IGOR COTRIM

LIBERTADO PELAS PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

nelson

 

Fico muito feliz por poder compartilhar a entrevista que realizei com o escritor moçambicano, Nelson Saúte – publicado no Brasil pela editora Língua Geral. “Fui libertado pelas palavras. Eu me libertei através da cultura”. As palavras desse homem são um verdadeiro um incentivo à arte de escrever.

“Quando tinha uns oito anos, conheci o filólogo Antônio Houaiss e ele me disse: ‘Sou de uma cidade muito bonita: o Rio de Janeiro. Um dia você vai crescer, começar a viajar e ver que não estou mentindo. Mas você vive em Maputo, que é uma cidade maravilhosa.’ Esse episódio me marcou muito. E tem uma coisa, o pôr do sol na África é o que de melhor a condição humana pode experimentar”.

Nelson se atrai pelas metrópoles do mundo como se entrega à poesia do dia a dia, sempre levando um pedaço da África em tudo que realiza. Basta ler os contos do seu último livro, Rio dos Bons Sinais, para comprovar o que digo.

“Não escrevo com os pés numa bacia de água ou contra a parede. Escrevo poemas no celular, por exemplo. Há momentos de inspiração, sim, mas o mais importante é o trabalho. É um trabalho de marceneiro”.

Seu modo de enxergar a vida demonstra uma sabedoria de quem sobreviveu à violência, em Moçambique, nos emblemáticos anos 80. Mas nem por isso seu texto é rancoroso ou pessimista, muito pelo contrário, valoriza sentimentos nobres como amor e solidariedade.

“Escrevo sobre o sonho de sobreviver. A grande profissão dos moçambicanos é sobreviver”.

Essa conversa aconteceu num hotel em Ipanema, no Rio de Janeiro, durante a passagem do escritor pelo Brasil, no mesmo dia do encontro com a escritora portuguesa Patrícia Reis.

No dia 20 de novembro, é comemorado, no Brasil, o Dia da Consciência Negra. Você já sofreu preconceito por ser negro?

Nelson Saúte – Não noto esse preconceito no meu país. Percebo-o mais em outros lugares. Há circunstâncias em que sou o único preto, então tenho que lutar. Existe preconceito, sim; os pretos do Brasil ou de qualquer parte do mundo têm de se sentir tão cidadãos como os outros. Não acho que você é um cidadão diferente porque é mais branquinho. Eu me libertei através da cultura, fui libertado pelas palavras. Se você é uma pessoa inteligente, tem que responder ao preconceito com inteligência. Não temos que reclamar como negros, mas como cidadãos. Não sou um “escritor negro”. Sou escritor. Sou cidadão. Enxergo as pessoas pelo que elas são e não por conta da cor.

Quando você começou a se interessar pelas letras?

NS – O interesse pela literatura é um território banal. Acho que todos nós começamos pelos livros. Nasci numa família muito humilde. Meu pai foi conferente de carga de uma estrada de ferro por mais de quarenta anos. O encontro entre meu pai e minha mãe se deu sob o signo do livro. Ela entrou num ônibus, no subúrbio de Moçambique, e o viu lendo um livro chamado Alice Sampaio e ficou atenta, pois se chamava Alice. Ela se interessou pelo livro, foi assim que começou o romance deles. Acho maravilhoso ter vivido numa casa cheia de livros, com pais de gostavam da leitura, mas isso não quer dizer nada, porque meus irmãos não têm nenhum interesse por literatura. Quero dizer que o interesse começa na infância, porque a gente se deixa influenciar por um livro ou por alguém. Ou qualquer coisa que eu puder inventar agora para que você possa dizer que a história do escritor moçambicano é fantástica. Sou tão banal como qualquer outro.

Gostaria que você falasse um pouco sobre a importância dos anos 80 na sua vida.

NS – Falo muito dessa época porque foram anos emblemáticos. Moçambique se tornou independente em 1975, portanto nossa democracia é muito recente – apenas 32 anos. Eu tinha sete. Os anos 80 foram muitos difíceis; período de quase bloqueio do país, faltava de tudo. Tínhamos a profissão de formar filas – acordávamos as quatro da manhã e íamos para a fila –para conseguir carne, pegar um pedaço de pão… Muitas vezes, quando chegávamos, a carne já estava esgotada e não havia o que comer. Nessa época, a profissão do padeiro era a mais generosa e importante do mundo, porque não havia pão. São anos de extrema violência – em que a guerra atinge sua expressão mais violenta –, mas, ao mesmo tempo, de grande humanismo. Anos em que as pessoas viviam de portas abertas e todos saiam às ruas para pedir emprestado um bocado de açúcar. As pessoas iam até a casa do outro para ver a novela O Bem Amado, mas chegavam mais cedo para poder jantar. Comíamos o queijo enviado pelo Ronald Reagan, e aquilo nos dava uma imensa alegria porque saíamos de casa sem comer nada. Anos do repolho, um prato de repolho feito mil e uma vezes, sem mais nada. São anos de humanismo, que me trazem uma nostalgia incomensurável. Por isso sou o que sou. Acredito que no código genético da minha geração está gravado os anos 80. Moçambicano que se preze viveu nos anos 80. Quem sobreviveu nos anos 80 em Moçambique sobrevive a qualquer coisa…

O que você guarda dessa experiência?

NS – Tiro muitas coisas. Acho que escrevo melhor sobre a década de 80. Década de todas as esperanças e desesperos. Década que vi desaparecer grande parte da minha geração, vi muitos amigos morrer. Eu também morri de alguma forma… É tanta coisa que não sei dizer.

(Nelson se emociona e para de falar.)

Depois de tudo isso que você vivenciou, como é ser escritor em Moçambique hoje?

NS – Acho que sou um homem de muita sorte, um homem privilegiado. O fato de ter hoje a minha literatura reconhecida é importante. Principalmente por ser reconhecido no Brasil, um país importante para mim. Meu pai, ainda vivo, é apaixonado por música brasileira. Acordávamos todos os dias ao som de Martinho da Vila. Desconfio que meu nome tenha a ver com o músico Nelson Ned. Lembro muito de ouvir, na minha adolescência, Roberto Carlos e Lindomar Castilho. Através da música e da palavra, me libertei! A bossa nova é muito importante para mim; Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso têm importância fundamental. Ou a poesia do Carlos Drummond. Tudo isso faz de mim o que sou. O que me dá mais felicidade é saber que o Brasil também está descobrindo os escritores moçambicanos. Aliás, defendo a ideia de que o Brasil tem uma dívida de afeto conosco, porque amamos imensamente o Brasil.

O escritor Ruy Guerra assina apresentação do seu livro. Fiquei surpreso ao descobrir que ele é moçambicano…

NS – Em 1958, esse moçambicano veio para o Rio de Janeiro, depois de estudar cinema em Paris e contribuiu demais para o Brasil. Fiquei muito feliz em ter um conterrâneo no meu livro; fico feliz demais com a presença desse “carioca-moçambicano” por perto. Quando eu era jornalista, perguntei a ele como um jovem sai de Moçambique para estudar cinema em Paris e depois se instalar no Brasil. E ele respondeu: “Nós de Moçambique amamos o Brasil.”

O que mais o tocou quando conheceu o Brasil?

NS – Difícil dizer. Só este ano visitei quatro vezes o Brasil, tenho quase uma família aqui. Sou um homem perfeitamente urbano, adoro o Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque, Madri, Lisboa – onde vivi cinco anos da minha vida. Tudo o que é grande cidade me fascina. As livrarias me encantam muito. Chegar em Madri e ir à Casa Del Libro é fantástico, me torna mais feliz. Eu e a (escritora) Patrícia (Reis) estamos no Rio de Janeiro e almoçamos todos os dias na (livraria) da Travessa. No fundo, sou um animal da grande cidade. Mas nasci numa cidade muito linda, Maputo é muito bonita. Quando tinha uns oito anos, conheci o filólogo Antônio Houaiss e ele me disse: “Sou de uma cidade muito bonita: o Rio de Janeiro. Um dia você vai crescer, começar a viajar e ver que não estou mentindo. Mas você vive em Maputo, que é uma cidade maravilhosa.” Esse episódio me marcou muito. E tem uma coisa, o pôr-do-sol na África é o que de melhor a condição humana pode experimentar. Aconteceu uma coisa interessante aqui no Brasil. Fui cortar o cabelo e fazer as unhas, essas maluquices que a gente inventa, e fui atendido por uma “miúda” muito bonita, que veio do Pará. Por conta disso escrevi esse poema:

(Nelson tira um celular do bolso e começa a ler o poema)

Perdoai-me Senhor

Nunca fui a Belém do Pará

Eu vim do Sul do Equador

Trago poeira nos olhos

Mas enxergo-a como vento

E beleza que geraste

No vento híbrido de Belém

Perdoai-me Senhor

Hoje é um dia sorumbático

Chove na Cidade Maravilhosa

Mas eu banho-me de sol

Com esses olhos do Atlântico

Iluminando-me de azul

Como os pintores que me assombraram

Desde o dia inaugural, Senhor

Perdoai-me Senhor

Sou um homem feliz

Você, além de escritor, é professor de ciências da comunicação. Fale um pouco sobre esse trabalho.

NS – Na minha vida de jornalista, o que mais fiz foram entrevistas. Aliás, publiquei livros de entrevistas, fiz antologias e divulguei muito o trabalho dos outros – igual ao que você está fazendo agora. Isso, às vezes, é um trabalho mal compreendido, e que gera muita inveja. Mas nos dá notoriedade, quando é bem feito. Acho que fui excelente jornalista, modéstia à parte. Acho que foi importante para o meu país e para Portugal, num contexto que havia um olhar diferente. Mas eu não queria ser jornalista e sim escritor. Acredito que o jornalismo é um bom exercício para um escritor, pois se aprende a conduzir pelo trilho da condição humana. O jornalismo ensina a amar os outros. A minha vida é me interessar pelo outro. Quem não se interessa pela matéria-prima chamada homem não pode escrever. O olhar de uma mulher ou o rosto do homem são páginas para escrever.

O Apóstolo da Desgraça (estórias; Publicações Dom Quixote, Lisboa); Os Narradores da Sobrevivência (romance; Publicações Dom Quixote, Lisboa); As Mãos dos Pretos (Publicações Dom Quixote, Lisboa) e Rio dos Bons Sinais (Língua Geral). De todos os seus livros publicados qual o seu predileto? Por quê?

NS – O mais importante é sempre o próximo.

No seu livro, a morte é muito presente. Por quê?

NS – A morte está muito perto de nós. Principalmente dos moçambicanos. A morte, na minha realidade, é coisa cotidiana. Todos os dias, quando abro o jornal, é olhar a página de óbitos. Uma das coisas importantes em Moçambique é ir aos funerais. Não se conhece a pessoa que morreu, mas é importante estar lá para ser solidário. Para mim isso é uma coisa normal, é o universo em que vivo. Quase todas as semanas vou a um funeral.

Você tem medo de morrer?

NS – Não. O que escrevo não tem nada a ver com medo de morrer. A única coisa que me dava medo era morrer jovem e deixar os meus filhos numa situação insegura. Não tenho medo ou pânico, a minha relação com a morte não se dá por isso. Se você me perguntar se a morte me obceca, responderei que sim. A presença da morte no que escrevo vem das histórias sobre morte na casa da minha bisavó e também pelo fato de ter visto um caminhão cheio de cadáver nos anos 80. Mas o meu livro não é sobre a morte, é sobre o desencontro da vida, é sobre a condição humana. Escrevo sobre o sonho de sobreviver. A grande profissão dos moçambicanos é sobreviver.

Você acredita em Deus? Tem religião?

NS – Não, não acredito em Deus. Acredito em deuses, é outra história. Acredito nos meus antepassados. É complicado acreditar nesse Deus de olhos claros, para mim é muito difícil. Acredito em deuses. Em momentos de recolhimento penso nos meus antepassados.

O que você lê?

NS – Brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Rubem Fonseca, Jorge Amado… Também leio os novos autores. Outro dia li o Mauro Santa Cecília. Gosto do Tony Bellotto! Tem o Agualusa, a Patrícia Reis, a Inês Pedrosa…

Como acontece o seu processo de criação?

NS – As coisas vêm de repente. Não tenho ritual. Não escrevo com os pés numa bacia de água ou contra a parede. Escrevo poemas no celular, por exemplo. Há momentos de inspiração, sim, mas o mais importante é o trabalho. É um trabalho de marceneiro.

Por que escrever?

NS – Porque é isso que me dá sentido na vida.

O que você diria aos jovens que desejam ser escritores?

NS – Um bom escritor é um grande leitor. A leitura que faz o escritor. O exercício do escritor não é sonhar e sim ler para buscar a sua própria voz. Tem de se ter curiosidade pelo trabalho dos outros. Antes de ser um bom escritor, seja um bom leitor. Um conselho? Tranque-se num quarto e leia, leia sempre!


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