CLARAH AVERBUCK

PERSONAGEM DE SI MESMO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

clarah

 

“Nós que não somos como as outras”. Clarah Averbuck tem o título do livro da escritora espanhola, Lucía Etxebarria, tatuado no corpo. E definitivamente ela é diferente: é uma mulher de personalidade forte. Talvez por isso, uns a adorem e outros a detestem.

“Sou eu e é uma ficção. A partir do momento que está escrito não interessa se é verdade ou não. As pessoas se preocupam muito com isso. Aconteceu ou não? As pessoas sabem o que deixo elas saberem. Só quero escrever e não me incomodem muito. Elas deviam ler e não se importar tanto”, declara.

Se todos somos personagens de nós mesmos, eu diria que Clarah se diferencia por assumir esse papel. Com tudo isso, misturado com sua literatura, ela também atraiu a atenção do diretor de cinema Murilo Salles, que adaptou sua obra para o cinema. Em Nome Próprio sua história é vivida pela atriz Leandra Leal.

“Gostei [do filme], mas fiquei chateada com a modificação que fizeram no meu texto que aparece na tela. Eu escrevi o texto, reescreveram no meu lugar, escrevi novamente e acabou ficando uma coisa diluída. As pessoas sabem que é baseado na minha obra e o que aparece escrito no filme não é meu. Isso me incomoda”, reclama a autora.

Máquina de Pinball (Editora Conrad); Das coisas Esquecidas Atrás da Estante(Editora 7 Letras) e Vida de Gato (Editora Planeta) são seus livros publicados. Ela prefere o último! E já está com outros três no prelo: Toreando o DiaboDelírio de Ruína (em parceria com a estilista Rita Wainer); Eu Quero Ser Eu(contemplada pelo Programa Petrobrás Cultural).

“Lembro que sempre escrevi. Eu me divertia escrevendo, assim como me divirto hoje. É um grande prazer. Não teve um dia em que decidi me tornar escritora. Só me dei conta de que estava indo para esse caminho. A minha mãe sempre leu muito, ela escrevia também. Sou filha de artista, meu pai é músico e ator. Tive isso tudo muito forte em casa”.

Quando não está escrevendo, ela está “cuidando da filha, fuçando pela Internet ou bebendo pelas ruas…” Li sua obra recentemente, depois de assistir a pré-estreia do filme, no Odeon BR, no Rio de Janeiro, local onde aconteceu essa conversa.

A entrevista foi realizada em companhia da poeta Maria Rezende e do músico, escritor e cineasta Rodrigo Bittencourt, que estava produzindo um documentário sobre a Clarah para o Canal Brasil.

O que achou do filme Nome Próprio, de Murilo Salles?

Clarah Averbuck – Gostei, mas fiquei chateada com a modificação que fizeram no meu texto que aparece na tela. Eu escrevi o texto, reescreveram no meu lugar, escrevi novamente e acabou ficando uma coisa diluída. As pessoas sabem que é baseado na minha obra e o que aparece escrito no filme não é meu. Isso me incomoda.

Seu livro Máquina de Pinball (Editora Conrad) ganhou adaptação para o teatro, roteirizado por Antônio Abujamra e Alan Castelo, em 2003…

CA – Odiei muito. Estava grávida e quase pari de desgosto. Juro por Deus! Acabou que o Abujamra não teve muita participação na montagem, foi montado por outra pessoa. E a atriz também não era boa, ficava dando piruetas no monólogo. Tudo com a entonação errada: quando era para ser blasé ela gritava, e quando era para gritar ela era blasé. Eles não mexeram no texto, nada, tudo estava lá. É o inverso do que aconteceu no cinema, que tem a Leandra Leal com uma interpretação maravilhosa.

Como a escrita chegou até você? A família influenciou?

CA – Lembro que sempre escrevi. Eu me divertia escrevendo, assim como me divirto hoje. É um grande prazer. Não teve um dia em que decidi me tornar escritora. Só me dei conta de que estava indo para esse caminho. A minha mãe sempre leu muito, ela escrevia também. Sou filha de artista, meu pai é músico e ator. Tive isso tudo muito forte em casa.

Quando você percebeu que queria apenas escrever?

CA – Quando me mudei para São Paulo. Antes eu trabalhava numa agência de publicidade em Porto Alegre, mas não queria ser redatora publicitária. Meu chefe dizia que eu tinha grande potencial, mas eu não queria. Teve a ver muito com o John Fante isso. Tenho um ciúme do Fante! Todo muito chega falando dele como se conhecesse. Teve a ver com o (Arturo) Bandini, na verdade. Achei que estava saindo do colorado para ser uma escritora em Los Angeles… (Risos.) Cheguei a cursar letras e jornalismo. Mas sou vagabunda, não gosto de estudar, de trabalhar…

Foi assim que surgiu o pseudônimo Camila?

CA – Camila já meio que existia. Eu publicava com outro nome quando namorava, usava o da Camila. Já era um alter ego meu, depois assumi. As pessoas que estiverem perto de mim vão entrar na minha literatura…

Dá para traçar um paralelo com o pseudônimo do Bukowski?

CA – Acho que dá para traçar um paralelo com várias pessoas que escrevem usando um alter ego. Ou que escrevem usando a vida como matéria prima. Não necessariamente o (Henry) Chinaski.

Esse alter ego da literatura se infiltra na sua vida?

CA – Sou eu. Não tem o que se infiltrar. Sou eu e é uma ficção. A partir do momento que está escrito não interessa se é verdade ou não. As pessoas se preocupam muito com isso. Aconteceu ou não? As pessoas sabem o que deixo elas saberem. Só quero escrever e não me incomodem muito. Elas deviam ler e não se importar tanto. Mas também tenho essa curiosidade: fui para Los Angeles para ver onde o Fante morava. Há três, também fui visitar o túmulo do Bukowski e deixei uma garrafa de Ypióca lá.

Como é a relação da música e da literatura?

CA – Sou 50% música e 50% literatura. Fiz outra banda agora, não tem nome ainda. Quero um nome em português. Gosto muito de ouvir Vanguart, uma banda de Cuiabá ótima! Porcas Borboletas, uma banda de Uberlândia excelente! Ainda pouco eu estava ouvindo Rolling Stones. Gosto de Velvet Undergound, Fiona Apple, Bob Dylan…

E música brasileira? Você quase não tem referencia brasileira.

CA – Quase não ouço. Não me identifico com as coisas daqui. Não bate. Mas, em literatura, gosto muito da Márcia Denser – minha irmã mais velha –, do Leminski, da Cecília Giannetti – uma grande amiga –, do Daniel Galera, do Mário Bortolotto – o cara com quem mais me identifico –, e não li a Mayra Dias Gomes, mas também gosto bastante dela, diante de quem me sinto uma tia! Ela falou que leu meu livro aos 14 anos. Agora estou lendo o Guimarães Rosa.

Atualmente você escreve o blog Adiós Lounge. Por que você acabou com o seu primeiro blog, o Brazileira Preta?

CA – Enchi o saco, cansei e não tava mais a fim de escrever lá. Depois fiz um blog escondido. Casei, e o casamento me consumiu, a gente se consumia muito. E para escrever se precisa de solidão. O que escrevo é muito visceral. Não posso esconder ou fugir. Eu fujo é das pessoas, que, de maneira geral, são muito chatas. Não têm muita coisa a dizer e isso me irrita bastante. Falam, falam e não falam nada. Antes eu até discutia com elas, mas agora não tenho mais paciência, me retiro.

E existe literatura de blog? Você acha que você se encaixa em que lugar na literatura?

CA – Quem tem que saber disso são vocês… (Risos.) Não existe literatura de blog; não existe. É apenas um meio de publicação com uma data embaixo. Por isso, tem blog de receita de bolo, de resenha de discos, de política… É apenas um rótulo idiota. Quero escrever, não quero me inserir em nada. “Literatura pop” é outro termo de que não gosto.

Como é seu processo criativo?

CA – Ando com um caderninho na bolsa, quando tenho vontade vou lá e escrevo. Não tenho regra para nada! Nem para comer, dormir ou escrever. Sou completamente desregrada.

A metrópole está muito presente na sua literatura. Tem vontade de sair de São Paulo? Voltar para Porto Alegre?

CA – Voltar para Porto Alegre nunca mais! Fugi de lá, para que vou voltar? Apenas para visitar as pessoas, mas nunca mais morar lá. Nem quando ficar velha e herdar a casa dos meus pais; minha filha que vai cuidar disso. Gosto de cidade grande e de barulho. Só saio de São Paulo para ir embora do Brasil. Tenho uma relação de amor e ódio com São Paulo. Moro num lugar muito feio, na Praça Roosevelt. Feio, cheio de concreto, mas há certa beleza naquilo tudo.

E o Rio de Janeiro a atrai?

CA – Ah, vou ser um pouco hippie: o Rio tem uma mágica, uma coisa no ar… Gosto muito da arquitetura, dos prédios antigos e do mar – sempre! Esses prédios brotando em meio das pedras, essas pedras brotando em meio aos prédios.

Você teve sua filha num parto normal, em casa. Depois que ela nasceu, o que mudou na sua vida e literatura?

CA – Na minha literatura, nada. E as pessoas fazem muito alarde dizendo que filho muda tudo. Tem aquelas pessoas que deixam de ser elas mesmas: param de sair, engordam, não se penteiam mais. Sou a única mãe que posso ser. O que ela vai achar das coisas que escrevo? Espero que goste! Não tem muita putaria. Mas outro dia me tacharam como literatura erótica…

O que a atrai na vida?

CA – A paixão. O que me atrai é a paixão: por um homem, por um livro, pelo Rio de Janeiro, por um filme, pela arte em geral. Coisas que fazem o coração bater mais rápido.

Quantas tatuagens você tem?

CA – Não sei. Quer contar? Já tentei contar algumas vezes, mas me perco. Tenho umas vinte e poucas. Faço tatuagens com minhas amigas, tenho essa mania. É melhor do que fazer aliança com homem, né? Amizade, quando é de verdade, não acaba. Tenho interesse por moda, tenho muitos amigos do mundo da moda. Gosto de me ornar. A roupa também é maneira de se comunicar, se colocar. Sou muito vaidosa.

Há leitores que acreditam que seus gatos são alter egos. Como é sua relação com os felinos?

CA – (Risos.) Convivo com gatos há muito tempo. Tenho três e minha mãe uns cinquenta. Sem exagero! Claro que eles existem. Tem o Joo, a ‘A gatinha’ e outro que se chama Jimi Hendrix – mas este minha filha mudou para Marcelo, nome do pai dela.

O que diria para os jovens que querem escrever?

CA – Escrever não é brincadeira. Tem que levar a sério, colocar uma alma, porque senão fica apenas uma palavra depois da outra. A pessoa tem que dar um pouco do sangue dela para acreditar no que escreve. Não é para qualquer um.

 

Clarah Averbuck entrevista por Ramon Mello (2008) com participação de Rodrigo Bittencourt e Maria Rezende

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