CID MOREIRA

A VOZ DO BRASIL

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

cid

 

Durante 27 anos, sua voz grave e inconfundível foi responsável por informar milhões de brasileiros nos cantos mais remotos do país. A vasta carreira de Cid Moreira é lembrada não só pelo Jornal Nacional, da TV Globo, mas também por diversas locuções no rádio, cinema, além de seus comentários no final do Fantástico.

Nascido em Taubaté, São Paulo, no ano de 1927, o narrador já conta com mais de 60 anos de carreira, marcados pelo “Boa noite” que proferia aos espectadores na hora de finalizar um programa, que o credenciou como umas das personalidades mais queridas e conhecidas da radiodifusão brasileira.

Não por acaso, a expressão compôs o título de sua biografia, lançada este ano e escrita pela jornalista Fátima Sampaio Moreira. Boa noite: Cid Moreira, a grande voz da comunicação do Brasil aborda a vida do locutor desde a infância, passando pelos momentos marcantes da carreira até a atualidade, quando passou a narrar textos bíblicos. A obra traz ainda imagens do apresentador ao longo dos anos, com diversos nomes da comunicação do Brasil e histórias curiosas que ocorriam nos bastidores de seus programas.

No quintal de sua casa, no Rio de Janeiro, o casal Moreira concedeu uma entrevista com exclusividade para o Saraiva Conteúdo.

Como é rever a sua vida num livro?

CM – É uma situação inédita pra mim. A minha vida eu divido em fases. Teve a fase do rádio no interior, do rádio nas capitais, primeiro em São Paulo e depois vim para o Rio. Depois uma ligeira fase no teatro, fiz uma narração. Até que comecei na televisão. Tive fase também no cinema. Gravei um jornal que foi o primeiro a dar closes nos jogadores após o jogo, a expressão do goleiro que, por exemplo, comeu um frango. Era o Canal 100. Eu nunca imaginei isso. Com o lançamento desse livro pude avaliar a extensão daquilo que eu representava para o público. Só mesmo tendo contato corpo a corpo, como eu tive no lançamento desse livro, em que recebi carinho de muita gente pelo país todo. As pessoas vão criando cada vez mais uma lenda em torno da pessoa, do nome, da voz. Eu conheço, por exemplo, muito profissional aí com a voz muita boa, boa aparência, mas que não teve relevo nenhum. É uma questão daqueles que conseguem ter uma oportunidade e o público gosta, a pessoa passa a viver aquela fase. E o nome começa a ser construído ali.

Você começou no rádio. Fale um pouco do que significou essa escola pra você.

CM – Está tão longe. Tem mais de 60 anos. Começou lá em Taubaté. Agora, há uns dois ou três meses eu estive lá no lançamento do livro, que o prefeito fez num cinema antigo que eu frequentava quando garoto. Eu tive também a oportunidade de dar uma entrevista na rádio que eu comecei e lembrar daquela época. Enfim, é uma volta, uma regressão na história. É muito sensacional. Antigamente, as novelas radiofônicas tinham grande audiência. Eu fui narrador de uma delas. Ator mesmo, não. No cinema, eu fiz algumas pontinhas, mas tudo com relacionamento com o rádio.

Como foi a transição do jornalismo para a narração de textos bíblicos?

CM – O jornalismo foi uma fase que já passou. Hoje eu estou inteiramente dedicado à produção, divulgação da bíblia. Mensagens por telefone. Todas elas relacionadas com o conteúdo bíblico. A coisa vem acontecendo. Eu acho que o início de tudo isso foi no Fantástico. Evidentemente que o Jornal Nacional também tinha uma projeção maravilhosa. O “Boa noite”, tanto que é o titulo do livro, marcou muito. Mas eu acho que o que deu origem a essa fase minha bíblica e de narrador foi o Fantástico, porque no final do programa era feito um comentário, uma crônica, baseada em alguma matéria veiculada no programa. E aquilo marcou muito. Quando eu viajava por aí, naquela época eu não viajava muito, mas no pouco que eu viajava eu sentia um interesse do publico dizendo: “Eu não perco o final do Fantástico para ver o que você vai falar.” Aquilo ali marcou porque, o jornal, por exemplo, era um noticiário. Já o final do programa era uma fala mais coloquial. As pessoas foram vendo. Aquilo foi marcando e criando um outro caminho na profissão que é o de narrador. Então eu recebi, na época, um convite. Foi uma gravação de grande sucesso, que está fazendo sucesso nos Estados Unidos, que foi o Desiderata. Uma mensagem encontrada numa Igreja num Estado dos Estados Unidos. O narrador lá foi o famoso, falecido ator, Anthony Queen. E fizeram uma versão aqui e essa gravação foi produzida pela Som Livre. Eu fiz a gravação, depois o primeiro clipe também que eu fiz, que foi um sucesso, para o Fantástico. E aí os convites foram acontecendo. Depois gravei para as irmãs paulinas, umas quatro produções, oração número 1, número 2 e tal. Depois também tive um contrato com a Warner Continental. Fiz duas produções lá. Quando eu deixei o Jornal Nacional foi lacuna aberta. ”E agora, o que eu vou fazer?” Fiquei 27 anos. Aí surgiu um convite para gravar o Novo Testamento. Gravei o Novo Testamento na íntegra. Foram 23 CDs. A que realmente arrebentou foi o lançamento Passagens Bíblicas. Esses CDs foram lançados em bancas de jornal por um preço inferior e numa época áurea do CD. Então foi aquele estouro. Foram vendidos mais de 30 milhões de CDs.

A Bíblia sempre foi presente na sua vida?

CM – A Bíblia sempre foi presente, mas de uma maneira não tão dedicada como agora. Era uma curiosidade. Eu acho que há ate uma predestinação nisso. Quando eu era garoto, no interior fazia mais frio do que aqui no Rio, o pessoal acabava de almoçar e ia pro quintal, minha mãe, minhas avós, meus irmãos, chupar laranja ao sol. Tomando aquele solzinho para esquentar. Aí eu pegava a Bíblia e começava a ler provérbios. Aquilo estava ali, latente. Então com a minha carreira evoluindo, passando daqui para lá, de um lugar para outro, do rádio para a TV, aquilo estava lá. E de repente brotou. É como se fosse uma sementinha que estava lá e com o tempo ela brotou.

O que você faz para cuidar da voz?

CM – Eu usava o sal marinho. Eu tinha um tubinho de madeira que eu batia e dava uma lambidinha no sal. Eu usei isso durante um tempo e vários colegas vinham me pedir uma pitadinha. Isso na fase do rádio. Um dia, eu apresentava o programa de uma cantora, Elizete Cardoso, falecida, excelente cantora, considerada a diva da música popular brasileira. Ela falou: “Cid, há muito tempo eu uso cravo da Índia.” Ele é meio ardidinho. Usa muito em doce. Comecei a usar e gostei. Eu tinha sempre um cravinho, deixava entre o dente e a bochecha. Usei ali por um tempo e todo mundo vinha me pedir um cravinho. Deixava a voz mais limpa. Até que de repente eu peguei uma gengivite danada. Aquilo irritou a gengiva. Eu parei com o cravinho. Sugeriram o gengibre. É muito bom. De vez em quando, eu costumo mastigar um pedacinho de gengibre.

A sua biografia cita algumas das suas leituras da infância, como Monteiro Lobato. Fale um pouco sobre isso.

CM – O meu pai era bibliotecário no colégio. Quando faltava um professor, eu ia para a biblioteca e ficava lendo esses livros. Tesouro da juventude, tem muita coisa boa. E um outro livro, que até tenho um exemplar dele, tem mais de 100 anos, Manual de saúde, ainda com a ortografia antiga. Quando eu tinha resfriado, eu procurava saber a causa, como se prevenir daquilo, alimentação, o que fazia bem, o que não fazia. Até hoje eu tenho essa mania. Eu parei de comer carne aos 30 anos. E estou aqui. Todo mundo diz assim: “Não vai comer carne? Vai ficar anêmico”. Comigo não aconteceu nada. Pelo contrário. Eu tenho uma disposição.

Você citou a Elizete Cardoso. O que você ouve de música? Que cantores te agradam?

CM – Às vezes, eu ouço disco antigo, com aquele som bem fraquinho, sem qualidade. Mas eu gosto, de maneira geral, de som muito bom. Agora mesmo, fizemos uma viagem lá fora, no exterior, e assisti a uma peça do Michael Jackson. Eu fiquei até emocionado com o som do teatro. Muito bom. Eu curto isso. Um bom som, graves e agudos e num volume aceitável. Às vezes, você vai assistir a um show, já aconteceu comigo, que eu sou obrigado a tapar o ouvido, devido ao excesso no volume. O som não pode agredir o ouvido.

No início, quando você começou a trabalhar no rádio, existia alguma voz que era referência?

CM – Sempre houve. Qualquer profissional, se o cara disser que não, está mentindo. Se você está numa determinada profissão você sempre pauta o seu pensamento no profissional que você admire e, sem querer, você começa a imitar o cara. Eu tinha uns 12, 13 anos, nem pensava em rádio. Ele fazia um “Boa noite”, dedicava sempre a alguém de projeção. Carlos Frias. Ele foi deputado aqui no Rio e depois teve um estúdio de gravação. Eu gravei muito no estúdio dele, fiquei amigo dele Ele dedicava sempre um “Boa Noite” a alguém: “Fulano de tal, boa noite.”

Como foi escrever a biografia do Cid Moreira?

FSM – Já teve oportunidades, até de pessoas muito conceituadas, de fazer a biografia dele. E ele ia adiando por causa dos compromissos dele. Um dia, a gente estava aqui no estúdio e um amigo em comum estava com a gente e o Cid viu no e-mail dele mais uma proposta de uma editora para fazer o livro. Aí esse amigo falou assim pro Cid: “Por que a Fátima não escreve o seu livro? Ela é jornalista.” Mas eu sou jornalista e escrevo para revista. Passei muito tempo em rádio, não faço ideia de como se escreve um livro, não tenho essa noção. Aí o Cid virou para mim brincando e falou: “Ih, achei minha autora.” Ele falou: “Vai ser bom.” Primeiro, porque ele gosta do meu texto, do meu trabalho. Eu trabalho junto com ele aqui, me conheceu trabalhando, fazendo entrevista com ele. E depois ele achou interessante por causa da falta de tempo dele. Se for uma pessoa de fora, ele vai ter que ficar disponibilizando tempo, uma coisa mais formal, mais complexa. E comigo a gente fez um esquema muito legal. Eu tinha toda a liberdade para pesquisar. Eu tenho dez anos com ele, então já algumas histórias eu sabia, por causa do relacionamento, ele vai me contando, infância, juventude e tal. Com um olhar de marido, é muito interessante. Aí eu fiz uma sequência mais ou menos do que eu tinha aprendido da historia dele e a gente foi recheando com dados mais concretos da história do jornalismo e da comunicação do país, as pessoas que cercaram ele nesse período. As transições importantes. Na era de ouro do rádio, que era o máximo, as pessoas nem queriam nada com televisão, era uma coisa muito incipiente ainda. E na infância, que não tinha televisão. Cinema era tudo, rádio era tudo também. Aquelas seções, shows de rádio aos sábado com as pessoas de longo e de chapéu, de luvas. É uma historia muito rica. E hoje ele está no Twitter, no Ipad, mandando e-mail de voz. Ele não precisa sair de casa, do estúdio para trabalhar. Ele grava em casa e manda para o mundo, para qualquer lugar, todas as agências para onde ele trabalha. Grava milhões de coisas, manda mensagens, está super moderno. Ele é um homem que acompanhou o tempo dele.

Como é estar casada com o Cid Moreira, uma pessoa que é referencia em comunicação, uma voz conhecida no Brasil inteiro?

FSM – Têm dois lados. Do portão aqui para dentro de casa não tem ninguém famoso, importante, conhecido, não. É o Cid, meu marido e eu a Fátima, esposa dele. É muito legal. O convívio faz perder, graças a Deus, essa coisa de ficar lembrando toda hora de que ele é conhecido. Quando a gente sai na rua não tem jeito. Pode ser no supermercado aqui perto que a gente vai uma vez por semana, ele gosta de fazer super mercado, compras as coisas que ele gosta. Vai ter alguém comentando, chegando e fazendo um carinho, comentando qualquer coisa, não passa indiferente. Mas aqui em casa, não. É uma pessoa. No começo, é uma fantasia. A gente se apaixona por um ideal interno. Acontece com todo mundo. Depois você vai convivendo com a pessoa e vê se aquilo é amor. Tem orgulho. É muito mexido, uma emoção muito interessante. Já chegaram a falar assim para mim: “Cuida bem dele porque ele é patrimônio nacional.” Mas ele é meu marido. É claro que eu cuido dele. É muito estranho isso. Eu não faço mal nenhum para ele. Ao contrário.

O que de mais surpreendente você se deparou ao fazer esse trabalho?

FSM – Uma coisa que eu acho muito interessante é a extrema timidez. Era um garoto tão tímido que quando era pequeno foi proibido de jogar bola porque quando foi fazer o exame médico da educação física, ele ficou tão angustiado de se ver nu perto do médico que o coração disparou e o medico deu arritmia para ele. Disse que ele tinha problema no coração. Ele não pôde praticar esportes na escola por causa disso. Corria que nem louco na rua, aprontava para caramba, mas na escola não podia praticar porque tinha problema cardíaco. E era só uma extrema timidez que acompanhou ele durante muito tempo. Até agora, quando ele vai falar em publico, dá tremor, fica preocupado, fica ansioso. Quem viu o Cid no Jornal Nacional não podia imaginar a ansiedade antes e depois, o medo dos erros, a expectativa de estar sendo visto por milhões. Um homem de comunicação para milhões é uma pessoa extremamente tímida e fechada, caseira, na dele. É uma contradição. Não gosta de festas, não é um cara de badalações.

Você pretende continuar esse trabalho, escrever um próximo livro?

FSM – Eu acho que é muita arrogância da minha parte. É muita pretensão. Foi por amor, não tive intenção nenhuma de me promover como autora. Claro, ninguém é inocente. É fascinante. Mas foi um risco muito grande. Eu gosto de ler. Conheço autores. Lya Luft, amo, Raquel de Queiroz. É muita gente boa. E eu escrevendo, metida. Eu achei muita arrogância, muita pretensão minha. Vou parar por aí. Espero que as pessoas curtam e gostem. Não é a minha praia. Eu tenho outras pretensões na vida. Quero fazer só projetos sociais, amar e cuidar do meu marido e as minhas coisinhas diárias, uma ioga e tal. Não tenho pretensão nenhuma para nada mais. Surgiu por um amor a ele.

 


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