TONY BELLOTTO

EM HARMONIA COM A LITERATURA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

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Depois de ter lido Bellini e a Esfinge e Os Insones, respectivamente, o primeiro e o último livro de Tony Bellotto, fiquei com vontade de conversar com o escritor. O encontro ocorreu no seu escritório, em Ipanema, no Rio de Janeiro, na companhia de Guga – o cão de estimação da sua esposa, a atriz Malu Mader.

A cada pergunta, as mãos de Tony se movimentavam e, muitas vezes, seu olhar ficava distante, como se estivesse, imediatamente, buscando palavras para organizar um pensamento. É possível perceber que a dedicação e a disciplina utilizadas para construir sua carreira na banda de rock Titãs têm sido a base do seu trabalho como escritor.

“No início da minha carreira com os Titãs, dos vinte aos trinta anos, eu não escrevia, só fazia poucas anotações com projeto de contos. Assim apareceu o Bellini, que era um personagem jovem com as características do detetive que existe hoje. Mas só a partir dos 30 anos que levei a sério”.

Com um especial gosto pelo gênero policial, Tony Belloto lançou três romances com o detetive Bellini: Bellini e a Esfinge (1995), Bellini e os Demônio (1997) eBellini e os Espíritos (2005). Também escreveu BR163: Duas histórias na estrada (2001), O Livro do Guitarrista (2001).

“Eu sempre gostei de literatura policial, mas gostava de outras literaturas também. O meu escritor favorito era o Hemingway, que não tem nada de escritor policial. Mas quando comecei a escrever, estava muito envolvido pela literatura policial. Talvez por ter percebido, intuitivamente, que eu conseguiria começar a escrever por aquele caminho. Acredito que, por causa da estrutura, a trama facilita, quando se vai começar a escrever”.

No entanto, com o lançamento de Os Insones (Cia. das Letras), o autor se afastou, temporariamente, de Bellini para apresentar a crônica de uma sociedade permeada pela violência.

Como é sua relação com a música e a literatura?

Tony Bellotto – Na verdade, o interesse por música surgiu aos 10/12 anos, um pouquinho antes dos livros. Mas desde cedo eu já lia muito, a adolescência foi cercada por livros. Assim como a figura do guitarrista me fascinava, a figura do escritor me despertava também. Quando fiz uns 18/19 anos, a música me absorveu. Cheguei a entrar na faculdade de arquitetura, mas frequentava pouco porque minha atenção estava orientada para a música. Então, a ideia de escrever foi adiada. Mas sempre li muito, nunca parei de ler.

O que você lê?

TB – Na juventude, os escritores americanos tinham um espaço muito grande. Hemingway, por exemplo, é um escritor que sempre foi uma grande referencia. Quando comecei a ter desejo pela literatura, no fim dos anos 70, eu descobri uma geração de escritores brasileiros: Sérgio Sant’Anna, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, João Antonio, Domingos Pellegrini Jr… Li os clássicos brasileiros: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos… Dos contemporâneos, acompanho o trabalho da Patrícia Melo, Marçal de Aquino, Marcelo Mirisola, Bernardo Carvalho, Milton Hatoun, Marcelino Freire… Mas se eu precisasse dizer uma escola, diria que a literatura americana me influenciou mais do que a brasileira.

Você escrevia na adolescência?

TB – Sim, escrevi muitos contos. Havia uma revista, chamada Escrita, que eu lia muito. Cheguei a participar de um concurso dessa revista com uma novela complicada, inspirada no realismo mágico de Garcia Márquez (risos) Não era algo muito consistente, então parei de escrever. No início da minha carreira com os Titãs, dos vinte aos trinta anos, eu não escrevia, só fazia poucas anotações com projeto de contos. Assim apareceu o Bellini, que era um personagem jovem com as características do detetive que existe hoje. Mas só a partir dos 30 anos que levei a sério.

O Bellini amadureceu…

TB – (Risos.) Sim, amadureceu! Sempre achei que para escrever – e você sabe muito bem disso – precisamos de disciplina, tranquilidade, concentração e dedicação. Eu não tinha essa paz, só quando casei com a Malu é que consegui me dedicar à escrita.

Você já declarou que sua primeira leitora é a Malu Mader. Há mais alguém em quem você busca uma opinião sobre seu texto?

TB – Sim. Até Os Insones eu fazia um ritual, entregando o livro para Malu, meu pai, Rogério – primo da Malu – e Patrícia Melo. Depois do último livro eu achei que já estava crescido (risos). Acho importante essa leitura crítica. Acredito que ficamos tão evolvidos com o livro que, às vezes, não conseguimos enxergar alguma coisa. E no gênero com que trabalho, o suspense, é necessário testar se funciona com o leitor.

Seus filhos gostam de literatura? Já leram seus livros?

TB – Não, eles são muito pequenos ainda. O meu filho mais novo, o Antônio, que tem 11 anos, escreve. Às vezes, eu o encontro concentrado no computador e ele diz que está escrevendo um livro. Eles acabam participando dos acontecimentos, respiram um pouco o ambiente. O João sabe tudo sobre jornalismo esportivo (Risos.).

Como é seu processo de criação?

TB – Varia muito. Quando começo a pensar em uma história, tento não me aprofundar muito. Abro um arquivo no computador e jogo ideias para que possam amadurecer. Permito, inicialmente, que o próprio processo mental filtre o que vale a pena ficar. A partir de um momento as ideias não cabem mais na cabeça, aí começo a sentar e escrever.

Há diferença entre o processo da música e da literatura?

TB – O processo é diferente, pois são formas muito distintas de criar. No romance é sempre um processo de longo prazo, com muitas palavras. Quando escrevo um livro, trabalho com uma continuidade e um fluxo de narrativa que são mais importantes que cada palavra em si. Na música, quando componho, o processo é mais próximo da poesia. O processo de escrever é prazeroso, mas há sofrimento e muitas dúvidas.

Você sente preconceito pelo fato de você ser músico e escritor?

TB – Sinto, sim. Mas é engraçado, porque no Brasil a maioria dos escritores tem um trabalho paralelo. Todo escritor faz outra coisa, mas acho que existe um preconceito maior quando você tem destaque em outro tipo de arte. Há quem considere a literatura uma arte muito nobre, na qual um músico de rock não pode entrar. Música e literatura para mim funcionam de uma maneira orgânica, uma coisa não atrapalha a outra.

Por que o gênero policial?

TB – É algo que penso muito. “Por que optei por isso?” Eu sempre gostei de literatura policial, mas gostava de outras literaturas também. O meu escritor favorito era o Hemingway, que não tem nada de escritor policial. Mas quando comecei a escrever, estava muito envolvido pela literatura policial. Talvez por ter percebido, intuitivamente, que eu conseguiria começar a escrever por aquele caminho. Acredito que, por causa da estrutura, a trama facilita, quando se vai começar a escrever.

Você sente vontade de matar o Bellini?

TB – (Risos.) Não dá para saber direito. Tenho vontade de escrever uma história dele, então vou lá e faço. Mas desde que terminei Bellini e os Espíritos que não sinto o desejo. É engraçado, mas ele já tem vida própria.

O detetive Bellini é diferente de outros detetives que conheço. Ele tem a vida amorosa bem conturbada e é bem sensível…

TB – Quando eu decidi fazer o Bellini, o personagem já existia muito antes do detetive. Então coloco muitas reflexões minhas no personagem.

Você ficou satisfeito com adaptação do Bellini e a Esfinge para o cinema?

TB – Fico satisfeito porque parto da premissa que o filme muda muito o livro. Os roteiristas adoram mudar, é impressionante. Não dá para jogar a literatura no cinema, acho natural a adaptação. Agora, o Bellini e os Demônios está sendo filmado pelo Marcelo Galvão. Mas eu sempre prefiro o livro.

Se você tivesse que escolher um dos Bellinis, qual seria o eleito?

TB – É difícil. É como escolher o filho preferido. Eu tenho um carinho muito grande pelo Bellini e a Esfinge por ser o primeiro. Mas, atualmente, gosto muito do Os Insones que sai um pouco dessa forma da literatura policial.

Os Insones  aborda muito o aspecto social. Por que o interesse?

TB – Sim está mais ligado ao Brasil atual. Foi uma necessidade de falar um pouco desse assunto. No Rio de Janeiro, principalmente, a diferença social é muito gritante, mexe comigo.

Você dedicou o último livro ao seu amigo Marcelo Fromer…

TB – Sim, dedico o livro ao Marcelo, ainda penso muito nele. É absurdo ele ter morrido. Quando morre um amigo você sente muito intensamente mas depois vai se acostumando. Foi uma maneira de cultuar a lembrança dele, uma homenagem.

Você apresenta o Afiando a Língua, um programa no Canal Futura sobre literatura e música.

TB – Faz uns seis anos que Hugo Barreto me convidou para o programa. Nesta nova temporada vamos focar em bandas novas. Pegamos uma música inédita e relacionamos com a língua portuguesa e a literatura.

O Titãs começou em 1982, está fazendo 26 anos. Como é tocar por tanto tempo com o mesmo grupo de pessoas?

TB – É incrível! Criamos uma banda na juventude, fez muito sucesso, e estamos chegando aos cinquenta anos de idade. Mas o espírito é o mesmo, parece que estamos tocando há 20 anos. É um prazer muito grande, que se renova com a permanência na música. Estar na estrada tocando é a razão de uma banda de rock. Nossa luta consiste em não nos tornarmos uma caricatura de nós mesmos. Vimos o vinil morrer e agora estamos vendo o CD ir embora.

Qual a sua relação com o download de música?

TB – Sou muito antiquado, ainda tenho uma relação de comprar CD. Eventualmente eu baixo música, mas não tenho o hábito como os meus filhos têm. Eu me sinto meio ultrapassado, pois tenho uma relação de afetividade com o objeto. Estamos num caminho de transição.

Que músicas você ouve?

TB – Ouço cada vez menos coisas novas, com o passar dos anos estou ouvindo mais as bandas de que gosto (risos). Mas há uma banda de Brasília de que gosto: Móveis Coloniais de Acaju – eles são geniais. Há uma banda que acabou de que também gosto: Lasciva Lula. Gosto do Marcelo D2 e sua união do rap com o samba. Tem o Cordel do Fogo Encantado, que também é genial.

O que você diria aos jovens que desejam se dedicar à música e/ou à literatura?

TB – Dedique-se profundamente a produzir e a encontrar uma voz própria. Tocando ou escrevendo é necessário encontrar uma personalidade naquilo que se faz. E não desista quando as coisas parecerem difíceis, é preciso superar essa fase. Sempre se chega a algum lugar se houver disciplina e perseverança.


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