu disser que é poesia vão falar ok. Se eu afirmar é prosa vão dizer ok também (risos). Para mim, chamar de texto é suficiente.

Quando li o livro Dois que não o amor (7letras, 2007), entendi como uma história só… Como foi o processo desse livro?

DH – Começou com poemas esparsos. Alguns vinham de longe, dos meus dezessete anos. Claro que os retrabalhei. O livro ficou pronto quando fiz 21, mas esperou Godot durante um ano na gaveta. Godot era alguma editora que o bancasse. Não rolou, e isso sim é de se esperar quando se trata de um autor estreante.

E esse título misterioso?

DH – Dois que não o amor? (risos) Hum… Prefiro não explicar. Seria um pouco autoritário.

O que é o amor?

DH – (risos) Ah, eu sabia que você ia me perguntar isso! Mas, se eu soubesse, não escreveria sobre o assunto.

Tá bom. Mas se eu exigisse uma definição… (risos)

DH – Então eu responderia que espero que não tenha nada a ver com o do meu livro (risos). Nem com os que tive até hoje, que me exauriram…

Você ainda acredita no amor?

DH – Não duvido (risos)

Não?

DH – Não.

Como é lidar com essas personas: escritora, poeta, diretora?

DH – Para mim, é lidar com a escolha da linguagem. Não sei se há conflito (pausa). Mentira. Há conflitos.

Dirigir uma peça de teatro é como escrever um livro?

DH – Não, absolutamente. Até porque, antes mesmo da questão de serem linguagens distintas, o diretor é uma figura pública, então, por mais que esteja nos bastidores, está sempre socialmente ativo. E estar socialmente ativa me cansa. Ainda que isso não seja regra, para mim o lugar do escritor é o do recolhimento. Nesse sentido, fico mais à vontade como escritora — ainda que escrever também provoque outros desgastes.

O que é desgastante na escrita?

DH – A dificuldade. Para chegar a um parágrafo bom é preciso lapidar, lapidar, lapidar. Bem, mas, até aí, a verdade é que no teatro também.

O processo de criação da direção e da escrita são diferentes?

DH – Diferentes na medida em que são linguagens e meios distintos. Mas acabam, cada um à sua maneira, obedecendo à seguinte ordem: experimentação (armazenamento de conteúdo) e edição. É assim que vem funcionando para mim, ao menos. Também são diferentes pelo que acabo de te dizer: ao dirigir, além da dificuldade da criação, é preciso lidar com os entraves do coletivo. Não que o coletivo não possa ser agregador, mas a verdade é que não é toda equipe que se dispõe a arriscar. Então, ao conduzir um processo experimental, além de o diretor lidar com as próprias dúvidas, às vezes precisa ter ânimo para não se deixar abater pelas dúvidas alheias. Mais que isso, precisa atuar como psicólogo ou marqueteiro, defendendo o projeto. Quando se trata de atores, por exemplo, muitas vezes eles são agressivos, exigem respostas. E isso pode me deixar tensa, porque, quando começo um processo desses, não tenho respostas, nem quero ter.

Você é reclusa?

DH – Recluso é um rótulo como tantos outros, mas, considerando isso, sou reclusa (risos). Eventualmente, tento não ser.

Tem um poema do livro que fala sobre isso, até sublinhei: “Não serei mais socialmente sóbria. / Cansei-me de pessoas ao redor. (…)”.

DH – É, me sinto mais tranquila com poucas pessoas à minha volta. Mas, claro, estamos falando de um livro e não de uma biografia.

É mais difícil lidar com atores ou escritores?

DH – A questão é que não preciso dirigir os escritores (risos).

Você é filha única?

DH – Não. Tenho dois irmãos mais velhos.

Sua mãe tem um sebo online?

DH – Sim, o XPTW Livros.

Por que esse nome?

DH – Minha mãe tem umas gírias estranhas. Uma delas é essa. Ela fala “aquilo ali é muito XPTW”…

(risos) Como assim? Agora entendi a dedicatória do seu livro.

DH – Pois é. Não dá para explicar, porque XPTW é uma palavra polissêmica. De toda forma, é uma dedicatória bem pessoal.

Quantos blogs você tem?

DH – Muitos, mas grande parte só para mim. Os públicos são o Ainda há música, o Mais de mil palhaços no salão — que é a quatro mãos com outro escritor, o Bruno Domingues Machado —, os finados Candeia de Vento e Meus Cotos e, por fim, o não saber a morte.

Você tem uma teoria do blog como obra…

DH – É, na verdade, um tema de estudo. O blog tem uma linguagem subutilizada. Vejo nos elementos que ele oferece potência para a composição de uma obra literária interessante, nunca entendi como demérito ser “escritor de blog”. O demérito não pode ser o meio, mas a forma como ele é aproveitado. Acho que isso não se restringe a blogs.

Você tem vontade de fazer mestrado sobre esse assunto?

DH – Já faço, só não oficializei (risos).

Me fala sobre esse prêmio que você ganhou com o blog não saber a morte.

DH – Foi um prêmio muito bacana do Fórum Virtual de Literatura da UFRJ. Tem a ver com o que eu disse agora sobre a linguagem do blog. Não adianta eu falar, porque acabaria me focando na história e a história não é o ponto. Tem que acessar para ver.

Você faz parte de um coletivo de literatura. Por quê?

DH – Um coletivo de literatura que busca lugar para promover a literatura, para abrir espaço para o debate.

Com tantas opções de entretenimento e informação, as pessoas estão interessadas em literatura?

DH – Sim. Sempre houve e sempre haverá pessoas interessadas em literatura. Não quero dizer que há milhares delas. Já participei de eventos sensacionais em que a plateia era formada por pouquíssima gente. Também não estou dizendo que grande parte não seja composta pelos próprios escritores. Ou que não haja aqueles que são mais seduzidos pelo lobby que propriamente pelo debate. Nenhuma dessas ressalvas invalida a importância desse espaço.

Quem você aponta como referência?

DH – Há muita referência. David Lynch, Gus Van Sant, Won Kar Wai, Rohmer, Polanski, Tarkovski, Antonioni, Fellini, Truffaut, Pasolini, Glauber Rocha, Beckett, Kafka, Perec, Sade, Cortazar, Goya, Hopper, Nietzsche, Artaud… Música, então, nem se fala. Uma vez, um amigo me disse “ainda que não haja mais nada, ainda há música”. Foi daí que criei meu blog Ainda há música, em que posto diariamente o que ando ouvindo.

Na antologia Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005), você escreveu um texto chamado “Vãos”, em que se inspira numa obra do Ismael Nery. Como surgiu o convite?

DH – Veio através do Marcelo Moutinho. Eu havia mostrado um outro conto para o Flavio Izhaki, que o repassou para o Marcelo. Eles estavam procurando gente nova para a antologia.

Foi difícil escrever um conto inspirado numa tela?

DH – Foi bem difícil. Mas principalmente porque eu acreditava que deveria escrever um “conto”. A palavra “conto” limita tudo. Ou, na época, eu sentia assim.

O que você sente mais dificuldade de escrever: conto, poesia ou romance?

DH – Nunca escrevi um romance, ainda é um projeto. Mas não acho que vou ter um problema de gênero. O que é um romance? Sei que há milhares de respostas preconcebidas, e não quero adotar nenhuma delas.

Por que você escreve?

DH – Escrevo… Para respirar melhor. Não sei. Qualquer coisa que eu responder, mesmo que sincera, vai soar cafona (risos).

E o teatro?

DH – O teatro é pelo aqui e agora. Mas digo aqui e agora no sentido de perto e vivo. Normalmente — para toda exceção, tem sua regra — não me comovo com o teatro que parece cinema realista ou clássico-narrativo. Considero teatro o que põe o aqui e agora em risco.

O ator é o coração do teatro?

DH – Não. Não sei se precisa de ator para ter teatro. Muito menos se o teatro tem coração.

Que ator você admira?

DH -  Vou citar quatro atrizes novas e do Rio: Marina Hodecker, Paula Lanziani, Giselle Sabattini e Clarisse Zarvos.

No seu livro, há um poema sobre felicidade: “Feliz, como se houvesse possibilidade. / Abraçada a alguém, o cigarro em seu pescoço, seria feliz: / saltos, verdes campos. (…)” O que é a felicidade? Que doença é essa que nos persegue?

DH – Felicidade é uma palavra que não me diz nada. Mas se você me perguntar o que me faz bem, respondo que costuma funcionar quando tenho tempo para parar, me sentar e olhar para uma árvore. Aqui ao lado, no jardim do Palácio do Catete, é um ótimo lugar para isso. Ou, no caso de não ter tempo para jardins, às vezes funciona simplesmente sentar no sofá da casa e olhar para a estante (risos). Mas tenho vontade de morar fora. De perceber concretamente que o mundo é maior do que “x” problemas. Porque as coisas se repetem muito e quando elas se repetem muito num mesmo lugar, fica cansativo. É preciso mudar o lugar. Mas não se trata necessariamente de questão geográfica, claro, senão teria de se virar nômade (risos).

Para escrever, você precisa de tranquilidade?

DH – Não preciso sofrer para escrever, mas o que escrevo precisa ser para mim um problema. Não me comove a literatura que não me apresenta problemas. De toda forma, definitivamente não escrevo jorrando. Reescrevo muito mais do que escrevo. Vejo o trabalho de escritor como sobretudo o de edição. E não sinto escrever como sofrido, mas como um alento.

O que você sente quando escreve?

DH – É como um jogo. Primeiro, mais aeróbico. Depois, mais racional, matemático.

Você acredita em deus?

DH – Não.

Por quê?

DH – Por que acreditar em Deus?

Em que você acredita? No acaso?

DH – Em que eu acredito? (pausa) Vou te dizer que essa é para mim uma questão. Mas me disseram, e acredito nisso, “descrentes não existem”.

Você acredita na arte? Na palavra?

DH – É… Deve ser…

Não quero induzir ninguém a acreditar em nada… (risos)

DH – E viva o amor! (risos)

Como é essa relação com a palavra?

DH – Não é à toa que o título do meu blog é Não proferir palavras em vão. É mais ou menos essa a minha relação. Por isso, não gosto de falar oralmente; não há tempo de reflexão (risos). Você sabe disso, porque pedi que fizéssemos essa entrevista por e-mail. Falar é um convite para muitas palavras em vão. Claro que daí você poderia me perguntar “mas quando não é em vão?”. E eu não saberia te responder.

O que é preciso para ser escritor?

DH – Ver. Todo o resto se exercita. Para ver é preciso coragem.


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